“Até o último homem” é bom, mas não é filme de Oscar

Com uma violência que funciona praticamente como personagem autônomo, o longa, que marca o retorno de Mel Gibson à direção, foi salvo por Andrew Garfield

Andrew Garfield divide o protagonismo com a própria violência em “Até o último homem”, mas consegue “salvar “o filme interpretando o soldado Desmond Doss | Foto: Divulgação

 

Quando for assistir a “Até o Último Homem” (2016, Mel Gibson), tente não se desconcentrar quando Vince Vau­ghn aparecer na tela, em seu primeiro papel dito “sério”. Porque, assim como na tentativa de David Schwimmer (o eterno “Ross”, de Friends) de se desvincular da pecha de ator de sitcom fazendo uma ponta na série “Band of Brothers”, produzida por Spielberg e Tom Hanks em 2001, a empreitada de Vaughn também é bastante válida, mas seu personagem ainda soa caricato e deslocado do clima do filme.

O deslocado que merece toda a atenção na película, entretanto, é o protagonista, Desmond Doss — interpretado solidamente por Andrew Garfield. Doss é um jovem americano que resolve rapidamente um dilema moral típico do final da década de 1930: se alistar ou não no exército americano, a fim de combater na 2ª Guerra Mundial. Encontra o amor dentro de um hospital — a bela enfermeira Dorothy, vivida por Teresa Palmer — e, com o amor, sua vontade de estudar medicina, uma vontade que Doss não explica de início, mas que depois descobrimos ser a forma que ele encontrou para participar de uma guerra sem pegar em armas: sendo médico socorrista.

Desmond Thomas Doss existiu de verdade. Foi o primeiro e único objetor de consciência (expressão criada para designar aquele que apresenta princípios morais, religiosos ou éticos como objeção para servir ao exército ou obedecer a seus superiores hierárquicos militares) a ser condecorado com a Medalha de Honra, por seus feitos na 2ª Guerra Mundial. Durante a sangrenta Batalha de Okinawa, que ocorreu no Japão entre abril e junho de 1945, o soldado Doss conseguiu resgatar do campo de batalha 75 combatentes feridos, no período de 5 horas, obrigando o reconhecimento, homenagem e o pedido de desculpas por parte do governo americano — o livro “Soldado Desarmado”, escrito por sua segunda esposa, Frances M. Doss, e lançado no ano passado pela Casa Publicadora Brasileira, conta outras interessantes passagens de sua vida.

Após assumir a frente de elogiadas obras como “Coração Valente” (1995), “A Paixão de Cristo” (2002) e “Apocalypto” (2006), Mel Gib­son volta à cadeira de diretor de forma estridente. Elogiado pelos métodos arrojados e pela violência metodicamente excessiva (beirando, por vezes, a um olhar sádico), Gibson passou os últimos anos longe das telonas, aos sopapos com acusações de antissemitismo, racismo, violência doméstica e abuso de álcool. Após algumas participações em filmes pseudo-alternativos caça-níquel como “Machete Kills” (2013, Robert Rodriguez) e “Mercenários 3” (2014, Patrick Hughes), comprou a ideia de passar a vida do discreto soldado Doss para as telas.

Mel Gibson, após dez anos de lançamento do seu último filme, retorna como diretor, mas seu filme é mais fraco que os anteriores | Foto: Andreas Rentz/Getty Images

Segundo diversas entrevistas, Gibson classificou o filme não como um “filme de guerra”, mas um filme “sobre homens na guerra”. E, assim sendo, se imiscui pela vida pessoal de Desmond desde a infância, com os pequenos traumas e a relação tumultuada com o pai, um veterano da 1ª Guerra Mundial vivido por Hugo Weaving — este sim, numa atuação profunda e competente, consegue se desvincular da imagem de Agente Smith, Elrond e Vendetta — até o enfrentamento final de seus fantasmas. O pai de Doss, inclusive, personifica um futuro que Doss rejeita: bêbado, violento e atormentado pelo passado violento.

O cerne da questão esmiuçada no filme é uma velha premissa que Gibson gosta de usar: o herói improvável que, deslocado de seu tempo ou de seu espaço típico, encontra na violência um caminho para a redenção. Em “Até o último homem”, em especial, essa violência se coloca quase como um personagem autônomo. Ela testa Doss, se esgueira em cantos escuros de dormitório, ou à luz do dia nos treinamentos, provoca, irrita, insiste. Doss não se rende, é pacifista. Recusa-se a pegar em armas, mas também a ficar em casa sentado, com a boca escancarada cheia de dentes esperando seus amigos e parentes morrerem na guerra. Doss sente o dever moral de combater — mas não para matar. E a batalha contra a violência evolui aos poucos (desde quando quase mata o irmão, na infância, até os tiros e bombas ao final). O conflito constante é contra si mesmo e contra o sis­tema ao qual está disposto a pertencer.

Muitos compararam as cenas de confronto entre americanos e japoneses, em Okinawa, no último terço do filme, às cenas iniciais de “O Resgate do Soldado Ryan” (1998, Spielberg), sobre o Dia D. Soa até injusto porque, apesar da inabalável convicção de Doss, é exatamente na violência que Gibson se perde. No terceiro terço da obra, as câmeras deixam o protagonista temporariamente de lado com o objetivo de se construir a brutalidade imagética da guerra. A violência sem máscaras. Cenas explícitas de membros decepados e cabeças estouradas dividem a atenção com a estratégia pobre e improvisada adotada pela 96ª Divisão para tomar o cume do morro Ha­cksaw (na vida real, a “Operação Down­fall” foi uma das maiores operações marítimo-terrestres da 2ª Guerra Mundial, e a tomada do Morro Hacksaw compôs os ataques ao sul do arquipélago japonês).

Porém, enquanto Spielberg conseguiu transmitir toda a grandiosidade épica e trágica do confronto no desembarque da Normandia, Gibson dá toda a atenção aos soldados que já cruzaram o caminho de Doss, e agora sobem medrosos por uma escada de cordas, num canto completamente desprotegido do despenhadeiro. O cenário dá a sensação de uma pista de paintball hardcore — restrito, repetitivo, quase como um pequeno set. Spielberg ampliou o conceito de filme de guerra e Gibson retomou os antigos clássicos bélicos da década de 1950, apesar de rejeitar o modelo em entrevistas.

Por outro lado, as críticas ao patriotismo (e até xenofobismo) americano já exaustivamente lançadas a “Sniper Americano” (2014, Clint Eastwood) também podem ser parcialmente aplicadas aqui, já que japoneses são retratados de longe, friamente, como um inimigo invisível a ser destruído. Essa visão unilateral (em que pese necessária a qualquer filme de guerra clássico) só é quebrada por Doss, que retoma o protagonismo do filme após a construção da diegese bélica, e insiste em praticar seu pacifismo, mesmo contra o inimigo.

O filme é bom, nada mais que isso. Resta patente a vontade que o diretor te­ve de fazer uma obra moralmente elevada, tentando não ser piegas. Falha por mais de uma vez (as cenas de amor, os discursos cristãos e a trilha sonora “he­roica” acabam contrariando as ex­pectativas, recheando o longa de clichês por demasiado açucarados). Mas o que fica é que, além dos 75 feridos em combate, o soldado Doss também salva o filme e a reputação de Mel Gibson. “O herói improvável”, apesar de humilde e tímido, merece que sua história seja conhecida no mundo inteiro. Os depoimentos de Doss, do Capitão Glover e as imagens de arquivo da vida real, nos créditos finais, foram metodicamente colocados para reforçar em nós um sentimento que o filme em si, talvez, não teria conseguido sozinho: sim, essa história existiu. Pode acreditar.

João Paulo Lopes Tito é formado em Direito pela UFG e estuda Cinema e Audiovisual na UEG

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DIGOTOG

Porque o filme foi salvo por Andrew Garfieldse o filme é exatamente esse? É a historia do soldado interpretado por ele!

Cristiano Deveras

Boa crítica, apesar de não concordar no todo; o filme possui mais méritos, mas isso talvez tenha a ver com o olhar aplicado. Um exemplo é que o pacifismo e a resiliência em não portar armas advêm do fato de Doss ser um adventista do sétimo dia, uma das denominações evangélicas mais restritivas, deste modo os “discursos cristãos” são necessários para compreender corretamente as ações do personagem. Quanto ao olhar xenófobo dos yankees contra os japoneses durante a campanha do Pacifico, é bom lembrar que a mesma foi construída em cima do ataque à Pearl Harbour, sendo a grande cruzada… Leia mais

Jaime Rojas

Eu acho que o filme é definido mais por todos os aspectos técnicos do que pela história. A edição de sons, cenas, fotografia e trilha sonora são incríveis. Um diretor reconhecido consegue chegar ao êxito graças ao seu esforço, Mel Gibson tem feito excelentes trabalhos que se notam desde suas primeiras produções. Na minha opinião, foi um dos mehores filmes biograficos que foi lançado. O ritmo é bom e consegue nos prender desde o princípio O filme superou as minhas expectativas, o ritmo da historia nos captura a todo o momento. Além, acho que a sua participação neste filme realmente… Leia mais