Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

A poesia e o mito (1)

O cristão diante do mito assemelha-se a um leitor em pânico, que se sente confuso e perdido. Diante do acervo dos mitos, é preciso compreender que o mito dos mitos reside no Sagrado, mesmo que se sinta confuso com um mundo em que se ri da tradição e em que “os símbolos da poesia parecem desonrados”; no entanto, resiste, pois se reconhece diante da Beleza e da Verdade, num mundo em desolação.

“Ode a uma urna grega”, de John Keats – exemplo do mito na Poesia.

Retorna à minha memória cansada um ensaio do filósofo brasileiro Vicente Ferreira da Silva (em colaboração com amada esposa a poetisa Dora Ferreira da Silva).

Eles escreveram em parceria “Sobre a poesia e a arte” (1953), que conclui ecoando Schelling: “a matéria-prima e a temática própria de todas as futuras obras [de arte] estariam predeterminadas através da investidura daquela obra de arte original que é a formação mítico-religiosa”

Tudo isso porque para o o filósofo e a poetisa “a arte não é magia humana mas magia divina”. Então, a obra de arte seria uma espécie de um “ir-além-de-si-mesmo” do homem, que ao elabora-la estaria, na verdade, participando de uma festa sacral, “em honra do hóspede divino: o deus que sob humana forma aparecia para concluir num pleno acorde a festa divina”—; portanto, o criador da obra de arte seria um participante de uma verdadeira epifania. 

O poeta e historiador britânico Robert Graves, num livro extraordinário e complexo (“A deusa branca”, 1948) afirma: “a primeira riqueza do poeta é o conhecimento e o entendimento dos mitos”. Graves faz uma pergunta retórica “Qual é a utilidade da poesia hoje?” A resposta aponta para a importância do mito: 

“Esta é uma questão não menos pungente porque a levantem com insolência tantos ignorantes ou porque a respondam apologeticamente tantos tolos. A função da poesia é a invocação religiosa da Musa; seu uso é a experiência de uma mistura de exaltação e horror que a presença dela excita. Mas, “hoje”? A função e o uso permanecem os mesmos, apenas sua aplicação se alterou. Outrora, esta fora um alerta ao homem de que deveria viver em harmonia com a família das criaturas viventes dentre as quais ele nasceu, por obediência aos desejos da dona da casa; atualmente, trata-se de um lembrete de que desprezou o aviso e virou a casa de cabeça para baixo por meio de voluntariosas experiências na filosofia, na ciência e na indústria, acarretando ruína para si e para sua família. O termo “hoje” significa uma civilização na qual os principais símbolos da poesia estão desonrados.” 

É uma advertência dura para um livro que o próprio autor considera “um escrito muito difícil, bem como muito estranho, a ser evitado por aqueles que tenham a mente distraída, cansada ou muito rígida em sua cientificidade”.  

Uma das conclusões do alentado estudo, considerado uma “gramática histórica do mito poético” é que “mito e religião são revestidos pela linguagem poética”, enquanto “a ciência, a ética, a filosofia e a estatística, pela prosa.” No caso específico de Vicente Ferreira da Silva, fica provado que a Poesia foi a escolha do filósofo brasileiro trabalhar sob o dístico de Novalis: “A poesia é o real absoluto. Isto é o cerne da minha filosofia. Quanto mais poético, mais verdadeiro.”

Mas não é fácil para o homem comum deste século mau compreender tudo isso. O dinheiro, a fama e ciência corromperam totalmente as noções de sagrado e de mitológico. Nada vale mais do que poder ficar fora disso.  
 
É, pois, difícil a este leitor mediano compreender a importância do mito. “A presença do mito na arte é de mais difícil compreensão, mas não é menos real” — dizia o polonês Leszek Kolakowski e arrematava: “a arte é um modo de perdoar a maldade e o caos do mundo. Perdoar não significa de modo algum reconciliar-se com o mal e menos ainda renunciar à luta contra ele…” 

Mas se não é impossível (nem indesejável) que passemos da inatividade à ação contra o Mal e o Caos – em busca da Ordem, nem sempre essa decisão significará atirar pedras contra aquilo que não nos diz respeito.  
 
Perdoar é ato amoroso por excelência e tem a ver com a poesia, com o sagrado, com o mito; não concordar com a mediocridade é já um caminho próximo a não atirar pedras. Não fugir do amor é já outro degrau importante para o entrosamento com o mito. 

O cristão diante do mito sente-se inicialmente desconfortável. Primeiro, porque os padres da Igreja tiveram que fundamentar a Doutrina e para isso refugaram algumas das formas de “mito” e de mitificação que se lhes ofereciam as heresias.  
 
Eles tiveram que ser durões com os hereges, mas no final cederam a certas formas do paganismo que moldaram o que hoje persiste em nossas mentes como o mito da passagem do Cristo pela terra e a historicidade do personagem Jesus Cristo, Filho de Deus. 

“Os pais da igreja e os teólogos cristãos negaram, evidentemente, que os Evangelhos fossem ´mitos` ou ´estórias maravilhosas` (fantasiosas) (…) O mais importante neste caso foi Orígenes. Ele estava muito convencido que o valor espiritual das histórias conservadas pelos Evangelhos não poderia ser compreendido apenas de uma maneira grosseiramente `literária´, como os cristãos comuns e os hereges – e, por isso, ele pregava a exegese alegórica. Mas em “Contra Celso” Orígenes oferece argumentos à historicidade da vida de Jesus e se esforça para validar todos esses testemunhos históricos. Orígenes critica alguns eventos da vida de Jesus, como o episódio dos vendilhões do Templo…para ele, as Escrituras Sagradas introduzem nos acontecimentos narrados certos fatos reais, outros suscetíveis de acontecerem, mas que de fato não aconteceram realmente. Em lugar de designá-los “mitos” e “ficção”, ele se utiliza da designação “enigma” e “parábola”…e valoriza sobretudo o espiritual, não-histórico, do texto evangélico… Para Orígenes, insistir demais na historicidade de Jesus, negligenciando o sentido profundo da vida de Cristo e sua mensagem seria mutilar o Evangelho.”

Mircea Eliade em “Aspects du mythe” (1963).

Não está em questão neste pequeno artigo insistir sobre o tema mito e religião, pois é um terreno arenoso demais quando se tem tão poucas linhas. Melhor seria que retornássemos ao foco: mito e poesia e que o cristão se sentisse satisfeito com a ideia de que o Cristianismo é indissociável dos mitos, seja na narrativa dos Evangelhos como na história e estórias do Velho Testamento, dos profetas judaicos e tudo mais em que haurimos a essência da cultura em que vivemos. 

Retenha o leitor (crente ou incrédulo) que foi conveniente aos leitores cristãos (e a seus exegetas) que em lugar de “mito” – entendido como “ficção” fossem utilizadas as palavras “enigma” e “parábola”, mas não há dúvida, segundo Mircea Eliade e o teólogo Robert M. Grant, um especialista nos Evangelhos, que os termos são equivalentes. 

Os “resíduos de comportamento mitológico” do homem moderno, conforme à lição de Eliade, malgrado todas as tentativas de mitologização das ideologias estranhas à Ordem (comunismo, fascismo etc.) não foram capazes de extirpar a memória do Sagrado constante do cerne do ser humano que anseia pelo retorno a um paraíso mítico. 

Exemplos vários na Poesia achamos; garimpá-los é já tarefa menos árdua, mas eis que ouso trazer-lhes um apenas em que persiste a chama da mitologia e da poesia pura em que nada se concede a não ser Beleza vária – cito John Keats, na tradução do erudito paranaense Wagner Schadeck, na “Ode ao Rouxinol” – confira esta parte 7: 

“Não nasceste pra morte, Ave imortal! 
Nenhuma geração trilhou-te dolo. 
E a voz que ouvi à noite fora igual 
A que ouviram o imperador e o tolo. 

Talvez o mesmo canto que achou via 
No coração de Ruth que, entre o trigo 
Estrangeiro, chorou seu lar querido, 
Era o mesmo que abria 

As mágicas janelas ao perigo 
Do mar num mítico país perdido. 

O canto que ecoa o livro bíblico de Rute, cap. 1, no Velho Testamento, pode ser lido com este alerta de Wagner Schadeck: “o canto do Rouxinol dá passagem ao conhecimento e entendimento entre o mundo mítico, o do pássaro, e o mundo da desolação, onde o poeta se encontra.”  

“Perdido! e esta palavra me tangia 
Qual sino que me dobra a solidão. 
Adeus! Não mais me engana a fantasia, 
Este afamado silfo da ilusão. 
Adeus! Adeus! Que teu hino de culto 
Se esvai pelo riacho e pelo prado, 
No alto monte, no vale deitou rumo 
E lá pousou sepulto. 
 
Fora visão ou um sonho acordado? 
Finda a canção, estou desperto ou durmo?”

Adalberto de Queiroz, 64, Jornalista e poeta. Autor de “O rio incontornável” (poemas), Editora Mondrongo, 2017. 


Autores e fontes citadas:
Vicente Ferreira da Silva – “Transcendência do Mundo”; Mircea Eliade – “Imagens e Símbolos”; “Aspects du mythe”; Northrop Frye – “The great code”; John Keats – “Odes”, tradução de Wagner Schadeck; L. Kolakowski – “A presença do mito”. Para ler mais sobre John Keats, na tradução de Schadeck, clique neste link. Mais sobre Vicente F. da Silva leia neste link, um belo artigo de Gabriela Fehr.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.