Arqueologia da memória: perguntas podem ser mais seminais do que respostas

Cada um percebe ou sente o tempo (que é memória) em consonância com suas emoções. O poeta Charles Baudelaire o sentia com horror e amargura                                    

Brasigóis Felício

Especial para o Jornal Opção

A memória dos esquecidos não pode ser encontrada na arqueologia do tempo. A sabedoria consiste talvez não em buscar encontrar respostas, mas simplesmente em continuar perguntando. Em que fronteira enigmática e obscura podem se encontrar a filosofia e a literatura?

A persistência da memória, de Salvador Dalí

Se alguém soubesse onde se acha tal geografia misteriosa, já seria um semideus. Quando perguntaram a Samuel Beckett se Godot, o personagem mudo de sua famosa peça “Esperando Godot” (Companhia das Letras, 192 páginas, tradução de Fábio de Souza Andrade), seria a metáfora de Deus, o poeta do absurdo e do nada respondeu: “Se eu soubesse, não teria escrito a peça”.

Não é o mundo que determina o que pensamos. O que pensamos molda os contornos do mundo que vivemos — nossos condicionamentos determinam nossos pensamentos, e estes nos aprisionam a uma vida condicionada, em um círculo de escravidão autossustentada.

Cada um percebe ou sente o tempo (que é memória) em consonância com suas emoções. O poeta Charles Baudelaire o sentia com horror e amargura: “Oh! Sim! Ressurgiu o tempo! O tempo agora reina como soberano, e com o horrendo velho retornou todo o seu cortejo demoníaco de lembranças, de pesares, de espasmos, de terrores, de angústias, de pesadelos, de cóleras e de neuroses”.

Pintura de Igor Morski

Eu vos asseguro que os segundos, agora, são fortes e solenemente assinalados, e cada um deles, jorrando do pêndulo, diz: Eu Sou a vida, a insuportável, a implacável vida.

Em toda a vida humana só há um segundo que tem a missão de anunciar uma boa nova, que a todos causa inexprimível medo. Sim, reina o tempo. Reassumiu a sua brutal ditadura. E acossa-me como se eu fosse um boi, com seu ferrão: — Upa, burro! Sua, escravo! Vive, condenado!”.

Pensamentos sem significado criam mundos vazios e absurdos. Se vemos limitações por toda parte, é porque o dimensionamos pelas lentes de nossos pensamentos limitados. Para Rubem Alves, “o poeta escreve para invocar uma coisa ausente. Toda poesia é um ato de feitiçaria cujo objetivo é tornar presente e real aquilo que não está presente e não tem realidade”.

Pintura de Rafal Olbinski

Se fossemos capazes de entender por que nos transformamos em quem somos, talvez assim pudéssemos transformar nosso destino futuro. “Compreendemos quando fazemos parte do compreendido”, escreveu o filósofo Heiddeger. Assimila-se uma coisa, fato ou ensino quando vivida em todas as suas partes — ou seja, em todas as suas partes. Floresce, como essência, no coração do Ser, o que não vem de errado ou certo, em demandas do intelecto.

Quando tudo o que vemos são fantasmas do passado, nada que vemos ou sentimos pode ser verdadeiro. Como poderia o que não existe afetar a realidade? Tal acontece se a mente iludida se deixar enganar, como quase sempre o faz. Quando as sombras do passado são tudo o que se tem no presente, não pode haver futuro feliz.

Um olhar mais meditativo e longínquo sobre nossos dias vividos poderia nos fazer entender os estranhos desígnios da teia em que nos emaranhamos. E que, ao fim e ao cabo, tece o que somos. O que nos constitui tem de ser vivido como exercício de liberdade, não como paredes de prisão interior.

Sísifo, de Tiziano

Caminhamos nas estradas que escolhemos. Em verdade, não sou eu quem escrevo meus poemas. Eu sou escrito pelas palavras que vivo. Assim como quando leio um texto, apenas compreendo o que eu sou e o que é em mim quando leio. Compreendendo e fazendo parte daquilo que compreendo, como as horas em que o Ser está em alerta, intensamente presente em si mesmo e naquilo que vivencia.

Haverá mais vida e verdade na caminhada se tivermos coragem para mudar o que pode ser mudado, e humildade para aceitar o que não podemos transformar. Conhecendo a nós mesmos para poder esquecer o que não sabemos (o saber não vivido, por isto não compreendido) — e, mesmo mudando sempre, permanecer iguais a quem somos.

Para isto, é necessário seguir o som do coração, procurando apenas sentir, pois muitas vezes nossas dores menos escutadas são as que mais gritam no jardim secreto de nossa alma.

Pintura de Igor Morski

Mente cria o tempo e seus labirintos   

1 — O tempo marcado pelo relógio não é o mesmo tempo registrado pela memória. Assim como o tempo soa no prazer e no sofrimento conforme as situações que vivemos. No prazer o tempo corre, como o vento. No sofrimento, o tempo é lento, esquecido de ir embora.

2 — A mente cria o tempo e seus labirintos. Tão cheia de razão, e por nonadas se desarvora. Em mar de lembranças, junta cacos do passado, para formar o falso futuro, enquanto esquece o lugar da eternidade onde os anjos cantam a canção do agora.

3 — A mente quer continuidade para os momentos de felicidade, e nesse querer mais, tem sempre menos.

4 — Mente existe para mentar, ou mentir. No que não existe, vive a iludir-se. Ao criar tempo passado e futuro, atualiza o absurdo.

Pintura de Amadeo de Souza Cardoso

5 — Se tenho à minha volta a esplêndida paisagem do presente, para que perder-me, de modo demente, em brumas de futuro inexistente?

6 — O tempo criado pela mente soa como aquisição — tão efêmero e malsão quanto os devaneios do pensamento inútil. Quanto mais aloprado, mais desarvorado voa como o grasnar de corvos e gralhas em tudo o que é fútil.

7 — Alcançar o atemporal por meio do tempo é como gritar aos surdos: só aumenta o ruído e a algaravia do mundo.

8 — Sem memória não há tempo; sem tempo não há memória. Os dois são irmãos siameses. Mas o tempo entra em metástase (ou inflação de si mesmo) na demência da mente a criar tempo futuro.

Tempo cheio de vultos que são defuntos (sombras em marcha de lembranças ilusórias).

Brasigóis Felício, jornalista e escritor, é colaborador do Jornal Opção. Ocupa a cadeira 25 da Academia Goiana de Letras.

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