“Suicídio é, ainda hoje, considerado um tabu, seja por motivos culturais ou religiosos”, diz presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria

Antônio Geraldo da Silva afirma que estudos realizados em décadas anteriores alertavam para os riscos da abordagem inadequada ao problema, o que “colaborou para o fortalecimento do preconceito e constrangimento que cerca o tema”

Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e coordenador nacional da campanha Setembro Amarelo, Antônio Geraldo da Silva | Foto: Reprodução/Facebook

A campanha Setembro Amarelo, promovida pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) desde 2014 para alertar a população sobre a prevenção ao suicídio, ganhou espaço no debate público e ampliou suas fronteiras. Em 2020, o trabalho conta com apoio do Ministério da Saúde, mas desde o ano passado já havia incluído como parceiros as pastas federais da Cidadania e da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

“Ainda existe o medo de falar sobre e incitar novos casos e até mesmo há, por parte das pessoas, a vergonha de falar publicamente sobre o tema.” A declaração do presidente da ABP e coordenador nacional do Setembro Amarelo, o psiquiatra Antônio Geraldo da Silva, aponta que o suicídio, além de se manter como um tabu no Brasil, ainda enfrenta barreiras. “O preconceito não desaparece sem o esforço de todos nós. Por isso é necessário trazer à tona o assunto, sempre de forma responsável e didática.”

O que mudou na abordagem da prevenção ao suicídio na sociedade desde o início da campanha do setembro amarelo, em 2014?
A cada ano da campanha, abordamos um tema diferente, de acordo com o cenário identificado à época do planejamento. Em anos anteriores, já trabalhamos, por exemplo, como o combate ao estigma auxilia na prevenção ao suicídio, o fato de que a tentativa de suicídio é uma emergência médica e como deve ser manejada e abordada.

De 2014 para cá, a campanha atingiu proporções nacionais, contando especialmente com o apoio de diversos grupos: sociedade civil organizada, instituições públicas e particulares, empresas privadas – todos reconhecendo a importância do tema. Desde 2019, contamos com apoio do governo federal, por meio dos ministérios da Cidadania e Mulher, Família e Direitos Humanos. Em 2020, o Ministério da Saúde juntou-se a nós nesta campanha.

Neste ano, o ponto focal está na ação, na busca por maneiras de agir efetivamente na prevenção. O objetivo está em informar corretamente à população sobre os fatores de risco e proteção para a prevenção ao suicídio, promovendo a saúde mental, prevenindo e auxiliando no reconhecimento das doenças mentais, desde seus primeiros sinais, para assim, encaminhar as pessoas ao tratamento correto, evitando que ocorram novas tentativas, protegendo a vida do paciente e de quem convive com ele.

Qual é o impacto da discussão pública do assunto? Por que existia a visão de que discutir ou abordar o suicídio na imprensa aumentaria o número de casos?
O suicídio é, ainda hoje, considerado um tabu, seja por motivos culturais ou religiosos. Estudos realizados em décadas anteriores apontaram para os riscos de se falar sobre suicídio da maneira inadequada e isso, infelizmente, colaborou para o fortalecimento do preconceito e constrangimento que cerca o tema.

Ainda existe o medo de falar sobre e incitar novos casos e até mesmo há, por parte das pessoas, a vergonha de falar publicamente sobre o tema. O preconceito não desaparece sem o esforço de todos nós. Por isso é necessário trazer à tona o assunto, sempre de forma responsável e didática.

É somente informando à população que se acaba com o estigma que paira sobre os transtornos psiquiátricos, levando o conhecimento e dando a devida importância ao tema, ajudando assim no tratamento dos pacientes e consequentemente na diminuição de casos de suicídio.

Há uma forma correta de se abordar o assunto da depressão e a prevenção ao suicídio?
A forma correta é explicando que se trata de uma doença como qualquer outra, uma questão de saúde pública e, portanto, deve ser tratada como tal. Se informar sobre o assunto é sempre a melhor forma de prevenir.

Para profissionais da comunicação, temos o cuidado de solicitar que não se atenham a números e dados de óbitos por suicídio no País e no mundo. O foco deve estar em histórias de superação, de tratamento correto e casos em que a ideação suicida parou por completo, com o personagem retomando a sua qualidade de vida.

O tratamento psiquiátrico ainda é um tabu? Quem precisa de um psiquiatra vai facilmente ao médico ou ainda tem medo de ser visto como louco? O que o sr. acredita que leva a esse tabu, se ele ainda existir?
Sim, falar sobre o assunto ainda é um tabu, seja por questões religiosas, morais e/ou culturais. Por isso, é necessário que o tema seja discutido para que acabe esse estigma. A falta de conhecimento e de atenção acerca do suicídio são obstáculos à prevenção correta. É fundamental combater o preconceito que paira sobre as doenças mentais.

Desmistificar é salvar vidas! Auxiliar a sociedade a compreender e identificar casos é a principal forma de ajudar os profissionais da área de saúde, familiares e amigos, principalmente no que se refere à busca por tratamento e instrução da população.

Na cartilha de orientações sobre o tema da ABP e CFM, o suicídio é introduzido como uma “epidemia silenciosa”. Por que o suicídio é tratado como uma epidemia silenciosa? Quantas pessoas no mundo e no Brasil chegam ao ponto de tirar a própria vida anualmente?
Chamamos de “epidemia silenciosa”, pois estudos apontam que transtornos mentais, como depressão, transtornos de ansiedade e de humor bipolar estão diretamente relacionados a casos de suicídio. Neste caso, por estarem diretamente ligados às doenças mentais que chegam de mansinho, sem muito alarde e muitas vezes são confundidas inicialmente com uma tristeza profunda, um nervosismo, eles são ditos como silenciosos.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a cada 40 segundos uma pessoa morre por suicídio no mundo. Já ao que se refere às tentativas, uma pessoa atenta contra a própria vida a cada três segundos. Em termos numéricos, calcula-se que aproximadamente um milhão de casos de óbitos por suicídio são registrados por ano em todo o mundo. No Brasil, os casos passam de 12 mil, mas sabe-se que esse número é bem maior devido à subnotificação, que ainda é uma realidade.

“A cada 40 segundos uma pessoa morre por suicídio no mundo. Já ao que se refere às tentativas, uma pessoa atenta contra a própria vida a cada três segundos”

“Calcula-se que aproximadamente um milhão de casos de óbitos por suicídio são registrados por ano em todo o mundo. No Brasil, os casos passam de 12 mil” | Foto: Reprodução/Facebook

É possível identificar sinais de ideação suicida na pessoa com propensão a dar cabo à própria vida? Quais seriam as atitudes ou sinais que a pessoa costuma dar aos parentes ou pessoas mais próximas?
É importante estar atento aos fatores de risco, conhecê-los e saber como lidar com eles. No caso do comportamento suicida, levar em consideração toda e qualquer manifestação no sentido de desesperança ou desamparo. Por exemplo, quando alguma pessoa começa a se isolar, perder o interesse nas atividades anteriormente prazerosas, alterar hábitos de sono e de apetite, isso pode indicar o início de um quadro psiquiátrico.

Essas manifestações somadas a comentários como “o mundo estaria melhor sem mim”, “eu não aguento mais” ou ainda “a vida não vale a pena” acendem o alerta para a ideação suicida. Ao notar esses sinais, é fundamental buscar auxílio médico. O psiquiatra poderá avaliar o quadro e identificar o desenvolvimento de uma doença mental, intervindo de forma precoce e evitando seu agravamento. Com o tratamento correto, a ideação suicida desaparece por completo e o paciente retoma a qualidade de vida.

Até que ponto a propensão ao suicídio está diretamente ligada à depressão? São casos sempre ligados a pessoas com algum transtorno nas fases maníaca ou depressiva?
Estudos apontam que cerca de 96,8% dos casos de suicídio, no Brasil, estão relacionados a transtornos mentais, como por exemplo, a depressão. Estima-se que, no País, há 50 milhões de pessoas com algum tipo de doença mental, transformando o Brasil no primeiro da América Latina com pessoas com quadros depressivos. Esse cenário preocupante serve de alerta para que a saúde mental seja um tema importante para a saúde pública.

A depressão enquadra-se no que chamamos de transtornos de humor e estes correspondem a 35,8% daquele número inicial de óbitos por suicídio relacionados às doenças mentais. Os números seguem apontando os índices ligados a transtornos por uso de substâncias – licitas ou ilícitas -, com 22,4%, e também da esquizofrenia, com 10,6%.

Como é feito hoje o tratamento ou os tratamentos possíveis para uma pessoa com depressão? Quais são os medicamentos mais utilizados hoje em dia para ajudar na melhora diária da rotina do paciente psiquiátrico?
O tratamento para os transtornos psiquiátricos é feito de forma personalizada e adequada a cada caso para melhor resposta do paciente. Somente o médico psiquiatra poderá indicar o tratamento correto para que a pessoa recobre a qualidade de vida e que os pensamentos e comportamentos depressivos cessem por completo.

Alguns medicamentos, no entanto, que são utilizados no tratamento de doenças como a depressão são os antidepressivos tricíclicos, inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS), inibidores da monoamina oxidase (IMAO) entre outros. Cada uma dessas classes de medicamentos irá atuar nas funções cerebrais por meio da atuação química de funções fundamentais à sinapse, ou seja, na passagem das informações importantes dos neurônios para o nosso cérebro.

O psiquiatra irá avaliar caso a caso e sugerir a terapêutica correta para o tratamento da depressão a cada paciente. Não é porque um grupo apresenta a mesma doença que deve ser tratado da mesma forma, as particularidades dos pacientes devem ser levadas em consideração ao sugerir o tratamento psicofarmacológico.

Há o que ser feito quando se percebe que a pessoa está prestes a tirar a própria vida? Como proceder? O que fazer?
Se a pessoa ainda estiver em risco iminente, acione o Samu [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência] pelo telefone 192. A equipe de atendimento de urgência tem o treinamento necessário para auxiliar nestes casos. Se não for possível, vá com a pessoa até o serviço de pronto atendimento mais próximo. Se a tentativa de suicídio já tiver sido manejada corretamente, familiares e amigos precisam buscar atendimento psiquiátrico para seu ente querido.

Procure o atendimento pelo SUS [Sistema Único de Saúde] ou de forma privada, mas não deixe de levar a pessoa para a avaliação psiquiátrica o mais breve possível – tratamento e acompanhamento corretos salvam vidas e somente o médico psiquiatra vai poder avaliar qual o tipo de tratamento que se adequa à situação de cada paciente.

Como uma pessoa deve lidar com os problemas de alguém com depressão? Vemos o surgimento dos coachs que oferecem palestras e métodos baseados em amar mais ou exteriorizar mais os sentimentos? Até que ponto isso ajuda ou prejudica uma pessoa com depressão?
Deve-se sempre ter em mente que depressão, assim como outras doenças mentais, é e deve ser tratada como uma questão de saúde pública, uma doença como qualquer outra. Ouvir o paciente é sempre bom, faz com que se note os sinais que eles estão emanando, seus pedidos de ajuda, mas é fundamental buscar auxílio médico.

O psiquiatra poderá avaliar o quadro e identificar o desenvolvimento de uma doença mental, intervindo de forma precoce e evitando seu agravamento. Com o tratamento correto, o paciente pode retomar a qualidade de vida.  

“Estudos apontam que cerca de 96,8% dos casos de suicídio, no Brasil, estão relacionados a transtornos mentais, como por exemplo, a depressão”

“Estima-se que, no País, há 50 milhões de pessoas com algum tipo de doença mental, transformando o Brasil no primeiro da América Latina com pessoas com quadros depressivos” | Foto: Reprodução/Facebook

Qual a importância de um paciente com depressão procurar, além do médico psiquiatra, uma terapia com um psicólogo? As duas abordagens clínicas caminham juntas ou há barreiras a serem quebradas entre a psiquiatria e a psicologia?
As evidências científicas apontam que o melhor tratamento para a depressão é feito de forma multiprofissional, ou seja, em colaboração com o psiquiatra e o psicoterapeuta. Em casos leves da doença, a psicoterapia por si só pode ser uma excelente escolha para manejar o quadro depressivo. Para casos moderados a graves, no entanto, é preciso aliar à psicofarmacoterapia.

De todo modo, sempre que possível, buscamos uma atuação conjunta entre psiquiatras e psicólogos para que a qualidade de vida do paciente seja recobrada da forma mais rápida possível. Em termos de psicoterapia, os transtornos depressivos encontram grande auxílio na terapia cognitivo-comportamental e também na terapia interpessoal.

Quando um paciente com depressão é geralmente levado à internação? Isso também se aplica às pessoas com propensão ao suicídio?
A internação psiquiátrica é o último recurso a ser utilizado pelo médico e acontece em três cenários: no caso de risco à própria vida, à vida de outros ou ao seu patrimônio. Em casos de tentativas de suicídio, onde há risco iminente à vida do próprio paciente, alguns casos podem ser indicados para a internação: quando há tentativas de forma suscetiva, por exemplo, ou quando a depressão impede a pessoa de se alimentar corretamente, podendo levar à inanição.

É importante destacar, no entanto, que a internação acontece pelo menor tempo necessário, uma vez que o tratamento psiquiátrico deve acontecer com o paciente inserido no seu próprio ambiente familiar, de trabalho e sua rede de apoio social, como amigos.

Há profissionais de outras áreas, como psicanalistas, que entendem que o ser humano nunca irá superar o suicídio, que seria algo que faz parte da vida humana. É possível diminuir o impacto do suicídio, reduzir o número de casos?
A melhor forma de diminuir o impacto e reduzir o número de casos é tratando corretamente a doença mental de base, que leva o indivíduo à ideação suicida. Por isso, é imprescindível encaminhar a pessoa à avaliação correta pelo médico psiquiatra. Somente ele poderá indicar o tratamento correto para que a pessoa recobre a qualidade de vida e que os pensamentos e comportamentos suicidas cessem por completo.

É preciso agir mostrando que há uma saída, desde que o tratamento seja seguido conforme as orientações passadas, aumentando a adesão ao tratamento, enfim, não ficar apenas na conversa ou no falar sobre. Se eu já sei que a pessoa está considerando o suicídio, o que posso fazer para auxiliá-la a sair deste estado? Preciso sair da inércia e é aí onde entra a ação efetiva.

Além do acompanhamento médico adequado, quais outras atividades são indicadas para que a pessoa com desequilíbrio nas fases maníaca ou depressiva consiga estabelecer uma rotina de vida?
A melhor forma é focar no autocuidado, cuidar da saúde física e mental. É sempre respeitar o próprio ritmo circadiano, ou seja, o funcionamento do organismo em cerca de um dia. Preste atenção às rotinas, como horários de alimentação e sono, separe um tempo para o trabalho, mas também um tempo para si mesmo.

Fazer exercícios em casa, meditar, fazer alongamentos, alimentar-se em horários regulares e de forma saudável, fugindo das tentações de excesso de carboidratos, já que são substâncias que alimentam doenças como depressão, ansiedade. Há sempre tempo para se divertir, mesmo com as limitações, brincar com seus animais e crianças, quem tiver, ler um bom livro, assistir a um bom filme ou série, mas acima de tudo respeitar seu próprio tempo e limite. 

A ABP se posicionou em agosto contrária ao Projeto de Lei 399/2015, que prevê a autorização do plantio e da comercialização da cannabis sativa (maconha) para fins medicinais no Brasil. Qual é a relação do uso da maconha e de seus derivados com os transtornos psiquiátricos? É possível falar em melhora ou piora no tratamento de algumas doenças?
Estudos apontaram que a cannabis aumenta em 3,5 vezes a incidência de desenvolvimento de esquizofrenia e também em cinco vezes as chances de desencadear no usuário transtornos ansiosos, depressão e transtorno de humor bipolar. Desta forma, percebemos que é possível sim falar em uma piora dos quadros psiquiátricos após o uso de maconha.

O uso terapêutico da droga ainda está em fase de estudos, portanto, há normas legais no Brasil referentes ao uso experimental de qualquer nova terapêutica, inclusive o eventual uso de derivados da cannabis. Além disso, há poucos resultados obtidos e que não podem ser generalizados, mesmo que o uso controlado possa ser feito, deve-se levar em conta os potenciais malefícios já comprovados.

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