Ajudando a desvendar os mistérios do mundo

A escritora Yêda Marquez começou a escrever livros infantis aos 49 anos, e hoje é um dos autores que mais vendem livros infantis em Goiás; “encontrei o meu lugar no mundo”, disse ela

Yêda Marquez com o campeão de vendas, que já passou dos 130 mil exemplares vendidos; seus livros trazem as marcas verbais da geografia, da cultura e do imaginário de Goiás

Neste domingo, 17, precisamente, Yêda Marquez faz 61 anos. Muita gente está celebrando esta data com ela agora, filhos, neta, amigos, vizinhos. Entre os convidados, há uma criança com a qual ela está acostumada a brincar, uma criança que mora no terreno fértil da sua imaginação e da sua memória, a criança que ela foi um dia, fisicamente, emocionalmente, etariamente, e que hoje a auxilia no processo criativo de seus livros.

Escritora talentosa, de imaginação fértil, Yêda já publicou oito livros, entre eles “Saia Dessa, Mano Pira!”, um best-seller que passou dos 130 mil exemplares vendidos, e está no Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD). Publicado em 2010 pela editora mineira RHJ, “Saia Dessa” narra o drama dos pirarucus na época de seca do Rio Araguaia, que forma bolsões de água em que esses peixes ficam presos sem poder nadar para o leito.

Segundo Yêda, penetrar no universo infantil é mais complexo do que se imagina. “As crianças são seletivas. Por isso, procuro trabalhar com temas que considero relevantes, sem me esquecer do lado lúdico da narrativa, algo que chame a atenção delas.”

Para escrever livros infantis, é preciso, portanto, tentar desvendar os mistérios do mundo e percorrer os espaços, convidando a criança a acompanhar a jornada. “Esse tipo de escrita, em Goiás, vem crescendo de uns 15 anos para cá, porque sentimos que também houve maior interesse das escolas pela produção local, quando passaram a adotar projetos de leitura. E todos ganham. Quem lê aprende também a pensar e a escrever”, diz Yêda.

Generosa na hora de falar de outros autores, ela reconhece que em Goiânia há muita gente boa fazendo literatura infantil de qualidade, não só textos (como Sônia Santos, Diane Valdez, Augusta Faro, Valéria Belém), como também ilustrações. “A Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás (UFG) tem formado vários profissionais que ilustram livros para crianças”, comenta a escritora, citando nomes como Santiago Regis, Pollyanna Duarte e Adriana Mendonça.

Na outra ponta da literatura, a da crítica, Yêda diz que a UFG também tem sido bem-sucedida. Nessa área, ela cita Vera Tietzmann e Maria Luiza Bretas, ambas doutoras pela instituição e pesquisadoras renomadas na área.

Encantamento

Yêda diz que aprendeu a gostar de literatura com a mãe, numa fazenda em Minas Gerais, onde viveu sua infância. “Fui alfabetizada por ela, que usava muitos livros de histórias. Todas as noites minha mãe contava uma história, e eu ficava encantada com aquilo.” Até que descobriu numa estante da tia, vários tesouros, como os livros de Monteiro Lobato, e aí se apaixonou de vez, a ponto de aos 9 anos se cadastrar numa biblioteca pública, em Uberlândia, onde estudava.

Mesmo com toda essa bagagem de leitura, não pensava em ser escritora. Veio para Goiânia aos 17 anos para estudar jornalismo na UFG. E ficou. Trabalhou. Só em 2006, quando seu caçula pediu um livro sobre Santos Dummont para criança, e ela procurou até cansar e não achou, foi que decidiu escrever uma biografia do aviador, apenas para o filho ler.

Seu marido, Marco Antônio Sperb Leite, professor de física da UFG, hoje aposentando e a escrever um livro de física para o ensino médio, leu e adorou. Disse que ela tinha talento. E aí, Yêda disparou sua metralhadora criativa, escrevendo livros como “Procura-se Pai e Mãe”, “A Viagem da Pipa Vermelha e “O Movimento das Cores”. Ao agradecer o marido, confessou: “Encontrei meu lugar no mundo.”

Ela agora está trabalhando numa trilogia intitulada “Celebrações e Festas Populares de Goiás”, com “Rei Vermelho, Rei Azul”, sobre as cavalhadas em Pirenópolis, “Quarta-Feira de Trevas”, sobre a procissão de fogaréu em Goiás, e “Antônio, João e … Pedro”, abordando as festas juninas.

Com ilustração de Pollyanna Duarte, a trilogia está prevista para ser lançada em setembro, e vai celebrar, com um ano de atraso, os 50 anos do Instituto Basileu França, a ntigo Veiga Vale. (GGP)

Mercado ainda engatinha

Segundo a gerente editorial Ione Valadares, da Cânone Edito­rial, o mercado de edição de livros in­fantis ainda engatinha em Goiânia, e é difícil se colocar de pé com adversidades poderosas co­mo a crise que se instalou em 2014, que cancelou vários programas de aquisição de livros do MEC. “Isso provocou o fechamento de editoras e o funcionamento deficitário de várias outras.”

Além disso, apesar das vendagens aos milhares de alguns autores, muitos deles são editados por casas de São Paulo e Minas Gerais. Como o grande movimentador desse nicho são as escolas, o fetiche do nome de uma editora grande tem uma força descomunal no processo de escolha dos livros que serão adotados.

A Cânone, por exemplo, fundada em 1998, tem um catálogo com 156 títulos no total, mas destes, apenas 18 são infantis. Isso também ocorre pelo fato de vários autores publicarem seus livros de forma independente, com recursos próprios ou com apoio de leis de incentivo.

Mas há inúmeros fatores de crivo que acabam conspirando contra o crescimento do mercado, quase todos ligados ao processo de adoção das escolas. “A questão do politicamente correto interfere muito na seleção escolar, o que limita ou no mínimo prejudica uma avaliação mais livre dos originais apresentados”, diz a editora.

Muitas escolas, por questões religiosas ou pedagógicas, utilizam mais filtros na seleção dos livros. “Se é uma escola evangélica, a narrativa não pode mencionar o nome de um santo. Se tem uma linha mais cognitivista, ela recusa livros com qualquer tipo de fantasia (bicho não pode falar, árvore não pode agir como personagem e por aí vai).”

Mesmo assim, a Cânone pode se dizer vitoriosa no segmento. Seu catálogo infantil já tem livros premiados, como “Chico Mole­que: um Sonho de Liberdade”, de Maria Luiza Bretas, com ilustração de San­ti­ago Régis, que em 2016 ga­nhou o selo Altamente Recomendável FNLIJ.

No ano passado, Vera Tietz­mann ganhou o prêmio FNLIJ Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), com “Decifra-Me ou Te Devoro: o Mito Gre­go na Sala de Aula”, e em 2009 já havia conquistado o terceiro lugar no Prêmio Jabuti Pa­ra­di­dá­tico, com “Literatura Infantil Bra­sileira: um guia para professores e promotores de leitura”. Ambos foram publicados pela Cânone.

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