Nesta semana, mais uma vez, episódios de racismo protagonizados por argentinos marcaram a Copa Libertadores da América. No confronto entre Cruzeiro e Boca Juniors, na terça-feira, 28, um torcedor foi preso após imitar um macaco e fazer gestos ofensivos no Mineirão. No mesmo cenário, torcedores do Estudiantes também repetiram atitudes racistas na partida contra o Flamengo, reforçando um padrão que deixou de ser pontual para se tornar recorrente.

Dentro de campo, o cenário é de queda; fora dele, os episódios racistas persistem. A prisão do torcedor no Mineirão sintetiza esse momento: enquanto imitava um macaco, assistia a uma atuação pífia de sua equipe, limitada a um único chute a gol, com um jogador expulso e um chilique no fim, típico de quem não aceita a derrota.

Temido no passado, o Boca Juniors vive uma fase que contrasta com sua tradição. Desde 2020, o clube tem apenas 10% de aproveitamento em jogos disputados no Brasil: em dez partidas, não venceu nenhuma. Foram três empates e sete derrotas.

A última vitória do Boca em solo brasileiro foi em dezembro de 2020, contra o Internacional, no Beira-Rio, com gol de Carlos Tévez. Desde então, acumulou tropeços contra Santos, Atlético Mineiro, Corinthians, Palmeiras, Fluminense, Fortaleza e Cruzeiro.

Triste pensar que há alguns anos, o futebol argentino era sinônimo de raça, estratégia e competitividade. Seus “hinchas” eram reconhecidos pela intensidade e pela capacidade de empurrar o time em campo. Hoje, essa imagem se deteriora, substituída por atitudes racistas, infantis, toscas e decadentes, cada vez mais frequentes e ,dentro de campo, a “catimba”, que sempre existiu como elemento do jogo, parece ter deixado de ser recurso para se tornar identidade.

O que já foi um gigante sul-americano (o futebol de clubes argentinos), hoje, demonstra sinais claros de declínio. A perda de força econômica, a evasão de talentos e o esvaziamento do misticismo dos estádios ajudam a explicar o cenário. Mas nada expõe tanto essa decadência quanto o comportamento de parte de sua torcida, que, inclusive, nas redes sociais, faz montagens racistas com jogadores brasileiros após a derrota, ao invés de refletir sobre a atuação do próprio time.

Os números reforçam essa queda: já são dez anos sem um campeão argentino na Libertadores. Nos últimos nove, o título ficou com clubes brasileiros e, em 2016, com o Atlético Nacional. Dentro dos gramados, a hegemonia se pinta de verde e amarelo; nas arquibancadas, alguns hermanos incrédulos e revoltados, pulam e coçam seus suvacos na tentativa deprimente de ofender alguém.

Também é necessário falar sobre a responsabilidade institucional. A CONMEBOL, entidade que gere o futebol sul-americano, é responsável por punir casos que ferem o regulamento de suas competições. No entanto, nunca desenvolveu políticas plenamente efetivas para combater as ofensas racistas. Em 2022, a entidade aumentou a multa mínima para US$ 100 mil e passou a prever punições relacionadas à presença de público nos estádios.

Ainda assim, os dados indicam agravamento do problema. Levantamento do Observatório da Discriminação Racial no Futebol aponta 30 casos de racismo entre o início de 2022 e agosto de 2023, contra 39 registrados em todo o período entre 2014 e 2019. Além disso, cerca de uma a cada cinco ocorrências não resulta em punição, evidenciando falhas na aplicação das regras.

Curiosamente, o aumento de casos se sobrepõem cronologicamente às seguidas conquistas brasileiras na Libertadores.

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