Golpe do falso Desenrola usa dados verdadeiros das vítimas para convencer e cobrar Pix, diz presidente do CRCGO
19 agosto 2026 às 19h00

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““O fato de alguém possuir seus dados não significa que essa pessoa, empresa ou página seja confiável.” O alerta é do presidente do Conselho Regional de Contabilidade de Goiás (CRCGO), Marcelo Cordeiro, em entrevista exclusiva ao Jornal Opção sobre uma nova modalidade de golpe que utiliza o nome do Desenrola Brasil para induzir vítimas a realizar pagamentos via Pix.
Segundo ele, criminosos passaram a explorar dados pessoais verdadeiros, como nome completo, CPF e data de nascimento, para aumentar a credibilidade das páginas fraudulentas e convencer as vítimas de que estão diante de uma negociação legítima.
Dados verdadeiros aumentam poder de convencimento
Marcelo Cordeiro explica que não é possível afirmar, sem investigação, a origem dos dados utilizados especificamente nesse tipo de golpe. As informações podem ter sido obtidas em vazamentos anteriores, bases de dados comprometidas, práticas de phishing ou outras fontes acessadas de forma irregular. O uso desses dados, porém, tornou-se uma ferramenta poderosa de engenharia social.
“Quando alguém entra em uma página e vê o próprio nome, CPF e data de nascimento, a reação natural é imaginar: ‘se eles sabem tudo isso sobre mim, então devem ser legítimos’. É justamente essa confiança que o criminoso quer criar”, afirma.
Para ele, a população precisa mudar essa percepção e entender que a apresentação de informações pessoais não comprova a autenticidade de um site, empresa ou proposta.
“O uso de dados pessoais verdadeiros se tornou uma ferramenta muito forte de engenharia social. O criminoso não precisa apenas inventar uma história convincente; ele pode utilizar informações reais para fazer com que a vítima acredite que está diante de uma instituição legítima”, acrescenta Marcelo.
Goiás registra avanço dos golpes digitais
O alerta ocorre em meio ao crescimento dos estelionatos eletrônicos. Dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que Goiás registrou 5.691 ocorrências de estelionato por meio eletrônico em 2025, contra 4.733 no ano anterior, aumento de 19,1%. A taxa estadual passou de 64,4 para 76,7 ocorrências por 100 mil habitantes.
No Brasil, os registros passaram de 286.226 em 2024 para 346.753 em 2025, crescimento de 20,6%. Para Marcelo, a migração de atividades financeiras para o ambiente digital criou um terreno favorável para a atuação dos criminosos.
“Nós estamos assistindo a uma mudança na própria dinâmica dos crimes patrimoniais. Fazemos pagamentos, compras, empréstimos, renegociamos dívidas e movimentamos contas em poucos segundos. Os criminosos perceberam que também conseguem atuar nesse ambiente em grande escala”, avalia.
Taxa e pressão devem acender o alerta
Entre os principais sinais de fraude está a cobrança de uma suposta taxa para liberar a renegociação. Também é necessário desconfiar de links recebidos por WhatsApp, SMS, redes sociais ou anúncios que direcionem o usuário para páginas com aparência de sites governamentais ou de instituições financeiras.
“Se a pessoa recebe uma proposta e, no final, é informada de que precisa fazer um Pix para garantir aquele desconto ou liberar o acordo, o sinal de alerta deve ser imediato”, orienta Marcelo.
Ele também chama a atenção para ofertas que prometem descontos extraordinários, aumento de score ou retirada imediata da negativação.
O presidente recomenda que o consumidor não prossiga com a negociação pelo link recebido. “Recebeu uma proposta? Não faça a negociação pelo caminho indicado na mensagem. Saia daquela página, abra por conta própria o aplicativo ou o site oficial da instituição financeira e confirme se aquela condição realmente existe”, aconselha.
Urgência é uma das armas dos criminosos
Marcelo Cordeiro afirma que os golpistas costumam explorar dois gatilhos principais: medo e oportunidade. A vítima pode ser pressionada com a ameaça de perder dinheiro, ter o CPF bloqueado ou sofrer alguma consequência, ou ser atraída por uma oferta apresentada como imperdível.
“Uma das melhores defesas é justamente retirar a urgência da decisão. Antes de pagar, pare, confira e procure uma segunda fonte”, destaca.
Segundo ele, a pressa reduz a capacidade de análise da vítima e favorece a conclusão da fraude.
“Se estão dizendo que você precisa pagar agora ou perderá a oportunidade, é exatamente nesse momento que você precisa diminuir a velocidade da decisão. Uma negociação legítima pode ser confirmada. O golpista é que precisa impedir que a vítima tenha tempo para conferir”, afirma.
Empresas e contadores também precisam se proteger
O risco não atinge apenas consumidores. Empresários, microempreendedores individuais (MEIs) e profissionais da contabilidade também precisam adotar procedimentos de segurança, especialmente diante de solicitações urgentes de pagamentos ou alterações de dados bancários.
“Para empresas, o cuidado precisa ir além da atenção individual e se transformar em procedimento interno”, explica Marcelo.
Ele recomenda que mudanças de contas bancárias, pedidos extraordinários de pagamento e solicitações aparentemente feitas por fornecedores, diretores ou clientes sejam confirmadas por um segundo canal de comunicação.
“Se um fornecedor mandar uma mensagem dizendo que mudou a conta, não basta responder naquela mesma conversa. É recomendável confirmar pelo contato que a empresa já possuía anteriormente”, orienta.
O presidente do CRCGO também destaca o papel dos profissionais da contabilidade na prevenção de fraudes. “O contador está cada vez mais próximo da gestão, das movimentações financeiras, das obrigações digitais e das decisões do empresário. Isso faz com que ele também seja uma linha de defesa contra fraudes.”
Vítima deve agir imediatamente após o Pix
Caso o pagamento já tenha sido realizado, Marcelo orienta a vítima a procurar imediatamente a instituição financeira para contestar a transação e solicitar o acionamento do Mecanismo Especial de Devolução (MED), criado para auxiliar na recuperação de valores em determinadas situações envolvendo fraudes no Pix. O mecanismo pode aumentar as chances de recuperação do dinheiro, mas não garante a restituição.
“Quanto mais rápido a vítima agir, maior é a possibilidade de ainda existir recurso disponível para bloqueio”, afirma.
A orientação é preservar comprovantes, conversas, prints, números de telefone, endereços das páginas acessadas e informações sobre o beneficiário do pagamento, além de registrar boletim de ocorrência.
Para Marcelo Cordeiro, a prevenção passa pela adoção de uma cultura permanente de conferência. “Hoje, segurança financeira também significa saber desconfiar, verificar a origem de uma informação e não tomar uma decisão financeira relevante apenas porque uma mensagem parece convincente.”
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