A breve ausência do editor Antônio Almeida

Ele está acamado, mas lúcido e esperançoso de voltar à sua cadeira de editor, não permitindo que a dor ataque sua constelação de amigos e o coração das letras goianas

Gabriel Nascente

Há pessoas neste planeta que poderiam nem ter nascido para serem nossas amigas. É como se já os fossem. Do acaso para a vida, e desta para o real, onde se encarnam conspícuos a nós. É uma coisa mágica, fascinante, o significado deste fenômeno, entre pessoas. E elas nunca pedem licença para chegar, invadem as nossas vidas e vão entrando de modo tal que a gente vai, aos poucos, se afeiçoando a elas, sem darmos conta da extensão do afeto que brota nos atraindo para o vínculo fraternal.

Mas na ciranda desta convivência tem o honesto e o desonesto. O invejoso e o bajulador. O virtuoso e o traidor. E tem, também, aquele que veio para ficar, ou aqueles, dando provas de que é maior do que as nossas mesquinharias egoístas, permanecendo inabalavelmente firmes no platô de suas virtudes: a de serem amigos sem cobrar recibos.

Para o filósofo do Absurdo, que buscava a razão do viver entre a miséria e o sol, Albert Camus (consagrado Prêmio Nobel de Literatura de 1957): “Há mais coisas a admirar no homem do que a desdenhar”. E por este princípio eu aprendi outro princípio, a buscar, na convivência social com as pessoas que me circundam, o que elas tem de bom, em matéria de  solidariedade e caráter (predicados, aliás, quase ficcionais, inexistentes) no meio do atual sistema de sociabilidade humana. A guisa do que, eu repriso aqui, enfaticamente, as palavras de William Shakespeare, colocadas por ele na boca do general conspirador Marco Antônio, na peça teatral “Júlio César”: “O mal que os homens fazem sobrevive a eles. O bem, quase sempre se enterra”.

Antônio Almeida: publisher da Editora Kelps | Foto: Reprodução

Descortinava-se, toda eufórica, sobre a ludovica Goiânia de Pedro, a década de 1980. E a indústria do livro em Goiás andava praticamente órfã de editores, com o desaparecimento da Editora Oriente, dos irmãos José Modesto e Taylor Oriente, por puro desmazelo administrativo e financeiro, e excesso de quixotismo em suas publicações goianas. Assim ruiu-se o belicoso império gráfico da intelectualidade goiana.

Mas como tudo neste planeta é de luz efêmera, e de (vita brevis), a família dos irmãos Almeida, lá do berço das abóboras, do Sudoeste goiano Rio Verde, transferiu-se para Goiânia, onde, aqui, a peito e na raça, fundou a Editora Kelps, que hoje desfruta de afamado prestígio de ser a estrela referência do livro goiano, e quiçá de todo o país.

Naqueles dias de prelúdio às lides da nova empreitada, na capital goiana, eu conheci o arrojado empreendedor Antônio Almeida, instalando os primeiros passos de seu encorajado sonho, no mercado industrial do livro. E, de cara, o Tôim foi solícito comigo, topando, a qualquer custo, a publicar livros meus. E mais do que o elo que nos uniu no ramo gráfico desses negócios, tornando-nos amigos. Boas pencas de janeiros amadureceram o fruto desta amizade. Eu, cá comigo, não posso me esquecer jamais que, por inúmeras vezes, o Antônio me estendeu a mão de sua solidariedade.

A Editora Kelps conta hoje, em seu acervo bibliográfico-editorial, com a avultada soma de mais de 5 mil títulos publicados, ao longo de sua trajetória. São tripulantes desta oficina de livros os seus valorosos irmãos Raymundo Barros, Waldecy A. Barros e José Barros. Antonio Almeida já excursionou também na lavra da escrita. É autor dos livros “Viagens ao Araguaia” e “Movimentos Culturais em Goiás” e “Longas Travessias pelos Sertões de Goiás”.

Agora, o nosso valente e querido Antonio da Kelp, está acamado, mas lúcido e esperançoso de voltar logo à sua cadeira de editor, não permitindo que a dor ataque a sua enorme constelação de amigos, e principalmente o coração das letras goianas. Força, amigo! Tu vencerás.

Gabriel Nascente é cronista do Jornal Opção. E-mail: [email protected]

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