Ateologia*

A fé dos bolcheviques russos é uma fé implícita, de carvoeiro, uma fé de servos não menos que a dos seus avós. A ateologia é uma teologia

Miguel de Unamuno (1864-1936), ensaísta, romancista, poeta, dramaturgo e pensador espanhol, vinculado à chamada “Geração de 1898

Miguel de Unamuno

Mesmo sob o risco de que algum mentecapto o tome por sutileza sofística ou paradoxal, diremos que não é a mesma coisa não crer que haja Deus e crer que não o há. A primeira, não crer em Deus, implica uma posição cética, quer dizer: inquisitiva ou investigativa, racional, enquanto que a segunda, crer no não Deus, implica uma posição dogmática ou taxativa, irracional. Irracional é sentimental. Crer que não há Deus é uma fé tão irracional como toda fé.

E essa fé, como qualquer outra, pode e costuma degenerar em superstição e fanatismo. E a superstição e o fanatismo ateísticos são tão destruidores de cultura e civilização, tão desumanos, como qualquer outro fanatismo e qualquer outra superstição. E quando do ateísmo se faz um credo oficial, um dogma ou decreto de Estado, é tão feroz quando o teísmo dogmático e oficial. É o que se está passando na Rússia.

Fazer, por exemplo, do darwinismo -– ou do marxismo –- uma doutrina oficial pressupõe uma demência catastrófica. Um povo que suporta isso é um povo que perdeu a capacidade de pensar por si mesmo. E para isso estiveram tanto tempo os ortodoxos do marxismo enchendo a boca com o “socialismo científico”. Pois o científico, e sobretudo o que não é matemática, é o investigativo, o inquisitivo, o hipotético, quer dizer, o cético. Ciência é, a rigor, scepsis. O dogma mata a ciência.

Como pôde chegar a isso a vesânia moscovita? Dizia o grande pregador unitário norteamericano William Ellery Channing, para explicar por que houve na França e na Espanha multidões -– isto ele dizia em 1819 – que da rejeição ao papismo passaram ao ateísmo absoluto: “o fato é que as doutrinas falsas e absurdas, quando expostas, têm uma tendência natural a engendrar ceticismo nos que as recebem sem reflexão”. E acrescentava: “Ninguém está mais pronto para crer demasiado pouco como aquele que começou por crer demasiado, daí que debitemos na conta do Trinitarismo qualquer tendência que possa existir, entre os que o abandonam, a crer gradualmente na infidelidade”.

Cabe notar que esta passagem de Channing toma o ceticismo no sentido mais corrente e vulgar, o de incredulidade, não no sentido em que o empregamos nós, que é o primitivo. E na verdade os que foram ensinados a crer demasiado e a crer sem livre exame, sem reflexão, sem investigação, sem obra de experiência íntima – sem mística, poderíamos dizer – , a crer com fé implícita ou de carvoeiro, a crer tudo o que crê e ensina a Santa Madre Igreja sem conhecer tudo o que ela crê e ensina, caem, quando perdem essa fé implícita – a pura submissão à autoridade dogmática – não no ceticismo, mas em outra fé contrária, em outra crença e fé também implícita e de carvoeiro. A fé dos bolcheviques russos é uma fé implícita, de carvoeiro, uma fé de servos não menos que a dos seus avós. A ateologia é uma teologia.

Como aos seus avós, aos seus pais e a eles próprios se ensinou a fé religiosa ligada a interesses políticos e mundanos, como se lhes ensinou que há Deus e uma outra vida de além-túmulo, em que serão premiados os bons e castigados os maus, em conexão com a moral forjada por déspostas, amos e tiranos, como não conheceram a pura religião independente de moralidades de interesse terreno, esses pobres homens chegaram a acreditar que almejar outra vida, crer na eternidade da consciência, sentir a vida como uma finalidade transcendente é algo que impede ou dificulta a realização da felicidade neste mundo.

Mas por detrás disso tudo vê-se muito claramente um fenômeno de desespero coletivo. O ateísmo oficial é uma invenção para defender os indivíduos de uma teologia que vêem surgir. A Santa Rússia está buscando o seu Deus. E esse deus será um ídolo.

E aqui? Aqui, na Espanha, o ídolo dos ateólogos comunistas é a própria Rússia convertida em entidade mística. Há ateólogo comunista, dentre os nossos, que foi à Rússia sem saber russo, que, sem saber russo – sem saber mais que o espanhol dos livros de vulgarização sociológica e trazendo de lá umas estatísticas, as que lhe deram, que se podem procurar sem sair da Espanha –, vem dogmatizando e querendo enterrar um Cristo que não conhece mais do que conhece a Rússia, quer dizer, que não conhece.

Se há algo que nos causa pavor é a atitude sociológica – chamemo-la assim – desses pobres ateólogos para quem não parecem existir nem o momento que passa nem a flor que murcha depois de ter perfumado a brisa, desses da novela vermelha, e da música vermelha, e da pintura vermelha e não se sabe se da paisagem e da celagem vermelhas, desses que, ao irem a uma peça, v.g, perguntam se é de tendência vermelha, desses que parecem acreditar que tentar consolar o homem por haver nascido é trair a humanidade. Pobre gente!

Culpados disto são os que fizeram de Deus um princípio de autoridade e não um fim de liberdade, os que inventaram a polícia do além-túmulo e foram os verdadeiros inventores do materialismo histórico. Porque o materialismo histórico é invenção conservadora.

E assim se explica que o pontífice Lênin, o Papa ateólógico do comunismo ortodoxo e dogmático, tenha dito que a religião é o ópio do espírito. A religião dogmática ou taxativa de Deus como princípio de autoridade pode sê-lo, mas a religião cética e inquisitiva de Deus como um fim de liberdade, essa foi e continuará a ser o maior estimulante do espírito.

Dizem que quem anda olhando as estrelas no céu pode cair num charco e afogar-se, mas quem anda olhando o chão para não cair num charco apercebe-se deste e o evita – sobretudo de noite, e quase sempre é noite – ao ver espelhadas nele as estrelas. E para isso é preciso ter contemplado o céu e as estrelas.

O fuzilamento desse bispo católico na Rússia assinala a maior vitória, nela, do catolicismo. E significa, ao mesmo tempo, o desespero da desilusão. Esse pobre bispo pagou pelo fracasso de uma fé em um novo milênio. Os filhos desses inquisidores bolcheviques, os inquisidores mesmos talvez, canonizarão esse bispo. E agora, desaparecido o Czar, o seu Papa, veremos quantos russos se convertem às superstições mais irreligiosas do catolicismo romano.

Miguel de Unamuno (1864-1936), escritor espanhol.

* Publicado em España. Semanario de la vida nacional, em 21 de abril de 1923. Tradução de Demian Gonçalves Silva

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