Acertando as contas com o passado

Terrorista indultado pelo governo alemão se encontra com antigos amigos no primeiro fim de semana em liberdade. No livro “O fim de semana”, o autor nos convida a refletir sobre nossas ações da juventude e suas consequências


Escritor alemão Bernhard Schilink: sua obra mais renomada é “O Leitor”, que ganhou uma adaptação para o cinema, filme vencedor de um Globo de Ouro e um Oscar, estrelado por Kate Winslet e Ralph Fiennes. Foto: Reprodução/Facebook

Mariza Santana
Especial para o Jornal Opção

Depois de passar 24 anos na cadeia por sua atuação como integrante da organização guerrilheira alemã de extrema-esquerda Fração do Exército Vermelho (também conhecida como Grupo Baader Meinhof), acusado de cometer quatro homicídios durante atos de protesto, Jörg recebe indulto do governo alemão e ganha a liberdade. Para recebê-lo nessa nova etapa da vida, sua irmã Crhistiane reúne antigos amigos em uma casa de campo no fim de semana. O desejo dela era dar as boas-vindas ao irmão, mas nada aconteceu conforme havia planejado.

Além do antigo militante terrorista não ser mais o mesmo jovem com ideais revolucionários, mas sim uma incógnita, seus amigos também haviam mudado. Eles se distanciaram dos sonhos da juventude, estavam estabelecidos em suas vidas. Também mudara a Alemanha, agora um único país, reunificado depois de ter sido dividido pelos vencedores da Segunda Guerra Mundial em dois lados ideológicos opostos.

Se alguns amigos se prontificaram a apoiar Jörg na retomada de sua vida, um deles, Marko, pretendia apenas utilizá-lo como um ícone para liderar o movimento revolucionário contemporâneo. Mas estaria Jörg disposto a mudar de vida, ou teria a consciência de que os tempos eram outros e que os sonhos também podem mudar? Entre os integrantes da reunião, seu filho aparece de surpresa, abrindo velhas feridas, cobrando suas culpas pelos atos do passado.

Esse drama simples, mas por isso mesmo tão atual, é a linha condutora do livro “O fim de semana”, do escritor alemão Bernhard Schilink. Sua obra mais renomada é “O Leitor”, que ganhou uma adaptação para o cinema, filme vencedor de um Globo de Ouro e um Oscar, estrelado por Kate Winslet e Ralph Fiennes. Schilink é jurista, professor de Filosofia e Direito na Universidade de Humboldt de Berlim desde 1996. Na pesquisa jurídica, é adepto da Teoria Liberal dos Direitos Fundamentais.

Por isso, no livro “O fim de Semana”, o escritor alemão discute, por meio da interação e dos conflitos de seus personagens, temas tão atuais para a Alemanha, a União Europeia e o mundo ocidental como um todo: terrorismo, revolução e direitos humanos. Assim como Jörg, o advogado Andreas, o jornalista Henner, o empresário Ulrich, a pastora Karin e a professora Ilse não são mais os mesmos jovens idealistas da década de 1970. Cada um seguiu seu caminho, por meio de suas escolhas.

A grande expectativa é quanto ao antigo terrorista. O que ele teria para dizer? Ele havia se arrependido de sua vida revolucionária e gostaria de ter agora uma rotina normal? Ou estaria disposto a emprestar seu nome e a fama de sua trajetória passada para avalizar novos movimentos revolucionários?

O leitor vai acompanhando o que acontece naquele fim de semana em um ambiente rural na Alemanha – e todos nós sabemos como os alemães adoram o contato com a natureza – até ser surpreendido pelo desfecho, que nos dá uma lição de otimismo e fé na humanidade.

O livro, que possui pouco mais de 250 páginas, é curto, direto, assertivo. Entretanto, nos convida à reflexão sobre como podemos mudar nossa ótica a respeito de fatos e ideologias com o passar dos anos, sem remorso de sermos uma metamorfose ambulante, como já cantava Raul Seixas. Mas como etapas naturais do curso da vida, uma inevitável passagem para a maturidade.

Título: O Fim de Semana
Autor: Bernhard Schlink
Editora: Record
Valor: R$ 24,99

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.