As aventuras do moleque de barro (I)

É ilusão pensar que os dias são as mesmices da repetição. Os dias são as pernas do tempo. Ora estamos sob o êxtase dos deslumbramentos, ora sob o sufoco das incertezas

Gabriel Nascente

Despercebidamente, a serragem subia do pé das máquinas encravadas ao chão, e ia formando uma espessa e escura crosta de pó grudado às ripas, aos caibros e às vigotas do telhadão que cobria a velha marcenaria, daqueles primórdios da minha infância no bairro Popular. Acontecia que o pó espirrado pelo corte das serras exalava um odor suave, desses de cheiro místico de coisas da terra; espargindo, ainda, umas fragrâncias de casca de pau seco, verde ou molhado, semelhante a cheiro de resina pregado nas narinas da memória da gente já na idade do inverno.

De memória quero falar. Palavra que desenterra tesouros de emoções. Esquivo-me de Nietzsche, em seus questionamentos epistemológicos acerca da “força mnemônica” da memória, muitas vezes, para ele, centrada na ciência da Psicologia, do inconsciente, do sonho e também da Arte — para morder o meu passado com a boca de um beijo. Já que ainda me embebedo da lucidez, e adoro a elegância dos meus fantasmas, trocando ideias comigo, durante suas amáveis visitas às varandas da minha memória.

Para nós poetas, memória é a prateleira das lembranças; a câmara que filmou. E filma cada instante de nossa vida, velozmente fugaz, de hoje para amanhã. E sempre.

É ilusão pensarmos que os dias são as mesmices da repetição. Os dias são as pernas do tempo. Ora estamos sob o êxtase dos deslumbramentos, ora sob o sufoco das incertezas. Somos mortais à deriva, nada mais. Uns erráticos cibernantropos que povoam o planeta. E a nossa carne é de papel. E quem escreveu O Apocalipse até hoje é uma incógnita. Não se garante que tal autoria se atribui ao apóstolo S. João, ou se a Justino, “o Mártir, que escreveu lá pelo ano 170 de nossa era”, e que foi condenado à morte pelo prefeito de Roma, um imbecil de nome Rústico. Isto é memória.

Arte de Van Gogh | Foto: Reprodução

Visto que eu vinha em banho de mel, com tanta euforia por haver publicado a minúscula messe de meus primeiros versos “Os Gatos (miaus de poesia, 1966) — a todo momento, durante aquela florada de núpcias com a palavra, uma nova surpresa martelava o gongo das minhas emoções.

Vítima de obesidade mórbida, um certo aposentado pelo Fisco Estadual, seu Miranda, tinha a esquisita mania de ir para a privada, totalmente pelado, em companhia de um exemplar do livro “Eu”, de Augusto dos Anjos, e de uma grosseira garrafa de pinga. De modo tão estrambólico, ao fazer o descarrego de seu barro fisiológico, lia um soneto do necrólatra paraibano, e arrematava-o, com uma queimante talagada de cachaça, aos murmúrios e lágrimas. Sua alma se esfumava atoinha.

Do barracão, onde ele e suas filhas moravam de aluguel, um quarto era ocupado por mim e meu irmão mais velho. O clã de seu Tunico havia se tresmalhado, e aquele espólio foi o que sobrou das cinzas de tua morte.

Um dia, por uma erma hora da tarde, eu flagrei o velho estroina em estado deplorável. A porta do banheiro estava aberta, e seu Miranda jazia, ali, acocorado sobre o vaso, apagado por um sono bêbado. Que susto tive! Ele estava a ler poesia.

E num rasgo de supimpa coincidência, era o meu filhote literário, “Os Gatos”.

Sobre a friagem do cimento o que sobrou do porre etílico, uma garrafa estupidamente vazia, e a triste figura de um copo partido ao meio. Isto é memória.

Gabriel Nascente é cronista do Jornal Opção.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.