Pela característica semiárida e árvores retorcidas, o Cerrado foi considerado por muito tempo menos importante do que os demais ecossistemas, como Amazônia e Pantanal. No entanto, embora superficialmente não tão exuberante como os demais, essa vegetação é rica em biodiversidade e no subsolo guarda um dos maiores aquíferos do mundo, o Guarani. Esse reservatório de água é responsável por alimentar as principais bacias hidrográficas, não apenas do Brasil, mas do continente.

Para se ter ideia do tratamento insignificante, a União, em detrimento da Amazônia, liberou a exploração agropecuária. Isto é, o ecossistema se tornou uma fronteira agrícola. Onde se permitiu a derrubada das árvores retorcidas nos terrenos em um percentual de 80%, ou seja, o próprio é obrigado a manter 20% de área preservada. Enquanto na Amazônia é ao contrário, a preservação deve ser de 80% e o uso de apenas 20% da área.

E é este modelo de detrimento de um ecossistema a outro que tem acabado com o Cerrado. Neste ano, ele foi o mais desmatado, de acordo com o projeto Prodes Cerrado, que faz o monitoramento por satélite do bioma. Ao todo, o Cerrado perdeu 11.011 km² de vegetação nativa de agosto de 2022 a julho de 2023. Ou seja, 3% de aumento no desmatamento do ecossistema em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Na região, uma das últimas fronteiras agrícolas é chamada de Matopiba, por compreender o enclave dos Estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. A partir de 2015, com novas flexibilizações para a comercialização de terras e o avanço da grilagem, houve uma explosão de atividades agropecuárias.

A investida sobre as chamadas ‘terras nuas ou terras virgens’, com matas em pé na região, é totalmente descontrolada. Em uma pesquisa rápida na internet é possível encontrar anúncios de hectares de terrenos com “mata fechada” na média dos R$ 3 mil, enquanto terras já utilizadas para alguma atividade econômica a média por hectare é de R$ 30 mil. Assim, fica a pergunta: qual das duas ficam mais interessantes, uma terra degradada ou um solo “limpo” para ser adequado para qualquer tipo de atividade agropecuária? A situação do Cerrado apenas irá mudar, esse incentivo a derrubada da mata seja desmotivada.

Cabe ressaltar que o Cerrado é o “berço das águas” do Brasil, o que é modificado nele há consequências em todos os demais ecossistemas, principalmente o Amazônia, a prova foi a seca registrada neste ano. 

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