1967: o ano que morreu… e se revira no túmulo

A Tropicália tinha como objetivo uma revolução cultural, pretendia abalar as instituições em uma época que facilmente se tornavam símbolos de opressão

Membros do movimento tropicalista, iniciado no fim dos anos 1960, tendo à frente Caetano Veloso e Gilberto Gil, no centro da imagem

André Luiz Pacheco da Silva
Especial para o Jornal Opção

No Brasil, a música po­pular não é o que se co­nhece por MPB en­quanto gênero definido no milênio passado. O funk e o sertanejo universitário são o que há de mais popular na TV, nas rádios, nas baladas, na Internet. Imbatíveis, dominam a indústria fonográfica. A possibilidade de existir inúmeros estilos e gêneros musicais na cultura brasileira é, sem dúvida, uma contribuição da Tropicália. No entanto, é indiscutível que no meio do caminho houve uma perda colossal no que diz respeito à estética, capacidade criativa estilística e poética.

Na década de 1960, a televisão brasileira vivia a era dos festivais musicais. Em outubro de 1967, no Teatro Paramount, sob a produção de Solano Ribeiro e aval de Paulo Machado de Carvalho, ocorreu a final da terceira edição do Festival da Música Popular Brasileira da TV Record que evidenciou a aurora tropicalista.

Em plena ditadura militar, com uma plateia fervorosa à disposição e muitos pontos de audiência, era um ambiente propício para a consagração de nomes da música brasileira, mas para alguns jovens representava uma oportunidade para algo mais ousado: um movimento artístico de vanguarda. Eventos recentes dariam o tom do momento.

Antes da grande final, no dia 17 de julho, a partir de um discurso nacionalista endossado pelo movimento estudantil de esquerda, artistas como Elis Regina, Chico Buarque, Zé Keti, Edu Lobo, Geraldo Vandré, entre outros, foram às ruas em passeata contra a guitarra elétrica. Tomado como símbolo do imperialismo cultural compreendido na imagem dos Beatles, o instrumento fora desprezado pelos medalhões da MPB. De outra perspectiva, havia quem torcesse o nariz para aquilo. Caetano Veloso e Nara Leão compartilhavam a ideia de que era tudo uma grande bobagem, da mesma forma que os adeptos do ié-ié-ié verde-amarelo, a Jovem Guarda. Assim, a maioria da classe artística se dividia. No entanto, não era a única.

Em 21 de outubro daquele ano, o público também tomava partido. Os finalistas do Prêmio Sabiá de Ouro – da terceira edição do festival – se apresentaram para um auditório que havia descoberto a arma mais temida pelos artistas: a vaia. E entre vaias e aplausos, o “Festival da Virada” aconteceu.

Um dos classificados era Sérgio Ricardo com a canção “Beto Bom de Bola”. Na hora H, decidiu apresentá-la com um novo arranjo. A plateia o recebeu com vaias ensurdecedoras que o impediram de tocar a música, apesar das tentativas. No calor do momento, Sérgio quebrou o violão e o jogou na plateia. Resmungando, saiu do palco. Era tudo o que Edu Lobo precisava. Sua música “Ponteio”, em parceria com José Carlos Capinam, tem no refrão versos que se conectavam diretamente com aquele evento. E foi cantando “quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar” que conquistou o prêmio maior da noite. Depois que os resultados finais foram anunciados, parecia que tudo voltaria à programação normal. O que ninguém imaginava é que a música brasileira jamais seria a mesma depois dos números daquela noite. Alguns momentos roubariam a cena.

Quando Caetano Veloso entrou com os cabeludos da Beat Boys, banda argentina de rock, ninguém entendeu nada. Os acordes da introdução foram acompanhados por fortes vaias. Era a primeira vez de Caetano como intérprete em um festival de música e sua estreia parecia fadada ao fracasso. Só parecia. Ali, sem lenço nem documento, citando a coca-cola em uma canção cujo título era um bordão de Chacrinha, Caetano Veloso foi do inferno ao céu quando viu as vaias se transformarem em aplausos. Neste cenário, os versos finais de “Alegria, Alegria”, quarta colocada, ecoaram: por que não?

Gilberto Gil entrou em pânico naquele dia e não foi ao Teatro Paramount. Foi preciso que o diretor da TV Record, Paulo Machado de Carvalho, fosse ao seu resgate. Na hora de se apresentar, entrou com uma orquestra sob regência do maestro Rogério Duprat e com Os Mutantes fantasiados. Para os mais conservadores, não foi fácil tragar aquela noite. Em um arranjo marcado por muita brasilidade, Gil cantou de forma cinematográfica o dramático desfecho de um triângulo amoroso. “Domingo no Parque” foi aplaudida e conquistou um surpreendente, porém merecido, segundo lugar.

Depois que grandes nomes da música tupiniquim haviam se reunido e cruzado as ruas de São Paulo em oposição à guitarra elétrica, ninguém acreditaria que em pleno festival de MPB, dois participantes levariam bandas de rock para acompanhá-los. Alguma coisa estava acontecendo. E tudo indicava que um movimento estava sendo organizado. Era a alvorada tropicalista.

Para os tropicalistas, assumir a cultura brasileira não significava rejeitar o que se constituía como cultura pop do mundo em globalização. A inclusão de diversos elementos de vanguarda, a referência a artistas antigos, o estilo próprio de cada um, tudo foi imprescindível para organizar o movimento. O banquete tropicalista e seu legado libertário são influência permanente na produção artística brasileira, ainda que sua referência não seja percebida por todos.

Cinquenta anos após a aurora da Tropicália, o que se produz em música popular raras vezes possui um discurso revolucionário, ou preocupação estética. Não há domínio da técnica, não há originalidade na proposta. A experiência musical propriamente dita é relegada ao segundo plano para responder a fórmulas industriais. Além disso, não se permite invenções muito agressivas ao estabelecido ou projetos experimentais mais audaciosos. Longe de querer estabelecer uma “ditadura do bom gosto”, o apelo é de resgatar o que a música popular perdeu enquanto arte: profundidade. Escravizada ao mercado, só se preocupa em vender, não em criar.

André Luiz Pacheco da Silva é estudante de psicologia e psicanálise, escritor e melômano.

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JOSE ANTONIO SANTANA PALMA

Muito interessante o artigo, mas aconteceu mais coisas que não estão nesta narrativa.