A intolerância se escancara nas instâncias de Poder

Nem os poderosos escapam do preconceito e da discriminação de uma sociedade doente

Foto: Divulgação

Os últimos dias foram marcados por episódios de intolerância e preconceito nas Casas Legislativas de Goiás. O racismo e machismo predominaram e, em tempos de múltiplas vozes gritando opiniões nas redes sociais, até a discriminação é relativizada.

Na Câmara Municipal de Goiânia, em sessão no dia 14 de fevereiro, o presidente da Casa, vereador Romário Policarpo (Pros), foi chamado de macaco por pessoas na galeria, que chegaram a imitar o animal em evidente ofensa ao parlamentar.

O parlamentar era alvo de protestos por ter feito uma proposta de aumento de cargos comissionados na Câmara. O que não justifica as agressões. O que é preciso ser sublinhado nessa situação é que o negro continua a ser subjugado por sua cor mesmo estando em posição de poder. O próprio Policarpo disse no dia “Imagina o que jovens negros não passam na rua?”.

O racismo é crime desde a Lei nº 7.716, de 1989, que tipificou a discriminação ou preconceito de raça ou de cor e, em 1997, passou a criminalizar, também, o preconceito de etnia, religião ou procedência nacional. É dessa ferramenta que o vereador lançou mão para investigar quem lhe havia ofendido, para que as providências fossem tomadas.

No entanto, o mesmo não pode ocorrer em outros tipos de intolerância. Na mesma manhã, a vereadora Sabrina Garcês (PTB) falava na Tribuna contra um decreto do prefeito Iris Rezende (MDB) que estabelecia restrições aos motoristas de aplicativo de transporte particular. Na galeria, enquanto ela era aplaudida pela classe, taxistas lhe desferiam ofensas.

A certa altura foi possível ouvir gente que gritava “vagabunda” e “vadia”. Nada em relação, porém, pode ser feito. Na condição de mulher, parlamentares estão acostumadas a serem agredidas com ofensas machistas quando, de alguma forma, desagradam. Uma vez a deputada estadual Lêda Borges (PSDB) me contou que, na época em que era prefeita de Valparaiso de Goiás, vereadores da oposição diziam que os da base decidiam seus posicionamentos com um cruzar ou descruzar de pernas da peessedebista.

Ela também esteve no centro de uma polêmica que tomou a Assembleia Legislativa de Goiás no início da Legislatura de 2019. O deputado Amauri Ribeiro (PRP) disse à imprensa, recentemente, que muitos deputados contratavam mulheres para cargos comissionados para que ficassem “à disposição” dos parlamentares.

A declaração gerou revolta na Casa e a primeira sessão do ano foi marcada por protestos de servidoras, que pediam por respeito. Vestidas com camisetas que diziam “sou servidora da Alego, me respeite”, Lêda e a deputada Adriana Accorsi (PT) – as únicas mulheres eleitas no Legislativo goiano – apoiaram o movimento.

Na internet, foi a vez delas serem alvo de agressões. Em comentários de matérias publicadas nas redes sociais, pessoas escreviam que o deputado havia se referido a “mulheres bonitas”, entre outras coisas piores que não cabe aqui reproduzir.

Queria poder dizer que “são tempos difíceis para ser mulher ou negro”, mas a verdade é que sempre foi. Pode ser que esse comportamento tenha sido engatilhado nos últimos tempos, com a polarização que se criou no Brasil, colocando os Direitos Humanos, em essência apartidário, do lado da esquerda e, assim, criando “inimigos direitistas”. Não dá para dizer com certeza.

O fato é que há um mito de que os poderosos estariam blindados desse tipo de agressão. Sim, os menos privilegiados sofrem mais. Mas o ponto é que, quem discrimina não vê paletó ou posição, vê a condição que subalternizou, por anos, negros, mulheres, indígenas, a comunidade LGBT, entre outros. Ninguém está imune e, no Poder, a intolerância se escancara.

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