A subversão policialesca de Friedrich Dürrenmatt

O domínio que o escritor suíço tem do ofício de escritor é inequívoco e “A Promessa” e “A Pane” atestam a qualidade dessa prosa subversiva

Ricardo Silva

Especial para o Jornal Opção

Arthur Conan Doyle e Agatha Christie, com seus próprios métodos e procedimentos, elaboraram os alicerces narrativos do gênero policial: uma história que é narrada de forma estruturada a não a ter furos, expondo o quanto o seu protagonista-solucionador é capaz de, por meio de uma lógica fria e determinista, dissolver o caso-crime que se impôs a ele como um desafio incontornável.

Essa é a estrutura clássica do romance policial, produzida e reproduzida por inúmeras gerações de escritores do gênero. Muitos sucessos estrondosos nasceram na lavra policialesca e têm lugar cativo no afeto dos leitores. No entanto, esse modelo de narrativa tende a ser engessado e cadencia os acontecimentos da trama de forma tão controlada que os próximos passos são facilmente identificáveis por um leitor mais atento.

Essa distância entre a ficção e a verossimilhança da realidade foi encurtada por diversos outros autores que sagraram seus nomes na história da literatura policial. George Simenon e seu Maigret dão prova da força do acaso nos seus enredos, sem perder os contornos de suspense das suas histórias. Outro nome que buscou um toque filosófico e adensou a profundidade reflexiva que a realidade pode proporcionar com suas reviravoltas é o suíço Friedrich Dürrenmatt (1921-1990), que teve duas histórias policiais suas publicadas num único volume este ano pela Edirora Estação Liberdade: “A Promessa” — com tradução de Petê Rissati — e “A Pane” — que tem sua versão em português assinada por Marcelo Rondinelli.

Ao contrário do belga Simenon, Dürrenmatt não é um nome conhecido do romance policial. Aliás, fez sua carreira no teatro — suas peças são verdadeiros clássicos da arte dramatúrgica. No entanto, dando um ar fortemente pensativo e subvertendo a fórmula narrativa policial, o suíço enveredou na exploração das possibilidades da ficção policialesca.

A Promessa

“A Promessa”, com o sugestivo e provocativo subtítulo “Réquiem para um Romance Policial”, é um romance que se inicia com o próprio Dürrenmatt metamorfoseado em personagem que vai dar uma palestra sobre “a arte de escrever romances policiais”. Ao final da sua apresentação, o escritor conhece um policial que o confronta questionando a qualidade das narrativas policiais, numa clara manifestação irônica de Dürrenmatt.

Friedrich Dürrenmatt: escritor e dramaturgo suíço

“Para ser sincero, nunca tive os romances policiais em alta conta e sinto muito que o senhor também os escreva”, diz o policial que irá oferecer ao escritor uma carona em direção a Zurique e na viagem irá contar a história de Mättai. Eis então que o romance propriamente dito expõe a sua trama principal.

Uma garota é cruelmente assassinada. É a terceira a morrer em circunstâncias muito semelhantes às duas primeiras vítimas. Mättai, experiente inspetor da região, é designado para resolver o caso. O principal suspeito é um caixeiro-viajante, que nega ser o culpado. Mesmo negando ser o criminoso, boa parte dos indícios aponta para o caixeiro-viajante como o assassino das crianças e ele é preso. Sob métodos pouco ortodoxos e ilícitos, o caixeiro é interrogado e confessa o crime. Ao ser preso, enforca-se na sua cela. Caso solucionado.

Mas não para Mättai, que não comprou a confissão forçada do caixeiro como prova definitiva de sua culpa. É aí, então, que se inicia a sua derrocada. Obcecado na resolução do caso, Mättai compromete sua carreira, sua vida e a sua sanidade, descendo numa espiral de loucura e convicção da sua empreitada, desembocando em total decadência e alcoolismo.

Dürrenmatt subverte a trama clássica do romance policial e tira o controle do seu protagonista que se perde e enlouquece na busca da sua solução. A realidade e o acaso fundem-se de forma una e apresentam-se na sua forma mais insana e imprevisível. Tudo foge do controle de Mättai, que, ao contrário da tradicional ficção policial, é exposto em todo auge da sua humana falibilidade.

“Vocês constroem ações de um jeito lógico, e ele segue como um jogo de xadrez, aqui o criminoso, aqui a vítima, aqui o cúmplice, aqui o beneficiário; basta que o detetive conheça as regras e refaça os movimentos, logo ele terá posto o criminoso em xeque, ajudado a justiça a triunfar. Essa ficção me deixa furioso. Apenas em partes se lida com a realidade através da lógica”, diz, ainda no início do romance, o oficial que dá carona ao escritor policial. E é neste ponto, neste trato ilógico da realidade, que o romance de Dürrenmatt obtém sucesso. A lógica não dá conta do absurdo da realidade e o escritor suíço exercita elegantemente isso em “A Promessa”.

O romance não perde a quebra do suspense, não se embaralha com informações e descrições supérfluas e se encaixa propositalmente de forma desigual, revelando as imperfeições. “Vocês, da escrita, não tentam lidar com uma realidade que vive escapando entre os dedos, mas montam um mundo que é administrável. Esse mundo talvez seja perfeito, possível, mas é uma mentira.” E nesse quesito o romance de Dürrenmatt é uma bela verdade subversiva, explorando as dimensões morais e éticas sob um prisma ficcional poderoso.

A Pane

Nesta novela, o carro do caixeiro-viajante Alfredo Traps sofre uma pane, forçando-o a buscar onde passar a noite num vilarejo próximo. Ao chegar no ermo lugar, encontra guarida com nobres senhores que o convidam para um inusitado passatempo. Simulando um julgamento no tribunal, os três senhores colocam-se nas posições de juiz, advogado e promotor, tendo o pobre Alfredo Traps como réu do processo.

A partir desse acontecimento, a noite passa a apresentar o quanto o passatempo daqueles senhores é levado a sério por eles, fazendo com que uma série de diálogos que divagam sobre a arte do julgamento ecoe situações absurdas.

Nesta brevíssima história, estimulada pela imensa inabilidade de Dürrenmatt no volante — o que lhe permitiu passar, por sorte incólume, por vários acidentes de carro —, o escritor elabora uma pequena pepita literária onde há fortes ressonâncias reflexivas que debruçam-se sobre os acontecimentos pós Segunda Guerra Mundial e os seus insólitos e, por vezes, absurdos julgamentos.

Dürrenmatt expõe, nesta novela, a imensa convulsão existencial pela qual estava passando a Europa pós-guerra. O tino do escritor para o diálogo habilidoso e bem elaborado, faz com que “A Pane” se converta num virtuoso exercício ficcional.

Seja pensando na estrutura narrativa do romance policial ou nas consequências da Segunda Grande Guerra na Europa, o domínio que Dürrenmatt tem do ofício de escritor é inequívoco e essas duas obras atestam a qualidade dessa prosa subversiva.

Ricardo Silva, crítico literário, é colaborador do Jornal Opção.

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