Agosto

Marcela Haun
Especial para o Jornal Opção

Reprodução

O sol do inverno iluminava os vários tons de verde da praça. O vento gelado, que cortava os meus lábios, parecia querer retornar o meu corpo para a minha cama. Três ou quatro pessoas atravessavam as ruas, todas com direções e tempos diferentes. Sentei-me no banco de concreto. Sabia que eu estava ali mais cedo do que de costume, mas é que não existe coisa mais bonita do que apreciar o sumiço dos orvalhos ou o brilho do sol tremeluzindo através das folhas das altas árvores. Queria ter escrito sobre isso antes.

Enquanto esperava a minha carona de todos os dias, observava a casa à minha frente: portão branco e paredes verdes, recém-pintadas, com um banquinho na entrada. E, nele, uma história da qual tive o prazer de acompanhar por muito tempo. Todos os dias, um senhor de bicicleta amarela chegava às sete da manhã e tocava a campainha. Ele sentava no banco, arrumava o cabelo com as mãos e tentava sentir o próprio hálito. Depois de alguns minutos, uma mulher ruiva abria a porta e sentava-se ao lado dele, dando-lhe um beijo que ela mesma interrompia. Talvez por preferir beijos que ficam a desejar, que deixam aquele gosto interminável na boca.

Era sempre assim. Não im­portava se o sol nascia com gosto ou se os pingos grossos de uma chuva ameaçavam por entre nuvens carregadas. A bicicleta amarela sempre voltava a fazer as mesmas rotações. Às vezes o senhor carregava consigo uma flor recolhida no caminho ou a mulher saía da casa calçando um sapato às pressas. Eu sempre gostava de tentar adivinhar as conversas: astrologia, piadas, sacanagens e afins. Os gestos variavam: ora apontavam para cima, ora só entrelaçavam as mãos. E assim ficavam e iniciavam as manhãs de agosto com uma perfeita doçura.

Mas o tempo nunca foi muito amigo. Os minutos deles pareciam passar exageradamente depressa, até dava para sentir pena disso. Não houve livro que conseguisse me fazer chamar mais atenção do que aquela paixão gastada no banquinho da casa. Simplório e sincero, que pode ter surgido de um amor antigo de colégio, ou de algum amigo em comum ou até mesmo de um esbarrão numa padaria qualquer. Destino.

Mas é que hoje não houve beijo, não houve risada, não houve amor. O mesmo senhor, com a mesma bicicleta amarela, chegara no horário e local de sempre. Tocou a campainha com o mesmo dedo, sentou do lado direito do banco e esperou, passivamente, para ver os mesmos olhos que almejava por todos esses tempos. Dois, sete, quinze minutos. A cabeça baixa e a não insistência em fazer o som da campainha se alastrar pela casa verde diziam mais que mil palavras ou mil lágrimas. Ela não viria. E nem ele voltaria.

Marcela Haun é jornalista e cronista

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