“Vácuo do PT e do PSDB produziu Bolsonaro e todo mundo tem medo do candidato do PSL”

“Lula virou o cangaceiro da política ao usar órgãos internacionais para tentar viabilizar sua candidatura”, analisa cientista político e mestre em Antropologia pela Universidade de Moscou

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Rafael Oliveira

Mestre em Antro­po­logia pela Univer­si­dade de Moscou, autor de livros sobre Ciência Política — um deles best seller e tido como guia crucial para se entender o pensamento de Nicolau Maquiavel e Thomas Hobbes, para arrolar apenas dois filósofos —, leitor do poeta Púchkin e do prosador Liev Tolstói no original, o professor Wilson Ferreira da Cunha viveu sete anos na União Soviética. Lá, para além das leituras de clássicos históricos e literários, pôde conhecer como funciona uma sociedade comunista de matiz stalinista. Esteve em Cuba (a Disneylândia das esquerdas), ainda nos tempos de Fidel Castro, mas não se encantou com a ilha (sabe que o embargo comercial é um mito, pois na verdade o país, menor do que Goiás, não tem dinheiro — dólares — para aquisição de produtos em alta escala). Poderia ter se tornado um “robô” vulgarizador das ideias de esquerda, mas, pensando pela própria cabeça — tendo lido Raymond Aron, Isaiah Berlin, John Gray, Guy Sorman —, decidiu se tornar um crítico independente e preciso dos desmandos da esquerda, o que não significa que siga o apostolado da direita. É, por assim dizer, um livre pensador, um adepto da intelligentsia que não faz concessões às ideologias.

Professor de Ciência Política e Antropologia na Pontifícia Uni­ver­sidade Católica de Goiás, Wil­son Ferreira da Cunha postula que os votos brancos e nulos, os de protesto e o voto útil podem produzir uma surpresa na disputa presidencial deste ano. O candidato do PSL, deputado federal Jair Bolsonaro, será o principal alvo de ataques dos adversários por liderar as pesquisas e ter seu voto cativo em parte do eleitorado por ter aproveitado o vácuo deixado pelo PT e pelo PSDB na sociedade. Na avaliação do professor, a estratégia petista de apagar os mandatos da ex-presidente Dilma Rousseff não será bem-vista pelos cidadãos e os erros do PT na educação levarão 500 anos para serem corrigidos.

O ex-presidente Lula da Silva (PT-SP) tem aproveitado o seu “comitê político” na cela da Polícia Federal para fazer campanha para Fernando Haddad, que, segundo o cientista político, é o sucessor natural do petismo no Brasil. Lula da Silva se tornou o “cangaceiro da política” ao usar órgãos internacionais, como a Organização das Nações Unidas, para tentar viabilizar sua candidatura. O cientista político acredita que o PT transformou o Brasil numa Disney em seus programas eleitorais.

No atual cenário de pouca expectativa de renovação no Congresso Nacional, o professor analisa que o próximo presidente será pautado pelo “favor” dos congressistas e que as reformas Política, Tributária e da Previdência perderão fôlego sem poder de articulação entre o Planalto e os parlamentares.

Como o sr. avalia o desempenho dos candidatos ao Planalto até o momento?
A tendência é polarizar entre dois ou três candidatos. O que pode influenciar são os votos brancos e nulos. Existe esse vácuo que os próprios políticos admitem. O voto útil e o voto de protesto podem gerar uma surpresa nacional. Apesar da artimanha do PT para manter o “símbolo” Lula da Silva na campanha, é provável que o petismo não vai conseguir crescer muito neste pleito. É importante analisar as pesquisas sem o ex-presidente na urna para entender o que pode acontecer no segundo turno. Geraldo Alckmin [candidato do PSDB] tem tentado fazer uma campanha propositiva, com programas nas redes sociais e outras estratégias, mas é preciso ter dinheiro para diversificar a campanha. Trata-se de um bom candidato, mas patina nas pesquisas até hoje. Todo mundo vai bater no Bolso­na­ro, nas propostas dele e na imagem dele. Mas é um deputado como qualquer outro, que se aproveitou desse vácuo, e inicialmente nem seria candidato à Presidência da República. É produto da debacle do PT e do PSDB.

O PT tenta passar uma borracha nos mandatos da Dilma Rousseff. A estratégia vai funcionar?
Talvez funcione no Nordeste, onde o PT tem voto cativo. Mas a estratégica não tem sido bem-vista. Henrique Meirelles (MDB) está usando isso contra eles com o slogan “Chama o Meirelles”. Ele salvou o governo de Lula da Silva, mas a Dilma Rousseff não o chamou e deu no que deu. Meirelles sempre arruma a bagunça dos políticos. O PT destruiu a educação brasileira de uma forma que vai levar 500 anos para consertá-la.

Como assim, professor?
Os países desenvolvidos investem na economia, na educação, nos museus e os petistas destruíram tudo isso. Eles criaram vagas na universidade privada para “colocar o povo na universidade”. Isso foi uma fraude educacional, basta ver o balanço até o ensino médio, que é uma catástrofe, um caos. E colocar essas pessoas numa universidade sem preparo nenhum piorou os quadros de profissionais no mercado de trabalho. Foi uma política demagógica, assistencialista, populista, como tudo que o PT faz. O petismo encheu a universidade de gente despreparada, isso não se faz. Estudei em Moscou. A cidade tem 12 milhões de habitantes e 20 mil universitários. O Brasil é um dos países com mais desigualdade no mundo, mas não existe isso de enfiar todo mundo nas universidades. Os formados são candidatos ao desemprego — na maioria das profissões. Meu filho é dentista e na turma dele só 14 conseguiram trabalhar na área. O custo da Educação no Brasil é muito alto, sem eficiência e competência nenhuma. O aluno da universidade é igual aluno do ensino fundamental e médio: passa de ano só de fazer aniversário e já está no outro ano. Não interessa a qualidade, a régua é zero. O aluno fica 11 anos numa escola e sai sem saber ler, escrever e fazer conta básica de matemática. Em qualquer lugar no mundo, a pessoa aprende a fazer conta. A realidade é triste. É preciso entender que educação e ideologização não combinam. Aí vem Geraldo Alckmin e Ciro Gomes fazendo demagogia. Ainda não vi Henrique Meirelles adotando o populismo como tática. Álvaro Dias está fazendo uma boa propaganda. Mas Alckmin e Ciro estão fazendo campanha para Bolsonaro. Pobre do País que precisa de um salvador da pátria. Não acredito que Fernando Haddad vai atrair esses votos de Lula. Sem Lula na pesquisa, Haddad fica em quarto.

Lula da Silva preso faz mais barulho do que solto?
Lula está fazendo campanha o tempo todo, nunca deixou de ser candidato. O PT já sabia que as decisões do TSE seriam desfavoráveis ao candidato deles. Por isso, gravaram muita coisa para deixar no ar e tentar pegar alguns indecisos, como se o País fosse uma Disney. Tentaram lá na ONU também. Alguém pode sido pago para dar aquela nota insignificante. Bolsonaro entra nesse espaço. A propaganda dele é quase igual à do médico Enéas Carneiro, que foi deputado federal e disputou a Presidência da República. Todo mundo está com medo de Bolsonaro.

Bolsonaro vai conseguir manter a intenção de voto só com as redes sociais?
É provável, afinal os outros candidatos estão fazendo uma péssima propaganda eleitoral. Em Goiás, Zé Eliton (PSDB) está repetindo Alcides Rodrigues ao sugerir que “agora é candidato”. Observe-se que, em termos nacionais e não apenas locais, há uma aposta no assistencialismo. Mas na população há um limite para investimentos sociais. O Estado está inchado e não consegue se financiar. A população quer ter uma melhoria de vida sem ficar dependendo dos políticos. A política não é religião, mas eles querem transformar a política numa dependência sem fim e não pode ser assim. Agora que estão partindo para a ignorância de discriminar os adversários, como estão fazendo com Bolsonaro. Ninguém, no cenário nacional, apresenta as propostas que a população quer ouvir, estão fazendo bobagens nas propagandas. Não há nada de relevante. É só delírio manipulado.

Mas o PT não tem atacado Bolsonaro até o momento.
O PT só quer dizer que o povo “vivia feliz”. Pergunte ao povo se vivia feliz? A população de modo geral não acredita mais em promessas. O petismo quer transformar a política em politicagem. É preciso trabalhar com fatos concretos e os fatos do governo Lula são péssimos. Não sei se o PT tem um economista como o Paulo Guedes, que é do Bolsonaro, que participou da elaboração do Plano Real. Se chegarem ao poder novamente, os petistas vão chamar o pessoal que fez o que estamos vendo hoje. Aquele povo do PT —Antonio Palocci, Guido Mantega e Nelson Barbosa. Os candidatos estão chegando ao nível do desespero. Alckmin chegou a dizer que ia pagar metade do gás para o povo. Isto não é pensamento de administrador. Tem que se ensinar a população a ter educação e mostrar o que o cidadão pode fazer pelo País e não o País deve fazer por ele. Senão a máquina pública é usada como máquina de fabricar pobres, enquanto os governos deviam erradicar a pobreza. Em Goiás, Ronaldo Caiado, candidato do DEM a governador, é o destaque — dada sua imagem de bravo. José Eliton, o candidato do PSDB, não deslanchou até agora.

Petismo não fala em empreendedorismo e só pensa em cobrar mais impostos

Pesquisas qualitativas mostram que os eleitores querem candidatos éticos e honestos. Por que as campanhas não atendem o clamor?
A população nem entra na produção da campanha dos candidatos. Para os profissionais, quanto mais ignorar, melhor. Eles têm currais eleitorais — é a estratégia. O desânimo do eleitor com a política é porque os candidatos querem manter tais currais. Esta estratégia política não mostra como os candidatos querem governar. Lula virou o cangaceiro da política e tem usado órgãos internacionais contra a legislação eleitoral brasileira abertamente. O Estado de São Paulo tem 45 milhões de eleitores, talvez seja ingenuidade achar que votariam em peso em Lula. Em Minas Gerais, Dilma Rousseff tenta ser eleita para o Senado. Eles mascaram o assalto ao Erário e apostam no suposto marketing de que a população vivia feliz. O petismo fez do Brasil um curral. As propostas não variam nunca em nenhuma campanha. Eles acham que o Brasil é uma monarquia.

As campanhas têm sido baseadas em ataques e desconstrução dos adversários nos últimos anos. Neste ano ainda vai funcionar?
Ainda funciona sim. Os candidatos têm usado só isso. Ninguém fala em melhora da economia, só Henrique Meirelles. No ano passado, 10 mil milionários do Brasil foram morar no exterior. Eles estão respaldando os fracassos do governo petista. Ainda tem a profissionalização do Movimento dos Sem Terras (MST). Não falam em empreendedorismo, só falam em cobrar impostos. Eles não estão olhando lá para frente. A campanha dos candidatos não tem raciocínio político.

O próximo presidente vai ter fôlego político para pautar a Reforma Tributária?
Qualquer governo que queira transformar o Brasil numa Vene­zuela é só fazer o oposto. Tem que fazer as reformas Tributária e da Previdência. O Brasil tem de andar. Isso precisa ser discutido. Álvaro Dias e Henrique Meirelles têm pautado isso na campanha. Os demais estão fazendo “politiquice”.

Mas o Congresso Nacional não quer fazer as reformas. As campanhas dos candidatos não têm se pautado no que o Congresso quer fazer ou não para o próximo mandato presidencial?
Claro, vai depender do “favor” do Congresso. O presidente vai ser refém das armadilhas da Lava Jato, como fizeram com o presidente Michel Temer. Jogaram as delações da JBS no momento oportuno, ou seja, quando as reformas tramitavam no Con­gresso. Eles tiveram força para abalar Temer e até conseguiram colocar o Temer em uma seara separada deles. O Congresso elegeu Dilma Rousseff e Temer e depois agem como se não tivessem nada a ver com isso. Dilma Rousseff foi eleita graças ao voto do MDB e agora sobrou ao petismo a ladainha de que fizeram isso ou aquilo. Os dados provam que o PT empobreceu a população e agora parece que a culpa é de Temer. Pensam hoje que apostar em Lula é o avesso do Bolsonaro. A democracia precisa de diálogo para governar.

Professor, perguntei isso porque não existe expectativa de renovação no Congresso e o próximo presidente deve se deparar com os mesmos rostos que aí estão.
Vamos ver o que vai dar. Tem mais um mês de campanha ainda. Uma coisa é clara, a Justiça não vai dar espaço a Lula para atuar na campanha. Apesar de eles terem lá os ministros Ricardo Lewandovski e Dias Toffoli, não têm maioria. O Brasil está acordado.

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