Antônio Caiado*
Especial para o Jornal Opção

O termo Operações de Combate em Grande Escala (OCGE) refere-se aos combates entre exércitos regulares. O principal objetivo das OCGE é alcançar decisão no campo de batalha contra um adversário convencional — e isso pode envolver a captura de território, a destruição das forças inimigas ou a conquista de objetivos estratégicos específicos. Nas OCGE, o adversário é geralmente uma força militar treinada, organizada e equipada. 

No que diz respeito às abordagens adotadas em OCGE, destaca-se a manobra combinada, que envolve o uso coordenado de diferentes ramos das forças armadas para alcançar superioridade no campo de batalha. Também pode haver uma ênfase na guerra de atrito, buscando destruir ou enfraquecer o inimigo por meio de combate contínuo e direto. Há ainda a defesa em profundidade, que utiliza múltiplas linhas defensivas para retardar ou impedir o avanço inimigo. O treinamento para OCGE inclui exercícios em larga escala que simulam combates entre forças convencionais, com foco em manobras combinadas e operações aéreas. Em termos de equipamento, OCGE emprega veículos blindados pesados, artilharia pesada, aeronaves de combate e sistemas de defesa aérea.

Por outro lado, as Operações de Contrainsurgência (OCI) envolve operações militares projetadas para combater rebeldes ou grupos paramilitares. O principal objetivo da OCI é estabilizar uma região ou país, proteger a população civil e negar apoio e recursos aos insurgentes. Muitas vezes, a OCI é mais uma questão de “ganhar os corações e mentes” do que na simplesmente destruir do inimigo. Nas OCI, o adversário é uma força irregular, que pode se misturar à população civil e não seguir as convenções de guerra tradicionais. 

As abordagens em OCI buscam conquistar o apoio da população local para isolar e negar apoio aos insurgentes, usando intensamente inteligência humana e sinais para identificar líderes insurgentes e redes de apoio, além de missões direcionadas para neutralizar líderes e células insurgentes. O treinamento em OCI enfatiza a interação eficaz com a população local, táticas de pequenas unidades para combate em ambientes urbanos e rurais, a construção civil e projetos de ajuda. O equipamento utilizado em OCI inclui veículos blindados leves, equipamentos de vigilância e reconhecimento, e armamento adaptável, muitas vezes com ênfase em operações não letais.

Enquanto a OCGE se concentra no combate direto contra forças adversárias bem definidas e organizadas, a OCI requer uma abordagem mais matizada e adaptável, equilibrando combate direto com engajamento civil e esforços para ganhar o apoio da população local. Ambas abordagens requerem treinamento e equipamento especializados para serem eficazes.

Operações de Combate em Grande Escala (OCGE) e Operações de Contrainsurgência (OCI) representam dois extremos do espectro de conflitos armados que têm sido evidentes nos mais recentes conflitos do cenário mundial.

A guerra entre a Rússia e a Ucrânia pode ser enquadrada como uma Operação de Combate em Grande Escala (OCGE). Este conflito tem visto forças regulares em confronto direto, com ambos os lados utilizando armamento pesado, artilharia, e aeronaves. A Rússia, com sua poderosa máquina militar, enfrentou forças ucranianas em várias frentes. O objetivo primordial tem sido territorial e estratégico, com a Rússia buscando ampliar sua esfera de influência e a Ucrânia defendendo sua soberania.

Por outro lado, os recentes conflitos entre Israel e Hamas podem ser vistos como uma Operação de Contrainsurgência (OCI). O Hamas, operando principalmente a partir da Faixa de Gaza, não é uma força convencional no sentido tradicional. Utiliza táticas de guerrilha, lança foguetes contra alvos civis em Israel e busca apoio e abrigo dentro da densamente povoada Gaza. Israel, por sua vez, tem respondido com ataques aéreos direcionados a alvos específicos malgrado as inevitáveis baixas civis. A natureza deste conflito é complexa, envolvendo não apenas objetivos militares, mas também uma batalha pela opinião pública e apoio internacional.

Uma incursão do exército israelense dentro da Faixa de Gaza é uma operação extremamente delicada e perigosa. Gaza é um dos lugares mais densamente povoados do mundo, o que torna qualquer operação militar propensa a causar baixas civis. Além disso, as táticas de guerrilha adotadas pelo Hamas e outros grupos armados em Gaza significam que soldados israelenses podem enfrentar emboscadas, dispositivos explosivos improvisados e ataques surpresa em um terreno urbano complicado. Estas operações também têm implicações políticas e diplomáticas significativas, já que as baixas civis e a destruição de infraestrutura podem gerar condenação internacional e aumentar as tensões na região, como de fato tem acontecido.

Em Operações de Contrainsurgência, o foco muitas vezes está em ganhar corações e mentes da população civil local. O que temos observado na Guerra entre Israel e Hamas são inúmeras comparações que colocam Rússia e Israel de um lado e Ucrânia e Palestina do outro. Isso também costuma ser chamado de “guerra de narrativas” e ela busca fazer a opinião pública mundial pender para um ou outro lado, para posteriormente pressionarem seus respectivos governos. Em 2024, teremos eleições americanas. O ex-presidente Donald Trump já criticou abertamente o premiê israelense Benjamin Netanyahu, colocando-se assim numa posição distanciada do atual presidente Biden. Já podemos ter uma ideia de como essa guerra vai muito além do Oriente Médio. 

Por outro lado, no começo de 2023, Irã e Arábia Saudita reataram relações diplomáticas com a mediação da China, o que foi um movimento que surpreendeu Israel. Para o Estado Judeu, o Irã é o principal fator desestabilizador do Oriente Médio, e esse movimento diplomático veio exatamente no momento em que Israel e Arábia Saudita estavam se reaproximando.

Ao pesarmos todos esses fatores, considerando o risco político e humano que uma incursão das forças armadas israelenses em Gaza pode gerar, e tendo em conta ainda os vários reféns em poder do Hamas, é compreensível que Israel não tenha ainda feito esse movimento. Outro fator que dificulta a abordagem de inteligência, típica de um Operação de Contrainsurgência, é o fato de que não existe uma representatividade oficial para todos os palestinos. Este papel, que seria da Autoridade Palestina, está limitado à Cisjordânia, ao passo que Gaza é controlada pelo Hamas.

Talvez o maior desafio seja ganhar a confiança dos palestinos em Gaza. Grupos de guerrilha como o Hamas buscam ganhar a confiança da população oferecendo serviços e administrando a ajuda humanitária. Por outro lado, qualquer traidor é punido da forma mais cruel possível, e dentro de um território densamente povoado e pequeno como Gaza, dificilmente um colaborador palestino não seria descoberto.

Antônio Caiado | Foto: Acervo Pessoal

*Antônio Caiado é brasileiro e atua nas forças armadas dos Estados Unidos desde 2009. Atualmente serve no 136º Maneuver Enhancement Brigade (MEB) senior advisor, analisando informações para proteger tropas americanas em solo estrangeiro.

@oantoniocaiado
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