A localização do poema

“Novas Ofertas de Emprego para Ederval Fernandes” consegue nos afastar de uma ideia primeira: a de que emprego é aí sinônimo pronto e acabado de colocação profissional

Andressa Barichello
Especial para o Jornal Opção

“Novas Ofertas de Emprego para Ederval Fernandes” (Paralelo13S,2018): eis um título que nos remete à ideia de anúncio e que, ao mesmo tempo, consegue ser enigmático. Eis um livro que consegue nos afastar de uma ideia primeira: a de que emprego é aí sinônimo pronto e acabado de colocação profissional.

O que se anuncia? Qual será o enigma? Ederval Fernandes escreve entre o já revelado e o ainda oculto. Anúncios são para achar o que se procura. E poemas?

É também pelo título que oriento minha leitura tendo as palavras emprego e poeta como guias. O que é ser funcionário? O que é ser poeta? Entre o que funciona e o que não tem função, as novas ofertas passam a ser aquelas feitas pelo poema. Quais serão as palavras maduras, frescas, do dia? Ederval Fernandes cumpre a tarefa de apresentá-las, como ofício. O novo não precisa ser sinônimo de inédito. E a feira que é Feira de Santana, cidade berço de Ederval, fica transformada em feira-livre.

Título: Novas Ofertas de Emprego para Ederval Fernandes

Autor: Ederval Fernandes

Editora: paraLeLo13S / Boto-cor-de-rosa

Valor: R$ 35,00

A partir da observação do que acontece ao redor de si e dos objetos considerados principais há sempre uma viagem para o dentro, não o núcleo, mas a periferia – o cotidiano: os fatos em torno dos fatos. Esse interesse pelas bordas vai fazendo uma linha circular e pontilhada, diferente daquelas a formar os círculos da arte de capa. Os empregos do corpo, do pensamento e da palavra são traçados claudicantes, série de pontos sempre interrompidos e retomados – pontos entendidos como altura, assunto ou localização geográfica. Em Feira ou em Lisboa, de um lado ou de outro do Atlântico.

Em algum ponto dentro ou fora, sempre o sujeito como parte [des]integrante do poema, e o poema como paga para o trabalho do homem, poeta ou não; afinal a poesia não precisa sempre da forma, do papel e das letras para ser lida. Para o leitor, a sensação de que a lida com as palavras é quase sempre um universo clandestino à produção capitalista, à produção que se espera de um homem. Lembro-me então dos versos de Álvaro de Campos no poema Lisbon Revisited: Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?

Amor, sexo, a violência urbana, e a língua falada, usada, acessível, inventada. E se “Novas Ofertas de Emprego para Ederval Fernandes” também aponta para idas e regressos, entre Brasil e Portugal, entre íntimo e estrangeiro, volto aos círculos encontrados na arte de capa: serão grifos ou furos? Talvez células, janelas, interstícios: a vida passa ao lado de fora e o poeta a ela dá serviço, do lado de dentro do círculo, do gesto, do verso. Fora de qualquer classificado.

O autor
Ederval Fernandes nasceu em Feira de Santana, Bahia, em 1985. Publicou “O livro conta Corrente” (Editora Sarò) em 2014. Tem trabalhos publicados em jornais e revistas como Portal OXE (Brasil), Revista Modo de Usar & Co. (Brasil), Le Monde Diplomatique (edição portuguesa) e Enfermaria 6 (Portugal). Atualmente vive e trabalha em Lisboa, Portugal.

* Andressa Barichello nasceu em São Paulo. É autora do livro “Crônicas do Cotidiano e outras mais” (Scortecci, 2014). É co-fundadora do projeto fotoverbe-se.com. Escreve resenhas e perfis

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