Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Amor à França (1)

Sob o olhar do eterno, relemos o poema “A Ponte Mirabeau”, de Guillaume Apollinaire, que nos remete à passagem do tempo, onde o rio da vida corre célere; e, por sob as pontes e nas mais diversas regiões a que o acaso ou a persistência nos levaram, surge e desaparece o amor

Em Paris, fazia o giro dos pequenos livreiros do Quai Saint-Michel nas banquinhas dos “bouquinistas” do Quai Malaquais, sentindo-me como personagem de uma página de Anatole France | Pintura: Granick

É assim quando me ponho a pensar na viagem que fiz a Paris pela vez primeira. Chegando de trem com um passe de vinte e um dias, que nos trazia de Porto (Portugal), minha mulher e eu sentíamo-nos exaustos, após uma noite inteira de viagem, ao deixar o vagão de segunda classe que nos trazia a Paris.

Vivíamos, então, uma fase de quase completo domínio do idioma de Molière em que todos os meus professores diziam que eu estaria superconfortável com as rotinas de balcão de hotel, de restaurantes, ou do escritório do “Office Tourisme” (que era, então, a porta de entrada para qualquer pessoa que viajasse na era pré-Google!), para cinema, teatro, conversações medianas e leituras etc., mas o que se passou na gare foi algo meio cômico.

Estava na Gare du Nord e, mesmo cansado, lembrava-me de todas as lições da Alliance Française (AF) sobre as melhores perguntas a respeito da melhor estada e do melhor roteiro para o táxi, sobre transporte público e atrações turísticas; tinha os mapas e tudo mais, mas na hora, tudo me levou a cair num nervosismo de silêncio e esgar, um riso nervoso, me deu aquele “branco” do qual fui salvo por minha esposa, que supletivamente agiu e interagiu com a atendente do escritório de turismo:

– Bonjour! Comment je peux vous aider, Monsieur-Dame?

Minha mulher respondeu à altura e nos salvou e, surpreendentemente, do outro lado, a atendente disse mais ou menos o seguinte: “Podem falar mesmo em Português, pois vejo o vosso esforço em bem se expressarem, após uma tão longa viagem de comboio, vindo do meu querido Portugal…”.

Foi assim que um sonho se descortinou para nós dois, jovens ansiosos por conhecer Paris e a França inteira. Logo depois, já dentro do táxi, mais calmo, conduzi um bom diálogo com um personagem de Simenon, um gentil e cavalheiresco velhinho – típico citoyen francês comum, que nos conduziu ao Éden Hotel, no XVème Arrondissement – eleito desde então como o nosso bairro em Paris.

Depois disso, nos entrosamos bem na vida da cidade e no bairro mais português de Paris, sentindo-nos sempre em casa em mais de uma dezena de viagens!

Isso é um pouco do que me vem à lembrança, às vésperas de escrever esta crônica, dedicada à leitora frequente desta coluna, que me envia uma mensagem generosa.

Merci!, digo a ela pelo e-mail e agradeço por classificar o trabalho aqui desenvolvido como “excelente roteiro para que o leitor conheça ou releia esses autores importantes e muitas vezes desconhecidos” – ela falava, especificamente do artigo sobre o poeta norte-americano Hart Crane[i],  mas mostra-se a par de muitos outros temas aqui tratados.

Para fazer-se merecedor do magnânimo elogio da leitora que deixo anônima, o cronista dedica-se toda a semana a pensar em um tema e a resgatar livros da estante, paciente e arduamente guarnecida por toda a vida, donde retira munição para artigos semanais que publica seguidamente há quase um ano.

Esta semana veio-me à mente a importância da poesia, dos romances, músicas – enfim, da cultura francesa em minha vida e o quão pouco tenho me ocupado da França como tema em minhas crônicas. Tudo, por cento, devido à frequência mais constante de autores de língua inglesa, atualmente, pari passu com o exercício da leitura e o interesse recente pela cultura italiana.

Se a língua francesa me chegou como primeira língua estrangeira e me tomou de paixão com uma intensidade que durou toda a juventude, o Italiano é a língua da maturidade, enquanto o Inglês da intimidade em uma família que se fez brazuca-americana, principalmente após a chegada dos meus netos de dupla nacionalidade.

O latim foi (e ainda é, Magister Alex) o sonhado idioma da velhice, no qual vou perdendo de goleada, ante à dificuldade de aprendizado que é inversamente proporcional à vontade do aluno.

Houve, então, toda uma vivência francofônica, que começa na Aliança Francesa (AF) de Porto Alegre, onde iniciei meus estudos do idioma na juventude, concluindo-os em Goiânia, na condição de jovem adulto e apaixonado pela língua de Molière. O mais proveitoso foi o tempo da gestão de Serge Evreinoff na AF, onde além da amizade com o diretor e sua esposa, tive a honra de ter sido tesoureiro da entidade.

Seguiram-se ao aprendizado, os livros adquiridos na própria AF ou na Livraria Francesa de São Paulo ou nas seguidas viagens à França. Em Paris, fazia o giro dos pequenos livreiros do Quai Saint-Michel nas banquinhas dos “bouquinistas” do Quai Malaquais, sentindo-me como personagem de uma página de Anatole France, em busca de pechinchas, principalmente dos livros de bolso da Garnier-Flammarion e da Laffont.

O Rio Sena como testemunha de nossas viagens de jovem casal apaixonado, como no poema de Apolinnaire:

Sous le pont Mirabeau coule le Seine
Et nos amours
Faut-il qu’il m’en souvienne
La joie venait toujours après la peine 

Vienne la nuit, sonne l’heure
Les jours s’en vont, je demeure
Les mains dans les mains, restons face à face
Tandis que sous
Le pont de nos bras passe
Des éternels regards l’onde si lasse.

[…]

Desde então, a arte poética francesa me apaixonou, com a mesma paixão que mantenho pela cidade e seu rio, que de roldão entrou na minha vida de goiano apaixonado pelo Rio das Almas, isso tudo à margem do meu gosto inicial pela narrativa de Honoré De Balzac e Sthendal.

De Balzac já havia adquirido a obra completa, em suaves prestações mensais, no sebo Martins Livreiro, em Porto Alegre. Ainda na capital gaúcha, lembro-me da alegria de ter sido brindado com um romance de François Mauriac (“Thérèse Desqueyroux”), ao atingir o melhor desempenho daquele semestre de aprendizes do nível 4 na Aliança.

Uma grande alegria se apossou de mim quando pude ler quase sem auxílio do meu Petit Robert (dicionário francês-francês) e do meu pequeno e eficaz dicionário Paulo Rónai (bilíngue), obra lamentavelmente indisponível para os jovens francófilos de hoje.

Surgiram, assim, as paixões pelos poemas e pelos romances na língua de Balzac, tanto e tão francófonos nos sentíamos que ao nosso cão demos o nome do romancista! – era um lindo collie, o saudoso Balzac, que conviveu com a família Queiroz por quase quinze anos…

Assim, aprendi a amar a poesia de Verlaine e era preciso dar-lhe uma versão no estro da língua de Camões. A arte poética de Verlaine, achei-a na pena às vezes reinventada de um Guilherme de Almeida ou de um Jamil Almansur Haddad (versão que me desgosta), mas nada que supere o amor nutrido por esta versão lusitana de Fernando Pinto do Amaral[ii]:

De la musique avant toute chose,
Et pour cela préfère l’Impair
Plus vague et plus soluble dans l’air,
Sans rien en lui qui pèse ou qui pose.Il faut aussi que tu n’ailles point
Choisir tes mots sans quelque méprise :
Rien de plus cher que la chanson grise
Où l’Indécis au Précis se joint.
Música acima de qualquer coisa,
E para isso prefere o Ímpar
Mais grave e mais solúvel no ar limpo,
Sem que haja nele nenhum peso ou pose.
Nunca te esqueças de que é preciso
Escolher as palavras, mas com desprezo:
Nada ultrapassa a canção cinzenta
Em que o Preciso ama o Indeciso.

Na Alliance, aprendíamos o gosto pela literatura, a história e a arte francesas. Tínhamos na professora Sylvie Martin e no próprio Serge, disciplina e rigor, mas também erudição e talento didático. A civilização Francesa foi, pois, se descortinando para mim, desde a idade média e da formação do idioma – da langue d´oc à langue d´oïl, de François Ier. ao General De Gaulle, da Chanson de Roland às Flores do Mal…

Mas, antes ainda, nos níveis intermediários, tive as valiosas contribuições das professoras Terezinha Tutti e Hilda as melhores não-nativas da língua à minha formação na língua francesa.

A história do meu amor a um poema de Guillaume Apollinaire vem de uma preparação para o encerramento de um semestre em que todos os alunos deviam apresentar um trecho de prosa ou de poesia em francês. Coube-me o poema de Apollinaire:

Le Pont Mirabeau[iii]

Sous le pont Mirabeau coule le Seine
Et nos amours
Faut-il qu’il m’en souvienne
La joie venait toujours après la peine

Vienne la nuit, sonne l’heure
Les jours s’en vont, je demeure

Les mains dans les mains, restons face à face
Tandis que sous
Le pont de nos bras passe
Des éternels regards l’onde si lasse

L’amour s’en va comme cette eau courante
L’amour s’en va comme la vie est lente
Et comme l’espérance est violente

Passent les jours et passent les semaines
Ni temps passé
Ni les amours reviennent
Sous le pont Mirabeau coule la Seine.

Vienne la nuit, sonne l’heure
Les jours s’en vont, je demeure

*

Depois de dias tentando decorar o poema para a récita, procurei a professora Hilda para abdicar de minha tarefa, mas ela, graças a Deus, convenceu-me a insistir mais um pouco e não deixar de apresentar o poema na língua de Victor Hugo. Aos leitores não-francófonos, deixo aqui um link para que leiam as várias versões deste poema em Vernáculo, em quatro traduções[iv].

Tudo correu como esperado e fiz uma razoável apresentação. O que me valeu ter adicionado este poema à lista dos meus textos amados em francês. E hoje posso repensar a meu bel-prazer como Apollinaire, livremente: “Vem a noite, soa a hora…Os dias passam, o tempo vai embora. Eu vou ficando por aqui, por ora!”

Hoje, passados mais de trinta anos dessa aventura de uma récita, lembro-me de cada linha do poema, mesmo que a memória já não me ajude a dizê-lo em público como fiz quando jovem, mas o sabor que ele me traz à memória afetiva é como uma “madeleines de Proust” (que vim a conhecer ao longo desse caminho em busca da França perdida!).

Afinal, tenho que concordar com o dândi e franco narrador de “Em Busca do Tempo Perdido[v]”:

“…quando nada subsistisse de um passado antigo, após a morte das criaturas e a destruição das coisas –, sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis – o aroma e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação”.

À suivre.

Adalberto de Queiroz, 63, jornalista e poeta, autor de “O Rio Incontornável” (Itabuna: Editora Mondrongo, 2017).

[i] Artigo: “Hart Crane e o amuleto carbônico” em Opção, Goiânia, 2018: https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/hart-crane-e-o-amuleto-carbonico-128541/

[ii] VERLAINE, Paul. “Poemas saturnianos e Outros”, tradução de Fernando Pinto do Amaral, Lisboa: Assírio & Alvim, 1994, p. 169.

[iii] POMPIDOU, Georges. “Anthologie de la poésie Française”. Paris: Hachette, 1961, p. 559.

[iv] https://www.jornalopcao.com.br/colunas/imprensa/quatro-traducoes-de-um-poema-de-guillaume-apollinaire

[v] PROUST, Marcel. “No caminho de Swann” (vol. I de “Em busca do tempo perdido”), tradução de Mário Quintana. – S. Paulo: Abril Cultural, 1979, p. 32.

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