Quilombo Kalunga: o maior território quilombola do país rumo ao tombamento federal
26 abril 2026 às 20h27

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O território Kalunga, que abrange cerca de 262 mil hectares na Chapada dos Veadeiros, vive um momento decisivo para sua segurança jurídica e preservação cultural. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) deu início, em março deste ano, ao processo de tombamento do Quilombo Kalunga como patrimônio histórico nacional. A medida, celebrada por cerca de 8 mil quilombolas, promete ser um escudo contra as pressões de invasores, grileiros e a expansão desenfreada de atividades predatórias na região.
Composto por 39 comunidades distribuídas entre Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre, o Quilombo Kalunga é autodeclarado o maior território quilombola do mundo. Mais do que uma demarcação de terras, o reconhecimento federal é visto pela comunidade como uma “reparação histórica” contra décadas de insegurança fundiária.
Além do mapa: o território como guardião do Cerrado
O valor dos Kalunga para o Brasil vai muito além da ocupação histórica. Dados técnicos apontam que, enquanto o bioma Cerrado enfrenta níveis alarmantes de desmatamento — com apenas cerca de 30% de vegetação nativa remanescente em Goiás —, o território Kalunga mantém impressionantes 83% de sua cobertura original preservada.
Esse equilíbrio não é fruto do acaso, mas do modo de vida tradicional da comunidade. O manejo ancestral do fogo e a agricultura de subsistência, baseada na convivência harmoniosa com o ciclo das águas e das matas, transformaram os Kalunga nos maiores guardiões da bacia do Rio Tocantins. Em 2021, o território já havia conquistado reconhecimento internacional pela ONU como área conservada por comunidades locais.
Memória milenar sob ameaça
A história contada nas pedras do território é um dos pilares desse processo de tombamento. Na região de Teresina de Goiás, sítios arqueológicos como o da Comunidade da Ema guardam registros — pictogramas e petróglifos — datados de cerca de 11 mil anos. Símbolos que, para pesquisadores, narram desde rotas migratórias pré-históricas até calendários astronômicos e agrícolas, evidenciando uma ocupação humana sofisticada e antiga no planalto central.
“Sem cultura, não somos nada. Ser quilombola é o grande tesouro que temos”, afirma o líder comunitário Cirilo dos Santos Rosa, de 71 anos. Para ele e para os demais moradores, a preservação dessas marcas físicas e imateriais é o que garante a continuidade de sua identidade frente às mudanças climáticas e ao avanço do agronegócio e da mineração.
Os próximos passos
O tombamento pelo Iphan não é apenas um ato administrativo; ele estabelece regras rígidas de proteção. O próximo passo será a realização de um inventário participativo para catalogar os bens culturais, as técnicas tradicionais de construção em adobe e palha, e as festividades sagradas — como a Festa do Divino —, que mantêm viva a ancestralidade banto em pleno século XXI.
Embora o turismo de base comunitária, concentrado em pontos como o Engenho II e a Cachoeira de Santa Bárbara, ajude a gerar renda e autonomia, a expectativa dos moradores é que o tombamento oficial ajude a coibir as ameaças externas que, há anos, assombram a tranquilidade das famílias, garantindo que o território permaneça, como diz a própria etimologia da palavra na língua banto, um verdadeiro “lugar de proteção”.
Entenda melhor o assunto abaixo.

