A hegemonia que matou a cultura brasileira

Onda de esterilidade da criação literária e artística dura até nossos modernosos, violentos e tecnotrágicos dias

Fluxos de criatividade mais ou menos recentes ocorreram por volta de 1935, no chamado ciclo nordestino da cana de açúcar, com obras de José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz. Fotos: Wikimedia Commons

Brasigóis Felício
Especial para o Jornal Opção

A hegemonia cultural da esquerda, exercida sobre o Brasil, durante os últimos 30 anos, teve um efeito devastador.

Refletiu-se de modo destrutivo e esterilizador da criatividade original e autêntica (não a que se coloca como agente de propaganda), com efeito mais visível e evidente na cena da imaginação literária.

O fenômeno ressalta aos olhos de qualquer analista desmotivado de paixão ideológica. Sua força agiu com mais vigor após os anos que seguiram-se ao que chamaram e chamam até hoje de “Golpe Militar de 1964), que não foi só militar, visto que teve a participação de lideranças políticas civis, inclusive de integrantes do Congresso Nacional.

Em verdade tratou-se de um movimento cívico-militar, instaurado em reação de crescente e avassaladora esquerdização de toda a cena política, englobando sindicatos, universidades – toda a intelectualidade e o jornalismo envolvidos.

Os fluxos de criatividade literária mais ou menos recentes que antecederam o movimento cívico-militar de 64 ocorreram por volta de 1935, no chamado ciclo nordestino da cana de açúcar, com obras de José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz.

 Datam deste período os romances mais importantes produzidos pela moderna literatura brasileira. De José Lins do Rego, “Menino de engenho”, O cangaceiro, Fogo Morto.

De Graciliano Ramos, o clássico Vidas secas, que na verdade é uma novela, Angústia (o melhor de seus romances) e Memórias do cárcere, que é memória ficcionalizada. Rachel de Queiroz entra com seu romance de estréia, “O quinze”.

Fora deste ciclo, é claro, paira a figura canônica de Euclides da Cunha, com “Os sertões”, e o clássico e impactante Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, que influenciou toda uma estética, não só literária. Quanto ao modernismo de 22, advindo com a famosa “Semana de Arte Moderna”, que prometia enterrar a cultura passadista, foi mais um pastel sem recheio.

Muita ventania retórica, povoada por manifestos pós-tudo, que prometiam um novo tipo de nacionalismo patropi, com direito a explosões de imaginação delirante, a exemplo de Juca Pirama e Cobra Norato; sem falar nos poemas-piada, uma espécie de estética do chiste, em que embarcou gente inegavelmente talentosa, como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, em tempo mais adiante, daquele em que Mário e Oswaldo de Andrade pontificavam, dividindo o panteón e a glória de serem corifeus e gurus.

Tão guru ele foi que pretendeu lançar uma nova língua, o estranho dialeto que colocou na boca de Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, que acabou tendo sua imagem associada à preguiça e malandragem que fariam parte da alma ou caráter dos brasileiros em geral.

Nova estranha língua que em verdade ninguém falava, se é que em algum tempo ou lugar, algum vivente plumitivo alguém a tenha gungunado. Desconhecida até mesmo em erma tribo de nativos da Amazônia, de onde ele extraiu o mito alimentador da sua ficção ligeira, concebida em pouco mais de um mês, de ócio criativo, na fazenda de um amigo dele.

Acabou prevalecendo a liderança de Mário de Andrade, um espécie de faz-tudo do movimento modernista, poeta, músico, orientador de escritores em ascensão renomados até, como Fernando Sabino. Ademais disto, Oswaldo era, digamos, “porra-louca” por demais, para habilitar-se a ser líder do que quer que fosse.

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Porém estes dois, Mário e Oswald de Andrade, são anteriores ao período que se intenta focar neste texto: aquele em que a produção literária engajada na resistência à ditadura e na visão marxista do mundo e das coisas marcou a cena literária, artística e cultural como um todo.

Jorge Amado é o nome de maior repercussão e destaque, menos pela qualidade literária de seus romances, todos vinculados à estética do realismo socialista, em que personagens populares são endeusados.

A máquina de propaganda internacional do Partido Comunista cuidou de torná-lo um autor de prestígio internacional, sendo o mesmo traduzido em quase todos os países do Ocidente. 

Fora do ciclo nordestino da cana de açúcar, na ficção urbana, foram destaques Clarice Lispector, com A maçã no escuro, Perto do Coração Selvagem da Vida, O lustre.

Lúcio Cardoso produziu Crônica da casa assassinada, que considero o melhor romance brasileiro no gênero drama com viés de psicologia abissal. Octávio de Faria veio na mesma linha, com uma ficção voltada para a sondagem da angústia existencial, digamos, “burguesa”.

Gustavo Corção, um estilista primoroso, no romance e na crônica, sendo também um pensador católico atuante e dos mais conhecidos, talvez o único não esquerdista com espaço em redação de jornal (assinava uma apreciada crônica, nas páginas do jornal O Globo) começou a incomodar. Talento genuíno tem dessas coisas. Produz inimigos gratuitos à volta.

Logo perdeu seu espaço no jornal, editoras deixaram de publicar sua ficção de excelente qualidade, que está fora de catálogo e à espera de reedições, até hoje. Igual condenação ao limbo e ao esquecimento foi imposta aos poucos que, como ele, na imprensa ou em seus livros, defendiam ideias e ideais, digamos, conservadores – qualificados então de pequeno-burgueses, ou reacionários.

Até hoje permanecem condenados ao esquecimento. Jamais foram reabilitados. A hegemonia cultural esquerdista continuou moendo talentos.

Dentre os autores que, já no pós-64, Tiveram obras de maior qualidade, na produção literária abertamente engajada à ideologia marxista, destacaram-se: Antonio Callado, e seu romance “Quarup”. O mais abertamente engajado, embora tenha escrito outros, como Bar Don Juan. Raduan Nassar, com ficção de viés existencialista, foi uma espécie de cânone da ficção, destacando-se com dois títulos: “Lavoura arcaica” e “Um copo de cólera”, este sendo levado ao cinema.

Não obstante o sucesso de público e crítica, este autor decidiu deixar de ser escritor, preferindo ir criar galinhas – mais tarde, ao retornar de seu autoexílio na sua fazenda, mesmo ainda em silêncio literário, revelou-se um feroz defensor e apoiador dos malfeitos da esquerda e do lulopetismo.

Talvez o mais importante de todos os nossos romancistas, com sua trilogia “O tempo e o vento” passar  a existir no imaginário do povo dos pampas, foi certamente Érico Veríssimo. Porém, esta não foi sua única obra digna de entrar no cânone literário brasileiro. Continuou produzindo e publicando ficção de qualidade – embora sem atingir o patamar alcançado por sua trilogia famosa.

Lygia Fagundes Teles, autora de “As meninas”, é também autora de produção de sustança, em contos e romances. O mesmo se diga de Lya Luft E Hilda Hilst.

Não conseguiram fazer com Érico Veríssimo a estratégia de destruição que impuseram a outros intelectuais e escritores da sua envergadura. O mesmo acontecendo com Autran Dourado, de “A Ópera dos mortos”. Com tutano criativo e verdade de estilo suficientes para resistir à imposição limitadora e esterilizadora do “politicamente correto” daqueles tempos.  

Carlos Heitor Cony, um jornalista que resistiu corajosamente ao movimento de excessão pós-64, foi um autor importante, no período. “Pessach: a travessia”, é seu livro de maior impacto. “Matéria de memória”, já em uma linha mais existencialista, é outro título que teve boa acolhida de público e crítica. João Ubaldo Ribeiro é autor que não pode deixar de ser lembrado.

Do grupo de músicos, escritores e artistas plásticos ligado a Jorge Amado, começou na sua sombra, mas depois ganhou voo próprio, tendo se colocado acima do mestre e protetor que idolatrava. Seus romances “Viva o povo brasileiro” e “Sargento Getúlio” são suas obras relevantes. Sendo que este último virou filme, protagonizado por Lima Duarte.  

O ter sido sempre fiel ao grupo baiano de origem, embora nas suas crônicas de jornal conservasse alguma independência crítica, garantiu-lhe estabilidade na cena editorial – assegurou-lhe tranquila margem de tranqüilidade na sobrevivência.

Na poesia foram destaques, no período em que a Editora Civilização Brasileira, do comunista Ênio Silveira, recebia financiamento público para publicar sua interminável galeria de autores marxistas: Ferreira Gullar, João Cabral de Mello Neto, Thiago de Mello, Geir Campos, Moacyr Félix, Afonso Romano de Sant´anna.

De lá para cá, aconteceu o dilúvio da mediocridade posta a serviço de um discurso ideológico único: o da glamurização da esquerda, exercido em parceria com a vitimização de seus protagonistas atingidos de algum modo, pela repressão às ações armadas, de oposição ao regime militar.

O imaginário das classes falantes no Brasil atual – vindo este processo desde 1968, o ano que não muitos não querem enterrar – está voltado única e exclusivamente à expressão dos desejos, conflitos e dramas existenciais ligados às pautas politicamente corretas, tais como: vitimização das ações “revolucionárias” das esquerdas, feminismo, gaysismo, racialismo, etc.

Na estranha, penetrante e avassaladora distopia sócio-cultural em curso, alienados vocacionais e semi-débeis mentais dão-se ao direito de definirem-se a si próprios como defensores da liberdade intelectual. Sendo que esta tão louvada “liberdade crítica” só tem sido exercida para a propaganda ideológica de esquerdismo infantil, sem ao menos querer tentar alguma abordagem séria da complexidade da vida social brasileira atual. 

No teatro, apenas o indispensável e clássico Nelson Rodrigues, o único autor declaradamente “reacionário” ou de “de direita”, sobreviveu à longa fase da hegemonia cultural da esquerda (fase que parece não querer terminar, como o tão falado ano de 1968 – dura até os dias atuais). Pontificaram neste período auto-proclamado de “resistência à ditadura militar”, o declarado marxista Augusto Boal, Paulo Pontes Chico Buarque (Gota d´agua) e Vianinha, Plínio Marcos, Ariano Suassuna, com sua estética fundadora do “Movimento Armorial”, Ascenso Ferreira, Marcus Accioly, Wally Salomão (poeta e letrista da MPB).

Todos ou quase todos direta ou indiretamente ligados à estética e à visão de mundo esquerdista, com temas ligados à libertação do povo e da “classe operária” pela conscientização (leia-se: marxismo cultural gramcista, posto em prática já nos anos 20, na Rússia, por Stálin) com reflexo e atuação decisiva inclusive na Educação, via Paulo Freire e a sua “Pedagogia do oprimido”, famosa embromação marxista (descaradamente plagiada, como hoje se sabe, embora ninguém fale ou divulgue: cuidam de preservar a santidade e o mito da figura messiânica e barbuda.

O goiano José J. Veiga, com seus romances “A Máquina Extravida” e “A Hora dos Ruminantes”, costuma e merece entrar nesta lista de autores de impacto, mais pelo equívoco ou má consciência de alinhar sua ficção à literatura de oposição ao regime militar. Coisa que ele absolutamente jamais admitiu.

Talvez tenha sido colocado nesta vertente front ou “participante”, jargão useiro e vezeiro “Naqueles dias de Vasabarros” pela própria hegemonia cultural da esquerda, que buscava ter “combatentes” em sua luta ideológica.

Na ficção urbana também foram bafejados pela máquina de propaganda autores como José Louzeiro, (ligado ao Partido Comunista). Com suas obras de apologia a bandidos renomados, como Lúcio Flávio. Até mesmo o novelista Aguinaldo Silva começou como ficção desta onda de glamourização da bandidagem.

Na área musical, a Bossa Nova foi considerada démodé. Coisa do passado. Teve início a ascensão dos novos astros, com o Festival Nacional e Internacional da canção revelando novos talentos, para o delírio das massas. Surgem Caetano Veloso, Maria Betânia, Gilberto Gil, Chico Buarque, Geraldo Vandré. Não se falava mais em Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

O cinema também passou pela patrolagem da nova estética, tornada oficial, embora com viés ideológico abertamente contra o regime militar. O qual, mesmo sendo chamado de ditadura, permitia que filmes, festivais de música, editoras de livros, jornais e revistas andassem de velas enfunadas, com maioria absoluta de esquerdistas à frente.

Surge a estética do “cangaço politizado”, de viés messiânico e por vezes em estranha mistura com o western espaguetti, a exemplo de “Deus e o Diabo na terra do sol”; “Terra em transe”, com Jardel Filho, Paulo Autran e Paulo Gracindo, com discurso apocalítico e delirante, de feroz engajamento em ideais de populismo carismático, abriu a série do cinemão político.

P.S. Indo já para o fim, visto não haver espaço na imprensa goiana e brasileira para reflexões deste tipo, isto é, “politicamente incorretas”, lembro as contribuições ficcionais de Oswaldo França Junior, de Nélida Pinõn e do gaúcho Carlos Nejar, na poesia.

O também gaúcho Mário Quintana, uma das vozes de maior aceitação popular (sem que para ela a crítica empoderada faça beicinhos de rebarbativo desprezo) mas ele escapou deste viés ideológico proativo e propagandístico.

Não subordinou sua lírica ao discurso engajado à ideologia cultural de viés marxista, que coloriu de vermelho toda a produção do período 64 – ciclo que não foi interrompido nem com a entrega do poder aos civis, após a eleição de Tancredo Neves, e posse de José Sarney.

A onda de esterilidade da criação literária e artística dura até nossos modernosos, violentos e tecnotrágicos dias.

De lá para cá, observada a cena cultural, literária e artística, ressalvadas algumas raras e passageiras exceções, o que se viu foi o dilúvio. 

Um tsunami de mediania de viés existencialista, um vazio barulhento e empostado, alavancado pela indústria da bajulação mútua, azeitado pelo compadrio, fazendo atual e de perene a frase: “A história da literatura é a história das amizades”.

Não surgiu neste largo espectro temporal sequer uma personalidade criadora, capaz de dar voz à vasta gama de temas universais, profundamente humanos, que dariam muitos romances, poesia, teatro, música e cinema, merecedores de permanência e lembrança. Porém, existindo talento para tal façanha, cadê coragem?

* Brasigóis Felício é escritor e jornalista.

 

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Clecio Filho

Pastel sem recheio. Excelente.

pablo tavares

Este texto só não é pior que o discurso do novo chanceler brasileiro, Ernesto Araújo… todo desconectado e mal feito…