Clima de Copa do Mundo esquenta e anima torcedores

Latinos e africanos são os principais responsáveis por ditar o ritmo do mundial

Na abertura da Copa do Mundo na Russia, a seleção anfitriã venceu a Arabia Saudita por 5 a 0 | Foto: RFS/RU

De Moscou, Rússia

Já eram quase 22 horas no horário local quando o avião da companhia de aviação russa Aeroflot pousou no aeroporto Sheremetyevo, em Moscou, no sábado, 9. O sol estava se pondo. Afinal, no verão da Rússia, os dias são mais longos.

O voo, que saiu de Madri, na Espanha, atrasou uma hora devido à greve dos controladores na França, rota para a Rússia. A bordo, além de russos voltando de viagem, muitos torcedores rumo à Copa do Mundo, especialmente latinos, como peruanos e mexicanos — o aeroporto de Barajas, em Madri, conecta boa parte do continente americano ao restante do mundo.

Nos jornais russos oferecidos no embarque, nenhum destaque para a maior competição que estava prestes a começar. Na revista da companhia aérea, a única referência ao futebol era o fato de que a Aeroflot patrocina o clube inglês Manchester United, sendo o seu meio de transporte oficial. E nada mais.

No aeroporto — extremamente moderno —, um ou outro cartaz dando boas-vindas ao país-sede da Copa do Mundo. Talvez o que mais chamasse a atenção eram as sinalizações de bagagem, controle de passaporte, saída, entre outros — à parte do idioma local e da tradução em inglês, o que é o normal, via-se por toda parte o chinês.

A boa sinalização no aeroporto não se repete nas estações de metrô de Moscou. A maioria delas tem apenas os nomes no alfabeto cirílico, o que dificulta os turistas, que, muitas vezes, ficam parados no meio dos corredores sem saber aonde ir, haja vista que são poucos os russos capazes de orientar os estrangeiros em inglês de maneira adequada.

A propósito, a segurança no metrô não estava tão alta quanto deveria ser em um país que está recebendo a Copa do Mundo, um evento com aglomeração de pessoas e alvo natural de terrorismo — é possível entrar em uma estação com mochila sem ser revistada.

A verdade é que não parecia que a Copa do Mundo seria ali. O verão de Moscou, com dias longos, não estava muito agradável. O início da semana foi marcado por chuvas finas durante boa parte dos dias, com os termômetros dificilmente passando dos 20º. O clima não era favorável. E o outro clima, da Copa, era mais frio ainda.

Nos pontos oficiais de coleta e venda de ingressos da Federação Internacional de Futebol Associação (Fifa), os torcedores não demoravam mais do que 15 minutos para serem atendidos. Na Praça Vermelha, principal ponto turístico de Moscou, novamente peruanos e mexicanos, com o reforço de colombianos, marroquinos e egípcios, buscavam ditar o clima de Copa — nem sinal de russos; brasileiros eram poucos.

Em qualquer outro lugar da cidade, dificilmente alguém diria que o mundial estava a poucos dias de seu início. Ressalta-se que o futebol não é o esporte número um da Rússia, mas sim o hóquei no gelo.

Dia da Rússia
Celebra-se a 12 de junho o Dia da Rússia. Nesta data, em 1990, o Primeiro Congresso dos Deputados do Povo da Rússia ratificou a Declaração de Estado Soberano da República Federativa Socialista Soviética da Rússia (RFSSR).

Trata-se de um dos mais importantes feriados nacionais do país. E neste ano foi a apenas dois dias da abertura da Copa do Mundo. Justamente a partir da terça-feira, 12, que o clima começou a esquentar. A chuva parou e latinos e africanos deram lugar a russos com bandeiras orgulhosamente ostentadas.

O esquema de segurança foi mais do que redobrado e cada vez mais turistas chegavam à Rússia, misturando-se a imigrantes de ex-repúblicas soviéticas, como Quirguistão e Uzbequistão, comumente vistos trabalhando atrás de balcões de lojas e restaurantes.

Nascido no Paraná, o brasileiro Felipe Tropeia, de 30 anos, mora em Londres há três e chegou à Rússia no domingo, 10. “Acho que os russos estavam mais preocupados com o feriado. Agora, está todo mundo pensando na Copa”, sublinha.

Para ele, o torneio terá a cara de uma mistura entre latinos e africanos. “Por enquanto, são os que estão fazendo a festa. Mas até agora vi poucos brasileiros. Sempre chegamos atrasados”, brinca.

Felipe se mostrou animado com a seleção brasileira. Ele diz que o técnico Tite conseguiu arrumar o time e o Brasil tem tudo para fazer uma boa campanha. “Pelo menos final ou uma revanche do 7 a 1 contra a Alemanha.”

O paranaense critica quem pretende boicotar a Copa do Mundo em razão do momento político vivido no Brasil. “Muita gente fala mal por questão política, mas, quando o Brasil joga, muda. É o maior evento esportivo. Todo mundo para durante 90 minutos”, pontua.

Estreia
Na quarta-feira, 13, os torcedores esperavam, em média, mais de uma hora e meia nas filas para serem atendidos dos centros oficiais de coleta e compra de ingressos. Os 15 minutos de alguns dias atrás ficaram para trás Era a véspera da abertura do mundial e a procura por tíquetes havia aumentado.

Finalmente, sentia-se clima de Copa. E a estreia dos donos da casa diante da Arábia Saudita não deixou mentir. Apesar da animação para a partida a caminho do estádio não ser a mesma vista em jogos no Brasil — ninguém estava cantando no metrô —, a Rússia se encontrava em festa.

É verdade que alguns poucos lugares vazios eram vistos no estádio Lujniki — pouca também era a quantidade de mulheres na torcida saudita —, mas via-se torcedores vestindo até mesmo camisas da extinta União Soviética. O sentimento de nação estava presente e se fez ainda maior quando o presidente Vladimir Putin foi ovacionado após seu discurso — bem diferente do que ocorreu com Dilma Rousseff (PT) há quatro anos em São Paulo.

Dentro de campo, a vitória por 5 a 0 da Rússia não escondeu o péssimo nível técnico de ambas as equipes. O jogo foi entre as duas piores seleções no ranking da Fifa — partidas assim deverão ser mais comum a partir da Copa de 2026, quando o número de seleções participantes subirá para 48 —, mas os russos se animaram com a possibilidade de classificação para as oitavas de final depois de construírem um bom saldo de gols.

Na sexta-feira, 15, os jornais enfim deram destaque ao mundial e a vitória dos russos foi capa nos principais veículos de comunicação.

Olhar russo

O moscovita Aleksandr Hodyakov prefere futebol a hóquei no gelo e é realista: se a seleção de seu país passar da fase de grupos, já será um título | Foto: Marcelo Mariano/Jornal Opção


Aleksandr Hodyakov, 24 anos, nascido em Moscou, é um jovem russo que trabalha em uma academia e em um café da cidade, além de ser animador de crianças nas horas vagas.

De acordo com a ele, o mundial tende a ser um bom evento para o país, pois, com o turismo, será injetado dinheiro na economia e, ademais, “a Copa vai mostrar que a Rússia é melhor do que muita gente pensa”.

Torcedor do CSKA Moscou, Aleksandr diz preferir futebol a hóquei no gelo e é realista em relação ao desempenho da seleção russa na competição — passar da fase de grupos já considerado um título.

Ele explica que algumas das ex-repúblicas soviéticas vão torcer para a Rússia durante a Copa do Mundo, co­mo Belarus e Caza­quistão, que são “a­mi­gos”. Já as “inimigas” Ucrânia e Ge­órgia vão torcer contra. Falando em política, Aleksandr não é um grande fã de Putin pelo motivo de, segundo ele, não haver trabalhos com bons salários na Rússia.

Leitor assíduo, o jo­vem é fã do novelista estadunidense Chuck Pa­la­hniuk, mas afirma que a li­teratura clássica da Rússia, como Fiódor Dostoiévsk, está presente do dia a dia da população. É comum ver russos lendo no metrô. Mas talvez seja mais comum ainda vê-los jogando xadrez em aplicativos de celular.

Bastidores da imprensa

Em uma Copa do Mundo, vê-se não só torcedores com as camisas de suas respectivas seleções caminhando pelas ruas, mas também inúmeros jornalistas com casacos de suas emissoras. A maior competição de futebol atrai olhares do mundo todo e sempre surgem curiosidades da cobertura.

Há jornalista sendo intérprete de cartolas ou roubado por um iraniano que se passou por policial russo. Há ainda jornalistas discutindo entre si e até levando puxão de orelha de quem tem pouca moral. Confira algumas histórias abaixo:

Intérprete
Correspondente de “O Estado de S. Paulo” na Suíça e um dos nomes dos jornais que estão cobrindo a Copa do Mundo na Rússia, Jamil Chade acabou servindo, sem querer, de intérprete do francês para o português entre o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), coronel Nunes, e o presidente da Federação Real Marroquina de Futebol (FRMF), Fouzi Lekjaa.

O fato ocorreu na quarta-feira, 13, durante o 68º Congresso da Fifa, realizado em Moscou, na Rússia, que definiu Ca­nadá, Estados Unidos e México como as se­des conjuntas da Copa do Mundo de 2026.

O jornalista Jamil Chade foi o intérprete da conversa entre os presidentes CBF e da FRMF | Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

O Marrocos disputava a candidatura com os países norte-americanos, mas não obteve o apoio necessário para se viabilizar como sede do mundial. Surpre­en­dentemente, a CBF foi uma das federações que votou pela nação africana, mesmo após ter declarado que votaria em Canadá, Estados Unidos e México. E Fouzi Lekjaa queria apenas agradecer o presidente da CBF — eles nunca haviam se encontrando.

Existia um acordo entre todas as federações da Confederação Sul-americana de Futebol (Conmebol) em apoiar a candidatura da América do Norte. Coronel Nunes justificou o voto no Marrocos alegando ser injusto Estados Unidos e México realizem mais uma Copa do Mundo — estadunidenses foram sede em 1994 e mexicanos, em 1970 e 1986. “Era bom que fosse o Marrocos. Nunca teve Copa lá”, disse.

Mas a verdade é que o presidente da CBF acreditava que o voto fosse secreto. Coronel Nunes não votou a favor dos Estados Unidos como forma de protesto contra cartolas brasileiros presos e investigados nos EUA. Pelo menos é o que afirma um alto representante da delegação estadunidense ouvido por Jamil Chade.

A Conmebol considerou o voto da CBF como traição e, depois dessa trapalhada da CBF, coronel Nunes passou até mesmo a evitar os eventos oficiais da Fifa que estão sendo organizados na Rússia.

CBF com razão
O assessor de imprensa da CBF, Vinicius Rodrigues, criticou jornalistas, na quarta-feira, 13, por não terem recolhido garrafas de refrigerantes e água da área destina à imprensa.

O comentarista Juca Kfouri, da ESPN, disse que um dos funcionários da CBF, responsável, segundo ele, por cuidar do “cafezinho”, comparou a situação aos torcedores japoneses nas arquibancadas dos estádios na Copa do Mundo do Brasil em 2014.

“Os japoneses recolhem o lixo nas arquibancadas dos estádios. E jornalistas brasileiros deixam no lugar que frequentam”, observou. É certo que a CBF tem pouca moral para exigir qualquer coisa. Mas, neste caso, estão com a razão.

Transiberiana
Repórter de “O Globo”, Renato Alexandrino está cobrindo a Rússia durante a Copa do Mundo, mas de uma maneira diferente. O jornalista decidiu fugir da agitação das sedes do mundial e tomou o trem transiberiano de Moscou a Vladivostok, cidade localizada no extremo-leste do país, quase na fronteira com a Coreia do Norte.

Ao todo, serão 14 paradas. O objetivo é mostrar impressões sobre a “Rússia que não é da Copa”. Uma das curiosidades já registradas por Renato Alexandrino é que, independentemente da cidade em que esteja, as estações sempre mostram o fuso horário de Moscou, e não o local. Vale a pena acompanhar.

Roubo
Um iraniano se disfarçou de policial russo e enganou um brasileiro, que foi abordado logo após ter saído do metrô com malas. O suposto policial pediu para ver o passaporte, perguntou se havia dinheiro suficiente para a estadia na Rússia e roubou U$S 1,5 mil dólares.

O iraniano foi detido e a quantia roubada, recuperada. A embaixada do Brasil na Rússia afirmou que policiais não checam dinheiro na rua, somente documentos de identificação e migratórios.

Segundo matéria de “O Globo”, o brasileiro seria apenas um torcedor. Mas o correspondente da GloboNews na Rússia, Sandro Fernandes, garantiu que era um jornalista, cuja identidade, contudo, não foi revelada.

Discussão
Os jornalistas Marcelo Bechler, dos canais Esporte Interativo, e Stéphane Darmani, da ESPN, discutiram no Twitter após o compartilhamento de um vídeo da coletiva de imprensa do jogador francês Antoine Griezmann.

O assessor de imprensa da seleção francesa estava permitindo apenas perguntas em francês. Um jornalista espanhol colocou a voz do Google Tradutor no microfone, mas, mesmo assim, o assessor não deixou Griezmann responder.

Bechler compartilhou o vídeo em seu perfil e chamou o assessor de “mala”. Darmani, que é francês, não gostou, especialmente dos comentários de outros usuários sobre a suposta arrogância francesa. “O Griezmann já tinha respondido à pergunta. Então, quem é o mala: o assessor de imprensa ou o jornalista que insiste em perguntar?”, questionou.

“Cada comentário nesse post sobre a França. Ridículo. E quando falam catalão no Barcelona também é arrogante?”, continuou Darmani. Bechler é correspondente em Barcelona e respondeu que, durante os seus três anos e meio de cobertura na cidade, nunca viu uma pergunta ser barrada por causa do idioma ou qualquer outra razão.

“Justificar a inabilidade do assessor atacando outro povo é uma ótima saída. Parabéns”, ironizou Bechler. “O que você falou dos catalães é o mesmo que reclamar que estão falando dos franceses.” O último post da discussão foi de Darmani, que disse reclamar apenas de polêmica causada em virtude de algo “leve”, gerando “comentários antifranceses totalmente caricaturais”.

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