Apesar do título inapropriado, “A Sexta Extinção” é um bom livro-denúncia

Livro da jornalista Elizabeth Kolbert, que ganhou o prêmio Pulitzer de não ficção, em 2015, é consistente para denunciar as ações humanas deletérias ao ambiente e casos isolados de extinção, porém insuficiente para caracterizar mais uma extinção em massa

Elizabeth Kolbert, jornalista que ganhou o prêmio Pulitzer de não ficção de 2015

Nilson Jaime
Especial para o Jornal Opção

Durante os últimos quinhentos milhões de anos houve cinco extinções em massa no planeta Terra, segundo hipótese quase unanimemente aceita. No livro “A Sexta Extinção: Uma História Não Natural” (Intrínseca, 336 páginas, tradução de Mauro Pinheiro) Elizabeth Kolbert – colaboradora da revista “The New Yorker” desde 1999, com passagens pelo “The New York Times” e pela “Times Magazine” – remete o leitor a uma possível extinção massal, onde o homem seria o autor da catástrofe iminente. Terceiro livro da jornalista, “A Sexta Extinção” venceu o Prêmio Pulitzer de não ficção em 2015 e contou com a apresentação de contracapa de Bill Gates e Al Gore.

Em treze capítulos, a autora relata eventos relacionados a espécies ameaçadas de extinção, como a rã-dourada-do-panamá (Atelopus zeteki) e a diversas ações humanas – como poluição do ar e acidificação dos oceanos por exemplo – para fundamentar sua denúncia. Sim, já no prólogo é possível constatar que trata-se mais de um livro-denúncia – tão ao gosto dos biólogos conservacionistas e das sociedades americana e europeia – do que propriamente de uma elaborada hipótese que aponte consistências científicas para a extinção massal, como o título permite inferir. Os relatos de ações deletérias do homem e os casos de extinção (ou risco) foram embasados por figuras importantes da ciência, como Edward O. Wilson, dentre outros citados.

No capítulo 1 a autora faz uma con­ceituação capital. Citando os pale­ontólogos britânicos Anthony Hallam e Paul Wignall, diferencia para o leitor a “extinção massal” (em que “Se perde uma parcela significativa da biota global num espaço de tempo geologicamente insignificante”) e “extinção de fundo”, onde as taxas de extinção são calculadas em espécies-ano. Na obra, a autora não confunde os casos específicos de extinção – ou risco de extinção – de cada capítulo, com extinção massal, e infere que estaríamos vivenciando a “sexta extinção”. No caso dos anfíbios a taxa de extinção seria até 45 mil vezes superior à taxa de fundo – cita o herpetologista americano Malcolm McCallum – situando essa classe como a mais ameaçada do mundo.

A sexta extinção | Divulgação

Kolbert relata que a causa da grande mortandade da rã-dourada-do-panamá e de muitos outros batráquios no mundo todo, seria o fungo Batrachyo­chy­trium dendrobatitis – em cuja fase reprodutiva é ciliado, capaz de se locomover – que se fixa na pele dos animais e impede as rãs de absorverem ele­trólitos importantes por via dermal. A autora deixa subentendido que, não ob­stante a capacidade locomotora do fungo, sua distribuição pandêmica de­veu-se à “reorganização continental” – importação de rãs pelo homem de um continente para outro. O culpado desta extinção – como das outras citadas no livro – seria, portanto, o Homo sapiens.
Quando relata suas várias incursões a campo, como no El Valle Amphibian Conservation Center (Evacc) – situado na cidade de El Valle de Antón, região central do Panamá – a descrição torna-se literária, bucólica, ao molde de Bates (Henry Walter, naturalista inglês do século XIX), e dos viajantes que singraram pelos rios e desbravaram florestas no Brasil oitocentista: “Depois de uma hora, chegamos a uma chácara que alguém construíra em meio às árvores. Havia alguns pés de milho, mas ninguém por perto, e era difícil saber se o fazendeiro desistira do solo pobre da floresta tropical ou se apenas saíra naquele dia. Um grupo de papagaios verde-esmeralda levantou voo…”.

Lirismo à parte, as contradições ex­plí­citas e as mostras de que se trata mais de um livro-denúncia com bases ci­entíficas, que de um trabalho que fundamenta a hipótese aventada, começam a evidenciar-se já no primeiro capítulo. Numa desses contrassensos, logo após relatar que a rã-dourada-do-panamá está “extinta na natureza” (pag. 19, segundo parágrafo), o grupo de cientistas que acompanha a autora encontra um casal dessa espécie “envolvido num amplexo – a versão anfíbia do sexo”. Encontrar um animal como a rã numa pequena caminhada pela mata é estatisticamente improvável se ela acha-se extinta. Se o anuro foi encontrado em par, e cruzando, não está extinto, seguramente. No máximo, estará sob ameaça de extinção.

Embora existam diversas ferramentas para se inferir que uma espécie encontra-se ameaçada de extinção, Edward Wilson, no livro “Bio­di­ver­si­da­de” (Nova Fronteira, 657 páginas, tradução de Marcos Santos e Ricardo Sil­veira) afirma, à página 13, que “Não pode ser feita uma estimativa precisa do número de espécies que estão se ex­tinguindo nas florestas tropicais ou em outros hábitats principais. […]. Tes­te­mu­nhar a morte do último membro de uma espécie de orquídea ou de papagaio é quase uma impossibilidade. […] Há sempre a possibilidade e a esperança de que alguns indivíduos apareçam em algum canto remoto da floresta”. É o que se constata no caso específico do anuro citado.

O livro é positivamente didático – explica ciência para leigos – como no ca­pítulo 3. Nele, conceitua o “catastrofismo” de William Whewell, contrapondo-se ao “uniformitarismo” de Char­les Lyell. A seguir relata, em linguagem quase lírica, a forma como Darwin, a bordo do Beagle, em sua volta ao mundo, desvendou questões obscuras para a ciência, que fundamentaram o clássico “A Origem das Espécies”.

É impossível não perceber o paradoxo do trabalho, pois ao mesmo tempo em que apresenta o homem como o responsável pela sexta extinção em curso, mostra projetos e esforços despendidos por ele para conhecer e entender os processos biodinâmicos da natureza. Nisto, talvez, esteja o maior mérito da obra, que foge ao lugar comum de outras publicações do gênero. Aquelas retratam o homem como vilão, somente, ao contrário deste, em que os casos de extinção patrocinados pela ação humana são apontados dentro de um contexto de esforço preservacionista. Tanto que em cada capítulo, as reservas naturais e centros de estudos da natureza são referenciados e até palco dos relatos da autora.

No capítulo 9 – “Ilhas em Terra Firme” –, por exemplo, Kolbert revela que, em plena Amazônia brasileira encontra-se em andamento um dos maiores e mais importantes experimentos científicos do mundo, o Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais – PDBFF. As diversas reservas do projeto, chamadas “Ilhas amazônicas”, recebem ornitólogos, entomólogos, herpetólogos, ecólogos, enfim especialistas de todo o mundo, a fim de estudarem seus respectivos grupos de interesse. É a menção desses esforços preservacionistas que diferencia esta obra de outros livros-denúncia.

Enfim, embora a jornalista classifique as ações humanas como o motor da sexta extinção, os casos citados por ela são insuficientes para caracterizar extinções massais, com o escopo das cinco anteriores. “A sexta extinção: uma história natural” é um livro consistente para denunciar as ações humanas deletérias ao ambiente e casos isolados de extinção, porém insuficiente para caracterizar mais uma extinção em massa. O título é inapropriado, possivelmente sugerido pelo editor por razões mercadológicas, mas, sob a ótica de livro-denúncia, a obra é densa e vale a pena ser lida.

Nilson Jaime é engenheiro agrônomo, mestre e doutor na mesma área.

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