Sensores, plataformas digitais, inteligência artificial e sistemas de informação estão cada vez mais presentes nas cidades. Essas tecnologias ampliam possibilidades de integrar serviços e apoiar decisões. Mas sua presença, por si só, não torna uma cidade inteligente. Antes de perguntar quais tecnologias uma cidade possui, talvez seja necessário formular outra questão: como essa transformação é governada?

Falar de cidades inteligentes implica falar de governança. Os governos, as empresas, as universidades, as organizações da sociedade civil e os cidadãos participam neste processo com diferentes competências, conhecimentos e capacidades. O desafio reside em compreender como se articulam essas contribuições e como são construídas as decisões e as responsabilidades.

Participar não significa exercer a mesma função. Enquanto alguns atores têm autoridade institucional, outros contribuem com conhecimentos, inovação, infraestruturas, recursos ou experiência sobre as necessidades da população. É nesta articulação que a governança ganha importância.

Governo e governança não são sinónimos. O governo é responsável pelas atribuições que lhe são institucionalmente conferidas. A governança observa os processos de coordenação e decisão que envolvem diferentes atore, setores e níveis institucionais. Nas cidades inteligentes, as tecnologias, os dados e as instituições interagem de forma cada vez mais intensa.

Quando uma cidade utiliza dados para organizar os seus serviços, quem estabelece as prioridades? Como é coordenada a partilha de informações entre sistemas? Quando universidades, empresas, governos e a sociedade em geral colaboram, como são distribuídas as responsabilidades e acompanhados os resultados?

Mais importante do que classificar os modelos de governança é compreender como a capacidade de governar está organizada. Quem participa? Quem decide? Que recursos e conhecimentos estão disponíveis? Há capacidades institucionais para transformar decisões em ações?

Neste contexto, o papel do Estado não diminui, mas transforma-se. À medida que as cidades se tornam mais interligadas, aumenta a necessidade de capacidade pública para coordenar áreas, estabelecer prioridades e acompanhar resultados.

Este debate é especialmente pertinente no Brasil, onde os municípios apresentam realidades distintas em termos de população, recursos, estrutura administrativa e capacidade institucional. A mesma tecnologia pode produzir resultados diferentes conforme as condições para planejá-la, , implementá-la e integrá-la às políticas públicas.

Por isso, a inteligência urbana pode ser compreendida como capacidade de governança. Esta não reside apenas nos dispositivos instalados ou nos dados produzidos, mas sim na capacidade de articular pessoas, instituições, conhecimentos, recursos e tecnologias em torno de objetivos públicos.

A questão “Quem governa a cidade inteligente?” continua pertinente. Não se trata de identificar um único protagonista, mas sim de compreender como diferentes atores podem contribuir, com a partir de suas competências, para transformar o conhecimento em decisão, a decisão em ação e a ação em valor público.

Paola Monteiro

Arquiteta e urbanista. Doutoranda em Geografia pela UFG, com pesquisa em governança e cidades inteligentes. Coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo da UNIALFA. Pesquisadora do INCT Observatório das Metrópoles (Núcleo Goiânia)

Paola Monteiro | Foto: Arquivo

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