A Pablo Lenine, meu irmão, que agora está no disco voador

Livre e subversivo, a cadeira de rodas não era o seu lugar no mundo. Vou me lembrar dele segurando uma noitada com garrafão de vinho, violão, Raul e Beatles

Marcelo Brice
Especial para o Jornal Opção

Meu irmão se foi. Tenho cravado na memória tantas histórias e lembranças em que ele, meio maroto, meio tímido, meio porralouca, foi o meu protagonista. Vivi tudo com o Pablo. Coisas sutis, brabas, violentas e doces. Ele nunca soube lidar com a doença, mas, puta-que-pariu, como sabia lidar com a vida! Viveu 43 anos, 10 desses com a vida se esvaindo pelos dedos. Foi uma parte dura, mas o Pablo que todo mundo pira, admira e tem como referência se fez em outro tempo.

É comum isso de irmão mais novo vangloriar o mais velho. Ele, com o nome composto entre poeta e revolucionário, chegou em casa com a sugestão do meu nome depois de escutar o melhor amiguinho no pré-escolar. Nós sempre tivemos características e personalidades diferentes, e eu só queria que ele me levasse pros rolês.

Pablo (à direita) em casa, com o irmão Marcelo e a amiga Ana Carolina

Tive de ser goleiro no futebol do campinho da rua, porque é o que sobrava para os mais novos. Ele, jogava na linha, era bom de bola, aguerrido e talentoso. Depois jogou basquete, torcia sempre o pé e jogava na semana seguinte com o tornozelo inchado. Antes, futebol de botão, gibis e quadrinhos. Depois e sempre foi a música. Tinha um repertório de alto nível, comprava as revistinhas de cifra e aprendia tudo. Animava qualquer rodinha que tivesse ou gente que ele gostasse, ou uma gatinha, mas nunca tocava Legião e nem com gente de pouco apreço recíproco.

Não teve uma música do Raul que ele não soubesse. Amava os Beatles e sabia tudo deles. Era tão aficionado em Led Zeppelin que assumia trejeitos e queria cantar como o Robert Plant. Estudava na escola mais massa dos anos 1990, que era o Colégio de Aplicação, fazia francês lá, mas só porque era mais fácil de passar. O inglês ele aprendia nas letras das bandas de rock.

Meio hippie, meio comunista, sempre raulseixista, gentil, educado, namorador, engraçado, ranzinza, explosivo, intenso, genioso, viciado em esportes, música, filosofia e literatura. Lia mais do que nós todos, mas não tinha nenhum resquício de certa glamourização intelectualoide. Sempre tinha o dedo médio em riste pra isso. Adorava viajar, sempre sem grana.

A mãe, Marilene, com o bebê Pablo no colo

Fez Filosofia e foi um ótimo e eterno estudante. Lembro como se fosse hoje dele chegando das aulas da faculdade e lendo uns trechos em voz alta do Banquete de Platão ou O Ser e o Nada do Sartre ou ainda os Manuscritos Econômico-Filosóficos do Marx e conversando filosoficamente e bem humorado (tirando muito sarro, meio levando à sério, as filosofices) com a minha mãe, já doente.

Ele (e nenhum de nós) soube (ninguém sabe) lidar exatamente bem com a doença de uma mãe. Apesar disso, só ele sabia tocar e cantar todas as 20 boas canções do Paulo Diniz e ficava horas à beira da cama dela tocando as músicas que ela e ele gostavam. Não era de fazer reverências; gostava da subversão, descobriu um jeito de ganhar uma grana fácil e mexer com a inteligência, fazer trabalhos de faculdade para colegas e para dondocas (quando era o caso, achava que cobrava caro), montou uma espécie de “empresa” com colegas/amigos (que não cito o nome para preservar a carreira deles).

Acreditava e se divertia na educação. Muito rapidamente, bem novo, passou no concurso do Estado e bem colocado. Escolheu o lugar em que seria professor: no mesmo Itatiaia, no colégio em que minha mãe foi professora, coordenadora pedagógica e pioneira, o Waldemar Mundim, onde eu e minha irmã, Cejana  Uiara, fomos alfabetizados. Levava o violão para a sala de aula e tocava Lulu Santos, Certas Coisas e O Último Romântico, para discutir o amor platônico e, nisso, já tocava outras várias.

O professor Pablo Lenine, lecionando filosofia no Colégio Waldemar Mundim

Comprava um caixa de cerveja (de garrafa) na sexta-feira, chegava da semana de professor no ensino público, ia corrigir as centenas de atividades dos alunos, tocava violão, escutava música, fumava e escrevia poesias niilistas à la Lord Byron. Eu ficava de orelha fingindo que fazia coisa importante, lia e o via, sempre ia na nossa (dele) sala de estudo (biblioteca) – assim a chamávamos, nunca de “biblioteca’, apesar de sê-la –, e pedia a ele que tocasse tal música, ele dizia que não sabia, em menos de dez minutos estava tocando e cantando a que eu pedia. Nisso, já éramos parceiros (quando o irmão mais velho acha que o mais novo nem é tão ruim assim). Logo também era parceiro da Cejana, ao ponto de jocosamente pedir a ela – a única que assumiu a tradição cristã entre nós – orações para que nos salvássemos.

Com cartaz do mestre Cartola ao fundo, na Bienal da UNE, Rio: sempre ligado em cultura e música, gostos que vieram do pai

Antes disso, era Fluminense e Goiás, pra ser contra meu pai e, segundo meu pai, Fluminense em razão do professor de Português de muitas gerações, Geraldo Faria, o bom e velho Alemão do Aplicação. Me lembro de ele chorar e ficar puto e decepcionado com futebol quando o Fluminense perdeu a semifinal do Brasileirão de 1995 para o Santos.

Pablo com o vizinho Vitor Veloso e o amigo Luciano Ninomia, da banda Abluesados

Ali trocou definitivamente o futebol e esportes em geral pelo rock e pelas coisas artísticas e cerebrais; depois, descobriu que tudo era arte e se reconciliou. Ligava em casa às 23 horas, de algum boteco da cidade, para conferir com meu pai uma posição ou informação histórica fundamental no conjunto da argumentação revolucionária.

Com o amigo Rubens Mendonça, o Rubão

Contava piadas e tiradas do Costinha, do Ary Toledo e do Chaves como se fosse o roteirista. Na segunda década da nossa vida, provavelmente, meu pai nos levou ao estádio todo fim de semana em que tinha jogo no Serra Dourada. Domingos maravilhosos, regados a bancas de revista, ônibus lotados de torcedores, histórias quase sempre verdadeiras do meu pai e a rebeldia do Pablo, que a certa altura se misturava na torcida organizada. Aventuras e perigo, ele sempre topou tudo e que-se-dane.

Era totalmente respeitoso com os mais velhos, sendo também realista. Talvez por ser o mais velho foi o mais paparicado pelas avós. Pablo se dava muito bem com pais de amigos e professores e colegas. Sempre compenetrado, tinha rotinas, sistemático e aberto.

Ateu, não retrocedeu, mas se permitiu. Leu Hermann Hesse procurando uma energia sublime e interior, meio budista. Tivemos uma passagem nesse sentido: fizemos uma reunião em casa, junto com a Sara de Castro, pessoa muito querida, com quem ele dividiu alguns dos maiores vínculos, porque precisávamos achar uma maneira mais adequada de lidar com a doença e com o pessimismo.

Recebendo o canudo do diploma de Filosofia das mãos do lendário professor Jordino Marques

Aí então eu, meio puto, ingênuo e embargado: “Pablo, respeito muito sua visão de mundo e sabemos o que se passa, mas não dá pra animar o espírito, ser razoavelmente esperançoso se você ficar lendo todos os livros e romances do Dostoiévski, porque só tem desgraceira pesada lá, pô!”. E  ele, totalmente com a voz embargada: “Marcelo, é justamente por isso que tô lendo tudo dele. Pra achar… Pra achar, cara… só pode ter esperança na desgraceira, senão não tem. Se não tem lá, onde vai ter?”.

Levou à sério o preceito raulseixista de “Meu amigo Pedro”: “Todos os caminhos são iguais / O que leva à glória ou à perdição / Há tantos caminhos, tantas portas / Mas somente um tem coração”. Amigos mandam mensagens dizendo como viveram coisas incríveis com o Pablo. Ele me ensinou a me garantir, a ser autônomo (eu, o filho do meio que ele acionava pra ajudar em coisas de adultos), com um ensinamento tácito do meu pai: dar os toques, e de longe, mas com amor; não ‘explicar’.

Com o pai, o professor Reinaldo Pantaleão, numa parada para um lanche entre Goiânia e Brasília

Livre e subversivo, a cadeira de rodas não era o seu lugar no mundo. Como dizem, descansou de uma luta vã. Vou me lembrar sempre e sempre do meu irmão, fortemente dos amigos que nunca o deixaram os deixar, dos seus melhores momentos, principalmente, dele ter me permitido estar aqui com ele, com meu pai e minha irmã (que cuidaram dele até o último instante) na hora da sua partida.

Em ato de boemia com o amigo Leandro Machado, da banda Dom Barão

Vou me lembrar dele segurando uma noitada com garrafão de vinho, violão, Raul e Beatles, dele fazendo um som com a dupla mais improvável e impávida (Daltera e Leandrinho), num projeto que eles nomearam como Krig-Há. Era em homenagem ao álbum do Raul, Krig-Ha, Bandolo, num show/festa memorável muito-demais-de-louco no encerramento de um congresso da UNE no Campus 2 da UFG, cantando uma música que eles fizeram pra atacar a peleguice de esquerda.

Vou me lembrar também dele se apresentando nos saraus do Demo Cognitio (o fanzine azul mais legal, mais longevo e de mais exemplares dessa Goiânia). Inclusive, quase como um “espirito do tempo” (Zeitgeist), ele produziu com amigos da Filosofia da UFG um fanzine existencial-provocativo-filosófico com o nome de Daimon, o demônio interior que motiva a sabedoria na atitude filosófica grega.

Vou me lembrar de quando eu chegava de férias como professor de universidade no Tocantins (ele me dava maior moral sem reverência pela minha trajetória profissional) e no sábado de manhã tomávamos café, ele dava o start na melhor playlist do planeta, que podia começar com Guilherme Arantes e passar por Sepultura – ou podia começar com Oasis e terminar com Chico Buarque ou Elis Regina e Lobão ou Paulinho da Viola e Aretha Franklin ou Luiz Gonzaga e Amy Winehouse ou Toquinho & Vinicius e Pink Floyd –, enquanto o meu primeiro professor de música me falava “científica” e obstinadamente da estufa que tinha comprado para plantar cannabis, que é claro que faz bem, indicada pelo médico etc. e tais, de política a fofocas de filósofos, o Pablo era o cara de fronte fechada, reservado, mais boa praça que havia.

Pablo Lenine com a irmã Cejana, o pai Pantaleão e o irmão Marcelo

Olhei para frente e para o alto, parece que a florada do pequi já começou e agora eu só me lembro de S.O.S, aquela música do Raul que diz assim: “Oh! Oh! Seu moço / Do disco voador / Me leve com você / Pra onde você for / Oh! Oh! Seu moço! / Mas não me deixe aqui / Enquanto eu sei que tem / Tanta estrela por aí”.

Saudades. Seguimos aqui, firmes.

* Marcelo Brice é filho da Marilene, do professor Pantaleão, irmão do Pablera/Pablito/Pablinho/Pablo Lenine, irmão da Naninha, morador do Itatiaia, doutor em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás e professor da Universidade Federal do Tocantins.

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