Cilas Gontijo, Euler de França Belém, Italo Wolff e Nielton Soares dos Santos

Uma cidade como Aparecida de Goiânia não tem como ser fácil de administrar: uma população de quase 600 mil pessoas (segundo estimativas do Censo em 2020), vários aglomerados urbanos, fazendo divisa com a capital. Enfim, vários desafios. Natural que quem ocupe o comando da Prefeitura sofra com muitas críticas – até porque o ser humano naturalmente costumam ser mais duro do que elogioso em relação a políticos.

O que não se pode negar em relação ao atual gestor do município é sua autenticidade e identificação com gente do povo. Vilmar Mariano (Patriota) nasceu em Aragoiânia, a 37 quilômetros da capital, e ainda criança mudou-se para a área rural do antigo acampamento Boa Esperança, em Aparecida de Goiânia, onde depois foi fundado o Jardim Alto Paraíso, às margens da GO-040. Antes de se tornar político e vereador por quatro mandatos da cidade, era camelô. “Fui o primeiro vendedor de radinho de pilha na porta do Serra Dourada”, garante.

No estádio, entre os torcedores que iam acompanhar seus times do coração, frequentemente estava o esmeraldino e então governador Maguito Vilela (MDB), de quem décadas mais tarde seria companheiro de partido, vereador aliado na Câmara – quando ele já era prefeito de Aparecida – e depois secretário municipal. “Hoje estou no cargo que já foi dele. Isso é o que Deus faz com uma pessoa, para Ele provar que existe”, finaliza.

Nesta entrevista ao Jornal Opção, concedida na sede da Prefeitura, que hoje tem o nome de Cidade Administrativa Maguito Vilela, o prefeito abre o jogo de forma bem franca. Garante que será candidato à reeleição, apesar de rumores contrários, e que ainda contará, para isso, com o apoio do governador Ronaldo Caiado (UB), do vice-governador Daniel Vilela (MDB) e de seu antecessor em Aparecida, Gustavo Mendanha (Patriota). Também de maneira aberta renega qualquer possibilidade de conciliação com o vereador André Fortaleza (MDB), presidente da Câmara e hoje seu “ex-amigo”. “Não tenho nenhum tipo de interesse em me aproximar [de André Fortaleza]. Da Câmara, sim; de seu presidente, não”, afirma Vilmar Mariano.

Equipe do Jornal Opção entrevista Vilmar Mariano, na sede da Prefeitura de Aparecida de Goiânia | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Euler de França Belém – O sr. será candidato à reeleição?

Sou pré-candidato e vou fazer uma gestão de excelência. Meu intuito é ser candidato à reeleição.

Euler de França Belém – O sr. acha que está fazendo uma gestão de excelência?

Não vou dizer que esteja fazendo uma gestão de excelência, mas uma gestão continuada, boa, semelhante à que Gustavo Mendanha estava executando e que deu a ele uma votação extraordinária.

Euler de França Belém – Quando estávamos vindo da redação do jornal para cá, já em Aparecida, perguntei a uma pessoa que estava vendendo água em um semáforo o nome do prefeito da cidade. A pessoa não soube responder. Isso é uma constante ou uma exceção?

Realmente há uma dificuldade nesse sentido. Fui vereador por quatro mandatos, fui secretário em duas oportunidades, depois vice-prefeito e agora prefeito. Vereador representa uma região e o prefeito é o “macro”. Estamos indo para o meio do povo, fazendo mutirões nos bairros, para que eu seja conhecido pela população.

Euler de França Belém – Há a especulação de que, na impossibilidade de o sr. concorrer à reeleição, talvez por não ter tempo de ser mais conhecido ou pelo desgaste natural da função, seu apoio iria para Veter Martins (Patriota) para prefeito. Isso procede?

É pura especulação. Veter não será candidato a nada no próximo ano, ele tem projeto político para 2026. Em 2024, o projeto de Veter é minha reeleição.

Euler de França Belém – O sr. está rompido politicamente com o deputado federal Professor Alcides (PL)?

De maneira alguma (enfático). Somos amigos e nos falamos todo dia. Estivemos juntos no mutirão do último fim de semana. Ele está apalavrado comigo sobre minha reeleição. Vamos estar juntos no ano que vem.

Euler de França Belém – E ele não será candidato a prefeito?

Eu acredito que não, porque está apalavrado comigo.

Euler de França Belém – Como o sr. avalia as conversações entre o vice-governador Daniel Vilela (MDB) e o ex-prefeito Gustavo Mendanha, que se encontraram na semana passada e conversaram por duas horas? O que isso significa?

Eu acho que seja uma reconstrução da amizade que eles tiveram quase toda a vida, como dois irmãos, um filho de Maguito Vilela e o outro, filho de Léo Mendanha [ex-deputado federal, que morreu em 2021], aliados históricos entre si. Por causa do processo eleitoral, eles se distanciaram. Agora, com o fim das eleições e ambos tendo projeto apenas para 2026, devem estar se realinhando para, de repente, estarem do mesmo lado, em uma chapa só.

Vou estar no palanque de ambos [Daniel e Mendanha], eles estarão juntos em 2026

Euler de França Belém – Qual é o projeto de Gustavo Mendanha para 2026?

Confesso que não sei, mas deve estar em alguma chapa majoritária, que terá quatro vagas em cada uma delas – governador, vice e duas vagas para o Senado.

Euler de França Belém – O sr. apoiará Mendanha e Daniel?        

Vou estar no palanque de ambos, porque eles vão estar juntos em 2026.

Euler de França Belém – O sr. está na base do governador Ronaldo Caiado?

Claro. O governador tem sido um grande parceiro. Só o fato de retirar o semiaberto já foi um gesto muito grandioso para Aparecida, além de tantos outros. Temos seis ginásios do Estado que serão repassados para a gestão municipal, o que era um desejo antigo nosso, tendo em vista que as pessoas sempre nos cobravam. Vamos devolver os ginásios para a população. O governo estadual também conseguiu R$ 2 milhões para fazermos a reforma deles.

Euler de França Belém – Quando o sr. fala em “estar na base”, isso significa também base política?

Primeiramente, vou estar na base administrativa, mas também, depois, na base política. Estaremos juntos em 2024 e, depois, em 2026.

Euler de França Belém – O sr. apoiará a primeira-dama Gracinha Caiado para senadora?

A primeira-dama é um grande nome, espetacular. Gracinha Caiado tem uma história junto com o governador. Teremos duas vagas para o Senado e tudo vai depender do que for construído. Se ela for candidata, vai ter nosso apoio, assim como Gustavo Mendanha e Daniel Vilela também terão.

Euler de França Belém – Comenta-se que a exoneração de André Rosa da Secretaria da Fazenda provocou uma crise entre o sr. e Gustavo Mendanha. Isso é informação ou fofoca?

Fofoca. André Rosa saiu porque ele quis, foi ele quem pediu exoneração.

Euler de França Belém – Dizem que ele e o sr. se atritavam…

Divergência de ideias. Ele às vezes pensava uma coisa e eu, outra. Mas a gente equacionava e no fim estava tudo certo. André saiu porque tinha realmente tinha um projeto pessoal para depois das eleições, mas ficou um pouco mais a meu pedido e agora em março decidiu seguir outro caminho.

Euler de França Belém – Comenta-se também que Mendanha, apesar de não ser o prefeito, teria aceitado o nome do economista Valdivino de Oliveira para a Secretaria da Fazenda. O sr. teria chegado a se encontrar com Valdivino na presença do deputado Professor Alcides. Por outro lado, Veter Martins teria indicado para o cargo Einstein Paniago, que acabou nomeado. Procede que isso tenha gerado uma crise entre o sr. e Mendanha?

De forma alguma (enfático). Valdivino é um grande nome de Goiânia, de Aparecida, enfim do Estado. Mas não teve conversa para ele vir ser secretário. Não foi Veter quem indicou Einstein, foi indicação minha mesmo. Ele faz parte de nossos quadros, foi trazido para a gestão por Gustavo Mendanha, tendo sido secretário de várias pastas. É alguém competentíssimo, foi assessor de Jorcelino Braga, quando este foi secretário de Estado da Fazenda de Alcides Rodrigues [governador de 2007 a 2010]. Einstein tem uma história com a cidade de Aparecida e foi isso que o capacitou para estar assumir o cargo.

Existe, sim, a possibilidade de eu voltar ao MDB

Cilas Gontijo – Há uma especulação também de que o ex-deputado federal Leandro Vilela poderia ser lançado como candidato a prefeito. Ainda existe a possibilidade de o sr. voltar ao MDB?

Existe, sim, a possibilidade de eu voltar ao MDB. Estive conversando com Daniel Vilela sobre isso. E não acredito que Leandro será candidato em Aparecida, acho até que é impossível.

Euler de França Belém – Houve rumores de que Daniel Vilela chegou a lhe falar que o sr. seria bem-vindo de volta ao MDB, mas que não poderia afiançar que seria seu nome o do candidato do partido em Aparecida em 2024. Isso procede?

Não procede, de forma alguma. Até porque, na oportunidade de encontro que tive com Daniel não foi cogitado nada sobre minha volta ao MDB. O que existe é meu desejo de coração de voltar ao partido, pela história que tenho lá: pelo MDB, fui secretário do prefeito Maguito, fui vereador eleito, fui presidente da Câmara de Aparecida, fui candidato a vice, vice eleito e também prefeito. E só saí porque Gustavo trilhou outro caminho e fui junto com ele. Mas, de maneira nenhuma foi falado algo nesse sentido.

Cilas Gontijo – Então, o sr. será o candidato de Daniel e de Mendanha em Aparecida?

E também do governador Caiado. Porque, como o próprio Daniel está dizendo, onde o MDB lançar candidato a prefeito, o União Brasil lançará o vice e vice-versa. O que estamos buscando é a união de Gustavo Mendanha com a base do governador para sermos o candidato do grupo.

Se eu estiver com desempenho ruim, nem vai ter vice para mim

Nielton Soares dos Santos – O União Brasil já tem um nome para ser seu vice em Aparecida?

Vice é um cargo de composição. Acho que Aparecida é o único lugar do mundo que discute quem será vice sem discutir antes quem será cabeça de chapa. Ora, se eu estiver com desempenho ruim, nem vai ter vice para mim, pode ter certeza. Então, o que tenho de fazer é estar bem avaliado, ninguém quer ser vice de quem não está bem diante da população.

Euler de França Belém – É verdade que as pesquisas mostram o sr. bem atrás de outros pré-candidatos?

Pelo contrário, o levantamento a que tive acesso – estou até com os números aqui – é totalmente diferente. Estou em 1º lugar, com 14%; depois, Professor Alcides, com 8%; Ademir com 2%; 56% não sabem ainda e 13% não opta por ninguém.

Euler de França Belém – Então, na verdade, o sr. está bem nas pesquisas?

Não sei ainda. Vamos fazer uma quali [pesquisa qualitativa] para ter uma noção melhor. Essa pesquisa aqui foi feita por uma pessoa séria, que tem credibilidade.

Euler de França Belém – Qual foi o instituto que elaborou a pesquisa?

Prefiro não falar, porque a pessoa que me deu o acesso pediu essa discrição.

Italo Wolff – O que o sr. pensa do nome do ex-prefeito Ademir Menezes para a sucessão municipal?

Com certeza é um bom nome, alguém que construiu sua história na cidade. Foi duas vezes prefeito e elegeu José Macedo como sucessor. O que ocorre é que está muito tempo fora das disputas, quase 20 anos, apesar de ter elegido seu filho, Max [Menezes], deputado estadual. Não sei é se ele quer participar do pleito, já que está fora desde 2004 do âmbito municipal, da política local.

Euler de França Belém – Ele seria um bom vice?

Ademir é um bom nome, mas vice é uma questão de composição.

Euler de França Belém – Falam que o sr. teme o presidente da Câmara de Aparecida, André Fortaleza (MDB). Isso é realidade ou ficção?

É claro que é ficção. O sujeito é meu inimigo, se ele tivesse algum dossiê teria soltado isso no primeiro dia.

Euler de França Belém – E por que vocês se tornaram inimigos?

Nem sei. Quando eu era presidente da Câmara e ele vereador, éramos grandes amigos. A partir do momento em que ele se tornou presidente, houve um distanciamento e ficou assim.

Euler de França Belém – O sr. o desafia a divulgar esse suposto dossiê?

Pode divulgar (enfático). Até porque, se eu tiver feito coisa errada, tenho de pagar pelo erro. Se ele tem mesmo esse dossiê e não denunciar, tem de ser penalizado por prevaricação. Se somos inimigos políticos, por que não soltou ainda esse dossiê? Vai soltar que dia? No dia da eleição? Se eu tiver fazendo algo errado, quero mais é que digam, que denunciem, para que eu pague pelo erro. Hoje o que vai para a Câmara em projetos de lei não tem nada de imoral ou ilegal, só coisa legal e moral.

Euler de França Belém – Hoje na Câmara o sr. tem o apoio de quantos vereadores?

Dezenove de 25 vereadores, ao total. Não tenho nenhum tipo de problema para aprovar projetos. Como eu disse, só vou passar projetos legais e morais, quem não quiser votar, eu passo para a comunidade quem resolveu não votar.

Nielton Soares dos Santos – O sr. fala em retornar ao MDB, mas André Fortaleza diz que, se isso acontecer, o sr. entra por uma porta e ele sai por outra.

Não trato sobre partido com André, porque ele não é presidente do diretório do município. Meu trato é com Daniel Vilela, que é presidente estadual do MDB, que é meu irmão. Não teve qualquer projeto político em que Daniel de que eu não participei, a não ser este último, para ser vice do governador Caiado.

Não tenho nenhum interesse em me aproximar de André Fortaleza

Nielton Soares dos Santos – Falam muito na retomada da boa relação entre a Prefeitura e a Câmara, entre o sr. e o presidente André Fortaleza. O deputado Professor Alcides, inclusive, declarou que já se reuniu com o vereador, visando essa aproximação. Da parte do sr., há alguma intenção nesse movimento?

Não tenho nenhum tipo de interesse em me aproximar do presidente (enfático). Da Câmara, sim; do presidente, não.

Nielton Soares dos Santos – Por quê?

Diante das ações que ele tem tomado ao longo do ano em que estou à frente do Executivo, nem se partisse dele alguma tentativa de aproximação. E podem escrever tudo isso que estou falando.

Meu grande sonho é concluir o asfalto que falta nos bairros

Euler de França Belém – O sr. assumiu a Prefeitura de Aparecida de Goiânia há um ano. Qual a marca que espera deixar para a cidade?

A marca de todo prefeito é conseguir melhorar a infraestrutura dos bairros da cidade, sobretudo a questão do asfalto. Nós temos ainda 23,3% de ruas a serem pavimentadas em nosso município. Meu grande sonho – além de trazer uma maternidade para Aparecida – é concluir o asfalto que falta nos bairros.

Euler de França Belém – O sr. diz que pretende concluir o trabalho que foi deixado pelos gestores anteriores, como Maguito Vilela e Gustavo Mendanha, que também avançaram muito nesse ponto. Quantos metros quadrados serão pavimentados ainda em sua gestão? Sobre o custo, qual será e qual a fonte dos recursos para encaminhar as obras?

Estamos pleiteando um empréstimo que está em fase final de contratação, no valor de US$ 120 milhões, com uma contrapartida de US$ 30 milhões. Ou seja, ao todo US$ 150 milhões, ou aproximadamente R$ 800 milhões. Creio que até o fim de maio conseguiremos concluir esse processo. Eu pedi para que fizéssemos a licitação quase R$ 218 milhões em asfalto, numa primeira leva. Fizemos agora o lançamento de um grande eixo que liga o Jardim Tiradentes ao Setor Madre Germana, obra orçada em R$ 22 milhões. Também estamos executando uma parte da pavimentação do Setor Independência Mansões que estava faltando, ao custo de R$ 6 milhões. Outra obra é na Vila Oliveira, com uma dotação igualmente de R$ 6 milhões.

Euler de França Belém – Esse empréstimo vem do banco do Brics, que a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) está comandando agora?

Exatamente.

Euler de França Belém – Dizem que esse empréstimo é muito difícil de conseguir, porque depende do Tesouro e porque está vinculado à capacidade de endividamento do município. Como está essa questão?

Nossa capacidade de endividamento está no nível B na Capag [Capacidade de Pagamento, classificação de risco elaborada pelo Tesouro Nacional], mas ultimamente vinha sendo conceito A. Caiu recentemente, por conta de gastos da máquina pública, mas estamos em uma situação. Tudo isso já passou pelo Tesouro Nacional e está em avaliação pelo banco. Creio que vamos assinar contrato agora em maio.

Italo Wolff – O sr. se comprometeu a iniciar as obras sem esperar pela conclusão da negociação do empréstimo?

Essa licitação de R$ 218 milhões está provisionada, parte pelo empréstimo e parte com recursos que temos para iniciar as obras. E assim já as começamos, já temos um cronograma a ser executado, que é nos trechos de que falei há pouco. Há também pequenos trechos que estamos fazendo, em que pavimentamos um bairro quase inteiro e ficam poucas ruas por concluir. É algo que vai dar resultado em toda a cidade.

Euler de França Belém – Há uma queixa bastante frequente dos leitores do Jornal Opção sobre a saúde de Aparecida: a de que faltam médicos e que algumas unidades de saúde estão caindo aos pedaços. Citam, inclusive, a UPA [unidade de pronto atendimento] do Parque Flamboyant, em que uma porta teve de ser retirada, por receio de que ela caísse e machucasse pessoas. O que o sr. pode responder em relação a essas reclamações?

Realmente, os prédios vão ficando velhos e precisam passar por reformas. Estamos em um processo licitatório que vai reformar as três UPAs do município – além do Parque Flamboyant, também a do Setor Buriti Sereno e a do Residencial Brasicon.

Cilas Gontijo – E o que o sr. pode dizer sobre os recursos para a construção da maternidade?

A gente está fazendo a solicitação via governo federal, por meio de nossos senadores – Jorge Kajuru (PSB), Wilder Morais (PL) e Vanderlan Cardoso (PSD) –, que vão nos ajudar muito, além de nossos deputados federais. Vamos solicitar o aporte de recursos para que compremos o Hospital Garavelo, que abrigará nossa maternidade. A negociação está andando, no estágio de precificação e, assim que conseguirmos viabilizar tudo, teremos lá essa nova e essencial unidade de saúde do município.

Euler de França Belém – As pessoas reclamam que houve um novo credenciamento de médicos no ano passado, mas que, mesmo assim, continua faltando profissional. Essa queixa procede?

Não vou dizer exatamente que procede, porque têm médicos nas unidades. Entretanto, nossa rede é muito grande, são mais de 50 unidades de saúde e temos tentado colocar médicos suficientes para todas elas. Obviamente, não temos como colocar 10 ou 15 profissionais em cada unidade, porque é um programa do governo federal que estabelece uma quantidade para ser mantida nas UBSs [unidades básicas de saúde] e nas UPAs, também.

A cidade se agigantou e precisamos de uma maternidade do tamanho dela

Nielton Soares dos Santos – Com a nova maternidade funcionando no Hospital Garavelo, a [Maternidade] Marlene Teixeira será desativada?

Sim, ali naquele espaço não dá mais, ficou muito acanhado. A cidade se agigantou e precisamos de uma maternidade do tamanho dela. O Hospital Garavelo, para ter ideia, tem 120 leitos. O proprietário quer vendê-lo e está na fase de precificar, para ver se a gente consegue adquirir esse hospital para transformá-lo em nossa maternidade.

Nielton Soares dos Santos – Ainda não se sabe o valor da negociação, então?

Ainda estamos precificando, não sei o valor total, mas deve ser por volta de R$ 30 milhões.

Nielton Soares dos Santos – E como fica a situação do prédio da Saúde no Jardim Boa Esperança, que tempos atrás estava previsto para ser para a maternidade? Continuará então como instalação do Centro de Especialidades Municipal?

Isso é uma história antiga, quando o prefeito ainda era José Macedo [prefeito de Aparecida de Goiânia de 2005 a 2008] e o então deputado Chico Abreu aportou cerca de R$ 7 milhões à época. Mas, então, o projeto não ficou adequado para uma maternidade. Maguito, quando assumiu, tomou a iniciativa de transformar o espaço em um centro de especialidades médicas e a coisa funciona muito bem dessa forma. Agora, temos de buscar uma alternativa à altura do povo de Aparecida. Como o Setor Garavelo perdeu um Cais como unidade de saúde recentemente, vamos levar a maternidade para lá, como uma maneira de dar um retorno e uma resposta para aquela população.

Euler de França Belém – Como está a situação do Huapa [Hospital Estadual de Aparecida de Goiânia Cairo Louzada], que é uma unidade do governo estadual?

O governador Ronaldo Caiado (UB) já nos sinalizou que vai fazer o Huapa passar por uma grande reforma. É também um prédio antigo, que precisa mesmo passar por uma reforma estrutural e isso deve se iniciar a partir do segundo semestre, é a informação que eu tenho. Mesmo assim, é preciso ressaltar que o Huapa funciona bem, conforme relato das pessoas que passam por lá para atendimento de situações como fraturas e outras urgências.

Nielton Soares dos Santos – E sobre o HMAP [Hospital Municipal de Aparecida de Goiânia], que está hoje sobre gestão do grupo do Hospital Albert Einstein, o que o sr. pode dizer?

É um hospital de excelência e ouso dizer que é o melhor hospital público do País. Foi construído por Maguito Vilela e inaugurado por Gustavo Mendanha. Maguito idealizou a obra e o então presidente Michel Temer (MDB) veio para a inauguração, mas Alexandre Padilha [então ministro da Saúde, hoje ministro-chefe de Relações Institucionais do governo de Luiz Inácio Lula da Silva] nos ajudou ainda no governo de Dilma.

Euler de França Belém – Maguito é um mito ou realmente foi muito importante para Aparecida de Goiânia?

Maguito é um divisor de águas na história de Aparecida. Ele chegou aqui com um conhecimento amplo do Congresso Nacional, de todas as esferas federais, muito amigo da presidente Dilma Rousseff (PT), do presidente Lula (PT). Cheguei a presenciar Maguito ligando para a presidente Dilma. Ele tinha uma influência muito grande e usou essa influência para canalizar muita verba para cá, muita verba mesmo. Quando Maguito assumiu o governo em Aparecida, acredito que não tínhamos nem dez unidades de saúde. Agora, chegamos a quase 50 unidades, entre UPAs, UBSs, hospitais e maternidades.

Italo Wolff – Qual tem sido o investimento da Prefeitura na área social?

Minha esposa, a primeira-dama Sulnara Santana, tem feito um trabalho diferenciado com parcerias. Nesta semana, ela está indo a Brasília para ver o que pode trazer para questões sociais em nosso município. Vamos fazer agora a festa de maio [aniversário de fundação de Aparecida]. Claro, que a questão social não pode estar vinculada apenas a cesta básica, à alimentação. Mas estamos saindo de um período muito ruim, de pandemia, e vivemos em uma cidade de um povo muito humilde, então temos parcerias com pessoas que doam alimentos para a assistência social. Os Peti [Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, iniciativa federal que articula conjunto de ações para retirar crianças e adolescentes de até 16 anos da prática do trabalho precoce] e as escolinhas de futebol funcionam muito bem. Tudo isso faz parte da questão social do município.

Cilas Gontijo – O Centro Olímpico de Aparecida parece estar abandonado. Quais projetos o sr. tem para o local?

Temos lá natação para os idosos, escolinhas, o Centro Olímpico é uma base, mas nossos projetos sociais de esporte estão espalhados pela cidade inteira. Não dá para levar toda a população para o Centro Olímpico, a cidade é muito grande, mas há muitas atividades lá, especialmente para a terceira idade.

Cilas Gontijo – Mas o espaço parece estar subutilizado.

Durante o dia passa essa sensação, porque muita gente trabalha, mas no fim da tarde o espaço fica muito ocupado, tanto as quadras como as piscinas. Também as crianças dos unidades dos Petis vão para lá.

Cilas Gontijo – Existe, no Setor Colina Azul, um time de futebol, o Cerrado Esporte Clube. A agremiação tem alguma parceria com a Prefeitura?

Eu estive lá na sede deles e falamos sobre uma parceria, para que pudessem fazer seus jogos no Estádio Aníbal José de Toledo e usar o Centro Olímpico para os treinamentos. Isso está em andamento.

Italo Wolff – E os Cmeis [centros municipais de educação infantil], são suficientes em Aparecida?

Temos um déficit de quase 8 mil vagas nos Cmeis. Este ano vamos baixar esse número, porque vamos construir sete novas unidades. Entretanto, infelizmente, cidades de grande porte como Aparecida não conseguem zerar a demanda por vagas em educação infantil, é muito difícil.

Euler de França Belém – Quantos alunos tem Aparecida?

Aparecida tem mais de 40 mil alunos. São 94 unidades educacionais, entre Cmeis e escolas. Com as unidades conveniadas, isso chega a 115. Só essas absorvem 8 mil vagas.

Euler de França Belém – Embora não seja atribuição do município, Aparecida também se tornou um polo universitário. Quantos alunos de ensino superior têm na cidade?

Hoje há mais de 10 mil estudantes, com várias faculdades e universidades de diversos portes.

Euler de França Belém – O contencioso com os profissionais de educação do município foi resolvido, com o pagamento do piso salarial?

Totalmente resolvido. São 14,95% equacionados, a partir de março, que será pago neste mês de forma retroativa.

Eu não ‘lulei’. Eu ‘aparecidei’

Euler de França Belém – A ajuda que o governo Lula deu, em relação a essa pauta da educação, foi positiva?

Foi bom demais, eu acho que o professor precisa mesmo ser valorizado.

Euler de França Belém – O sr. “lulou”?

Não, não “lulei”. Eu “aparecidei” (risos). O governo Lula se sensibilizou. Quem jogou para a plateia foi Bolsonaro, dando um aumento de 33% nas costas dos prefeitos, o que foi desumano para a gente cumprir. Mesmo assim, nós cumprimos aqui em Aparecida, com 20%, pedindo para que eles pudessem ajuizar o restante, para que, assim que sair a decisão, a gente pague, também.

Euler de França Belém – De qualquer maneira, os professores tiveram de fazer pressão sobre o sr. para conseguir…

De maneira nenhuma. Claro que é natural, até para fazer o estudo orçamentário, gastar algum tempo. Mas não houve nenhum tipo de pressão maior. Há duas associações dos professores: o Comando de Lutas, que é mais agressivo, vem para a porta, quer “brigar”; o Sintego [Sindicato dos Trabalhadores da Educação de Goiás] é adepto da conversa, nós já recebemos suas lideranças várias vezes, inclusive nesta mesa aqui.

Cilas Gontijo – Professor precisa ser valorizado profissionalmente na questão financeira, mas também em sua integridade física, na sala de aula. O que Aparecida tem feito para coibir os ataques às escolas e valorizar os profissionais da educação?

No primeiro momento em que ficamos sabendo dos ataques País afora, determinamos que houvesse um guarda municipal em cada unidade de ensino e isso foi feito. Em três dias, todas as escolas estavam cobertas por um guarda. Vamos também implantar a biometria facial, em que cada aluno vai ser reconhecido e chegará, no celular de seu responsável, a mensagem comunicando que ele entrou na escola. Da mesma forma vai ocorrer no fim do período da aula. Também providenciamos o botão de alerta, para situações em que houver alguma suspeita de ataque, tenhamos uma ação da Polícia Militar em até quatro minutos naquele local. Mas creio que não vamos ter problema nenhum em Aparecida, onde estamos preparados para quem está espalhando pânico pela cidade. Temos o serviço de inteligência da Guarda Municipal, bem como da PM também. Vamos estar atentos a quem eventualmente pretenda espalhar o mal por aqui.

Com relação à valorização dos professores em termos de condições de trabalho, estamos reformando todas as escolas para dar condições ideais de trabalho. Nas escolas de Aparecida, também estamos com o programa Paz é a Gente Quem Faz, contando com a participação dos pais para que orientem seus filhos em casa, para que não levem objetos pontiagudos ou cortantes, canivetes ou algo assim. No Estado, houve a determinação de abertura das mochilas para vistoria. Aqui não haverá isso, até porque no ensino da rede estadual são alunos mais velhos.

Euler de França Belém – Algumas cidades, especialmente no Entorno, reclamaram do Censo do IBGE. A população dos municípios seria, segundo os gestores, muito maior. Isso geraria dificuldades para recursos. Como está a situação em Aparecida?

O último Censo que tivemos, de fato, foi em 2000. Hoje, em Aparecida, sem contar os condomínios fechados que temos aqui, que são mais de cem – e onde os recenseadores têm dificuldade de entrar –, o Censo chegou a mais de 500 mil habitantes. Mas, na minha crença, temos cerca de 650 mil habitantes em Aparecida de Goiânia. De qualquer forma, isso não afetou o repasse ao município. Mas alguns amigos que moram em condomínios me informaram que não foram recenseados porque não permitiram que o pessoal do IBGE entrasse no local.

Italo Wolff – Aparecida tem muitos condomínios e distritos agroindustriais. Como é a atuação da Prefeitura dentro desses locais? Há facilidade para entrar e verificar questões como controle de água e esgoto, por exemplo?

Na verdade, tudo que um prefeito queria na vida era que a cidade fosse feita de condomínios. Não temos dificuldade nenhuma com esses locais, porque é tudo por conta deles mesmos – varrição, limpeza em geral etc.

Euler de França Belém – Goiânia sempre tem questionado o valor que recebe de ICMS. E Aparecida, está satisfeita com o que recebe desse imposto pelo governo?

Satisfeito ninguém nunca está, sempre quer mais. A gente sempre questiona, mas sabemos do momento que vivemos, de muita dificuldade, e temos feito uma gestão boa com o que estamos recebendo.

Euler de França Belém – Qual é o valor da arrecadação anual de Aparecida?

É acima de R$ 2 bilhões, oscilando entre R$ 2,2 bilhões e R$ 2,3 bilhões, variando com campanhas que fazemos para IPTU e ITBI [impostos municipais].

Nielton Soares dos Santos – Aparecida está se preparando para receber novas empresas, no Complexo Norberto Teixeira. Como o município será beneficiado?

São mais de 200 empresas que vão funcionar em um terreno com mais de 1,1 milhão de metros quadrados da Companhia de Desenvolvimento Econômico de Goiás (Codego), que vão gerar ICMS e ISS aqui. É um polo empresarial que será instalado em breve, já com assinatura do TAC [termo de ajustamento de conduta]. Com isso, a área do semiaberto volta para dentro do antigo Cepaigo [hoje Penitenciária Coronel Odenir Guimarães].

Euler de França Belém – E a penitenciária, vai sair de Aparecida?

É um sonho tirá-la de Aparecida, até porque as empresas que estão se instalando vão avançar para próximo da área do complexo prisional. Mas sabemos que é muito dinheiro e é preciso que haja o envolvimento dos governos federal, estadual e municipal para achar uma área adequada. O ideal, em meu ponto de vista, seria descentralizar, com cada grande cidade ter seu presídio.

Euler de França Belém – Há uma queixa de empresários, ainda da gestão anterior, segundo a qual eles estariam com dificuldade de conseguir as escrituras dos terrenos repassados pela Prefeitura, o que era compromisso para sua instalação no município. Isso mudou em sua gestão?

Não vou dizer que isso mudou, porque considero essa queixa infundada. A escritura depende do município e do cartório. É algo muito burocrático, realmente. Somente depois que eu assumi, em um ano, entregamos 60 escrituras. Na semana passada, entreguei 11 e há outras 11 para ser entregues, sendo finalizadas no cartório. Faltam entregar, no total, 140 escrituras. Outra questão é que só reclamam aqueles que demoram um pouco mais a receber, já quem não tem problema não fala que deu tudo certo.

Cilas Gontijo – Sua relação com o todo dos vereadores é boa?

Eu não tenho atrito nem com o André [Fortaleza]. Ele é quem fica falando nas redes sociais que a gestão está ruim.

Euler de França Belém – E o sr. foi amigo dele [André Fortaleza] algum dia?

Demais. Nós viajamos juntos para a Turquia, para fazer implante de cabelo.

Euler de França Belém – E o implante não deu certo, não?

(risos) Deu certo, é que eu não tinha nem um fio de cabelo. É o que eu tenho, pelo menos não vou ser careca. (risos)

Euler de França Belém – O sr. tem um problema físico em um dedo da mão. O sr. pode contar o que foi?

Foi um acidente. Eu fui criado em fazenda e estava sentado no para-choque de um trator quando meu tio foi colocar o veículo na garagem e meu dedo foi prensado no portal. Virou uma “bagaceira”. Eu tinha 7 anos. O interessante da história é que eu tive esse acidente aqui, em Alto Paraíso [localidade de Aparecida]. Meus pais se separaram quando eu era muito novo e fui morar com meu tio. Depois fomos para Luziânia e mais tarde voltei para o bairro onde era a fazenda em que morei, onde hoje é o Loteamento Boa Esperança.

Euler de França Belém – Dizem que as pessoas entram na política pobres e saem dela ricos. Eu conheço casos de políticos que entraram ricos e saíram pobres. O sr. ficou rico?

Eu entrei na política para servir. Quem entra na política para servir não fica rico.

Euler do França Belém – O que o sr. tem de bens, hoje?

Estou construindo um posto de gasolina, no Jardim Alto Paraíso, em lotes que eu comprei quando ainda nem era político, em 2000. Moro em uma casa boa, num condomínio, o Flora Park. Meu patrimônio hoje não dá R$ 2 milhões.

Euler de França Belém – E o que o sr. faz além da política?

Não tenho, minha atividade é a política, mesmo. Minha fase está se esgotando. Já estou com 57 anos, irei para meu segundo mandato como prefeito. Estou migrando para o ramo de posto de gasolina, sempre sonhei com isso e agora deu certo. É para eu sobreviver no período pós-eleitoral.

Euler de França Belém – É verdade que o sr. foi ambulante antes de ser político?

Eu fui camelô. Viajava para o Paraguai e vendia aqueles radinhos de pilha de torcedor. Fui o primeiro vendedor de radinho na porta do Serra Dourada. Naquela época, todos esses radinhos que as pessoas vendiam lá eram meus. E uma coisa interessante: eu estava ali, na beira da escada, e ouvia falar “olha, o governador Maguito está aí”, depois “o senador Maguito” e assim foi. Passou o tempo e eu virei vereador quando ele era prefeito, depois secretário dele e hoje estou no cargo que já foi dele. Isso é o que Deus faz com a pessoa, para provar que Ele existe.

Euler de França Belém – É verdade que quem trabalha de camelô ama o que faz ali?

Eu gosto demais, até hoje. Acho bom mesmo. A gente lida com gente, também. Camelô tem de gostar de gente igual um político gosta.

Euler de França Belém – Silvio Santos começou como camelô, o sr. o admira?

Eu acho que isso é meio balela, porque desde menino eu vejo que ele já tinha o SBT, então não foi bem assim (risos). Mas, é verdade, a história mais bonita da televisão brasileira é a dele.