A comissão Cruls e as potencialidades da agricultura do planalto goiano

Em “Planalto Central do Brasil” (Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1957), o cientista belga descreve fatores favoráveis, tanto à implantação da capital federal, quanto do desiderato de uma agricultura pujante no futuro, na região goiana

A Comissão Cruls posa para uma foto em Pirenópolis | Foto: H. Morize/Reprodução

 

Nilson Jaime*
Especial para o Jornal Opção

No século 20, vários autores evocaram as potencialidades da agropecuária goiana, como Couto de Magalhães e Alencastre, dentre outros. Poucos tiveram, contudo, a clarividência do astrônomo e geodesista belga Louis Ferdinand Cruls – conhecido como “Luiz Cruls” – e de sua Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil.

Em sua obra “Planalto Central do Brasil” (Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1957. 333 páginas) – cuja versão em capa dura da Coleção Documentos Brasileiros, nº 91, encontrei por um golpe de sorte e por uma ninharia, no Sebo do Messias, próximo da Sé, capital paulista -,  o cientista descreve um pouco dos fatores favoráveis, tanto à implantação da capital federal, quanto do desiderato de uma agricultura pujante no futuro, na região goiana.

A denominada Comissão Exploradora do Planalto Brasileiro, conhecida como “Comissão Cruls”, foi formada a 17 de maio de 1892 para a consecução de “demarcar uma área de 1.440 quilômetros quadrados no Planalto Central do Brasil, a fim de instalar a futura capital da nação brasileira”. O Relatório dos trabalhos foi publicado em dezembro de 1894.

Chefiada por Luiz Cruls, a Comissão era composta por 22 membros, incluídos dois astrônomos (J. de Oliveira Lacaille e Henrique Morize, também fotógrafo), um médico (Pedro Gouveia), um médico-higienista (Antônio Martins de Azevedo Pimentel), um farmacêutico (Alfredo José Abrantes), um geólogo (Eugênio Hussak) e um botânico (Ernesto Ule); um mecânico (Eduardo Chartier) e um ajudante de mecânico (Francisco Souto), para a manutenção dos equipamentos científicos; um comandante de contingente (Pedro Carolino Pinto de Almeida) e dois alferes do contingente, Joaquim Rodrigues de Siqueira Jardim e Henrique Silva, este último, futuro editor da Informação Goyana, importante revista mensal de caráter técnico-científico publicada no Rio de Janeiro (de 1917 a 1935) “sobre as potencialidades do Brasil Central”. Completava o grupo quatro auxiliares e três ajudantes.

Na formação original do grupo não é citado o engenheiro mecânico e botânico francês Auguste François Marie Glaziou, conhecido como A. Glaziou (“O botânico do Rei”) que, entretanto, viajou por cerca de 700 quilômetros com o grupo, sendo o responsável pelo endosso do Relatório de Cruls, através de uma carta ao chefe da missão (p. 53-57), na qual reforça a importância da região escolhida pela Comissão.

Glaziou recolheu mais de 10 mil amostras de plantas no Planalto Central, cujas exsicatas foram distribuídas por vários museus do Brasil e da Europa, acervo felizmente digitalizado. Muitos dos espécimes botânicos prensados por Glaziou foram destruídos no incêndio do Museu Nacional, cujos jardins da antiga Quinta da Boa Vista, onde se localiza essa fatídica e centenária Casa de Cultura, foram projetados pelo botânico francês.

Todas as 206 caixas e fardos, pesando 9.640 kg, foram transportadas de trem, da capital, Rio de Janeiro, de onde partiram em 29 de junho de 1892, a Uberaba, tendo seguido em lombos de animais cargueiros até Pirenópolis. Na indumentária dos estudiosos seguiam teodolitos, sextantes, círculos meridianos, micrômetros de Lugeol, lunetas astronômicas, heliotrópios, cronômetros, relógios, barômetros de Fortina, aneroides, bússolas, podômetros, instrumentos meteorológicos e material fotográfico.

A caravana chegou a Pirenópolis em 1º de agosto de 1892. A icônica foto em frente à jabuticabeira foi tirada no dia da chegada do grupo à residência onde se hospedou, na Rua Direita, hoje um museu particular pertencente ao espólio de Olímpio Jaime. Na centenária casa rosa, da antiga Meia-Ponte, consta uma placa assinalando a permanência da ilustre Comissão, cujo trabalho técnico mudaria a história do Centro-Oeste, quiçá do Brasil.

A Comissão realizou importantes estudos geográficos, botânicos e geológicos. Entre seus feitos, está a definição da distância de diversas cidades goianas ao Rio de Janeiro e suas altitudes. O Pico dos Pireneus (foto) por exemplo, cuja altitude foi definida pela Comissão como 1.395 metros acima do nível do mar, era tido até então como “o mais alto do Brasil”, com aproximadamente 3 mil metros, informação errônea atribuída ao padre Des Genettes (p. 80) e reproduzida por outros estudiosos da época.

A Comissão Cruls no alto dos Pireneus. Ao fundo, o Morro Cabeludo | Foto: H. Morize/Reprodução

Naqueles tempos a agronomia era oficio de botânicos e geólogos, profissões mais afins com a agropecuária, já que a Esalq/USP – escola de Agronomia mais tradicional do País – só seria criada em 1901. Assim, coube ao botânico Glaziou o parecer final sobre a viabilidade técnica do “Quadrilátero Cruls”, região onde seria instalado o Distrito Federal e construída Brasília, com argumentações sobre água, sistema orográfico, solo, clima, vegetação e potenciais logístico e agrícola (que bem caberiam no parecer de um Engenheiro Agrônomo ou de um arquiteto, daí a algumas décadas).

Coincidentemente, apenas três anos após a inauguração de Brasília (1960) – cujas ruas do traçado urbano foram abertas pelo Engenheiro Agrônomo Bernardo Sayão (1901-1958), superintendente da Novacap (1956-57) – tiveram início as aulas da Estrela do Cerrado (1963), que foi criada oficialmente em 1966 e reconhecida pelo MEC em 1969. Assim, as criações de Brasília e da EA/UFG são contemporâneas, bem como o progresso que proporcionaram a Goiás e à Região Centro-Oeste.

O parecer de Glaziou é repleto de nuances poéticas e remete à riqueza aquífera e à vegetação natural: “Esta planície imensa, de superfície tão suavemente sinuosa, é riquíssima de cursos de água límpida e deliciosa que emanam da menor depressão do terreno. Essas fontes, como os grandes rios que regam a região, são protegidos por admiráveis capões aos quais nunca deveria golpear a machada do homem, senão com a maior circunspecção. São magníficos de verdura os pastos e certamente superiores a todos os que vi no Brasil Central” (p. 53).

O estudioso relata a fertilidade do solo e o anelo pecuário: “Em consequência da constituição geológica do solo, não é absolutamente fértil a totalidade do território, porém as localidades desprovidas dessa qualidade são cobertas de excelentes espécies de gramíneas, principalmente dos gêneros “Paspalum” e “Panicum”. A essas ervas espontâneas é que a região deve a superioridade do gado vacum e de seu produto laticínio, certamente igual aos melhores da Europa. Eis a razão por que a criação do gado, que não acarreta senão desembolsos mínimos, será indubitavelmente a indústria agrícola mais vantajosa do País” (p. 53-54).

Na República incipiente, o eminente “botânico do Rei” relata ainda as expectativas horti-frutícolas da região: “À margem dos rios, dos bosques, assim como das inúmeras cabeceiras, existem ainda vastos terrenos aptos para o cultivo de muitas espécies de árvores frutíferas dos climas temperados, tais como as pereiras, as macieiras e as figueiras, etc., e principalmente a vinha, cujo futuro é garantido por todas as condições que a propriedade exige”.

E justifica o fator clima como propício à viticultura: “A estação aqui chamada – fria – que corresponde ao tempo seco, dá simultaneamente lugar à queda de folhas, exatamente como na Europa sucede no inverno, obstando o movimento da seiva, e impõe ao vegetal uma inação indispensável à maturidade dos galhos novos para a frutificação vindoura. A ser lícita a esperança da prosperidade das árvores frutíferas, não é menos fundada a de todos os legumes indispensáveis ao consumo diário” (p. 53).

Glaziou fala do sistema orográfico e da topografia plana (“de 1 a 5%”), características também salientadas por Luiz Cruls. O chefe da Comissão ressalta a riqueza de águas e a feliz coincidência de a região ser o nascedouro de três das principais bacias hidrográficas brasileiras: a do Tocantins (Amazonas), do Paraná e do São Francisco. “Nutrimos pois a convicção de que a zona demarcada apresenta a maior soma de condições favoráveis possíveis de se realizar, e próprias para nela edificar-se uma grande capital, que gozará de um clima temperado e sadio, abastecida com águas potáveis abundantes, situada em região cujos terrenos, convenientemente tratados, prestar-se-ão às mais importantes culturas, e que, por um sistema de vias férreas e mistas convenientemente estudado, poderá facilmente ser ligada com o litoral e os diversos pontos do território da República” (p. 53).

Às vezes o leitor se perde, não distinguindo se os cientistas se referem ao local para a instalação da futura capital, ou se falam de áreas para empreendimentos agropecuários vindouros, já que as principais argumentações do estudo se referem aos fatores clima-água-solo.

É inegável que a construção de Brasília trouxe grande desenvolvimento econômico, social e logístico a Goiás. A agropecuária goiana usufrui desses benefícios, desde então. É sabido que a região de Brasília e seu Entorno, por sua altitude, topografia e clima, tornou-se uma das mais promissoras fronteiras agrícolas do País. Culturas como soja, café, batata, cebola, ervilha, feijão, frutícolas e dezenas de outras, em áreas irrigadas ou de sequeiro, são cultivadas em Formosa, Luziânia, Cristalina, Unaí e Paracatu (MG), por exemplo. Em cada um desses municípios, há engenheiros agrônomos formados e, ou, pós-graduados na Estrela do Cerrado, a Escola de Agronomia da UFG. São profissionais que tornam realidade, a cada dia, o sonho de Luiz Cruls, de Glaziou e dos membros da Comissão Cruls.

*Nilson Jaime é mestre e doutor em Agronomia, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), cadeira nº 6, prepara o livro “Estrela do Cerrado: a Escola de Agronomia da UFG”

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