Fernando Cupertino

Na Fazenda Bugre, quando se anunciava que haveria reza, ninguém marcava outro compromisso. Era coisa séria — quase tão séria quanto onça rondando curral ou mutirão pra roçar pasto.

Quem puxava o terço, seguido pela Ladainha de Nossa Senhora, era Dona Sinhana. Baixinha, devia ter bem pra mais de 70 anos. Seca de fala e cheia de decisão, carregava debaixo do braço um livrinho preto, herança da mãe. Dizia que ali moravam todas as rezas, num “latim de verdade”. Ninguém nunca teve coragem de discutir. Nem padre, nem sacristão e nem ela mesma, que lia mais pelo costume do que pela certeza. O livro já tinha mais remendo  do que página, e o que restava de texto parecia já meio cansado de ser lido.

Fiíca enxergava pouco, mas cantava alto e forte, como se enxergasse escancarada a própria porta do céu. Filomena, coitada, nunca achava o tempo certo de entrar no canto ou nas respostas da reza — mas entrava mesmo assim

Naquela noite, como sempre, suas comadres, Dona Fiíca e Dona Filomena, se ajeitaram ao seu lado como auxiliares costumeiras que eram naquele ofício de reza.

Fiíca  enxergava pouco, mas cantava alto e forte, como se enxergasse escancarada a própria porta do céu. Filomena, coitada, nunca achava o tempo certo de entrar no canto ou nas respostas da reza — mas entrava mesmo assim, do jeito dela.

A casa tava cheia. Uns rezavam de coração, outros por hábito. As crianças já bocejavam sem disfarce. Os homens pigarreavam pra não rir.

Na varanda, escorado num esteio, estava Zé Bentão, um vizinho já avançado em idade, que havia estudado uns poucos anos com os padres do seminário, lá na cidade, nos seus tempos de menino.

Chegara cedo e firme. Mas a espera foi longa demais pra pouca cachaça oferecida pelo dono da casa. O jeito foi buscar reforço na garrafa que trouxera no sapiquá¹ dependurado na cabeça do arreio. Assim, quando a ladainha começou, já não era mais o mesmo homem que tinha chegado.

Antes de começar, Dona Sinhana pigarreou forte, bateu  ponta da bengala no chão e avisou logo:

— Quem souber, reza junto. Quem num souber, responde só o “Ora pro nóbis”, que Nossa Senhora entende.

E emendou:

— Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo…

— Amém — respondeu o povo.

E a coisa seguiu seu rumo. Terminado o terço, ela ajeitou o livro, abriu na página da ladainha, apertou os olhos e mandou:

— Kyrie eleison…

Pois minha falecida Maria, que Deus a tenha, também tinha muitos nomes: Maria, Mariquinha, Maricota, Maria de Siô Neném e,  dispois que casou mais eu, Maria de Zé Bentão … e nunca precisou de latim pra nada

As comadres vieram junto:

— Kirie eleição…

— Criste eleison…

— Crista eleição…

Até ali, tudo dentro do esperado.

Foi então que Zé Bentão resolveu ajudar.

— Aleluia, Sinhana! Mas dá uma caprichada nisso aí!

A sala virou o rosto pra ele.

Dona Sinhana nem piscou. Seguiu:

— Sancta Maria…

— Ora pro nobis…

— Sancta Dei Genitrix…

— Ora pro nobis…

Zé Bentão se animou:

— Sancta do Gênio Triste…

Silêncio pesado.

Dona Fiíca logo cortou:

— Zé Bentão, reze quieto, homem.

Ele levou a mão no peito:

— Tô quieto, tia. Só tô ajudano a traduzir a reza…

A ladainha seguiu, já meio apertada, querendo acabar logo.

— Mater Puríssima…

— Ora pro nobis…

— Mater Castíssima…

— Orq pro nobis…

E o velho, prestativo:

— Mata as puríssimas… mata as casadíssimas… mata as feíssimas…

E na dita reza da Fazenda Bugre, a coisa ficou assim: ladainha com tropeço de palavra; fé sem pressa e um riso que, de tão solto, parecia chegar primeiro ao céu, antes mesmo daquela reza toda.

Dona Filomena olhou pro teto:

— Nossa Senhora nos acuda…

Zé Bentão respondeu na hora:

— Tá acudindo. Só num entende esse latim d’ocês.

Dona Sinhana bateu o livro na mão:

— Respeita a reza, Zé!

— Eu respeito. Só acho que Nossa Senhora gosta mais de português do que de latim.

— Mater Amarelinha…

— Ora pro nóbis.

(Dona Fiíca cochicha:)

— É “Amábilis”, comadre…

— Pois Nossa Senhora sabe o que eu quis dizê!

E continuou, sem perder o embalo.

O povo já começava a se segurar pra não rir.

— Regina Angelorum…

— Ora pro nobis… — responderam as comadres, apressadas.

E Zé Bentão emendou:

— E se sobrar café, ora pra mim também.

A coisa já ia perdendo a solenidade e ganhando vida própria.

Quando Dona Sinhana anunciou:

— Vas espirituale…

Ze Bentão 0k3
Zé Bentão | Imagem gerada por IA

Zé Bentão abriu um sorriso:

— Essa eu conheço!

Ergueu a garrafa quase vazia:

— Essa aqui já tá quase espiritual. Só falta um gole pra desaparecer.

Foi o bastante.

Dona Fiíca levantou:

— Homem, pelo amor de Deus, cale essa boca!

Ele respondeu, sério como só bêbado sabe ser:

— Eu calo, tia Fiíca. Mas me digam: pru mode de que Nossa Senhora tem tanto nome assim?

Dona Filomena respondeu na hora:

— Porque merece.

— Pois minha falecida Maria, que Deus a tenha, também tinha muitos nomes: Maria, Mariquinha, Maricota, Maria de Siô Neném e,  dispois que casou mais eu, Maria de Zé Bentão … e nunca precisou de latim pra nada.

A sala já ria sem vergonha. Até Dona Sinhana perdeu um pouco da firmeza.

Mas ainda tentou:

— Vamos terminar isso.

— Agnus Dei…

As comadres puxaram mais rápido, quase em despedida:

— Qui tollis peccata mundi…

Zé Bentão fechou os olhos, como se tivesse entendido o mistério todo.

E soltou, calmo:

— Os clitóris e todos os pecados do mundo merecem mesmo até mais uma dose.

A casa explodiu em riso.

Dona Sinhana teve que se sentar pra não rir de pé.

Quando a poeira baixou, ela olhou firme pra ele:

— Zé Bentão…

— Nhora ?

— Se o senhor aparecer assim de novo, mando o cachorro rezar no seu lugar.

Ele tirou o chapéu, fez uma reverência torta e ajuntou:

— Eu venho. Mas fique descansada que de outra vez trago menos cachaça… e um dicionário de latim,

que eu tenho lá em casa.

Dizem que Nossa Senhora ouviu tudo naquela noite, menos a parte do dicionário.

E na dita reza da Fazenda Bugre, a coisa ficou assim: ladainha com tropeço de palavra; fé sem pressa e um riso que, de tão solto, parecia chegar primeiro ao céu, antes mesmo daquela reza toda.

Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.

Nota sobre Sapiquá

¹ Sapiquá: espécie de sacola dupla de pano, empregada para guardar a “matula” (comida) e utensílios de viagem e que era usada sobre a parte anterior do arreio.