15 discos que todo mundo precisa ouvir uma vez na vida

Hábito de ouvir disco de cabo a rabo olhando para o teto pode muito bem ser resgatado nestes dias difíceis de isolamento social

Capas dos discos | Reprodução

Já que a ordem do dia (ou dos próximos meses) é permanecer em casa para tentar mitigar o avanço da pandemia causada pelo coronavírus, nada melhor do que aproveitar para ouvir música. Um álbum completo pode parecer em desuso para as novas gerações, mas a quarentena forçada pode nos fazer relembrar como é bom ouvir de cabo a rabo um disco e ficar olhando para o teto. Segue minha humilde sugestão de 15 dos que acho essenciais para voltar a ter esse hábito que nunca deveria ter sido esquecido. 

Caymmi e Seu Violão – Dorival Caymmi (1959)

Sem as orquestrações típicas das gravações brasileiras do período, o mestre baiano praticamente inaugura o modernismo na música popular brasileira. Com seu violão, Caymmi mostra toda a profundidade e beleza da mitologia praieira de suas composições. Para isso, faz uma pré-Bossa Nova que não tem nada a dever aos discos fundamentais do gênero que seria inventado na década seguinte.

Kind of Blue – Miles Davis (1959)

Miles Davis não é o melhor trompetista da história do jazz, mas é um dos que mais soube usar as limitações a seu favor. Kind of Blue é o ápice do estilo minimalista e elegante do instrumentista, que soube arregimentar um timaço de jovens músicos que despontavam. John Coltrane, Julian “Cannonball” Adderley, Wynton Kelly, Bill Evans, Paul Chambers e Jimmy Cobb transformaram a forma de se tocar e improvisar no gênero americano.

I Put a Spell on You – Nina Simone (1965)

É bastante triste o fato de que Nina Simone nunca conseguiu ser a musicista que queria, por ser uma mulher negra. Ela queria fazer de seu piano instrumento clássico. E tinha cacife para isso. Mas ainda assim conseguiu nos deixar belezas, com vocais delicados de Marriage is for Old Folks. Em Feeling Good, com seu início à capella até o clímax, é possível acompanhar toda a extensão e beleza da voz desta que é uma das maiores artistas do século.

A Love Supreme – John Coltrane (1965)

Há quem acredite que Coltrane seja um santo, eu digo que é difícil não acreditar depois de ouvir A Love Supreme. Dividido em quatro partes (Acknowledgement, Resolution, Pursuance e Psalm), o saxofonista une física, matemática, esoterismo e muita música nestes 33 minutos gravados em uma só sessão. Um exemplo é como ele conduz a melodia da faixa título a um improviso e volta a ela, mudando as tonalidades. 

Blonde on Blonde – Bob Dylan (1966)

O álbum mostra o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2016 no auge de sua forma. Em Blonde on Blonde, a transformação do cantautor folk em um poeta eletrificado está completa e madura. É possível perceber o casamento da poesia contemporânea com a música pop nas letras quilométricas, cheias de livres associações e planos cinematográficos, e no improviso quase miraculoso da The Band.  

Pets Sounds – Beach Boys (1966)

Inspirado no Rubber Soul, disco dos Beatles lançado em 1965, Brian Wilson, mente por trás dos Beach Boys, fez de Pets Sounds seu projeto quase pessoal. Nem que para isso resultasse em excesso de drogas e desentendimentos dentro do grupo. Brian sacou canções intimistas, com melodias bonitas, e combinou com instrumentações heterodoxas para criar um dos pontos mais altos da música pop. 

Black Sabbath – Black Sabbath (1970)

O grupo formado Tony Iommi, Geezer Butler, Ozzy Osbourne e Bill Ward surgiu como uma síntese entre o flower power e a guerra do Vietnã. Neste álbum de estreia, entrega blues e psicodelia como resposta para o mundo que se anunciava, sem inocência e sem flores no cabelo. Para isso, evocam atmosfera das heresias góticas protestantes através de instrumentação pesada e canto quase narrado de Ozzy.

João Gilberto – João Gilberto (1973)

Não é o disco mais famoso do baiano, mas é o que ele sempre quis fazer. Sem orquestrações de estúdio, o álbum conta apenas com o violão de João Gilberto, a bateria esparsa de Sonny Carr, além da produção da produtora trans Wendy Carlos (na época Sonny Carlos). O resultado é o registro de interpretações que imprimem detalhes sutis, que transformam canções em obras primas. 

Beethoven Symphonies nº 5 & 7 – Vienna Philharmonic conducted by Carlos Kleiber (1975)

A Filarmônica de Viena dos anos 1970, conduzida pelo arredio maestro Carlos Kleiber, era capaz de quase tudo, até de transformar ensaios longos e meticulosos em uma gravação que inspira frescor. As sinfonias de Beethoven são tratadas por Kleiber de forma poderosa, mas com sutileza nos detalhes, texturas e transições. Provavelmente a melhor gravação de uma orquestra em ação.

Ao Vivo na USP – Gilberto Gil (1973)

Essa gravação mostra mais do que o registro de um show. Capta o trabalho em progresso de transformação de Gil enquanto compositor  —  saindo da fase de arquiteto do tropicalismo, movimento estético que ajudou a fundar e que cindiu no tempo/espaço a maneira de se fazer e pensar música no Brasil, para se tornar um compositor mais maduro, com seu violão como ponto central desta transformação. O bate-papo entre as músicas com os estudantes é bem interessante.

Horses – Patti Smith (1975)

Poderia falar sobre a trajetória de Patti Smith, de como ela saiu da paralisia de uma vida pacata para habitar o epicentro da cultura norte-americana da segunda metade do Século XX. Mas ela fez isso de um modo muito melhor no belíssimo livro Só Garotos. O que me resta é indicar a sagacidade dela ao colocar sua voz a serviço da poesia, através da música, de uma maneira primal e feminino. Horses é radical e lírico.  

Sobrevivendo no Inferno – Racionais MC’s (1997)

O segundo álbum de estúdio do grupo formado por Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e o DJ KL Jay teve o poder de levar o rap para o centro do mainstream brasileiro. Mais que um fenômeno de vendas – vendeu 1,5 milhão de discos -, Sobrevivendo no Inferno é o registro da voz de moradores das periferias dos grandes centros urbanos brasileiros, ao tratar da tensões sociais sob o ponto de vista dos esquecidos e marginalizados. 

Love and Hate – Michael Kiwanuka (2016)

Para quem pensa que a música vive do passado, Michael Kiwanuka prova o contrário. Basta ouvir a faixa título do álbum e A Black Man in the White World para comprovar. Nomes como Otis Reding e Bill Withers são as referências imediatas que saltam do soul de Kiwanuka, mas que escondem que o canto dele vem das entranhas da diáspora — ele é filho de uganenses — e se lança contra um mundo cada vez mais hostil e em transformação.

Azel – Bombino (2016)

 

Assim como Kiwanuka, Bombino usa música como guia para seu nomadismo — desta vez literal, já que o artista é tuareg. A pentatônica que ele usa transita de maneira quase orgânica entre as células básicas do blues e o padrão rítmico tuareg, criando a expressão — de novo — de um povo da diáspora. Azel é um disco ainda mais bem feito, na técnica e na maneira como esse enlace acontece, que o anterior, Nomad (2015). Bombino expande o deserto para além da geografia.

Ruler Rebel – Christian Scott aTunde Adjuah (2017)

O primeiro de uma trilogia (todos lançados em 2017 e cada um melhor que o outro), cuja a proposta é de percorrer o centenário do jazz. No entanto não se tratam de discos saudosistas; pelo contrário, assumem o presente como matéria prima da música. “Jazz is the original fusion music”, diz Scott, como um verdadeiro herdeiro de Miles Davis.

Uma resposta para “15 discos que todo mundo precisa ouvir uma vez na vida”

  1. João disse:

    Interessante as escolhas. Gostei, apesar de não conhecer algumas; fiquei curioso para ouvir as mais recentes.

    Blonde on Blonde , The Freewhelin e Bringing It All back home são os discos que mais gosto de Dylan.
    A respeito de João Gilberto , penso que “Chega de saudade” é o disco com a sonoridade mais bonita e universal mesmo.

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