“Tem gente passando fome em Brasília. E a culpa é deste desgoverno”

O Senador tucano Izalci Lucas trabalha para construir chapa com Leila Lopes e José Reguffe para fazer frente a tentativa de Ibaneis em se reeleger para o governo do DF

O líder do PSDB no Senado, Izalci Lucas, se confirma como pré-candidato na disputa pelo governo do Distrito Federal. O tucano tem afinado sua agenda política com a articulação visando criar uma ampla aliança que derrote o atual governador Ibaneis Rocha –  que deve buscar sua reeleição em 2022.

Izalci é enfático nas críticas ao governo de Ibaneis. Ele aponta que a gestão tem sido alvo constante de operações policiais, além de ter cumprido com as expectativas de melhorar setores como saúde, social e geração de emprego e renda, embora recursos não faltem ao governo do DF. O senador aposta que a avaliação negativa do atual governador junto aos eleitores não será revertida até as eleições e, neste contexto, espera caminhar junto com Leila Barros (Cidadania) e José Reguffe (Podemos) na construção da chapa para fazer frente a Ibaneis. Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, o senador tucano falou sobre os principais problemas enfrentados no DF, seus projetos e como tem articulado a sua candidatura.

O senhor já pode ser chamado de pré-candidato a governador do DF?
Sim. Eu venho trabalhando há muitos anos, porque na prática o nosso objetivo é fazer as coisas acontecerem e quem executa é o Executivo, é o prefeito, governador e presidente. Na prática eu venho desde o período de deputado distrital viabilizando a construção de um projeto melhor para o Distrito Federal. Falo de planejamento e de mudar a legislação para facilitar a execução. Então considero que agora é o momento. Estamos preparando todo um caminho para isso.

Vamos discutir a viabilização desta candidatura nas convenções, mas sim, sou pré-candidato ao governo do DF. 

Até aqui como está o avanço das articulações? O senhor já consegue vislumbrar a construção de uma aliança?
Nós estamos buscando fazer uma frente de pessoas e partidos que tenham compromisso com o DF. Queremos pessoas que não estão na política para serem servidos, mas para servir. Estamos buscando pessoas comprometidas e que querem resgatar a esperança e oportunidades.

Nesta semana houve o evento de fusão do Democratas com o PSL, que criaram a União Brasil, e estamos trabalhando para trazer esse novo partido para próximo do nosso projeto. Há figuras importantes no partido e queremos eles como aliados. Estamos conversando também com o Cidadania, com o Podemos e outros partidos. Vamos fazer uma frente contra o governo atual do DF.

Há a possibilidade de o sr. compor com a senadora Leila Barros (Leila do Vôlei)? Ela aceitaria ser a vice do senhor?
A gente tem conversado muito. Gosto muito dela da Leila como gosto também do José Reguffe. Temos caminhado juntos e conversando praticamente todos os dias. Eu vejo eles tem compromisso com o DF e querem resgatá-lo deste caos que está aí. 

Estamos trabalhando para seguir unidos na próxima eleição. Ou como candidato na mesma chapa ou como apoiadores. O José Reguffe encerra o mandato dele agora, então com certeza vamos trabalhar para reelegê-lo. A Leila é uma pessoa querida e que tem um potencial muito forte que vai nos ajudar muito. 

Fala-se na possibilidade de saírem três candidatos de centro-esquerda: o senhor (do PSDB) e os senadores José Antônio Reguffe (Podemos) e Leila Barros (Cidadania). O senhor acha que os três se lançarem candidatos de forma isolada será uma forma de facilitar a reeleição de Ibaneis Rocha?
Com certeza. É preciso união. As pesquisas indicam que ganhará a eleição quem fizer oposição ao Ibaneis. Ele está com um desgaste grande e uma rejeição grande. Acho que da forma como está hoje ele pode nem disputar uma reeleição. É difícil reverter rejeição. 

“Queremos pessoas que não estão na política para serem servidos, mas para servir”

Temos que trabalhar com pessoas que têm compromissos com o DF. Não basta apenas quantidade. Temos que garantir que vamos mudar esse quadro que já vem de algum tempo.

A cada governo que entra, o DF perde seu potencial de investimento, de oportunidades, de modernização e de melhoria de qualidade de vida. Hoje estamos disputando os piores lugares em tudo. Veja que um quadradinho como o DF esteve em 19º lugar na vacinação. Para se comparar, São Paulo está chegando a mais de 60% da população vacinada e nós ainda estamos em 40% com as duas doses. O DF deveria estar em primeiro lugar. Não tem sentido que Mato Grosso, por sua extensão territorial, ficar a frente do DF neste ranking.

Se fosse só isso estaria ótimo. Tem operações da Polícia Federal todos os dias, a toda hora e em todos os lugares do DF. Há uma semana a operação foi no hospital regional de Sobradinho. Agora foi na regional de ensino do Recanto das Emas. A saúde é um caos e já foi preso todo mundo. O governo ainda os apoia. Não dá para entender isso.

O governador disse que os problemas da saúde não eram recursos, era gestão. Mas está essa bagunça. E veja, destinamos quase R$ 3 bilhões para o DF durante a pandemia. Assim, éramos para ser referência. Hoje somos um dos piores. 

A única coisa que o DF consegue ser campeão é no aumento da miséria. Estou falando de desigualdade e pobreza que cresceu absurdamente. É lamentável que onde era pra ser o piloto modelo, esteja nesta situação. Isso é em razão do improviso, falta de experiência no serviço público, falta de compromisso com a cidade e desconhece a realidade das pessoas. Tem gente passando fome em Brasília. A culpa é deste desgoverno. A situação é caótica. As pessoas estão se sentindo abandonadas. Eu estou na rua e percebo isso claramente. 

O senhor cita as operações policiais que têm ocorrido contra o governo do DF. Mesmo assim, o governador Ibaneis Rocha diz que não tem qualquer envolvimento na questão. O senhor avalia que, no caso, ele foi omisso ou conivente?
Ele começa comprometendo toda classe política. Ele foi para uma campanha, fazendo gravação e assinando documento com promessas e ao contrário do que foi prometido, isso é no mínimo um crime eleitoral. 

A saúde ele terceirizou. Basta ver os documentos e depoimentos que estão na CPI. Francisco Araújo (ex-secretário de saúde do DF) foi preso com toda cúpula da pasta pela operação Falso Negativo. Ele só foi solto porque falou que o dinheiro era federal, e aí foi pra CPI. Nas conversas ele disse claramente: nada na saúde é feito sem passar pelo governador. Então o Ibaneis tinha conhecimento. Não adianta dizer que não.

Mas para ser governante não é suficiente não roubar. Tem que não deixar roubar. E aqui no DF a situação é caótica em todas áreas. No Turismo, na Educação, no IGES (Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal). São R$ 400 milhões de rombo. É inadmissível.

No momento que as pessoas de poder aquisitivo menor mais precisam, eles não conseguem acessar o serviço social. O Cras (Centro de Referência a Assistência Social) . As pessoas estão passando fome. As pessoas não têm atendimento hospitalar. Tem gente com câncer, com marcação de consulta daqui há seis meses. Quem está com câncer não pode esperar. 

Referência nacional no passado, hoje o hospital de Base não tem dipirona e nem material para os profissionais trabalharem. Em outros hospitais tem gente internada há 90 dias esperando uma cirurgia que não acontece porque não tem um parafuso de R$ 3 reais. Não tem controle de estoque na saúde. É incompetência, prepotência, arrogância e desconhecimento.

Mais uma coisa, o presidente do BRB (Banco de Brasília) precisa dar explicações. Porque assim como o Paulo Guedes e o presidente do Banco Central ele tem investimentos fora do país. A diferença é que ele não declarou a existência de contas em paraísos fiscais.

Perderam o controle. Tem operações em todas as áreas do governo. É algo inadmissível. Não dá para dizer que não sabia. No mínimo é conivente. Mas vemos claramente uma incompetência.

Se o senhor for eleito governador, quais medidas pretende adotar para melhorar a capital da República? Dá para eleger uma prioridade?
A prioridade tem que ser o cidadão. As pessoas hoje estão abandonadas. Elas precisam ter esperança e acreditar que a coisa vai mudar. Não podemos ter hoje uma capital federal com maior índice de desemprego de jovens. Temos uma geração que não tem esperança nenhuma.

O que falta no DF é planejar, estabelecer metas e ver quanto custa para fazer os projetos funcionarem. Tudo isso deve ser feito ouvindo a comunidade. Fiz mais de mil reuniões virtuais durante a pandemia. Falei com os líderes comunitários. E agora estamos trabalhando nas cidades de forma presencial a partir dessas demandas. Governar é isso: eleger prioridades depois de ouvir a comunidade. É o que estamos fazendo. 

Os últimos governantes sempre falaram que o problema é gestão. De fato é. Mas eles não sabem gerir. Temos que criar um governo digital para as pessoas possam marcar consulta e terem seus serviços por meio do celular.  Também precisamos de integração. O governo é único. Não pode cada um fazer o que quer. Hoje os secretários nem conversam. Estamos no quinto gestor da educação. Na saúde é o sexto. Não se tem política de estado e nem de governo.  Hoje é um governo de improviso.

Então, vamos ter um planejamento para cuidar da primeira infância, do adolescente, do adulto e da terceira idade. Tem que ter as fases das pessoas com o atendimento que o governo precisa ofertar. 

A única forma de dar oportunidade e igualdade, transformando as pessoas é por meio da educação. Não tem outra. É preciso investir em integração de educação, esporte e lazer. 

O maior desafio vai ser mudar a matriz econômica do DF. Temos 3,1 milhões de habitantes com mais 2 milhões em volta. Temos que desenvolver o parque tecnológico que criamos em 2004. Temos que avançar na ciência e tecnologia. Hoje Brasília podia ser o Vale do Silício do Brasil. Mas lamentavelmente cada um que entra faz questão de acabar com tudo que já foi feito.

“Tem operações da Polícia Federal todos os dias, a toda hora e em todos os lugares do DF”

A falta de saúde está matando gente todo dia. A falta de educação está matando toda uma geração. Uma capital federal, como o DF, que tem muitos recursos, mas não tem banda larga nas escolas. Grande parte dos alunos não têm acesso a internet. Hoje o maior desafio é trazer o aluno de volta para a escola. Esse modelo que está aí não é atrativo. Não tem nada. Brasília precisa de uma mudança total começando pela educação, saúde, segurança e tecnologia.

Esse seu planejamento inclui a integração com a região do Entorno do DF?
Lógico. Falo da região metropolitana. Este atual governo, por falta de sensibilidade política e de noção, quis impor por meio de uma Medida Provisória, a criação da região metropolitana, sem combinar com Goiás. Ora, se todos os municípios em volta são goianos é óbvio que teria que passar primeiro pelo governador do Estado. É falta de tato e conhecimento. Acabou brigando com o governador de Goiás.

Outra coisa sem lógica é o fato das pessoas do Gama saírem de suas casas para irem buscar atendimento médico no Novo Gama. Eu nunca imaginei que as pessoas sairiam da Ceilândia para fazer consulta em Águas Lindas. É o que acontece hoje, inclusive com a vacina. 

Essas pessoas são de Brasília. Moravam no DF, e em função da falta de emprego e da falta de oportunidades foram se mudando para as cidades do Entorno. Se tem uma série de regiões administrativas com potencial imenso que não são vistos com olhos de desenvolvimento econômico local.

Ibaneis Rocha já merece um lugar de destaque entre os piores governadores da história do Distrito Federal?
Não tenho dúvidas. Depois que eu entrei na política nunca vi nada parecido. O que fizeram com o Ibaneis foi colocar um chapéu pra dizer que ele era semelhante ao Roriz. Uma pessoa que ele nem conhece e não sabe a sensibilidade que ele tinha. Mas na prática de Roriz ele não tem nada. As pessoas mais carentes estão vivendo na miséria. E não é só na Ceilândia ou no Sol Nascente. É em todo lado.

O senhor apoia o governador de São Paulo, João Doria, para presidente da República. Avalia que ele vai superar Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, para se tornar o candidato do PSDB a presidente?

Se avaliar a gestão de São Paulo, comparar com Brasília seria covardia. São Paulo tem planejamento, metas estabelecidas e cresce um PIB de 7,5%, acima da média do Brasil. Ele plantou muito e vai colher agora. Ninguém entra no governo, promove as mudanças e já tem um retorno desses. Até o ano que vem as pessoas vão reconhecer o que está sendo feito.

“A falta de saúde está matando gente todo dia. A falta de educação está matando toda uma geração”

Na prática o Eduardo Leite é um bom candidato. Mas São Paulo tem uma pegada melhor para ganhar eleição. O problema é que tem alguns deputados que querem transformar o partido naquilo que alguns partidos fazem, que é priorizar os deputados. Na prática, o PSDB sempre lançou candidato a presidente e a governador. Nunca deu pra investir muito em deputado federal, que é aquele que gera recurso e tempo de televisão para o partido.

Então esse grupo que incentivou a candidatura do Eduardo Leite é o que não quer candidatura própria. É o que quer mais investimento do partido nos candidatos ao Congresso. Eu vejo que todos têm um perfil bom, mas que o Dória tem o melhor destaque, pelo trabalho que tem em São Paulo. A equipe dele é muito boa. Só o fato dele saber escolher os secretários já é uma grande vantagem. Ninguém quer mais esse radicalismo de esquerda ou direita. É preciso uma solução para poder unir o Brasil. Mas não é em cima de proposta demagógica ou de discurso. Tem que ser alguém que saiba fazer e colocar em prática. 

O senhor esteve no evento que marcou a fusão do DEM com o PSL. Lá esteve junto com o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM). Ele caminha para uma reeleição. Os senhores têm boa relação? Daria para fazer uma parceria administrativa interessante para DF e região do Entorno?
Não há dúvida. O Caiado é uma pessoa experiente e comprometida com o Estado de Goiás. Foi meu colega na Câmara e sei do compromisso que ele tem. Temos todas condições de trabalhar juntos. Falei muito com ele e quero a parceria do partido União Brasil com a minha chapa na disputa ao governo do DF. Acho que terei o apoio dele, por conta da relação muito boa que temos. 

Acho que junto com ele poderemos cuidar, juntos, da região do Entorno. Vamos trabalhar juntos. A solução da nossa região passa pela união e esforços dos governantes do DF e Goiás. 

O Senado parece ter assumido um protagonismo no Brasil. Seja tomando a frente em projetos importantes, como servindo de mediador em alguns conflitos entre poderes. O senhor observa desta forma também? 
O Senado sempre teve um papel moderador. Temos feito aquilo que muitas vezes o governo não se posiciona ou se envolve. O Senado tem dado um exemplo bom porque a maioria das principais reformas e matérias importantes foi de iniciativa nossa. 

Somos sim protagonistas, inclusive com a adoção das reuniões virtuais. Talvez sejamos o primeiro parlamento do mundo a trabalhar virtualmente e de forma eficiente. O Senado, durante a pandemia, produziu muito e não deixou nada a desejar. 

Vejo que os projetos aprovados no Senado foram sem nenhuma ou muito pouca interferência do governo Federal – mesmo sendo matéria de interesse do Planalto. 

Neste contexto, precisamos colocar a CPI da Covid. É o maior destaque que o Senado tem hoje. Esse trabalho tem influenciado em muitos pontos, inclusive o rumo da política e das decisões administrativas. O senhor tem visto com bons olhos o trabalho feito até aqui pelos membros da Comissão Parlamentar de Investigação?
A CPI trouxe uma luz para questões que envolvem as vacinas, dos recursos de enfrentamento a Covid, da ineficiência do Estado, da falta de controle de gestão e do negacionismo. Ficou claro na CPI que se dependesse do Executivo estaríamos ainda sem vacina. O que provocou essa mudança e avanço no enfrentamento foi o trabalho do Senado e da CPI.

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