“Somos um país em direção à insolvência fiscal do Estado”, diz sócio-fundador da Tendências

Empresário do mercado financeiro diz que caminho de incerteza econômica trilhado pelo Brasil aponta para relação dívida/PIB de 94% em 2020 e 100% no ano seguinte

Sócio-fundador da Tendências Consultoria Integrada, empresário do mercado financeiro Nathan Blanche | Foto: Divulgação

“O Brasil adota nova teoria econômica, que é o liberalismo heterodoxo. É água e óleo.” Em março, o sócio-fundador da Tendências Consultoria Integrada, Nathan Blanche, alertou, em entrevista ao Jornal Opção, que o Brasil tinha uma preocupação adicional aos efeitos da pandemia da Covid-19, que ainda eram tímidos.

Após a queda de 9,7% do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre, o empresário do mercado financeiro olhou para os indicadores e intensificou o alerta para a falta de um modelo econômico definido no governo federal. As interferências impostas pelo presidente da República no Banco Central, como a retirada da tributação do arroz importado e o pedido de patriotismo aos donos de supermercados, assustaram ainda mais os investidores.

“Quando o presidente da República faz apelo e chama os donos dos supermercados para o patriotismo, isso é um sinal que evidencia que este governo está perdido”, observa Nathan Blanche, que conversou com o Jornal Opção ao longo da semana passada sobre a situação econômica do País e a condução da crise pela gestão Bolsonaro.

O fechamento do PIB no segundo trimestre revelou uma queda de 9,7% na economia, com alguns setores acima de 10%. Quais são os impactos da pandemia até aqui?
O que está acontecendo no mundo com a crise da Covid-19 é um forte desequilíbrio entre oferta e demanda. Porque com o agravamento da crise do PIB e da situação social dos países, da doença, o aumento do desemprego. Já vínhamos em uma sequência ruim. O ano passado já não foi tão bom. Os últimos três anos especialmente.

O resultado do PIB em 2019 foi apelidado por alguns economistas de “pibinho”.
Exatamente. Os dados apontam um cenário preocupante na relação dívida/PIB. É interessante se atentar à evolução de quanto a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) recebeu do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), quanto estava quando passou para o ex-presidente Michel Temer (MDB) em seis anos e quanto o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) já atingiu em menos de um ano e nove meses.

Esse desequilíbrio se expressa também na queda do PIB mundial. Em 2020, os Estados Unidos registraram PIB de -5,5% e 8,4% de desemprego. A China teve crescimento de 1,5% no PIB e desemprego de 3,8%.

A China foi um dos poucos países a adotar medidas bastante rígidas de restrição às atividades econômicas e da população para tentar conter o mais rápido possível a Covid-19. O que não vimos ocorrer no Brasil.
Foi. Por isso, o crescimento do PIB chinês em 2020 é de apenas 1,5%, quando em 2019 havia sido de 6,1%. Vamos olhar para a situação em outros lugares do mundo. Na Zona do Euro, o PIB está em -8,3% e o desemprego atingiu 7,9%. A Alemanha registrou -6,6% no PIB e o desemprego chegou a 4,4%. Na França, o PIB caiu para -9,2% e o desemprego 6,9%. Reino Unido registrou PIB de -9,5% e desemprego 3,9%. No final, a Argentina com -12% no PIB de 2020 e taxa de desemprego de 10,4%.

Com isso, notamos que o único país que está crescendo no mundo é a China. É o maior consumidor de alimentos, de commodities, do mundo. Se somarmos China e Índia, ambos importam 48% das commodities do mundo.

E aqui eu gostaria de destacar alguns ponto do que defino como a volta ao passado. Porque estamos voltando ao passado. Isso me faz lembrar Bertrand Russell, filósofo e matemático britânico, que dizia: “Por que cometer erros antigos se há tantos erros novos a escolher?”. E estamos voltando aos erros do passado. Quando o presidente da República faz apelo e chama os donos dos supermercados para o patriotismo, isso é um sinal que evidencia que este governo está perdido.

Bolsonaro já havia feito o mesmo apelo ao mercado, para que o sistema financeiro fosse mais patriota. Na terça-feira, 15, houve o anúncio da suspensão das discussões para se criar o novo Bolsa Família, que foi batizado como Renda Brasil.
O Brasil, com o atual orçamento e as dúvidas que existem com relação a 2021, está sem farol e proa.

Em março, o sr. dizia que o esteio da economia era o secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida. Desde 2019, o ministro da Economia, Paulo Guedes, perdeu na equipe Joaquim Levy (BNDES), Marcos Cintra (Receita Federal), Marcos Troyjo (Comércio Exterior), Rubem Novaes (Banco do Brasil), Caio Megale (Fazenda), Mansueto Almeida (Tesouro Nacional), Salim Mattar (Desestatização) e Paulo Uebel (Desburocratização). O que podemos esperar da equipe do Guedes?
Só resta para demandar o próprio ministro. Como homem de mercado, ex-banqueiro e agora analista na Tendências, a âncora na relação dívida/PIB, a responsabilidade fiscal, chamava-se Mansueto. A partir da saída de Mansueto do governo, eu paro de comprar o Brasil. Isso foi algo que adverti diversas vezes, que era um caminho ladeira abaixo.

Fato adicional, não menos grave, é o pedido, em público, do presidente da República feito ao dr. Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, para intervir na política cambial, em uma tentativa de segurar a taxa de câmbio para o controle de preços. Essas intervenções são mortais na formação de preços relativos de uma economia.

Aquele congelamento de preços rápido na Petrobras feito por Bolsonaro em 2019 já gerou um rombo grave na estatal.
E o presidente não aprendeu.

A ex-presidente Dilma cometeu o mesmo erro ao congelar o preço da gasolina, mesmo alertada de que aquilo quebraria a indústria do etanol brasileira.
Foi quando eu, em 2012 e 2013, chamei o mercado a ficar comprado em dólar indexado à inflação. Dilma emitiu R$ 500 bilhões e injetou na economia através dos bancos oficiais, principalmente o BNDES. Meio trilhão.

Quando o sr. cita o pedido de Bolsonaro para que Campos Neto interfira na política cambial, me recordo da entrevista de março, quando o sr. dizia que baixar a taxa Selic daquela forma não representava a realidade do mercado.
Hoje ainda temos um forte descasamento entre preços no atacado, com os IGPs [Índices Gerais de Preços], principalmente o IGP-M [Índice Geral de Preços do Mercado], que é indexador de várias coisas no Brasil, com o IPCA [Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo]. Porque o IPCA está 1,75% e os IGPs chegam a 9% e 10% ao ano.

Vou tentar responder o porquê do desequilíbrio principalmente no Brasil, mas também no mundo. Mesmo que a taxa de inflação ultrapasse os 2%, a tendência é que não suba juros. Por enquanto. Quando se injeta liquidez nas quantidades que foram injetadas no mundo e no Brasil, os Bancos Centrais perdem o seu principal instrumento de calibragem do crescimento e da inflação de um país, que é a política monetária.

Não adianta subir a taxa de juros quando existem US$ 17 trilhões sobrando no mercado internacional. Não adianta o Banco Central querer brecar a inflação lá na frente com taxa de juros do tamanho do desequilíbrio fiscal à frente. Porque aumenta a oferta de dinheiro, de liquidez, muito acima. A inflação não consegue controlar isso.

Você pode dizer “o CDI [Certificado de Depósito Interbancário] está muito baixo”. Vamos subir CDI, vai controlar? Não adianta subir 1% a 2% se vem o Tesouro e injeta 10% do PIB na economia. Há um desequilíbrio tremendo entre oferta monetária e política monetária.

O que acontece se você tirar hoje a tarifa de importação de arroz? Você aumenta a oferta de arroz, mas passa a prejudicar altamente os plantadores locais, que dependem do câmbio. Os produtores não têm, como na indústria, uma resposta mais rápida de fabricar carro, guarda-chuva ou roupa. É preciso esperar o tempo de arar a terra, plantar e colher. É um erro muito grave a distorção de preços relativo quando se tem uma intervenção dessas.

A situação atual lembra a grave crise econômica no final da década de 1980, com a inflação galopante corroendo a renda e os salários. As pessoas corriam para o supermercado no dia 1º de cada mês porque a inflação chegava a comer do prato de 30% a 40%.

“O Brasil, com o atual orçamento e as dúvidas que existem com relação a 2021, está sem farol e proa”

Real foi a moeda que mais desvalorizou em todo o mundo em 2020 | Imagem: Tendências Consultoria Integrada

O sr. se refere ao fracasso do chamado milagre econômico, que levou a uma sequência de diferentes planos econômicos e moedas?
Mas isso foi resultado do Plano Cruzado. Aliás, o governo José Sarney (MDB) não tinha dívida do Estado porque pagava tudo com inflação, tirando do bolso da população, principalmente dos pobres. A inflação galopante corroía os salários. O governo federal fazia uso dos fiscais do Sarney. Nos recintos comerciais, fiscais do Procon. E ameaçava enviar fiscais de escala ao campo para a caça dos bois para poder controlar o preço da carne. Nossos boiadeiros que se cuidem!

É algo que seria bastante complicado e impensável ao mesmo tempo.
Vamos tentar dar números e tentar analisar fatores técnicos que geram o desequilíbrio micro e macroeconômico. Quanto aos agentes econômicos, só temos no cenário incertezas em relação ao futuro. Se alguém me disser para apresentar um cenário firme, não temos a oferecer.

A impressão que fica é a de que a equipe econômica e o governo federal estão batendo cabeça. Uma hora apresenta uma reforma tributária incompleta, muito aquém das já discutidas na Câmara. Depois surge a reforma administrativa, mas que não delimita qualquer proposta concreta.
Esqueçam isso. Nada será aprovado. O Brasil tem um defeito estrutural da democracia. Temos um ano de pré-eleição e depois vem o ano de eleição, que é seguido por outro de pós-eleição, com eleições a cada dois anos.

Para superar a grave crise epidêmica na saúde, o governo tenta amenizar os efeitos da paralisação do isolamento social. Mais de 50% ficou retida em casa, resultado na forte queda das atividades econômicas, o que resultou na forte retração do consumidor, de um lado, e, adicionalmente, a paralisação dos empregos do lado da produção. Há um grade desequilíbrio. De fato, houve diminuição da demanda. Mas, de outro, paralisou-se a oferta. Tanto no setor industrial quanto nas áreas de serviços.

Já se fala, inclusive, que o abismo ao final da pandemia pode ser muito maior no desemprego do que os 13 milhões identificados agora.
É a queda do PIB. Para termos ideia, chegamos a prever queda de mais de 10% do PIB, tanto os analistas da economia, tanto o setor financeiro como de outros, mas também do governo. Tecnicamente, o clima é de recessão. O grande agravamento e o desequilíbrio fiscal que vinha ocorrendo anos atrás foi gerado por queda da arrecadação, tanto do consumo como da produção e dos impostos, e pelo auxílio emergencial.

Até setembro, foram injetados R$ 213 bilhões no auxílio emergencial. Um aumento do Bolsa Família e do Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda de R$ 236 bilhões. Somado aos auxílios para as empresas no financiamento de pagamento de salários e os Estados e municípios, superaram a R$ 400 bilhões até o início de setembro. Isso equivale a 5% do PIB. Números do Ministério da Economia dão conta de que até o final do ano podemos atingir 14% do PIB.

Quando a ex-presidente Dilma assumiu o governo, a relação dívida/PIB era de 50%. A petista entregou o governo, depois de mais de cinco anos, ao Temer uma relação dívida/PIB de 75%. Começamos o governo Bolsonaro com 76%, valor que foi preservado pela equipe econômica do Temer.

O governo Temer segurou a dívida existente?
Exato. E foi muito bem. Deixou de aumentar o déficit. Mas agora, o governo Bolsonaro, com um ano e oito meses, vai entregar ao próximo governo uma relação dívida/PIB de 100%. Isso sinaliza para os agentes econômicos uma queda muito forte nos investimentos, tanto dos investidores internos como dos externos em relação ao Brasil. Isso significa caminho para insolvência fiscal, o que ocorreu no nosso vizinho, a Argentina.

Esse é o principal fator da retração dos investidores internos e dos externos, o que resulta em uma forte queda do PIB, que já chega a -5% em 2020, com sinais nada favoráveis para a nossa economia em 2021. A volta do crescimento para o próximo ano, como previsto por alguns, depende essencialmente e fundamentalmente da superação da Covid-19, que seja descoberta e aplicada a esperada vacina mundo afora. Porque, apesar de todas as reservas cambiais que temos, o real é a moeda campeã na desvalorização cambial neste ano: -23,7%.

“Até setembro, foram injetados R$ 213 bilhões no auxílio emergencial. Um aumento do Bolsa Família e do Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda de R$ 236 bilhões”

“Quando se injeta liquidez nas quantidades que foram injetadas no mundo e no Brasil, os Bancos Centrais perdem o seu principal instrumento de calibragem do crescimento e da inflação de um país, que é a política monetária” | Imagem: Tendências Consultoria Integrada

A desvalorização do real já era um cenário existente antes mesmo da pandemia da Covid-19.
Como base nos dados do Banco Mundial e FMI [Fundo Monetário Internacional], comparo a outros quatro países da América Latina [Chile, Colômbia, México e Peru] na relação dívida/PIB do Brasil e as reservas de dívidas externas. Em números redondos, temos o dobro de reservas/dívida externa do que esses países, que são investment grade. Zero à esquerda tem a ver com os fundamentos cambiais do País essa desvalorização. De zero à direita, todos os números têm a ver. E é o desequilíbrio fiscal permanente, desde a década de 1980, que vinha sendo pago.

A Constituição Cidadã foi o maior engodo do Brasil. Foi muito bonita, muito humanitária, mas não levou em conta fontes e usos. Se você viajar para Paris na primeira classe, se hospedar nos melhores hotéis, comer nos melhores restaurantes e emitir cartão de crédito, quando vier a volta da viagem, você não terá como pagar a dívida. O desequilíbrio fiscal começou com o endividamento público de gerações presentes e futuras. A única coisa que pode resolver o problema econômico do Brasil chama-se inflação. Volta-se ao equilíbrio da relação dívida/PIB pago com a miséria, principalmente dos pobres. Estou muito preocupado.

A relação dívida/PIB do Brasil está em 86,5%. A média do outros quatro países da América Latina sem o Brasil é de 39,8% de relação dívida/PIB. Já reservas/dívida externa, o Brasil tem 115% em relação ao que deve. Mas a média sem o Brasil é de 58,4%. Temos duas vezes a relação reservas/dívida. Assim mesmo, nosso câmbio desvaloriza. Assim mesmo, teremos um superávit de R$ 48 bilhões em 2020.

Tem alguns irresponsáveis malucos que fazem uma política externa contra China. Que pelo menos fiquem calados! Dos R$ 48 bilhões de superávit de balança comercial, que financiam o resto, R$ 35 bilhões são da China.

Não dá para brigar com a China, o Brasil depende do capital chinês.
Não tem de ser a favor da China, mas não pode condenar o país. É a segunda maior economia mundial e se tornará a primeira.

Houve a reação negativa do presidente às informações do Ministério da Economia publicadas sobre a fonte de recursos do Renda Brasil, do congelamento de pensões, aposentadorias e BPC [Benefício de Prestação Continuada].
Mas o congelamento de salários por dois anos já foi aprovado. Não vai haver aumento de folha dos funcionários federais, o que resultará em uma economia de R$ 800 bilhões a R$ 900 bilhões em dez anos. Não está aprovada a questão da aposentadoria, que é indexada ao salário mínimo.

Na semana passada, o jornalista Elio Gaspari disse que os “os çábios da ekipekonômika” do governo federal seguem na tentativa de tirar dos mais pobres. Se confirma o cenário em que o governo não tem um plano econômico definido?
Oficialmente, o que vemos condiz com um governo de feira popular. Regido pelas bancas, com negociação livre. Não existe uma âncora de começo, meio e fim como horizonte para as empresas, empresários e investidores tomarem decisão.

Não existe regulação?
Não tem um masterplan. Não tem uma proposta definitiva. Ainda não temos o orçamento completo. Portanto, continuamos sem farol de proa. O que persiste é uma total incerteza em relação à economia. É um governo que tenta ter uma nova teoria econômica, que está se expondo no noticiário: o que orienta a economia brasileira é um liberalismo heterodoxo.

Seria um liberalismo sem regra, impossível de ser compreendido?
Se diz liberalista. É um governo que foi eleito para um regime liberalista da economia, mas se comporta e toma decisões heterodoxas, como está agora com um controle de preços explícito, com ameças de um lado, solicitações de patriotismo, manipulação com retirada da tarifa de importação do arroz. A coisa não está bem organizada porque é estrutural. As propostas de governo, inclusive no orçamento, estão muito atrapalhadas.

De um lado, quer preservar o liberalismo, quer que seja uma economia de mercado. De outro, o presidente e parte da equipe tomam medidas heterodoxas de congelamento e controle de preços. Estamos sem rumo. É uma economia que não tem rumo.

Naquela reunião ministerial de 22 de abril, o ministro-chefe da Casa Civil, general Walter Braga Netto, apresentou uma nova agenda econômica do governo, o Pró-Brasil. É possível dizer que o governo em algum momento aplicou a política liberal de mercado? O governo estaria perdido entre os dois projetos? Bolsonaro, na tentativa de ter o poder concentrado em suas mãos, estaria mais próximo de um nacional-desenvolvimentista do que um liberal?
Bolsonaro é um político populista de um nível que a sociedade brasileira e a maturidade da economia do País não merecem. Se você tem, de um lado, um presidente que todo o seu plano econômico com o qual se elegeu é baseado em teoria do mercado, ou seja, liberal, Bolsonaro se contradiz o tempo todo. Como o presidente controla o jornalismo? Fala em porrada na boca de jornalista que fala o contrário: “Tenho vontade de encher a tua boca com uma porrada”. É como se dissesse “só fale aquilo que eu quero”.

A mesma coisa é feita com a equipe econômica, que quem falar isto – proposta de congelar BPC, aposentadorias e pensões para criar o Renda Brasil – vai tomar cartão vermelho. Qual é o plano de governo? É uma bagunça!

“A relação dívida/PIB do Brasil está em 86,5%. A média do outros quatro países da América Latina sem o Brasil é de 39,8%”

Relação dívida/PIB do Brasil (86,5%) é mais do que o dobro da média dos países da América Latina considerados investment grade (39,8%) | Imagem: Tendências Consultoria Integrada

Na terça-feira, Bolsonaro assumiu que não existe plano econômico e que restou assumiu o Bolsa Família como única solução.
Exatamente. Onde está o projeto dos gatilhos, de detonar cartilhas, para preservar o teto?

Em março, o sr. alertou para o problema de o banco privado emprestar aos empresários sem garantias. Hoje o pequeno e o médio empresário segue na reclamação de que não consegue ter acesso ao crédito. Até o segundo trimestre, mais de 600 mil empresas fecharam no País. Onde o sr. acredita que está a falha?
Não resolve. A economia está em desfuncionalidade porque não se tem uma política social adequada ao regime liberal. Quem tem no idioma fechar a boca de jornalista com porrada e para a equipe econômica fala em cartão vermelho dá um sinal muito ruim para o mercado. Eu, como homem de mercado, não compro o Brasil desta maneira, com um orçamento que tem um desalinhamento entre a equipe econômica, de perfil mais liberal conservadora, e um presidente populista, que já está pensando em votos, em popularidade.

Entendo Bolsonaro, que é um político e quer se reeleger. Tem todo o direito. Mas a economia está fatalmente na beira de um precipício que se chama chegar a 100% da relação dívida/PIB. Quem vai financiar isso? Só existe um instrumento capaz de equilibrar: chama-se inflação. Dei o exemplo do governo Sarney, que não tinha déficit público porque era financiado com inflação.

É o que está acontecendo com os preços. Os dados da Fundação Getúlio Vargas de quarta-feira, 16, evidenciam isso. O IGP-10 [Índice Geral de Preços 10] está o dobro em setembro na comparação com agosto: 4,34%. IPA-Agro de setembro 8,78%. Industrial 4,95%. IGP-10 acumulado no ano 13,98%. Banco Central e os economistas ainda projetam para 2020 uma inflação abaixo de 2%.

No início da pandemia, Paulo Guedes falava em crescimento do PIB em 2020 de 2,5%. Após a queda de 9,7% no PIB do terceiro trimestre, o ministro afirmou que vivemos uma recuperação rápida em V. Que recuperação é essa?
O ministro está tomando todas estas medidas fiscais que recuperam em V. Se você está irrigando o mercado, com o rombo fiscal do que já foi injetado na economia em créditos até julho, chegará a quase 10% do PIB. Na somatória dos déficits orçamentários e arrecadação, vamos atingir em 2020 mais de 94% da relação dívida/PIB, saltando de 76% para 94%. E em 2021, com o cenário que está posto, chegaremos a 100%. Somos um país em direção à insolvência fiscal do Estado brasileiro.

Ficará de fato inviável?
Com esses números, sim. O IGP-10 está acumulado em 13,98%. E a torneira fiscal continua aberta. Não tem contrapartida. Fala-se em subir imposto. Subir imposto de empresa, raramente se encontrará um setor com margem de lucro. A maioria está deficitária. Olhe número de recuperações judiciais no mercado! Do outro lado, o governo está injetando crédito subsidiado para incentivar o consumo. Como tem crescido o crédito de pessoa física! Não dá para fechar os cenários para 2021 baseado em uma política econômica, em linhas gerais, declarada pelo governo.

Nós encontramos em uma disfuncionalidade do mercado. De um lado, tem uma meta de inflação, que se fala em 1,9%, que é de 3,5% a 4%. Existe o espaço de dobrar, teoricamente, a meta. O Banco Central perdeu o instrumento de política monetária, porque o governo irriga o mercado com liquidez e não tem política monetária que funcione.

Há quem defenda que as sobras de caixa dos bancos privados pagas pelo Banco Central deveriam ser usadas para quitar a dívida ou aumentar o valor do auxílio emergencial. Isso seria possível?
Você quer que os bancos fechem? Se o banco perder dinheiro, perde o meu e o seu dinheiro. Quer voltar à crise de 2008? Os bancos nos Estados Unidos quebraram com a crise imobiliária. Gerou uma crise econômica mundial. Banco tem o capital próprio, que remunera com papeis públicos e sempre terá o dinheirinho dele. Em compensação, o que está no risco é a minha poupança, a sua e o capital de giro das empresas. É uma ideia imprudente. Se você pensa em tirar o lucro do banco, você propõe fechar o sistema financeiro brasileiro.

Se não tivéssemos o auxílio emergencial e o benefício emergencial de manutenção do emprego e renda, poderíamos ter uma situação muito pior na economia?
Todos os indicadores de consumo são turbinados por um fato financiador, que é o financiamento público. Precisamos combater a crise da Covid-19 com o máximo de equilíbrio sem afetar os fundamentos da economia brasileira. Não é o que ocorre hoje. É voluntarismo.

Precisamos ser racionais. É preciso ajudar, tem de haver aumento do déficit, mas tem limite. Sair de 76% da relação dívida/PIB para 100% em quase dois anos é suicídio. É matar gente de fome. Ou matar o poder produtivo desse País.

A discussão da nova CPMF vai e volta, mas não chega ao Congresso. Como sacrificar o bolso das pessoas quando falta dinheiro?
É um imposto burro. Pagam esse imposto os ricos, médios e pobres. Corta o valor da moeda igualitariamente para quem é rico e para quem é pobre.

Desde o final de 2016, a discussão sobre extinguir ou mudar a regra do teto de gastos continua. Bolsonaro já disse que precisará furar o teto de gastos, mas depois voltou atrás. Qual é a realidade do teto de gastos: é um mecanismo inteiramente correto, tem falhas ou é um problema para o País?
Quando o Mansueto saiu do governo, eu disse que a partir daquele dia não comprava mais o Brasil. Mansueto era um homem que simbolizava (head) para o mercado a responsabilidade fiscal. Na hora que Mansueto foi embora, o ex-secretário do Tesouro Nacional viu que responsabilidade fiscal tinha sido abandonada.

“A única coisa que pode resolver o problema econômico do Brasil chama-se inflação. Volta-se ao equilíbrio da relação dívida/PIB pago com a miséria, principalmente dos pobres”

Itens como arroz e carne tiveram aumento acumulado de 14,7% e 6,3% na inflação de abril a agosto, enquanto a economia teve resultado negativo de 9,7% no PIB no segundo trimestre | Imagem: Tendências Consultoria Integrada

Era justamente Mansueto Almeida quem discutia com os Estados as dívidas públicas.
Com os governos e empresários. Mansueto tinha um raciocínio de equilíbrio fiscal, ou seja, o Estado tem uma função de economia e também de assistência social em épocas de crise, de guerra e de epidemias. Mas na hora que se toma carona para fazer populismo político, como é feito agora, o governo encaminha a sociedade para o suicídio. O Brasil é viciado no populismo político, que é usado pela esquerda e pela direita.

Num momento tão delicado como o que estamos passando, sou a favor da assistência. Agora, é preciso escolher entre gastar mais 5% do PIB e o cabível para não destruir os fundamentos da economia.

A tributação de grandes fortunas é outro debate que voltou a ser pautado nas discussões públicas. No Congresso, parece ser algo com pouca chance de passar. É possível incluir esse mecanismo nos impostos?
É preciso lembrar Abraham Lincoln. Você não pode favorecer os pobres destruindo os ricos. Quem dá emprego? Os empresários. E os empresários bem-sucedidos que são ricos. As empresas crescem. Existe no Brasil a mentalidade de tirar dos ricos para dar para os pobres. Você tem que tirar dos ricos o possível para não quebrar a rentabilidade da empresa.

No momento que a empresa passa a ser não rentável, o negócio paralisa ou quebra. E quando quebra, causa desemprego, o que gera menor demanda, menos tributos e miséria. Essa é a experiência da sociedade. Lincoln tinha razão. É preciso ter um equilíbrio racional. O grande problema do Brasil não é cambial. O câmbio está subindo não por falta de oferta de câmbio.

Em reservas, temos o dobro de países que são investment grade na América Latina. Em compensação, o Brasil tem o dobro de déficit público. É uma corrida rumo à Argentina de iliquidez do governo brasileiro. Não é à toa que as pessoas não estão investindo no Brasil. E estamos perdendo uma grande oportunidade, porque a relação poupança/PIB do Brasil é muito baixa (13%). O financiamento da dívida pública já chegou a 20% financiado por investidores externos. Já caiu quase 50%.

Quanto o Brasil tem de poupança em relação aos outros países? Nada. E poupa quem tem dinheiro. Quem financia são as pessoas que têm reservas.

O Chile, mesmo com toda crise do modelo econômico, têm uma relação poupança/PIB de 20,1%.
É muito simples. O Brasil sem investimento, sem captação de poupança externa, não se renova, não cresce, não vai adiante. A poupança total do Brasil é de 13%, fica abaixo da média dos quatro países, que é de 19%. O Brasil não tem poupança. Para a volta do crescimento, tanto do ponto de vista de financiamento como de tecnologia, precisamos de capital e tecnologia externa para crescer.

Os fundamentos prevalecem. Não adianta demagogia populista. Se você não preserva o mínimo de expectativa de que os fundamentos não vão descer água abaixo, o País está perdido. As pessoas trabalham com credibilidade e com preço futuro das coisas, que refletem o que? O que é a moeda no Brasil? Representa os termos de troca. O principal sensor para dizer se um país está bem ou não é sua moeda. Se a moeda é campeã de desvalorização cambial, é sinal de que não tem credibilidade no governo e no País.

O senador Vanderlan Cardoso (PSD) e alguns integrantes do governo Bolsonaro já defenderam usar os fundos de reserva do Brasil no exterior para abater parte da dívida externa. É uma medida correta?
Não. É igual tomar um porre de cachaça. Porque é mais um indicativo de que se vai quebrar também na área cambial. O problema está no desequilíbrio fiscal. E o equilíbrio fiscal não é sustentável a longo prazo se começarmos a vender reservas para pagar dívida fiscal. As reservas foram geradas por vantagens comparativas que o Brasil teve com comércio exterior, que chama-se agronegócio. Isso vem de 2000 em diante.

Mesmo com a queda do PIB de 9,7% no segundo trimestre, o agronegócio conseguiu registrar alta de 0,4%.
Exatamente. O que digo é empírico, não é achismo. O IGP-10, da FGV, acumulado no ano em 13,98%, com renda e faturamento em queda, com o País mais pobre, nos leva à inflação, que pode acabar com todos nós.

Continue com o populismo, tirando as expectativas e a confiança do mercado! Acelera todo esse processo. O Brasil adota nova teoria econômica, que é o liberalismo heterodoxo. É água e óleo. Se não corrigirmos a situação, o Brasil está fadado a entrar em ciclos de recessão em decorrência do problema fiscal.

“É preciso sair da rotina. Estamos em uma crise muito séria”

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