“Serei uma negra no Senado pelo Estado que mais mata mulheres negras no País”

Pré-candidata do PSOL quer uma frente de esquerda para Goiás, prioriza educação e economia e diz que brasileiros não estão vivendo, “mas sobrevivendo”

Sempre envolvida com militância desde o movimento estudantil, a professora Hemanuelle Di Lara Siqueira Jacob “descobriu” o PSOL recentemente, mas já tem uma história para contar dentro do partido. Manu Jacob, como é conhecida, filiou-se em 2017 e, três anos depois, já concorreu à Prefeitura de Goiânia pela sigla. Seu perfil de quem tem posições firmes sobre as próprias convicções a fez ser convidada agora para postular a vaga goiana ao Senado Federal nas próximas eleições.

A identidade entre ela e o PSOL é comprovada em seu próprio discurso, no qual mostra sempre o alinhamento mútuo. “Somos um partido de pautas ideológicas: antirrascista, anti-LGBTfóbico, que luta pela causa das mulheres e das crianças, das pessoas com deficiência intelectual, física e cognitiva. Mas, para além dessas questões, é um partido que traz esperança de dias melhores, que trabalha com a questão ambiental de forma muito cara”, resume. “A sigla significa ‘Socialismo e Liberdade’, não achamos que no capitalismo um dia todos viverão bem.”

Professora da rede estadual de ensino há 15 anos, ela é graduação em Educação Física e também especialista em Educação Física Escolar e mestre em Educação Básica, sempre pela Universidade Federal de Goiás (UFG), onde agora é também doutoranda em Educação. Nesta entrevista ao Jornal Opção, Manu faz críticas fortes às privatizações e diz por que não vê sentido em fazer uma frente ampla com partidos de esquerda incluindo Marconi Perillo (PSDB).

Não é a primeira vez que se coloca à disposição para disputar um pleito. Como é sua trajetória de militância?

Venho do movimento estudantil da universidade. Estudei na UFG desde a graduação até o doutorado, que estou cursando. Durante algumas gestões, fui coordenadora do DCE [Diretório Central dos Estudantes]. Tenho, inclusive, uma grande dívida com a universidade pública, que foi para mim, além de uma grande escola acadêmica, também uma escola para a vida.

Quando passei no concurso público, me deparei com as especificidades da educação pública, das demandas dos professores, e acabei me envolvendo com o movimento dos trabalhadores da educação no Estado. Participei do Sintego e também do movimento de oposição, o MPG [Movimento dos Professores de Goiás]. Encontrei no PSOL um partido que contemplou as demandas que eu carrego. Atualmente, sou coordenadora da Resistência Feminista, um coletivo feminista que trabalha no combate à violência praticada contra a mulher e pelo qual fazemos uma campanha anual contra a pobreza menstrual, que acomete principalmente mulheres negras, em situação de rua e de vulnerabilidade.

Nas últimas eleições internas do PSOL, coloquei meu nome à disposição para concorrer à presidente do partido no Estado. Já havia passado pela experiência de ser candidata à Prefeitura de Goiânia nas eleições de 2020. Tudo é uma construção interna e coletiva, não colocamos nosso nome sem antes ter discutido isso em conjunto. Na ocasião, passei por uma conferência, juntamente com outra mulher, Mariana Lopes, e tive uma maior votação. Agora, para o Senado, da mesma forma, também coloquei meu nome à disposição e estamos construindo internamente.

A sra. se filiou ao PSOL em que ano?

Foi em 2017 e em 2020 participei de minha primeira eleição. Eu me considero muito “para frente”, no sentido de ter dentro de mim um sentimento de querer a transformação social, é algo que me mobiliza de uma forma muito intensa. Tenho sempre a motivação de levar comigo as pautas de trabalhadoras e trabalhadores.

Quais são suas bandeiras as quais levam a uma identificação com o partido?

Existem aí duas questões. A primeira é econômica: o PSOL apresenta um programa para a sociedade brasileira que vai ao encontro das necessidades do povo. A sigla significa “Socialismo e Liberdade”, não achamos que no capitalismo um dia todos viverão bem, com trabalho e renda plena, oportunidades iguais e com qualidade em educação e segurança. Não é algo que possamos vislumbrar para toda a população. É também um partido de pautas ideológicas: o PSOL é antirrascista, anti-LGBTfóbico, luta pela causa das mulheres e das crianças, das pessoas com deficiência intelectual, física e cognitiva. Mas, para além dessas questões, é um partido que traz esperança de dias melhores, que trabalha com a questão ambiental de forma muito cara.

Temos uma crítica muito forte à maneira como se dá, por exemplo, o agronegócio. Não somos contra o agronegócio, mas ao modo com que ele é trabalho, sem priorizar o processo de industrialização. O que temos aqui é a exportação pura e simples de matéria-prima, de commodities. Isso faz com que, quando temos de importar outros produtos, isso ocorra com um alto custo. Outra questão nesse tema é o quanto essa forma de produção é nociva para o meio ambiente, principalmente para nós, no Cerrado. É um bioma que não conseguimos mais encontrar, basta viajar pelo interior e tentar avistar algum trecho da vegetação. O que vemos, ao contrário, são vastas plantações de soja, cada uma com extensões quilométricas. Ou seja, temos uma pauta ideológica, sim, mas que constitui a forma como pensamos em viver de forma segura no mundo, mas também uma pauta econômica. Veja, o litro da gasolina está custando quase 8 reais. Mais do que isso, hoje, no Brasil, temos 33 milhões de pessoas que não sabem se vão comer amanhã. Isso me afeta, é uma coisa me sensibiliza bastante.

Como a sra. vê a questão da segurança em Goiás?

O governo está com uma propaganda segundo a qual diminuíram os índices de violência no Estado. Mas como podemos saber isso se as estatísticas de confrontos policiais, de mortes e prisões não são divulgadas? Como comparar? Pelo quinto ano consecutivo, Goiás é o único Estado do Brasil que não divulga esses dados. Mesmo o Rio de Janeiro, que vive uma guerra civil entre traficantes e milicianos, mostra esses números, por que aqui não?

A educação deve ser, obviamente, uma pauta bastante cara em seus projetos…

Sim, hoje temos mais de 11 mil trabalhadores da educação no Estado que não tem nenhuma estabilidade. São contratados, mas não são regidos nem mesmo pela CLT [Consolidação das Leis do Trabalho]. Se forem demitidos hoje, não tem seguro-desemprego nem outra forma de proteção. O último concurso público que tivemos ocorreu já há mais de dez anos. Isso é ruim para a classe dos professores. Hoje, muitos profissionais estão desempregados, trabalhando como Uber – sem qualquer menosprezo à categoria dos trabalhadores de aplicativo, mas eles se formaram para atuar como docentes. Isso inviabiliza os planos de carreira, não há qualquer motivação para estudar. Fiz especialização e mestrado para me qualificar, mas também para ter meu salário valorizado. Já os professores que são contratados não têm esse plano de carreira.

“Lutar pela educação é pauta prioritária”

É um problema que afeta também os trabalhadores técnicos. Os que estão na área da limpeza e da merenda, muitos deles, ganham menos do que o salário mínimo, é algo muito precarizado. Investir na educação, lutar por ela, precisa ser uma pauta prioritária. E não tem como ser diferente, porque o que é feito ou não é feito em prol da educação vai deixar reflexos de forma geral. Quem não trabalha motivado, quem não tem segurança na própria carreira, trabalha sob tensão contínua. Isso se vê principalmente na mudança de semestre, ou seja, agora em junho e, depois, em dezembro. Por quê? Porque eles não sabem se vão voltar. Isso é muito ruim.

O que a sra. pensa sobre a política do desarmamento? Está entre suas bandeiras dentro de uma proposta como pré-candidata ao Senado?

É preciso colocar alguns dados sobre isso. Há algumas semanas, o Datafolha divulgou uma pesquisa revelando que, a cada dez pessoas, sete não consideravam que a sociedade ficava mais segura com armas nas mãos dos civis. Isso é um dado muito real. A política de desarmamento, na qual eu acredito, será com certeza uma de nossas bandeiras no Senado. O trabalho da polícia acaba sendo dificultado para a polícia, já que os trabalhadores, hoje, não têm condição de comprar nem o gás de cozinha, de comprar alimentos básicos. Então, para comprar uma arma, com licença e passando por todas as etapas, isso não fica por menos de R$ 3 mil. Então, quem está comprando de fato armas hoje no Brasil é o crime organizado, a mílicia, o bandido em geral.

Na semana passada, foi presa uma célula do PCC [Primeiro Comando da Capital] no Rio de Janeiro. Uma das pessoas presas disse que quem comprou as armas – na verdade, um arsenal de guerra – foi um cunhado e um irmão que não tinham passagens pela polícia, mas que tinham tirado licença exatamente para este fim: comprar armas para o grupo. Então, vemos o quanto isso dificulta o trabalho da polícia e causa sofrimento à corporação. Em 2019, mais policiais se suicidaram do que morreram em confronto. A categoria é a que mais sofre com sua saúde mental.

Por outro lado, a flexibilização das armas, a facilidade para sua compra, não traz um sentimento de segurança. As pessoas armadas não se sentem mais seguras. Outra pesquisa, essa nos Estados Unidos, onde você pode comprar uma arma no supermercado ou no posto de gasolina, mostra que as armas de fogo ocupam o primeiro lugar no número de mortes de crianças e adolescentes de 3 a 17 anos, entre acidentes e tiros intencionais. Veja bem, estamos falando de crianças e adolescentes. As pessoas me perguntam, quando participo de debates: “Manu, então qual é a saída?”. Bom, a saída é investimento em políticas públicas de longo prazo, que se baseiem em educação, segurança, lazer, profissionalização. Precisamos valorizar as escolas e universidades públicos para que, no fim, isso gere trabalho e renda. São questões que tencionam a cabeça do cidadão.

No período da pandemia, o índice de violência contra as mulheres e os feminicídios aumentaram. Isso porque elas passaram a ficar muito mais tempo dentro de casa com seus algozes, mas também porque houve a redução dos postos de trabalho – na qual as mulheres foram mais afetadas –, a necessidade de cuidar das crianças em casa, aulas online com um celular só e internet ruim etc. Toda essa questão econômica, mais uma educação que não funciona, postos de saúde lotados, tudo isso tensiona a vida dos trabalhadores.

Nos últimos três anos, houve 32 medidas provisórias de flexibilização das armas. Segundo a própria Polícia Federal, o número de armas em circulação quadriplicou. Essas armas estão indo para as mãos de quem? Não são as dos trabalhadores, das pessoas que precisam se proteger. Têm quatro vezes mais armas circulando no País e com flexibilização de várias coisas. Por exemplo, no Brasil, a caça é proibida e várias dessas MPs são para flexibilizar ou liberar o uso de armas por caçadores. As coisas vão ficar fora de controle se continuarem dessa forma.

Enfim há outros setores e temas da sociedade que precisam ser ajustados antes de pensarmos na questão de armamento: uma educação de qualidade, uma atenção para os profissionais da segurança pública, que não são heróis, mas trabalhadores com um quadro de saúde mental que precisa de atenção e de investimento. Da mesma maneira, é necessário investir em uma formação de direitos humanos. Veja o que ocorreu com a Polícia Rodoviária Federal (PRF) no episódio de Sergipe. Colocaram um homem dentro de um cubículo e fizeram tudo aqui mesmo com as pessoas filmando  [Genivaldo de Jesus Santos, de 38 anos, foi abordado de forma abusiva e submetido a tortura e morte por asfixia mecânica ao ser fechado no camburão da viatura e submetido a um gás jogado pelos policiais dentro do compartimento]. Não pode acontecer isso. Ou seja, temos outras coisas para ajustar – e que não estão ajustadas – antes de pensar em liberar armas. O trabalhador precisa conseguir comprar o gás, o litro de gasolina e hoje está com a cabeça cheia de problemas. Vai ficar armado, assim? É meio complicado, não?

“Estar ao lado de Marconi não é a real política do PSOL”

Qual é a situação do PSOL em Goiás? Está organizado?

O PSOL é um partido de tendências, assim como o PT. A cada ano que passa, sinto que o partido está mais coeso, mais maduro. Ainda é um “adolescente”, tem poucos anos de fundação, mas, ao mesmo tempo, vem amadurecendo em sua política e em suas decisões. Por exemplo, o fato de a gente identificar que não é uma política bacana se aliar a Marconi Perillo (PSDB) ou José Eliton (PSB), mesmo sendo uma chapa com o PT está relacionado com o amadurecimento da política. Afinal, por quanto tempo nós combatemos a política de Marconi? Por muito tempo.

A sra. considera que essa aliança com Marconi e Eliton soa como algo incompatível com a história tanto do PSOL como a do PSDB?

Sim. E  considero também que será uma incoerência com a história do Partido dos Trabalhadores.

E o PSOL tem restrição total em relação aos nomes deles em uma chapa com vocês?

Sim. E isso é pelo compromisso que temos com os trabalhadores. Marconi fez uma política nociva de privatização, com um dos maiores bens que a gente tinha, a Celg [Centrais Elétricas de Goiás S.A.]. Hoje a energia está mais cara e com uma qualidade inferior. Além disso, houve um processo de demissões em massa desses trabalhadores. Fizemos um compromisso com a categoria dos trabalhadores urbanitários de que a gente estaria ao lado em defesa da Saneago, que agora está na mira da política de Ronaldo Caiado. Apesar de, quando senador, Caiado ter se posicionado contra a venda da Celg, ele aprofundou o processo, ao fazer o mesmo com a Celg GT [Geração e Transmissão], além das concessões que foram abertas para nossas rodovias. Em minha opinião, é um escândalo a privatização das rodovias, é uma máquina de fazer dinheiro: pegam a rodovia pronta, coloca o pedágio e começa a cobrar.

Estar ao lado de Marconi como, se a gente pegar a real política do PSOL? Sempre criticamos todo esse processo de privatização e de não valorização dos trabalhadores da educação. Não teve concurso público em massa no governo Caiado para suprir o déficit na rede. Esse déficit já vem do período de Marconi, que tirou a titularidade dos professores, eu tinha acabado de entrar na rede e acompanhei esse processo. Como, agora, nos voltarmos para esses professores que estiveram com a gente na luta falando que estamos ao lado deles (Marconi e José Eliton)? É incoerência em relação ao lado da história em que queremos estar.

“Uma frente de esquerda sem o PT não é frente de esquerda”

Os diálogos do PT e de outros partidos de esquerda podem caminhar para essa aliança com Marconi, em sua visão?

Não posso falar muito por dentro, mas o que estamos observando é que dentro do PT está tendo uma disputa. Há um setor do partido que está brigando pela candidatura de Wolmir Amado [pré-candidato do PT ao governo] e é o que mais se aproxima do PSOL e nos chama para conversar, também dialoga com os demais setores progressistas. Há outro setor petista que acha ser possível uma frente ampla, o qual é mais representado pela federação, com o PV e o PCdoB. Eles querem de fato ampliar o palanque de Lula [pré-candidato a presidente pelo PT] no Estado.

Só que não se decidiram e o PSOL não pode ficar a reboque do PT. Seria importante que fizéssemos uma frente de esquerda, e uma frente de esquerda sem o PT não é frente de esquerda. Seria importante ter o PT junto conosco, mas, nesse cenário de indecisão, seguimos construímos a pré-candidatura de Cíntia Dias ao governo e com Manu Jacob ao Senado.

Com o advento da cláusula de barreira, a sra. considera que o PSOL poderia seguir sem fazer uma federação, como fez com a Rede Sustentabilidade?

Na verdade, a gente tinha dúvidas. Boulos [Guilherme Boulos, candidato a presidente em 2018 e a prefeito de São Paulo em 2020] colocou sua pré-candidatura a deputado federal depois que aprovamos a federação. Foi uma questão de timing, com o nome dele para a Câmara com certeza alcançaríamos a cláusula de barreira sem precisar da federação.

Que análise a sra. faz da esquerda atualmente no Brasil?

Vivemos um momento de polarização política. De um lado, temos a extrema-direita; do outro, a demonização da esquerda. Por que falo em demonização? É que toda pessoa que se manifesta – até se for de centro-esquerda ou mesmo de centro – está sendo rechaçada em determinados espaços, se não tiver o pensamento dessa extrema-direita. Eu estou sempre sendo convidada para falar em rádios, principalmente na Sucesso e na Bandeirantes. Porém, a qualquer posicionamento que externamos nesses espaços, já vem o carimbo de “esquerdopata”. Isso é muito ruim. Nós estamos enfrentando um momento muito difícil, com tudo isso que a gente já falou aqui, como sobre o armamento da população, e mais ações para destruir políticas públicas como as cotas raciais e para dar invisibilidade à população LGBTQIA+. Em cada câmara de vereadores, em cada assembleia legislativa pelos Estados, nós vemos esses avanços da extrema-direita, tal qual a aprovação do homeschooling, a interferência do setor da religião na política. Isso está ficando arraigado: não é apenas o presidente Jair Bolsonaro, mas é o bolsonarismo. Essa mistura de religião, militarismo e uma pauta de costumes muito forte.

A esquerda vem tentando se reorganizar, mas, ao mesmo tempo, em nosso caso aqui em Goiás, seria muito importante que saíssemos como uma frente de esquerda. Isso para que os trabalhadores olhassem esse movimento e pudessem falar “é com esse povo aqui que está a candidatura de Lula aqui no Estado de Goiás”. Aqui, Bolsonaro terá possivelmente três palanques: o de Vitor Hugo [pré-candidato ao governo pelo PL e apoiado formalmente por Bolsonaro], o de Gustavo Mendanha [pré-candidato pelo Patriota] e o de Caiado, que fala que não, mas faz a mesma política. Seria o momento de pautarmos questões relacionadas com a volta do poder aquisitivo das pessoas. Esta é a pauta da esquerda: as pessoas precisam voltar a comprar, voltar a viver. Hoje a população está sobrevivendo. Mas qualquer pessoa que tenha esse discurso é chamada de “esquerdista”. Estamos diluídos nesse sentimento de mudança, por conta desse processo de polarização.

“Se Marconi for o candidato da chapa, não teremos uma candidatura de esquerda”

Aqui em Goiás a sra. vê a dificuldade para acabar com essa espécie de pulverização?

Sim, claramente. A começar por essa questão da frente ampla que um setor do PT está fazendo, querendo estar do lado de Marconi. Ora, se toda a esquerda sair com Marconi, não haverá candidatura de esquerda no Estado de Goiás! (enfática). Simplesmente porque Marconi não é de esquerda e mudar de sigla não fará ele ser de esquerda.

Isso está sendo exposto de forma clara para o PT?

Totalmente, do jeito que estou falando aqui para você. Também tenho postado em minhas redes sociais, o debate é muito franco, até porque tem muita coisa em jogo. Não é só mais uma eleição, a próxima será, senão a mais, uma das mais importantes da história do Brasil República. Tenho um receio: imagine se Lula ganhar no primeiro turno – o que não está descartado, como é que vamos comemorar nas ruas? Não vamos poder fazer isso, porque vai ter gente armada andando por aí e achando ruim ver isso. Isso é muito sério.

Mas em uma eleição que fosse resolvida em segundo turno, com o cenário polarizado que está hoje, isso não manteria a população dividida? Uma vitória no primeiro turno não amenizaria isso?

O segundo turno vai certamente desgastar mais essa questão. E teremos a máquina pública investindo mais dinheiro no processo eleitoral. Por uma questão educativa, e para pôr fim a essa política fascista do atual governo, para enterrarmos isso na história, seria muito importante ganhar no primeiro turno. Mas não dá para ter certeza disso. E, indo para o segundo turno, as negociações começarão do zero. O PT já provou que consegue governar tendo junto partidos da direita. O vice de Lula [José Alencar] era do PL, o vice de Dilma Rousseff era Michel Temer, do PMDB, hoje MDB. O fato é que, quanto mais tempo passarmos nesse cenário de negociação, mais isso vai ficar com a corda esticada. Quem apoiou Ciro Gomes, por exemplo, vai botar a faca no pescoço de quem estiver no pleito. Isso vai ocorrer com as lideranças políticas, na mesa do café da manhã. Vai ficar uma disputa muito mais agressiva.

Existe algum desconforto do PSOL ou seu, pessoalmente, com tudo que aconteceu em relação à prisão de Lula, às denúncias e casos comprovados de corrupção durante os governos do PT?

Sim, existe. O PSOL tem críticas ao PT. Não “passamos pano” para a política que foi implementada em vários setores: na segurança pública, na economia, na condução de vários processos, apesar de a gente avaliar que o brasileiro vivia melhor sob o governo do PT. Não estamos dando um apoio cego, temos uma plataforma de 12 pontos que se chama “Direito ao Futuro”, a qual apresentamos ao PT, que concordou com o que está ali. Ou seja, não estamos entrando de mãos abanando no projeto: temos propostas e um programa para ser implementado.

Qual motivação lhe traz para uma disputa tão complicada como é a de uma vaga para o Senado, economicamente cara e uma campanha dificílima, por todo o Estado?

Não entro em uma disputa para fazer de qualquer jeito. Em alguns momentos, na campanha à Prefeitura de Goiânia, eu mostrei isso. Uma jornalista, de quem não vou citar o nome, numa entrevista, fez uma questão mais ou menos assim: “Manu, você sabe que vai perder, por que estar na disputa?”. Achei extremamente desrespeitoso. O que se faz na campanha não é por mim, mas pela política do partido, e me motiva muito saber, primeiramente, que sou a primeira mulher negra a ocupar esse espaço na história política da Goiás. Isso tem um peso muito grande, porque estamos no Estado que mais mata mulheres negras no País. Sou uma sobrevivente, portanto.

A ideia de que posso ser a porta-voz de tantas mulheres que vivem em situação de vulnerabilidade me motiva bastante. Da mesma forma, saber que posso levar a pauta da educação às discussões, um tema que é tão caro para mim e para o PSOL, é algo que me faz estar aqui. Mais do que isso, saber que podemos discutir questões econômicas em nível de igualdade, por exemplo, na questão das privatizações, algo em que eu bato muito na tecla, porque é o patrimônio goiano. Agora, com o novo marco legal da água, também esse recurso está correndo o risco de ser privatizado. E quem vai denunciar isso? O Delegado Waldir (União Brasil)? Quem vai questionar para Marconi Perillo sobre a Celg? Quem vai perguntar para Wilder Morais (PL) quais as políticas voltadas para a segurança das mulheres? Existe alguma política voltada para a diversidade, para a segurança da população LGBTQIA+. Isso me motiva porque são bandeiras muito caras para mim.

Como a sra. vê o que chamam de “nova política”?

Tenho uma foto aqui para mostrar (mostra a foto ao repórter). São os mesmos políticos de sempre. Os mesmos. Quando eu vi esta foto, percebi que eu tenho uma missão. Difícil, não vou mentir que fico reticente, se vou conseguir, mas é necessário seguir. Isso que você viu é a representação da “velha política”, ainda que se diga “nova política”, como Bolsonaro falou que seria. É a velha política.

Existem duas mulheres pré-candidatas ao Senado: além da sra., também a ex-deputada Denise Carvalho (PCdoB). No Senado, por Goiás, só foi eleita uma mulher, Lúcia Vânia [senadora de 2003 a 2019]. Vocês chegaram a conversar e, se sim, houve algum encaminhamento para um trabalho conjunto, de alguma forma?

É sintomático que somente partidos de esquerda tenham colocado mulheres como pré-candidatas ao Senado. É um sintoma do tipo de política que queremos para o Estado. Com certeza, nossas propostas serão semelhantes em muitos pontos e no jeito de fazer política, apesar de que o PCdoB, por exemplo, é a favor da frente ampla. Nós, do PSOL, como eu já disse, somos a favor de uma frente de esquerda. Isso vai aparecer em algum momento, vai nos diferenciar nos debates, na propaganda eleitoral. Mas posso dizer que é muito valoroso poder dividir isso com Denise, com quem encontrei na recente audiência pública sobre renda básica, que teve como convidado o vereador paulistano e ex-senador Eduardo Suplicy (PT-SP), na Assembleia Legislativa. Marcamos uma conversa para alinhar mais coisas. Todos os que são a favor da política de esquerda precisam se posicionar, votando em nossos projetos, nos fortalecer com esse apoio. Mas, de qualquer forma, em determinado momento, creio que nossa política vai destoar, porque a política do PSOL é pela frente de esquerda.

Qual seria a chapa ideal para representar a esquerda nas eleições estaduais?

É uma pergunta difícil, mas creio que, sem colocar nomes, uma chapa que tivesse o PT e o PSOL nas posições majoritárias seria muito representativa.

Poderia ser uma chapa com PT, PSB e PSOL?

Não, eu penso que teria de ser pelas duas federações: a federação PT-PCdoB-PV e a federação Rede-PSOL. Na majoritária, teria de ser por aí o caminho.

Qual sua avaliação sobre nossos atuais senadores?

É muito relacionado com o que lhe mostrei naquela foto.

 

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