As chamas da perplexidade: a poesia de Andityas Soares de Moura

Especula-se sobre os mistérios, e sua escrita deambula por um labirinto de perplexidades e com avidez hermenêutica transfigura-se em compromisso escrutinador

Ronaldo Cagiano

Especial para o Jornal Opção, de Lisboa

A poesia é o que recapitula o mundo

chamando-o em cada chama

pela chama de cada sílaba.  — Manuel Gusmão

A trajetória literária do poeta mineiro (Barbacena, 1979) Andityas Soares de Moura, professor da cátedra de Filosofia do Direito da UFMG, tendo em seu currículo mestrado e doutorado no país e no exterior, consolida uma experiência intelectual que o insere não apenas entre as melhores vozes da poesia,  da tradução e do ensaio, mas também no âmbito do pensamento crítico, sobretudo num momento crucial de nossa História, em que carecemos de posicionamentos e frontalidades que deflagrem um salto dialético no campo da reflexão nos ambientes público e privado.

Na poesia, Andityas vem incursionando por vários universos criativos, num denso trabalho de pesquisa da própria linguagem, esta instância ao mesmo tempo formuladora de uma práxis inquiridora e desestabilizadora do caos, realizando uma intercessão entre vertentes, escolas, movimentos, dicções. Do clássico ao moderno, sua escritura bebe em diversas fontes, percorrendo os modelos poéticos que constituem a gênese da produção ibero-americana, como as canções medievais e a incorporação de outras referências que ampliam o seu trânsito multicultural.

Sua carreira inventaria uma forte simbiose entre categorias artísticas, a literatura em tessitura finíssima com os antigos trovadores, o barroco, as rupturas formais dos vanguardistas etc, numa evidente demonstração de que o poeta não se filia a nenhuma corrente, mas absorve elementos que emergem de outros olhares e elabora sua própria alquimia, num esforço contínuo pela superação de limites da própria comunicação.

Nesse percurso, iniciado com os poemas de “Ofuscações” (1997), seguiram-se “Lentus in umbra” (1997), “Os encantos” (2003), “FOME-FORTE” (2005), “Auroras Consurgem” (2010) e “Oroboro” (2010), texturas instigantes a partir dos próprios títulos, que sinalizam não apenas a originalidade de sua configuração poética, mas um exercício de ourivesaria e singularidades estilísticas a desnudar uma atávica inquietação existencial e pulsão metafísica, com a prevalência de uma multifacetada expressão artística que se apropria de uma semântica muito peculiar. Entre uma e outra garimpagem de seu inesgotável filão, Andityas vem se empenhando na tradução de poetas imprescindíveis e até então pouco difundidos na bibliografia nacional. Em sua prospecção, garimpou a galega Rosalía de Castro (“A Rosa dos Claustros”, 2004), o argentino Juan Gelman (“Isso”, 2004, em parceria com Leonardo Gonçalves;  Com/posições, 2007) e dibaxu/debaixo (2007); e o catalão Joan Brossa, que traduziu para revistas especializadas, além da plaquete “À boa teta” e outros quatro licenciosos poemas da França renascentista (2005).

Em “Rosa das Línguas”, Michel Deguy consagra que “a poesia, como o amor, arrisca tudo nos signos”. Essa é a lição que emerge do  mais recente livro do autor, Deus está dirigindo bêbado e nós estamos presos no porta-malas (Ed. Urutau, SP, 2019), obra carregada de símbolos, na qual amplia seu espectro poético, radicalizando o que, desde seus primeiros livros, fundamenta sua íntima consciência filosófica e aguçado senso exegético não apenas em relação ao nosso estar-no-mundo, mas ao valor e necessidade da arte em tempos de distopia, contradições e condicionamentos disruptivos.

A alma do livro aponta para o inconformismo, um desejo de exorcizar fantasmas, peitar o desconforto e realizar uma catarse de nossos mais recônditos dilemas, eis que seccionado em temas que remetem o leitor para um olhar blasfemo. Em suas seis divisões (Explicação da grande fúria do mundo/ Blasfêmeas/ Belorizontes/ Devotchkas/ Arcanos Menores/ Transiberiana) arregimenta a palavra insurgente, a metáfora furiosa, as referencialidades geográficas e afetivas, os embates domésticos e psicológicas, tudo culminando num estreito diálogo com as eras, o sagrado, o profano, o místico, o suprarreal. O conjunto de poemas flerta com a prosa, a diversidade temática se espraia como um caleidoscópio de sensações, confluências e influências, abdicando-se da exacerbação do eu e das exposições emotivas para inscrever-se como oficina irritada.

Andityas Soares de Moura: poeta | Foto: Reprodução

O livro s arquiteta-se a partir de antíteses, entre a meditação e a ironia, vai da reflexão ao desagravo, como sugere a temática desse arcabouço poético, fluindo como um rio heterodoxo e caudaloso que recebe outros afluentes. E ao mergulhar nessas águas heterogêneas notam-se ecos sincréticos – dos aedos aos modernistas de 22, do erudito ao popular, da música ao teatro, da fotografia à escultura. Sua sintaxe percorre  de Homero a Whitman, de Omar Khayyãm a Camões, de D. Dinis a Drummond, de Afonso Sanches a Bandeira, de Ariosto a Borges, de Púchkin a Murilo Mendes, de Kaváfis a Augusto dos Anjos, de Maiakóvski a João Cabral, de Lorca a Celan, de Dante a Blake, de Aleijadinho a Rodin, de Alexandria a Belo Horizonte, das Muralhas da China à ferrovia Transiberiana.  Uma obra que se desdobra em palimpsestos, eis que a leitura de um poema abre-se a outras descobertas e possibilidades de compreensão, camadas que se sucedem num movimento contínuo de sofisticadas apreensões, uma orquestra vocabular na qual é tênue a fronteira entre o sinfônico e o camerístico. O pêndulo perceptivo do autor, oscilando de uma aurora helênica a  um crepúsculo coimbrão, na contemplação do onírico em consórcio com o real, no escandir de nossas tensões e ambiguidades e no pugilato entre paradoxos e (im)possibilidades, Soares de Moura, com rigor e domínio de seu ofício, explora a  dimensão poética (e ao mesmo tempo profética) do que há de mais essencial e profundo na natureza humana e a partir de um primoroso  fluxo investigativo, instaura pura epifania.

O poeta Andityas Soares de Moura Costa Matos especula sobre os grandes mistérios que nos circundam e diante da esfinge que (o/nos) desafia, sua escrita deambula por um labirinto de perplexidades e com avidez hermenêutica transfigura-se em compromisso escrutinador, pois nela “Há palavras secretas, ritos, predestinações” que, entre a inventividade transgressora e o verbo cirúrgico que tudo penetra e vasculha, a(s)cende a chama de uma (e)terna indignação e nos relembrar, nesses tempos sombrios de alteridades esquecidas, da tirania fetichista do virtual, da ascensão de espíritos totalitários e de pandêmico isolamento, que “Quando Deus existir/ quererá um mundo melhor.”

Ronaldo Cagiano é escritor e crítico literário.

Fim do horário de verão

Andityas Soares de Moura

Do que me adiantaria uma hora a mais?

Eu queria mesmo era um minuto

pra enfiar uma faca na cara

de todos vocês.

 

Será que ninguém vê que o mundo

é pura insanidade, cascos de cavalo

pisando fundo na fragilidade de

tudo que é frágil?

 

Eu vi na TV agora que gente morreu

de tiro e fome, de avião que cai,

que uns ainda se preocupam em esconder

notas de dólar na cueca – e isso

sem se sentir patético, pífio, pequeno abutre –

e tantas outras sujeições que ninguém

quer para seu filho ou filha querido/a

(então, por que fazem a si mesmos?)

 

Eu estou alarmado com o mistério que

me mantém vivo, carente de toda

essa ajuda de um bairro melhor

onde não se roubassem carteiras

 

porque não precisaríamos de carteiras.

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