A arte tudo pode no autor que a fortalece

A arte não tem sido vista como meio de entretenimento, mas tomada como exemplo, lição de vida (e de moral) e retrato da realidade

British Photographer/NICK STERN

British Photographer/NICK STERN

Cristina Patriota
Especial para o Jornal Opção

A arte em geral, desde seu surgimento, tem como uma das principais funções (se não a principal) o entretenimento. Inicialmente, dos gêneros provenientes da escrita, a poesia era o preferido da população. A sonoridade das rimas e a cadência dos versos proporcionavam uma fácil assimilação e reprodução oral. Com a evolução tecnológica e surgimento e disseminação da imprensa, mais precisamente no século 19 (com o romantismo literário), a prosa assumiu a preferência dos leitores e o romance passa a ser o gênero predileto. Os folhetins em jornais também eram bastante procurados pelos leitores, em especial pelas leitoras, que acompanhavam o desenrolar das histórias a cada edição.

Tais folhetins chamavam atenção pela forma com quer eram escritos: ao final de cada capítulo existia um clímax ou um mistério que só seria resolvido na próxima edição. Isso gerava curiosidade e ansiedade no público leitor, os comentários, as expectativas e as tentativas de adivinhar o que aconteceria com as personagens também se faziam presentes. E qualquer semelhança com situações atuais não é mera coincidência.

Como a evolução tecnológica traz cada vez mais novidades, os folhetins dos jornais evoluíram e adotaram a forma de novelas televisivas. Mas o comportamento das pessoas em torno das histórias ficcionais permanece o mesmo. Ainda é possível ver (e com bastante frequência) palpites, comentários e expectativas em torno das cenas dos próximos capítulos…

Algumas vezes esse comportamento do público parece ser inversamente proporcional à evolução tecnológica. A arte não tem sido vista como meio de entretenimento, mas tomada como exemplo, lição de vida (e de moral) e retrato da realidade. Ora, quanto se regrediu ao adotar tais conceitos! Essas definições e expectativas são de séculos antes da Era Cristã, mais precisamente da Antiguidade, quando se tem os primeiros registros acerca dessa discussão com Aristóteles e Platão.

Nessa época, enquanto se tinha a disseminação de textos apenas por meio do teatro ou da poesia (sem a presença da escrita), dividiam-se as peças teatrais entre dois gêneros apenas: a tragédia e a comédia. Nesta última, seres chamados de “inferiores” — bêbados, prostitutas, palhaços e os mais diversos representantes da escória social — e condições político-sociais eram representados por meio de humor e sátiras. A arte passa a ter como finalidade apenas a diversão. Já na tragédia, os seres “superiores”, capazes de reconhecer seus erros e pra­ticar autopunição como forma de redenção eram representados. Aqui sim, a arte tinha finalidade de ensinar e trazer “bons exemplos”. Platão, em seu livro “A República”, cria um mo­delo ideal de sociedade e intenciona banir a comédia da vida das pessoas, já que sua representação não traz acréscimo nenhum às virtudes humanas.

Eis que dezenas de séculos de­pois, volta com ênfase ao grande pú­blico a discussão de que a “ar­te” deve respeitar a “moral e os bons costumes”; volta a discussão de que os autores devem di­vul­gar valores éticos e morais. Des­de que se tenta definir literatura surgiu a noção de que o importante não é o que se conta, mas como se conta. Ao voltar o viés para as novelas televisivas (considerando-se, por meio de um conceito extremamente abrangente, o texto escrito co­mo literário) percebe-se que o foco primário de todas as histórias é sempre o mesmo: um casal apaixonado que en­frenta diversos desafios para conseguir viver tal paixão. Não há o que mudar em ne­nhuma das no­velas televisivas, o que di­fe­rencia uma da outra é a forma com que as histórias se de­senrolam, os cenários, o ritmo com o qual surgem, as per­sonalidades das personagens, as questões sociais abordadas…

A partir do instante em que um autor cria determinado universo, as ações das personagens devem ser baseadas dentro do que é possível ali, e não “no mundo real”. O estranhamento só deveria ocorrer se as ações não fossem condizentes com a realidade das personagens (e não com a realidade do público). Um exemplo de tal estranhamento poderia ocorrer se na representação fiel da história bíblica de Cristo, José pedisse um exame de DNA a Maria. Esse elemento destoaria de todo o universo ali representado.

Tomando um exemplo em que não há estranhamento é quando se cria um universo fantástico em uma pequena cidade interiorana onde tudo é possível: há homens com asas, mulheres que pegam fogo literalmente, pessoas que se transformam em lobisomem ou seres mitológicos… Se dentro da história existe abertura para tais possibilidades, o público lida com o chamado Realismo Fantástico sem objeções, sem repulsas e leva a situação com irreverência e comicidade, adotando o sentido real de entretenimento ali proposto.

Mas o senso comum ainda não é capaz de tolerar um vilão do século 21 que não tem escrúpulos, mata, mente, rouba ou comete qualquer atrocidade sem ser descoberto pelos demais personagens… Por que não? Por que não admitir que naquele universo isso é possível? Não é a vida que é assim (ao menos não usualmente), é a arte! E a arte, pode tudo.

Cristina Patriota é especialista em Língua Portuguesa e Literatura.

via Revista Bula

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