Guernica à brasileira

Waldineia Ladislau*

Guernica, Obra de Picasso

O enorme painel em preto, branco e cinza, pintado há mais de 80 anos, pelo espanhol Pablo Picasso sempre causou fortes emoções. Picasso o fez logo após saber do bombardeio aéreo sobre a cidade de Guernica, em seu país, em abril de 1937, pelos alemães e italianos. Da cidade onde a maior parte da população era de origem basca, pouca coisa restou. Diante da forte emoção o pintor encomendou uma tela de cerca de 3,5 metros de altura por 7 metros de comprimento, e retratou ali a dor e a destruição da cidade.

Conta-se que durante a ocupação nazista em Paris, na segunda guerra mundial _ desde o início da guerra espanhola Picasso havia se mudado para Paris _ um oficial alemão, ao ver o painel Guernica, teria perguntado a Picasso se era ele o autor daquela pintura tão feia. Conta-se que a resposta de Picasso foi: Não! Foram vocês!

Logo após a repercussão de vídeo com cenas explícitas de orgias realizadas em via pública durante o Carnaval, postado pelo presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais; o caso ocorrido há mais de 70 anos em Paris me veio à memória. Geralmente, embora a crítica diga que Guernica é a obra-prima de Picasso, as pessoas, em geral, não gostam do painel. Ele é feio, sem cor, retrata sofrimento, medo, desespero, morte.

Assim como o oficial nazista achou o painel feio, embora ele retratasse apenas a fúria dos aviões alemães e italianos destruindo a cidade basca, a mídia e muitas pessoas se levantaram para dizer que o presidente da República estaria fazendo algo horripilante: postando pornografia na internet. Ao ouvir, pela primeira vez, o noticiário dizendo exatamente isto, pensei: o presidente ficou louco.

Quando a reportagem foi apresentada, a questão ficou clara, e a comparação do vídeo com o painel de Picasso; inevitável. O presidente apenas mostrou um fato que aconteceu durante o Carnaval. Claro que as cenas horrorosas não ocorrem em toda parte, o tempo todo, mas ocorreu. Na maioria das vezes, felizmente, tais cenas não são vistas em via pública. E é exatamente aí a questão: nunca poderia ter ocorrido fato nojento como esse em via pública.

A discussão sugerida pelo presidente Bolsonaro, se desviou para ataques contra sua pessoa, pelo fato de o presidente da República ter tido coragem de postar um flagrante tão degradante ocorrido durante o Carnaval. É verdade que atos obscenos deste tipo são mais comuns durante paradas gay _ até o ano passado também patrocinadas pelo direito público _ mas a discussão deveria persistir. Será que o poder público tem a obrigação de financiar tais eventos onde ocorrem excessos tão permissivos?

Os que dizem sim, afirmam que Parada Gay é a manifestação de um grupo minoritário que deve ter seus direitos protegidos pelo Estado, e o Carnaval, afirmam, aquece a economia do país. Bem, se aumentar o movimento em bares, restaurantes, hotéis, etc. durante poucos dias aquece a economia, tenho lá minhas dúvidas. Mas e os reflexos dessa festa? O número de acidentes automobilísticos ocorridos exclusivamente por causa da bebedeira de motoristas foliões com mortes, lesões permanentes e lesões graves que afastam muitos do trabalho por semanas ou meses não entra nesta conta? E o aumento das DSTs pós todos os carnavais?

Festa com dinheiro público, enquanto milhões esperam por saneamento básico, saúde, escola de qualidade e oportunidade de emprego me parece incoerente. Circo e pão não pode ser uma prática que se perpetue num país que escolheu o caminho do crescimento e da verdadeira democracia. Por mais que Guernica seja duro, por mais que cause aversão, Picasso tinha um propósito.

As atividades sexuais das pessoas são um problema delas, mas atos de obscenidade a céu aberto, em espaço público, é um problema público. Neste caso a denúncia faz todo o sentido, assim como Guernica. Não é bonito de se ver, causa repulsa, mas é uma grave denúncia. Também deveria indignar a todos o escárnio da fé religiosa de grande parte da população brasileira _ e que ocorreu escancaradamente neste Carnaval, _ também justificam o não uso de dinheiro público. Antes, usando o dinheiro deste mesmo povo escarnecido, por vezes ocorriam desfiles com elementos de coreografia que atacavam diretamente a fé de milhões de cristãos. Desta última vez, pelo menos, o povo não pagou para ser insultado. Cabe à sociedade organizada se indignar e reagir; mas não contra quem denunciou. Indignar-se contra Guernica, lá no fundo, é coisa de nazista.

*Waldineia Ladislau é jornalista, escritora e especialista em Docência Universitária(para ver os livros da autora, acesse www.amazon.com.br )

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