A esquerda não é woke, garante a filósofa Susan Neiman
19 setembro 2026 às 21h00

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Marina Teixeira da Silva Canedo
Especial para o Jornal Opção
Susan Neiman (1955) é uma das mais influentes filósofas da atualidade. Nasceu em Atlanta, na Geórgia, EUA, onde participou de movimentos ativistas em defesa dos direitos humanos e pela paz e justiça. Seu livro “A Esquerda não é Woke” (Âyiné, 200 páginas, tradução de Rodrigo Coppe Caldeira) já revela, no título, a que veio. Veio para esclarecer quais são os verdadeiros fundamentos do movimento progressista bem como as falsas concepções que desvirtuaram os reais objetivos para o qual foi criado.
O termo woke (acordado ou despertar) tem dado sentido a uma corrente de pensamento dentro do contexto político que define as lutas e pautas progressistas em favor de determinados grupos minoritários em uma sociedade, e que sofrem discriminação. Esses grupos têm recebido apoio dos movimentos de esquerda, em várias situações.
Mas, segundo a autora, a esquerda nasceu da ideia de universalismo, que engloba a solidariedade internacional, independentemente da divisão entre nações, etnias, religiões, línguas ou outro fator. O que deveria unir as pessoas seria não o sangue ou a identidade de gênero, mas uma questão mais humana e global, que é o senso e a prática da justiça.

Os princípios universalistas surgiram do movimento iluminista e agregaram novos valores, com o passar do tempo e das mudanças socioeconômicas e filosóficas.
Woke é chamado de identitarismo. O problema do identitarismo é a redução da identidade a apenas duas dimensões do ser humano: a identidade étnica e a de gênero. A cor ou etnia são encaradas de formas diferentes, de acordo com o lugar que ocupam no mundo
Susan Neiman dedica boa parte do livro para descrever as ideias do escritor e filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) e de Carl Schmitt (1988-1985), filósofo alemão, e destaca que ambos se tornaram simpáticos aos pensadores progressistas por compartilharem hostilidade em relação ao liberalismo. Outro aspecto que os unia era a distinção que faziam entre poder e justiça, fato esse nem sempre claro nos conceitos filosóficos em geral.
Mas o movimento woke pode ser definido como a preocupação com as pessoas marginalizadas. No entanto, ao se dedicarem ao tema, acabam reduzindo os grupos marginalizados apenas à sua própria identidade, transformando-os em grupos específicos que lutam individualmente pelo poder, afastando-se do todo social. E esse não é o escopo filosófico do pensamento universalista. Sendo assim, o movimento woke não corresponde aos fundamentos filosóficos e humanísticos do movimento universalista, que foi o que orientou o pensamento esquerdista.

O woke é o oposto do universalismo, e é chamado de “identitarismo”. O grande problema do identitarismo é a redução da identidade a apenas dois aspectos ou dimensões do ser humano: a identidade étnica e a de gênero. A autora demonstra como a cor ou etnia são encaradas de formas diferentes, de acordo com o lugar que ocupam no mundo, países, ou a cultura a que pertencem.
Os afro-americanos passaram a ser objeto dos woke, e a vitimização tornou-se no principal motivo do movimento. A escravização, no passado, deu lugar à demanda por reparação pelo Estado aos descendentes dos escravizados. Até a terminologia, como vocabulário, foi adaptada aos novos tempos e orientações do movimento, também chamado de tribalista.
A apelação ao sofrimento de certos grupos étnicos passou a ser afirmada. Não se discute a necessidade da reparação, e sim a categoria que se criou — a de vitimizados. Criou-se uma nova categoria: o que era marca negativa passou a ser nova forma de status
Regras foram criadas para orientar o uso e o não uso de certas expressões. E ai de quem as infringe. Nos dias atuais, dificilmente você lerá artigos, de caráter sociológico ou histórico, em que as expressões “decolonialismo”, “ressignificação”, “lugar de fala” não permeiem suas páginas.

Entre os judeus também se deu esse movimento. Com muita justiça, a Alemanha foi punida pelos sofrimentos impingidos a eles, desde a década de 1930 até o fim da segunda guerra mundial.
O sofrimento do povo judeu foi reconhecidamente atestado, em consenso mundial, e os judeus tratados como vítimas de um processo discricionário, com finalidade de extermínio.
A apelação ao sofrimento de certos grupos étnicos passou a ser afirmada e a ser exigida a reparação. Não se discute a necessidade da reparação. O que se discute, segundo Susan Neiman, é a categoria que se criou, ou seja, a de vitimizados, geralmente a longo prazo. Criou-se assim uma nova categoria de prestígio, e o que era uma marca negativa passou a ser uma nova forma de status.
Não resta dúvida que os movimentos woke proporcionaram a valorização e visibilidade de grupos oprimidos. Isso é bom. Mas a autora esclarece que o pensamento de esquerda deve retomar seus rumos originais.
A esquerda precisa entender o que é poder e justiça. Segundo Susan Neiman, “a insistência de que o poder é a única coisa que move a sociedade anda de mãos dadas com o desprezo pela razão”. Se não compreender isto, a esquerda vai perder influência na sociedade
Segundo Susan Neiman, a esquerda deve voltar a três princípios essenciais, que foram abandonados: compromissos com o universalismo, distinção entre poder e justiça e a possibilidade de progresso.

É um repto importante, pois alerta a esquerda a não se perder pelos caminhos, muitas vezes mal interpretados do que é poder e justiça, como ocasionalmente tem acontecido, o que provoca equívocos que repercutem em seu objetivo final e naquilo que a sociedade anseia.
Segundo a autora, “a insistência de que o poder é a única coisa que move a sociedade anda de mãos dadas com o desprezo pela razão”.
A reavaliação da história trouxe questionamentos sobre valores. O decolonialismo e a retirada da visão eurocêntrica proporcionaram uma nova paisagem histórica.
Muitos monumentos têm sido derrubados, como sinal de protesto no mundo todo.
Em Goiânia, Goiás, há um movimento para retirar o monumento ao Bandeirante, localizado na confluência das avenidas Goiás e Anhanguera, inaugurado em 1942 com pompa e circunstância, e que representa Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, fundador de Vila Boa, antiga capital de Goiás, e tronco de enorme família goiana.
Resta saber o que iria substituí-lo, e também aos demais, derrubados pelo mundo afora em nome do politicamente correto. E a Avenida Anhanguera? Mudaria de nome, com as demais alusões a Bartolomeu Bueno, o Anhanguera?
Não nos esqueçamos que a sociedade humana, ao longo de todo o seu curso, foi construída com erros e acertos. Muitos erros eram considerados acertos, até que o tempo, senhor do conhecimento e da verdade, veio provar seu caráter equivocado. Há, porém, erros que já nascem carimbados pela Besta na pia batismal.
Marina Teixeira da Silva Canedo, poeta e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.


