Ilustrações, poesias e ancestralidade afro religiosa se encontram no mais novo trabalho da goiana Raquel Rocha. A artista visual e ativista de cultura negra lança neste mês de outubro o seu primeiro livro, “Orixás, entre traços e versos”. Trata-se de uma obra que oferece uma compreensão da religião e da cultura negra e que serve ao propósito de desconstruir preconceitos, por meio de um passeio poético cujo caminho são os versos e imagens estampadas nesta criação.  O lançamento acontecerá no próximo sábado (29/10), no Cumbuca Cultural, às 18 horas, com exposição e performance artística de Raquel Rocha e Marcelo Marques e o Samba de Roda da Serrinha, com mestre Goyano. A entrada é gratuita e o livro será vendido a R$40. Este projeto foi contemplado pelo Edital de Fomento aos Novos Artistas do Fundo de Arte e Cultura do Estado de Goiás 2017. 

O livro de Raquel, editado pela Edições Kisimbi, reúne 29 poemas sobre Orixás, acompanhados de ilustrações feitas na técnica mista de pintura e nanquim sobre papel. Escrever poesias foi um desafio enfrentado pela artista visual, iniciada no Candomblé, que a retirou de sua zona de conforto para que pudesse traduzir o que pensava e sentia sobre os Orixás. As poesias foram construídas em diversos momentos: “ouvindo o canto de um pássaro, aos murmúrios do tempo, no canto de um grilo que surge sem ser convidado, na alegria de um cachorro que sem saber atrapalhar se enfia no meio da escrita pedindo por atenção”, diz a autora na apresentação do livro.

ITÃS E A MITOLOGIA DOS DEUSES AFRICANOS 

Em seus poemas, a autora resgata, a partir dos Itãs – histórias mitológicas dos deuses africanos – a essência contida dentro dessas parábolas e as transforma em escrita. O propósito é cativar o leitor, com versos cadenciados, envolventes e empolgantes. Simultaneamente, Raquel Rocha procura encantar os olhos de quem experimenta sua literatura, com suas próprias ilustrações, através das quais revela seu olhar único e imaginativo sobre como seriam os Orixás. Trata-se, portanto, de um trabalho não só literário, mas também visual. 

As ilustrações emergem de um lugar confortável para Raquel, que tem uma pesquisa consolidada da afro-religiosidade a partir das artes visuais. As pinturas do livro nascem da pesquisa da criadora com pigmentação natural a partir de pós e folhas utilizados nos ritos do candomblé.

PÓS E CORES RITUAIS

Raquel é uma mulher negra, iniciada no Candomblé, portanto, uma Iyawo. Sua busca sobre os passos de seus ancestrais vindos da África garantem a ela conhecimento e sensibilidade necessários para utilizar tinturas como o Efun (cor branca), Waji (cor Azul), Osún (Vermelho e Amarelo), e o verde das folhas, como pigmentos das pinturas. Aos não iniciados é preciso lembrar que esses elementos estão nos ritos de iniciação para iluminar e expandir a mente, proteger, afastar a morte e trazer axé na vida dos que escolheram o culto aos Orixás. Muitos pós são utilizados na pintura corporal do Iyawo e cada qual possui um significado ritualístico. 

Desta forma, as ilustrações do livro, segundo a artista, trazem não só a representatividade dos Orixás, como também a essência dos elementos utilizados para o encantamento de trazê-los para o Aiyê [terra]. 

FERRAMENTA CONTRA INVISIBILIDADES

O livro “Orixás, entre traços e versos” será distribuído em escolas e bibliotecas públicas, contribuindo para que seja cumprida a lei 10.639/03, que determina que a temática “História e Cultura Afro-brasileira” estejam presentes no currículo oficial da rede pública de ensino. Raquel celebra a possibilidade de partilhar um trabalho pautado na representatividade e que serve como instrumento para luta contra a marginalização e silenciamento da cultura negra e sua religiosidade. “Ter nas escolas este livro de ilustrações e poesias de Orixás contribui para o aumento da capacidade imaginativa e permite uma introdução facilitada ao tema da cultura negra e sua religiosidade. Sabendo da importância do papel da escola para a construção de uma sociedade pautada no respeito à diversidade cultural, a valorização da etnicidade negra e sua cultura permite aos alunos “invisíveis”, um reconhecimento e uma representatividade no espaço escolar”, comenta a artista. 

Este trabalho é mais uma das produções do Orum Aiyê Quilombo Cultural, que atua na valorização da cultura negra e contra o racismo. A autora destaca a importância da imagem como uma ferramenta de construção do imaginário social e que serve à compreensão da cultura e da história dos povos de origem africana. “O campo das visualidades permite a construção da identidade e subjetividade dos indivíduos. Assim, é através da imagem que podemos expressar um olhar e utilizar a educação e o acesso facilitado ao conhecimento como uma engrenagem apta a mudanças sociais”, comenta a artista.