“Se Caiado foi eleito como candidato de oposição foi em razão da situação em que o Estado estava”

Presidente estadual reeleito do MDB e ex-deputado federal faz críticas ao primeiro mês de gestão do governador e diz que trabalhará para fortalecer partido de olho em 2020

Daniel Vilela - Foto Fernando Leite Jornal Opção 18 editada

Presidente estadual do MDB, ex-deputado federal Daniel Vilela | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Desde a sexta-feira, 1º, a atenção e dedicação de Daniel Vilela se voltaram ao comando do MDB em Goiás. Com a derrota nas urnas para Ronaldo Caiado (DEM) na disputa pelo governo do Estado, o político viu seu mandato como deputado federal se encerrar na quinta-feira, 31. Os quatro anos no Congresso e a reeleição como presidente estadual emedebista, depois de desbancar no dia 19 de janeiro os apoiadores do democrata no partido, serão combustível para organizar a sigla de olho nas eleições municipais em 2020. Sobre seu futuro político, Daniel diz que “2022 está muito longe”. “Até 2020 acredito que está muito precoce para se discutir.”

Augusto Diniz – Como foi a experiência de quatro anos como deputado federal? O que foi possível fazer no Congresso? Que experiência o sr. teve enquanto parlamentar em Brasília?
Foi uma experiência rica. Saio com o sentimento de que fui bastante produtivo, consegui ocupar espaços que normalmente em um primeiro mandato que seriam muito complicados de alcançar. Fui vereador em Goiânia e deputado estadual. A Câmara Municipal é um parlamento bem ativo, até pelas demandas da cidade, o que obriga o vereador a ter um dinamismo no seu mandato.

A Constituição acabou por tirar um pouco das competências e prerrogativas das Assembleias. A maioria das leis são de competência municipal ou federal. Acaba que a atuação da Assembleia fica limitada à fiscalização do Executivo, mas as iniciativas executivas, por uma questão legal, acabam por ficar limitadas.

A Câmara dos Deputados, para quem quer trabalhar e está bem intencionado no exercício do mandato, dá a oportunidade de se alargar a visão, ter relacionamentos, informação. As comissões temáticas funcionam a todo vapor, coisa que não acontece na Assembleia nem na Câmara Municipal. Aliás, nem se reúnem. É só a Comissão Mista e a CCJ que valem para tudo. A Mista engloba tudo e a CCJ afere a legalidade, a constitucionalidade.

Na Câmara dos Deputados todas as comissões funcionam, são audiências ricas, com pessoas de muito conhecimento. Para mim, foi um momento bastante satisfatório. Também como representante dos municípios foi um momento de muita colaboração. Cheguei logo após o orçamento impositivo nacional. Com o presidente da República do meu partido [Michel Temer – MDB] facilitou demais para que eu pudesse atender as demandas dos municípios.

Teve o ônus também, mas veio esse bônus. Acredito que vai demorar muito tempo para que os parlamentares consigam o que os deputados da Legislatura passada conseguiram. Eu ainda mais como alguém que conheço o presidente Temer desde a minha infância. Tinha liberdade e acabei por criar bom relacionamento com os ministros em relação às demandas do Estado.

Consegui retomar obras importantes de rodovias federais [BRs], do anel viário de Jataí, aeroporto novo de Jataí de R$ 50 milhões. Coisas grandiosas que não conseguiria em outra situação. Me senti também realizado por conseguir no primeiro ano no parlamento ser relator de uma medida provisória importante que criou o Programa de Proteção ao Emprego, que depois de dois anos foi tornado perene por ser um modelo moderno, criado em período de crise na Alemanha.

No segundo ano, fui presidente da Comissão de Mudanças Climáticas, que é uma comissão mista entre senadores e deputados. Fui vice-líder do partido, relatei outros projetos importantes. E fui no final, no último ano, presidente da CCJ [Comissão de Constituição, Justiça e de Cidadania], que é um outro patamar na Casa.

Todos os projetos passam pela comissão, o relacionamento aumenta com os outros deputados, todo parlamentar tem uma proposta principal do seu mandato e o presidente da CCJ consegue agilizar a tramitação. Os projetos polêmicos precisam ter a constitucionalidade atestada na comissão. Me sinto bastante realizado com esses quatro anos.

Augusto Diniz – Olhando hoje, quase dois anos depois do fim dos trabalhos da Comissão Especial da Reforma Trabalhista, o sr. considera a condução deste grupo como uma atividade política importante ou ainda há desgaste por ter feito parte da base que deu sustentação à aprovação do projeto?
Nunca tive receio de desgaste porque sempre tive uma convicção muito grande da importância da Reforma Trabalhista. Presidir para mim naquele momento, no terceiro ano como deputado, foi uma escolha em razão da minha relatoria da medida provisória do Programa de Proteção ao Emprego. A bancada decidiu que eu tinha mais conhecimento sobre o assunto.

E foi a grande reforma dos últimos quatro anos. Não tinha como negar a necessidade de uma reforma de uma legislação que era da década de 1940 e gerava 3 milhões de novas ações por ano. Sendo que o segundo país que mais geravam ações trabalhistas eram os Estados Unidos com 180 mil. Não tinha como negar a necessidade de uma reforma em um país com mais de 17 mil sindicatos. E o segundo, que é o berço do sindicalismo, o Reino Unido, tem pouco mais de 300 sindicatos. Tinha alguma coisa errada acontecendo.

Você pode questionar um ponto ou outro, mas fizemos um trabalho com juízes do Trabalho e procuradores do Trabalho. Há uma discussão ideológica até mesmo dentro da Justiça do Trabalho. Nos reunimos constantemente com o presidente do TST [Tribunal Superior do Trabalho], que era na época o ministro Ives Gandra. Acabei me tornando muito amigo do ministro. Olhei aqui no WhatsApp, Ives Grandra acabou de me mandar uma mensagem avisando que vem a Goiânia fazer uma palestra.

Éramos subsidiados de informações de pessoas altamente preparadas, que têm uma história de vida e de trabalho nesta área, que sabiam os problemas que precisavam ser corrigidos. Foi um grande avanço. Não tenho dúvida nenhuma disso. É lógico que há algumas coisas que na prática vê-se que é preciso fazer correções. Ainda estamos passando por um momento no qual temos muitos instrumentos de propagação de fake news. Isso acaba contaminando o debate racional de qualquer reforma, como a da Previdência e a Trabalhista.

Lembro que ficou uma discussão muito grande sobre as mulheres grávidas ou lactantes serem obrigadas, a partir da Reforma Trabalhista, a trabalhar em local insalubre. Era o contrário. Olha como as coisas são invertidas. Dilma [Rousseff – PT], no final de seu mandato, mandou uma Lei que a intenção era boa, mas foi bem no estilo Dilma de final de governo. De tanta pressão, Dilma encaminhou um projeto de Lei que dizia que a mulher que trabalha em locais insalubres e fica grávida tem de ser afastada e alocada em um local de trabalho administrativo.

Só que o projeto da então presidente não determinava quem iria pagar o afastamento, se era o empregador ou o INSS. Dilma criou, por exemplo, no setor de saúde um problema grande. O administrativo do hospital é dentro do hospital. Como você vai tirar uma médica do atendimento e colocar em outra área dentro do hospital? Não resolveria o problema da insalubridade.

A proposta era para fortalecer os empregos das mulheres. Os hospitais começaram a parar de contratar mulheres de determinada faixa etária. Começaram a contratar profissionais da saúde homossexuais por não ter a possibilidade de engravidar. Começou a ocorrer o inverso, diminuir as opções de trabalho para as mulheres.

O que fizemos foi corrigir e dizer quem pagaria se a empregada fosse afastada, que nem tudo era insalubre. A Reforma Trabalhista foi um grande avanço. Talvez alguns pontos serão burilados pela própria Justiça do Trabalho. E se houve desgaste, o político não pode ser movido por situações de desgaste ou não, deve ter responsabilidade e tentar contribuir com o País no caso dos deputados federais. Entendo que estava dando uma grande contribuição para o País.

Danin Junior – O sr. estava na Comissão de Mudanças Climáticas quando ocorreu o desastre em Mariana (MG), e agora acabamos de passar por mais um em Brumadinho (MG). O Congresso avaliou a legislação para evitar esses rompimentos de barragem, houve a discussão, foi insuficiente?
O problema é que temos a cultura no Brasil de agir só depois de uma motivação trágica. Na questão penal isso acontece muito. Um crime bárbaro mobiliza as pessoas para tentar alterar a nossa legislação. Desde que cheguei à Câmara havia discussão sobre o novo Código de Mineração por se tratar de regras muito ultrapassadas. E nunca era votado.

Cheguei a verificar e já havia um parecer de uma comissão da Legislatura anterior à minha. Lembro disso porque Goiás está entre os quatro Estados na exploração da atividade mineral. Sempre conversamos com alguém que cita ou cobra a necessidade de atualizar e aperfeiçoar a legislação no setor. Havia uma unidade do DNPM [Departamento Nacional de Produção Mineral] próximo à Praça Cívica e era vergonhoso ir lá e constatar a situação do prédio, caindo aos pedaços. Houve época que foi necessário fechar por não ter recurso para manutenção, limpeza, segurança.

Ficava-se na dependência da aprovação do Código de Mineração. Sei que isso tinha muito interesse, porque os valores dos negócios da mineração são estratosféricos. Por ter muito interesse, isso nunca era votado. Tanto que não votou. O que aconteceu foi o presidente Temer, em 2018, editou uma medida provisória que criava a Agência Nacional de Mineração (ANM), o antigo DNPM.

O órgão foi reestruturado, foram criados recursos para custear a agência e indicados conselheiros e diretores que têm mandatos, o que acredito ser o modelo mais adequado. A discussão existia, havia a necessidade, mas havia muito interesse que não deixava votar o Código da Mineração. Talvez se tivéssemos votado isso antes, imposto certas obrigações, poderia ter evitado. Não sou da área, não sou engenheiro, muita gente diz que esse é um risco que existe, principalmente nas barragens de rejeitos, que sua parede vai se solidificando com a própria lama de rejeitos.

Mas se tiver um vazamento na parte de baixo de água não há como identificar e ocorrer o desastre. Essa foi a versão que ouvi, não tenho conhecimento para falar sobre o assunto. Dizem que é o modelo mais barato, por isso que as mineradoras o utilizam. Existem outras tecnologias mais seguras que exigiriam custos maiores. E de fato não houve debate no Congresso nos últimos anos em relação a isso.

Danin Junior – O Acordo de Paris surtiu o efeito esperado?
Quando foi assinado, o Acordo de Paris foi bastante comemorado, mas precisa ser revisado e acompanhar o cumprimento por parte dos países membros. Os Estados Unidos tinham assinado, logo em seguida Donald Trump foi eleito presidente. Brasil tinha um grupo no Ministério do Meio Ambiente que acompanhava as definições, com pessoas altamente qualificadas, e acredito que estaríamos cumprindo a nossa parte.

Havia o fundo que havia sido criado para fomentar ações nos países mais pobres. Os Estados Unidos não aportavam recursos, que era o principal de todos os países membros. Depois do Trump, retroagimos um pouco nessa discussão.

Augusto Diniz – O sr. citou que interesses não deixaram as propostas de mudança na legislação da atividade mineral fossem discutidas no Congresso. Que interesses são esses?
Sei que tinha interesse, porque não se votava. Quando não se vota algo que está pronto para ser apreciado há forças que, de alguma forma, estão contrariadas com aquele texto ou que têm outros interesses. Não sei porque de fato não era uma área que eu atuava. Não era um membro atuante da Comissão de Minas e Energia. Como goiano e por Goiás ter uma produção mineral significativa, sempre ouvíamos de empreendedores e empresários, funcionários de carreira do DNPM, que sempre falavam. Eu não tinha toda essa relação para saber o que não permitia essa votação.

Danin Junior – O sr. e o governador Ronaldo Caiado (DEM) disputavam nas eleições de outubro quem mais criticava as contas do governo pela situação fiscal em que o Estado se encontrava no ano passado. O sr. acredita que tem havido certo exagero, como o sr. criticou em vídeo, do governador no diagnóstico que Caiado faz no início de governo?
Minha crítica no vídeo não foi ao tom, ao exagero de Caiado, mas por o governador se omitir a dizer que a realidade era essa. Todos nós sabíamos isso. Esse talvez tenha sido o principal tema de discussão. Eu inclusive achava que era pior, porque dizia que o Estado não pagaria a folha de novembro. Fui ao TCE [Tribunal de Contas do Estado] no ano passado mostrar que o orçamento de 2018 que havia sido aprovado pela Assembleia tinha um déficit de mais de R$ 3 bilhões e que isso representava duas folha de pagamento: novembro e dezembro.

Eu dizia na campanha: não sei qual é a mágica que o governo fará para pagar novembro e dezembro. Pelos números, não seria pago. Isso foi alvo de discussão. Caiado sabia disso, mas dizia que Goiás é maior do que qualquer crise e que isso seria solucionado rapidamente. Minha crítica foi de repente Caiado virar governador e dizer “não sabia que era assim, não fui eleito para ser gestor de massa falida”. Se Caiado foi eleito como candidato de oposição foi em razão da situação em que o Estado estava.

Se estivesse tudo as mil maravilhas, provavelmente o governador teria sido reeleito. Minha crítica era em relação a Caiado se apresentar agora como alguém que desconhecia a situação do Estado, que é grave, fruto de muita irresponsabilidade ao longo dos últimos anos e que pedida de medidas de austeridade, que eu também não tenho observado no governador. Faz uma reforma administrativa que, por mais que não queiram reconhecer, falam haver uma redução de R$ 96 mil, mas tenho certeza absoluta que não houve redução. O que houve foi um aumento de despesa.

Concordo com Caiado que não deveria haver cinco secretarias extraordinárias. Mas o governador trocou cinco extraordinária por cinco ordinárias com atividades-fins. Se há uma secretaria extraordinária, é claro que não deve existir, mas conta com o secretário, dois ou três assessores. No lugar é colocada outra estrutura com uma infinidade de funções, algumas até importantes, que eu também tinha assumido o compromisso, como a Secretaria do Agronegócio, que é a da Agricultura e a do Esporte. Mas se cria um organograma bem mais complexo e mais denso. Caiado não diminuiu despesa com isso.

Outro ponto que critico é a ocupação dos cargos. Governador dizia que faria o governo com quadros técnicos. Onde estão os quadros técnicos e qualificados? Os que vieram de fora, os estrangeiros, não têm currículo para chegar aqui e dizer que promoveram gestões que se tornaram cases de sucesso em outros Estados. Pelo contrário. Não foi na Educação em Rondônia, nem na Segurança Pública no Espírito Santo. Desconhecemos isso. Ou ao menos não conseguiram mostrar o cartão de visita deles.

Começou a nomear parente. É parente na Agetop [Agência Goiana de Transportes e Obras], parente na OVG [Organização das Voluntárias de Goiás], é parente em não sei mais onde, parente do parente, parente do senador que assumiu a Agehab [Agência Goiana de Habitação]. Não levou em momento algum critérios técnicos para a ocupação dos cargos. Dois primos na Agetop, um local que, segundo Caiado, era a marca da corrupção.

E de fato houve muitos escândalos e era preciso ter uma mudança radical do ponto de vista da gestão. Mas não é colocando dois primos na agência, que também me parecem que não têm expertise no setor público em áreas de infraestrutura. Minhas críticas são em relação a isso, até porque não poderia ir além sobre um governo que tem 34 dias.

Patrícia Moraes Machado – O governador Ronaldo Caiado trabalhou fortemente pela eleição do presidente Jair Bolsonaro (PSL). Tanto que se aposta que a resposta para a situação financeira do Estado virá do governo federal. Hoje temos a posição de que pode não vir. Que outra saída teríamos? É correto o governador esperar a ajuda da União?
O governador inclusive diz que escolheu a secretária da Fazenda em razão da proximidade de Cristiane Schmidt com o ministro da Economia, Paulo Guedes. O que fico pensando é que Caiado sempre criticou muito Marconi [Perillo – PSDB] e está agindo em várias áreas igual ao ex-governador. Vi, inclusive, um release no qual Caiado defende o Consórcio Brasil Central de governadores, ideia do Marconi, dizendo que é algo muito bom.

Esse modelo de escolher secretário da Fazenda de fora vinculado ao ministro da Economia Marconi tentou também em Goiás. Caiado foi no mesmo caminho e prática do ex-governador. Ao invés de olhar no espelho de manhã, Caiado está olhando uma foto do Marconi para ver o que o tucano faria na situação em que o governo está. Em relação à situação do Estado, fiz algumas críticas.

Primeiro em relação ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF). Quando fiz as críticas disse que isso é uma intervenção federal. Quem foi eleito para governar e dar as diretrizes da gestão fiscal do Estado foi o governador Caiado, não foi o governo federal. Quem tem essa responsabilidade é Caiado. Governador já estava abrindo mão da gestão fiscal para o governo federal determinar o que deveria ser feito.

Acredito que a ideia de Caiado era fazer as maldades que precisam ser feitas e colocar a culpa no governo federal para não ficar como malvado em Goiás. Uma das razões de buscar o Regime de Recuperação Fiscal era essa, além de se omitir de ser o gestor fiscal, quem toma a decisão. Depois disse que o Estado não se enquadrava no RRF. Caiado brigou com meio mundo, com a imprensa, todo mundo, e tomou um pito do Tesouro Nacional. Propagou que os técnicos do governo federal viriam aqui e tudo daria certo.

Daqui, os técnicos avisaram o governo federal que Goiás não se enquadra no RRF.

“Está claro que Goiás e outros Estados não conseguirão entrar na recuperação fiscal”

Daniel Vilela cineminha 2019 - Fotos Fernando Leite Jornal Opção

Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Augusto Diniz – Mesmo assim, o governador insiste que é preciso aguardar o relatório final da Secretaria do Tesouro Nacional.
Mas está claro que Goiás e outros Estados não conseguirão entrar na recuperação fiscal. Depois o ministro Paulo Guedes ou outra pessoa disse que buscaria uma flexibilização no RRF. O secretário do Tesouro Nacional [Mansueto Almeida] disse que isso não é possível, que o Estado precisa arcar com o resultado de seus atos no passado, não o governo federal. A atual circunstância que vive os Estados é em razão de o governo federal ficar sempre socorrendo e não impondo decisões que precisam ser tomadas pela gestão do Estado.

Paulo Hartung (MDB-ES), que foi governador do Espírito Santo, foi tido no mandato passado como o governador exemplo em gestão fiscal. Espírito Santo estava com nota A. Hartung deu uma declaração no O Globo que postei nas minhas redes sociais junto com as críticas que fiz ao Regime de Recuperação Fiscal: “A forma do fracasso é ficar esperando uma ajuda do governo federal”. A União tem os seus problemas e não resolve os dos Estados. “A forma do sucesso é o Estado tomar as decisões que precisa tomar. É o Estado ser proativo em relação àquilo que precisa ser feito.”

Governador que ficar esperando ajuda do governo federal vai passar os quatro anos e não vai conseguir andar na rua por conta da impopularidade. Eu tinha um pouco de conhecimento porque o Regime de Recuperação Fiscal foi aprovado no Congresso. Lembro de ter estudado um pouco sobre isso e do governador do Rio Grande do Sul, Ivo Sartori (MDB), que estava no plenário na tentativa de modificar algumas partes do texto e dizendo “com este text eu não vou aderir ao regime, que é prejudicial ao Estado e usurpa minhas prerrogativas de gestor escolhido pelos gaúchos”. Tanto que não aderiu.

Tem quase dois anos que o RRF foi aprovado pelo Congresso e só o Rio de Janeiro aprovou. O senador Vanderlan Cardoso (PP) teve um encontro com o governador Wilson Witzel (PSC), que disse que sairá do Regime de Recuperação Fiscal por ser prejudicial para o Estado do Rio. Nós alertamos o governador Caiado, que disse não ter plano B, que o único plano seria o regime. Caso não desse certo veria o que fazer. O dinamismo da gestão hoje exige que se tenha plano A, plano B, plano C. As pessoas não podem esperar.

Danin Junior – Qual seria o plano A do sr. para as dificuldades financeiras de Goiás?
A primeira medida seria pagar em janeiro a folha do mês de dezembro, em fevereiro o mês de janeiro e assim consequentemente…

Danin Junior – Mesmo com a situação do empenho que não foi feito?
Isso é bobagem. É uma desculpa esfarrapada. Empenho você faz em cinco minutos. Isso foi uma mentira absurda leviana de dizer que não poderia pagar por falta de empenho. Empenhar você faz em cinco minutos no computador. É um argumento frágil. Tanto é verdade que o governador já sofreu desgaste no primeiro mês em razão disso. Todo mundo percebeu que havia algo errado nesse discurso.

Eu faria desta forma porque, por uma questão de fluxo de caixa, seria mais fácil pagar a folha que estava aberta em atraso. Promoveria de fato uma redução do Estado com queda nas despesas. Muita autarquia que não tem funcionalidade e tem custo seria dada uma destinação final, reduzir comissionados. E ao longo dos próximos meses reduzir o prazo do pagamento no mês subsequente até chegar ao pagamento no mês trabalhado. Tenho certeza que em um ano seria possível regularizar a situação da folha.

Se o José Eliton (PSDB) pagou novembro por volta do dia 20 de dezembro, seria possível reduzir a cada mês de dois a quatro dias e até dezembro ou janeiro de 2020 voltar a pagar os servidores no mês trabalhado. Como que o Estado, que não tem receita para pagar a folha do mês, se propõe a pagar parcelado, vai pagar a folha mais 20% de outra folha? Não tem fluxo de caixa que pague isso.

Na minha opinião, a proposta de pagamento tem servido para postergar ainda mais o pagamento de dezembro e pressionar os servidores a aceitar uma forma que possa ser a mais confortável para o governo dentro da situação fiscal vivida. Sempre a solução mais simples é a mais eficiente.

Augusto Diniz – O governador baixou um decreto de duas folhas de calamidade financeira aprovado pela Assembleia no mês passado. Dá para saber o que vem a partir do decreto?
O decreto de calamidade serve para duas coisas, uma positiva e uma negativa. A positiva é como um grito de socorro para o governo federal. E foi feita de forma combinada com outros Estados. Não surtiu efeito. Está aí a declaração do Tesouro Nacional, que não se sensibilizou com isso, entende que não é por aí.

A negativa é que, de alguma forma, se externaliza que o Estado está quebrado e vive-se um sentimento negativo. Como é que hoje os fornecedores do Estado vão agir em um processo licitatório de aquisição? Vão botar um preço dez vezes maior. A empresa não sabe se vai receber, o Estado está em calamidade financeira. Isso vai ter um custo para o Estado.

Além de se inibir novos investimentos, atração de investidores, porque cria-se um ambiente ruim. Se não for vendido otimismo, não haverá como avançar na atração de novos investimentos. Esse é um ponto muito negativo para um governo que se inicia. As pessoas querem é que se venda um sentimento positivo, de que as coisas vão dar certo, que há solução, que o Estado vai resolver os problemas. O decreto vai na contramão de tudo isso e não tem efeito prático nenhum.

Danin Junior – No momento de dificuldade em que o Estado se encontra, se justifica a possibilidade de redução dos incentivos fiscais? Qual seria a postura do sr. em relação a esse assunto?
Incentivo não é o problema. Quando se fala em incentivo é para novos investimentos. Estamos falando de pagar pouco de algo que não se tem. Se amanhã uma empresa vier se instalar em Goiás, é melhor que ela pague até 5% de algo do que não receber o imposto que seria pago, 100% de nada.

É uma discussão equivocada. O incentivo é para atrairmos investimento. Em 20 anos será atraído pouco e vai pagar 5% de imposto a empresa? Tudo bem. Se a empresa não vier o Estado não recebe os mesmos 5% de tributo. Sem falar na geração de emprego e nos ganhos indiretos que um investimento gera. Não acredito que este seja o problema. É um risco reduzir o incentivo e dar margem para que as empresas busquem se instalar em outros Estados que ofereçam condições melhores.

Aprovamos a Lei da Convalidação Fiscal, que pôs fim a essa gerra fiscal, que deu segurança jurídica aos Estados que promoviam os incentivos, mas há Estados que aprovaram legislações mais favoráveis aos incentivos do que Goiás e se tornam mais atrativos.

Felipe Cardoso – A segunda etapa da reforma administrativa pode incluir a Goiás Turismo, que deve se tornar parte da Secretaria de Indústria e Comércio. Como o sr. vê essa medida? Seria benéfica ao Estado?
Governador Caiado aproveitou muito mal a fase de transição. Tinha comigo enquanto candidato que a transição seria um momento importantíssimo para que o governo desse certo. Infelizmente não aproveitaram. Foi feito um relatório muito superficial por uma ONG de fora. Até hoje há muitas autarquias que sequer têm indicados para dirigir esses órgãos. Teria aproveitado muito bem a fase de transição para identificar todos os órgãos do governo, ver o custo de cada um, a produtividade e tomar as decisões.

Pode haver um modelo em que a Goiás Turismo continue de forma enxuta, com custo baixo e rendendo de forma positiva para o Estado. E também pode ter a área de turismo sendo representada por uma superintendência dentro de uma secretaria de uma forma mais enxuta. Compete ao gestor buscar o melhor modelo e dar a competência necessária.

Patrícia Moraes Machado – Defender o discurso de que o governador Caiado está patinando com apenas um mês de gestão não é um equívoco? Qualquer um que assumisse o governo adotaria medidas tão severas como as que foram tomadas até o momento.
Caiado não está tomando medida. Nossa crítica é qual medida o governador tomou.

Patrícia Moraes Machado – Nos próximos quatro anos, Caiado vai ter de chamar para si os problemas e tomar as medidas que esperava-se uma ajuda do governo federal. Há o risco, como todo governo de ajuste rigoroso das finanças, de se fazer o dever de casa, como ocorreu com Michel Temer e o governador do Espírito Santo, mas de terminar a gestão em baixa popularidade.
Mas eu torço para que o governador faça isso. E os goianos querem que Caiado faça isso. Mas até o momento o governador não sinalizou isso.

Patrícia Moraes Machado – Um dos problemas que deverá ser enfrentado é o do servidor público. Mas culpar só o servidor público como o grande tumor do Estado não é algo aceitável. Há de se encontrar outras medidas para sanar o problema das finanças. Como resolver o problema?
Claro. Mas é isso que nós estamos cobrando. Caiado foi eleito como alguém que resolveria os problemas do Estado. Minha cobrança é justamente onde estão as soluções. Não adianta o sr. ficar reclamando e dizendo que foi tudo ruim, que é isso ou aquilo. E quais são as soluções? Também não era solução entregar para o governo federal as soluções daquilo que precisa ser feito em Goiás. A minha crítica é em relação a isso.

Patrícia Moraes Machado – O processo de recuperação pode incluir a venda das empresas estatais, como a Saneago e Metrobus?
A Metrobus claramente não tem razão de existir. Eu disse textualmente na campanha que iria acabar com a Metrobus. É um cabide de emprego. Cuidar do Eixo Anhanguera pode ser feito por um gabinete com duas a três pessoas. É preciso inclusive repensar esse modelo de compartilhamento das decisões do transporte coletivo na Região Metropolitana.

A Saneago é uma questão um pouco mais complexa. Temos a necessidade de ter os investimentos de saneamento no Estado. A Celg foi privatizada e ainda não vimos uma melhoria significativa no serviço. Vi alguns números de que a Enel tem feito o dobro de investimentos que a Celg fazia e que, como vivíamos em um sistema de distribuição extremamente precário, o grande problema é que estão recuperando o que estava acabado. Mas é questionável a questão da privatização da Celg.

Não se pode dizer que para a Saneago o melhor modelo seria a privatização. Desde o governo passado – o que parece ser a posição do novo presidente – há a defesa de um modelo de IPO [Initial Public Offering – Oferta Pública Inicial] da Saneago. Fiz um questionamento nas redes sociais para o membro de um partido que entende muito do assunto, o advogado Enio Salviano, sobre qual seria a lógica de alguém comprar uma ação ou 49% das ações de uma empresa aparentemente cheia de escândalo, com tremenda incapacidade de investimento, sendo que a gestão continuará a ser política.

Na gestão do José Eliton dizia-se que o IPO geraria R$ 1 bilhão. Como? Quem vai comprar estas ações? Se fosse vender o controle acionário tudo bem, teria-se o controle de decisão, o que daria à empresa um valor nas ações. Dizem que a Saneago tem custo elevadíssimo, o que faz com que a receita vá toda para cobrir o custo, inclusive a folha de pagamento.

Patrícia Moraes Machado – Um das soluções para Goiás e os outros governos seria diminuir a atuação do Estado?
Acredito que sim. Não estou defendendo o Estado mínimo. Algumas áreas precisam que o governo continue ser o principal condutor, indutor e executor de ações. Mas também não podemos viver em um Estado inchado como estamos hoje. Tem autarquia no governo de Goiás que nunca ouvimos falar. Goiás Parcerias, Goiás Gás…

Patrícia Moraes Machado – TCE [Tribunal de Contas do Estado] foi negligente com o Estado de Goiás nos últimos 20 anos?
Hoje este assunto é uma discussão nacional. O próprio Tesouro Nacional está chamando os Tribunais de Contas e dizendo “vocês falharam na fiscalização, não era para vocês terem deixado os Estados chegarem à situação que chegaram”. Os TCEs, por outro lado, também não fugiram do que a legislação determinava. Faziam os apontamentos. É preciso também fazer um questionamento à Assembleia, porque o Tribunal de Contas é um órgão de assessoramento da Assembleia.

No fundo, quem aprovou as contas foi a Assembleia, que tinha de ter observado o que havia colocado o Tribunal. Mas a Assembleia também sempre recebeu pareceres favoráveis, com apontamentos e questionamentos. Esse modelo de fiscalização está equivocado e isso está sendo questionado nacionalmente.

Augusto Diniz – A questão dos pareceres prévios favoráveis encaminhados pelo TCE à Assembleia com ressalvas, recomendações e determinações, mas pelo aprovamento das contas, não soam como decisões estranhas? Um exemplo são os balancetes do governo da gestão de 2017, no qual os conselheiros do TCE identificaram projeção ilusória de receita e mesmo assim encaminhavam ao Legislativo com o entendimento de que as contas deveriam ser aprovadas?
Simplificando os orçamentos passados, o que eu vi quando fui ao TCE e apontei? É uma bola de neve que estourou em 2018. O próprio governo não conseguiu elaborar em 2017 um orçamento para o ano passado compatível com receitas e despesas. Havia R$ 3,4 bilhões de déficit. Foi quando fui ao TCE.

O relator, que era um conselheiro de carreira do Tribunal de Contas, fez um apontamento à Secretaria da Fazenda no qual questionava o déficit no orçamento e perguntava como isso seria corrigido. As contas de 2018 ainda não foram aprovadas. Provavelmente não serão aprovadas. Mas nunca podemos ter certeza disso. Mas o governo passado cometeu outro erro, e que pode ter sido corrigido exageradamente no orçamento de 2019 pela Assembleia.

Mandaram um orçamento equilibrado em 2018 para este ano. Se em 2017 foi encaminhado um orçamento com déficit de R$ 3,4 bilhões para 2018, se não teve receita extraordinária, como que em 2019 as contas ficarão equilibradas sem qualquer razão para aumento de receita? Governador Caiado, com sua base aliada – segundo o governador, com a ajuda do Tesouro -, mandou alteração com um déficit de mais de R$ 6 bilhões.

Tiveram os apontamentos de tudo, que desaguaram em 2018, quando se chegou a um momento incontrolável do ponto de vista da maquiagem orçamentária.

Patrícia Moraes Machado – Depois de passar pela primeira eleição para governador, o sr. teve contato com prefeitos e lideranças do Estado. A maioria dos municípios está com extrema dificuldade financeira. O programa Goiás na Frente, feito por meio de convênio com as prefeituras, deixou as licitações a cargo dos Executivos municipais. Como o sr. pretende atuar para ajudar as prefeituras?
O Goiás na Frente não gerou dívida para os municípios porque finalmente enxergaram que aquele programa era mais uma forma de tentar ludibria-los e segura-los politicamente para a eleição de 2018. O Estado não tinha recurso. O governo prometia que determinado município teria R$ 1 milhão de asfalto, mas a licitação ficava a cargo da prefeitura.

A grande maioria licitou, mas falou para o governo que só assinaria a ordem de serviço quando o dinheiro entrasse no cofre da prefeitura. Se entrasse uma parcela de R$ 100 mil, o prefeito dava ordem de serviço de R$ 100 mil, a empresa executava o serviço dos R$ 100 mil e parava. O que aconteceu foi que as empresas se negaram a levar o maquinário, por exemplo, de Goiânia para Minaçu fazer R$ 100 mil de asfalto. As empresas começaram a abandonar as licitações.

As empresas alegavam que, para justificar o custo de deslocamento e contratação de pessoal, era preciso ao menos chegar à cidade para fazer metade do serviço licitado. Os municípios ficaram mais precavidos. Hoje há municípios muito bem administrados, com boa condição fiscal, que conseguem se sobressair fazendo alguma coisa. A grande maioria vive dificuldade tremenda.

Muitos dos prefeitos usaram a estratégia do ex-governador Hartung e do governador Caiado, de achar que o governo do Estado vai resolver. O governo está com dificuldade fiscal, não vai resolver a vida dos municípios. Da mesma forma que o governo federal não vai resolver a vida dos Estados. Vivem um dilema e vão ter de se virar com o que têm.

Patrícia Moraes Machado – Um dos grandes prejuízos à imagem do Maguito Vilela como governador foi a venda da usina de Cachoeira Dourada. Isso inclusive foi usado no discurso eleitoral de Marconi contra Maguito quando o tucano enfrentou o MDB em 1998. Com a venda da Celg, a informação era de que o dinheiro iria para investimentos nas prefeituras por meio do Goiás na Frente. Hoje sabe-se que só 8% dos 800 milhões foram para o programa. Como o sr. vê a crítica que foi feita ao Maguito e que hoje se repete ao Marconi?
Não foi uma repetição porque na época ninguém prometeu dinheiro da venda de Cachoeira Dourada para transferir a municípios. Foram feitas inúmeras obras. Há inclusive um inventário de todas as obras que foram feitas. Tanto que se tivesse havido algum problema de desvio de recurso ou de finalidade, Maguito, Naphtali [Alves], que foi governador depois de Maguito, e Helenês Cândido teriam respondido criminalmente por isso.

Pode-se até questionar o modelo de privatização, o uso do dinheiro para isso, mas não  desvio dos recursos porque se tornaram obras por todo o Estado. Há a diferença, o que gera outro debate. Uma era usina geradora, que são milhares, e outra era distribuidora. Só a Celg vendia energia, não havia concorrente. O cidadão não tinha opção de comprar de outra distribuidora, só a Celg. A sociedade tinha uma dependência maior da empresa do que de qualquer usina.

A distribuidora pode comprar de qualquer usina. Se Cachoeira Dourada está me vendendo por um preço maior, vou comprar de outra. Isso não vai fazer com que você afete o serviço. Se paga-se x aqui  e x + y de outra, será transferido para o cidadão o x + y. A distribuidora não vai ter prejuízo. O problema da Celg é que o Estado estava devendo aproximadamente três Celgs.

Entraram menos de R$ 800 milhões, porque a Celg foi federalizada antes da privatização, a outra parte foi para o governo federal. Só na Agetop havia R$ 1,8 bilhão de restos a pagar quando da venda da Celg, de obras que tinham sido executadas, ao menos formalmente, e que não foram pagas.

Muito prefeito, inclusive do meu partido, dizia que não se manifestaria porque estava esperando o dinheiro do Goiás na Frente, que viria da Celg. Eu dizia “prefeito, não existe esse dinheiro da Celg”. O Estado não estava pagando a folha em dia porque não tinha dinheiro. E explicava: “O dinheiro será diluído, isso não virá para vocês”. Isso estava claro.

Os 10% que iriam sobrar, o governador faria obras para tentar ele capitalizar politicamente, não os prefeitos, porque a eleição seria estadual.

Patrícia Moraes Machado – Já se sabe para onde foi esse dinheiro?
Na minha conta, a grande maioria foi de pagamento de restos a pagar da Agetop. Se não me engano, mais de R$ 500 milhões foram carimbados direto para a Agetop. Havia rodovias sendo duplicadas e tentaram concluir algumas GOs com esse dinheiro.

Augusto Diniz – O discurso da fragilidade das ações do governo Caiado no primeiro mês, com erros e decisões equivocadas, não é unanimidade no MDB. Tanto é que o deputado estadual Bruno Peixoto aceitou sem dificuldade ser o líder do Executivo na Assembleia. A derrota eleitoral em 2018 deixou o partido muito fragmentado?
Neste caso não é convicção, é conveniência. Tem gente que vai dizer que o governo está mil maravilhas. Quando vamos ver a pessoa está no melhor cargo de uma secretaria e vai elogiar mesmo. Para ele talvez seja o melhor governo do mundo mesmo. Estava desempregado, de fora do governo. É bom separar a convicção da conveniência. De fato acredito que haja um sentimento majoritário hoje, não na classe política, mas no Estado, de que não era esse o governo esperado. Até mesmo de eleitores do Caiado.

Há tempo para se recuperar. Eu não sou alguém que fica torcendo contra, desejando o insucesso do governo porque moro em Goiás, amo esse Estado e quero ver as coisas acontecerem. Sei das dificuldades que o Estado passa hoje fruto de um passado irresponsável. Mas tenho convicção de que não começou da forma mais adequada. Tem tempo para consertar, tem tempo para dar certo.

Augusto Diniz – Pela posição adotada de adversário do Caiado nas eleições, é natural que o sr. assuma um papel de crítico do governo. O fato de o sr. ser o presidente estadual do MDB, fazer críticas contundentes ao governo de seu adversário nas urnas e ter um membro do partido líder do Caiado na Assembleia não fragilizam o seu discurso?
Ninguém pode ser hipócrita de dizer que partido impõe condição e posicionamento aos seus filiados. Se isso já existiu, não existe mais. Eu não tenho condição de dizer “deputado”. Ainda mais eu, que não tenho mandato, não obtive sucesso na eleição. “Deputado, o sr. tem de seguir a linha determinada pelo partido.” Os deputados, assim como os prefeitos, têm as suas necessidades políticas também. São cobrados em relação às demandas.

É natural. Acredito que o presidente do partido tem de entender que os mandatários precisam desempenhar seus trabalhos. O que já estou vendo, pode até ser que mude, é que tem deputados, até mesmo de outros partidos, me procurando para estarmos juntos e que podem migrar para o MDB a depender das circunstâncias. Há quem se preocupe se a relação com o governo dará certo. “A situação como os deputados está ruim.”

É muito mais fácil para mim deixar que eles percebam que a relação com o governo será prejudicial para esses parlamentares do que eu querer impor algo que não tenho força para isso. O que demonstra o partido? Um processo eleitoral interno como tivemos agora. Por que não disputaram? Porque não têm a maioria do partido defendendo a tese deles. A maioria do partido quer ter uma posição de independência ou oposição.

Tentaram judicializar, adotaram outras manobras, mas não disputaram. Alegaram que não deu prazo. Sabe o que é registrar uma chapa? É você entregar um papel com dez assinaturas de filiados. Você tem até 24 horas ou 48 horas para modificar a chapa ou fundir mais chapas. Bastava só isso. Se quisessem disputar entregavam uma folha com dez filiados.

O que define o posicionamento do partido é o processo interno. Tentaram colher assinaturas de 50% mais 1 para fazer uma renúncia coletiva, apesar de não existir no estatuto, mas foi a tese que tentaram defender e não conseguiram. Não chegaram nem perto em assinaturas de conseguir isso. Não são maioria dentro do partido. Vão pagar, quem quer que seja, eu, o deputado Bruno [Peixoto], pelas suas escolhas.

“Quem tem de saber se é razoável ou não é o estatuto do partido”

Daniel Vilela - Foto Fernando Leite Jornal Opção 19 editada

Presidente estadual do MDB, ex-deputado federal Daniel Vilela concede entrevista aos jornalistas Rafael Oliveira, Danin Junior, Augusto Diniz, Felipe Cardoso e Patrícia Moraes Machado: “Houve a decisão do Tribunal de Justiça atestando a legalidade do processo, inclusive a simplicidade de se participar da eleição” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Augusto Diniz – O grupo, minoritário ou não no partido, de prefeitos que apoiaram a candidatura do Caiado, inclusive Ernesto Roller, que deixou a Prefeitura de Formosa e se tornou secretário de Governo, alegaram que o sr. manobrou ao antecipar a votação do diretório estadual do MDB. Como fica o MDB goiano depois de toda essa situação?
Era a desculpa do grupo que não tinha votos para vencer a eleição. A eleição de janeiro foi decidida em outubro de 2018 e comunicada pela executiva. Obedeceu todos os prazos. Tanto que, na liminar que conseguiram, o juiz disse que cumpriu todos os prazos, mas entendia que não seria razoável. Quem tem de saber se é razoável ou não é o estatuto do partido, é a convenção do partido que aprovou o estatuto. Não é o magistrado que tem de achar razoável.

Foi nesse aspecto que houve a decisão do Tribunal de Justiça atestando a legalidade do processo, inclusive a simplicidade de se participar da eleição. É por isso que digo que há muita conveniência. Adib [Elias, prefeito de Catalão] cantou para todos os cantos que iria mandar no governo. Tem áudio do prefeito em Catalão dizendo que a cidade teria duas secretarias. Não conseguiu indicar ninguém. Adib queria pegar o partido para depois ir ao governador com a faca no pescoço do Caiado e dizer “você me atende agora ou não terá o apoio do MDB”.

Ernesto saiu corrido de Formosa, essa é a verdade, não podia andar na rua de tão mal que estava com a população. Abandonou a cidade. De alguma forma, foi covarde com a população e por isso veio para cá. Ernesto não está na conta do MDB. É parente do Caiado, já esteve em tudo quanto é partido que foi adversário do MDB: PSDB, PP. O partido com o qual tem menos relação é o MDB. Fica essa briga de muitos querendo ter o controle do partido para, obviamente, se fortalecer.

Felipe Cardoso – Sobre o racha no MDB, o prefeito Adib Elias pouco tem falado sobre o assunto depois das eleições no partido. O deputado Bruno Peixoto não toca no assunto porque diz estar preocupado em cuidar da liderança do governo na Assembleia. Ernesto Roller afirma que por estar a cargo do governo não quer interferir nas questões partidárias. A oposição emedebista está com medo de colocar a cara para bater depois da sua consolidação como presidente reeleito do diretório estadual?
Está muito recente. A eleição foi realizada há apenas 15 dias. É normal que o clima de disputa esfrie. O enfrentamento que tinha de ocorrer já aconteceu até o processo da eleição. Passou. Temos um resultado. Se fosse o inverso eu também não estaria reclamando e reivindicando nada. É natural essa situação.

Augusto Diniz – Como está a situação da análise de expulsão dos emedebistas que apoiaram Caiado nas eleições de 2018?
É um processo autônomo ao diretório. Os membros do conselho de ética inclusive não podem fazer parte do diretório. Foi eleito um novo conselho de ética, devem se reunir nos próximos dias, escolher presidente e os cargos dos integrantes, e vão verificar os processos remanescentes da comissão anterior para dar seguimento. De um jeito ou de outro, isso tem de ser resolvido.

Eu não vou aqui antecipar porque não posso falar pelos membros do conselho de ética. O que posso adiantar é que as pessoas que estiveram ao nosso lado e foram eleitas nessa chapa têm um sentimento de que foram confrontadas, atacadas. Adib e Ernesto saíram falando mal de prefeitos do MDB. Todos eles estão, de alguma forma, com o pensamento de que aqueles que não estiverem contentes com a decisão do partido que não fiquem no MDB, mas não vão ficar também no partido falando e promovendo críticas de forma desequilibrada.

Rafael Oliveira – O processo de expulsão dos emedebistas que apoiaram Caiado tem se arrastado desde o período pré-eleitoral. Se houver demora na tomada de decisão pelo conselho de ética do MDB, o diretório pode interferir no processo?
Não pode. O que cobramos do novo conselho de ética é que se reúna e tome decisão em relação a isso. Nós colocamos como uma necessidade para se resolver isso de forma definitiva. Há argumentos objetivos para a expulsão, mas não posso negar também que tem componente político na decisão, não é eminentemente jurídico.

A convenção estadual que me escolheu como candidato a governador em 2018 textualmente colocou que os integrantes do partido filiados que não seguissem o resultado da convenção estadual estariam passíveis da punição de expulsão. Então há um fato objetivo analisado que robustece qualquer tese de expulsão de qualquer filiado do partido.

É uma decisão do conselho de ética e isso vai ser resolvido. Se arrastou um pouco porque tudo tem prazos que precisam ser obedecidos, como direito de ampla defesa, de publicidade dos atos. Tudo foi obedecido até para que se tenha toda a segurança jurídica das decisões.

Patrícia Moraes Machado – O sr. saiu mais forte do que entrou na eleição, mas seu partido perdeu representatividade em cargos eletivos. Perdeu deputados estaduais e federais. Há alguma estratégia para fortalecer o partido?
Se você pegar os números de forma fria da eleição pode-se ter uma impressão de que o partido diminuiu. Mas falo isso com muita convicção e não teria nenhum receio se achasse que de fato o partido reduziu. O que acontece é que nos últimos anos e eleições, as pessoas perceberam que ser candidatos por partidos menores era muito mais fácil do que em um partido grande, até por uma questão de número de votos.

Era muito difícil de conquistarmos candidatos proporcionais. A prova disso é que o MDB reduziu a bancada na Assembleia de cinco para três. E quantos o partido do governador elegeu? Quatro. Um partido grande no nível nacional o Democratas. O MDB perdeu e elegeu três. Isso é a fragmentação partidária que ocorreu no Brasil inteiro. A Câmara dos Deputados está deste jeito também. O painel já não cabe mais o número de partidos representados por deputados.

O que vai acontecer é que, com a cláusula de barreira de 2018, dez ou 12 partidos vão fundir para atingir o número mínimo ou estarão fora. Em 2020 não há mas coligação proporcional, o que será mais impactante do que a cláusula de barreira. Dizem que uns 15 partidos ficam pelo caminho. A projeção é que nas eleições estaduais de 2022 tenhamos 12 a 13 partidos. Os partidos grandes vão voltar a se fortalecer. Isso por si só já vai fazer com que o partido cresça.

Além disso, vamos nos próximos quatro anos fazer um trabalho inicialmente das candidaturas de prefeitos. E, lógico, preparando também – em um cenário sem coligações proporcionais – para a eleição de deputados federais, quem quiser disputar terá de ir para um partido grande para ter chance de ser eleito.

Danin Junior – Para as eleições municipais de 2020, existe algum trabalho estratégico? Como será aproveitado o período de oposição para fortalecer um discurso diferente nas cidades?
Tem um trabalho estratégico que não posso revelar tudo. Mas já tenho recebido muitas ligações de bons quadros que não eram do MDB, da base do governo passado, mas que estão em uma situação de não continuar com aquele grupo e buscam o MDB para disputar reeleição ou eleição.

Danin Junior – O sr. vai disputar eleição em 2020?
Já estou revelando a estratégia do partido. Vamos fortalecer primeiro os bons e leais prefeitos, vereadores e vice-prefeitos que estão bem e disputarão a reeleição. Recebemos bons quadros nas eleições de 2018. Em Anápolis temos o Marcinho Correia, onde tivemos um desempenho três vezes maior do que em 2014. Anápolis era um problema para nós. Tivemos quase 20% dos votos. Iris teve 5% dos votos em 2014 em Anápolis. Fruto do trabalho do Márcio Correia.

Dr. Lucas [Antonietti] em Águas Lindas de Goiás é pré-candidato a prefeito e líder de qualquer pesquisa. Da minha idade, um médico, tem uma clínica popular, idealista, uma pessoa diferenciadíssima. Há pessoas como eles em outros municípios. Em Nerópolis temos o Osvandir Júnior. Temos Thiago Borges em Edeia. São vários nomes surgiram e que podem ser candidatos a prefeito.

Vamos buscar quadros em outras cidades em que estamos desguarnecidos, que queiram vir para o MDB e que sabem da força do partido. E que sabem que o MDB será o antagonista ao governo no ano que vem. Não sabemos se o governo estará mal ou bem avaliado, se vai ser um bom cabo eleitoral ou não. Para esta eleição municipal, o MDB será um grande ativo e bastante atrativo para os candidatos.

Augusto Diniz – Dos três maiores colégios eleitorais do Estado, o MDB tem prefeito em dois: Goiânia e Aparecida de Goiânia. Qual trabalho será feito para tentar manter as duas prefeituras nas mãos do partido nas eleições de 2020? A tendência é fortalecer a busca de reeleição de Iris Rezende e Gustavo Mendanha ou pode haver alguma mudança?
O natural é isso. Os prefeitos estão no exercício do mandato, estão trabalhando para realizar seus compromissos. No caso do Iris, viveu dois anos de muita dificuldade fiscal e recuperou.

Augusto Diniz – O sr. acredita que Iris vai recuperar a boa gestão na capital?
Iris recuperou fiscalmente a prefeitura. Era o primeiro passo que tinha de fazer. Agora terá uma agenda bastante positiva em Goiânia que fará com que o prefeito se fortaleça. Precisamos do Iris, é do partido, o prefeito. Ele sendo candidato a reeleição terá todo respaldo.

Da mesma forma que o Gustavo. Aparecida não é uma ilha. Apesar de ter recebido a cidade em boas condições, viveu algumas dificuldades de obras federais que demoraram a ser retomadas, como o Hospital Municipal, que agora está em funcionamento. Gustavo vai agora iniciar uma agenda bastante positiva. Acreditamos nisso.

Patrícia Moraes Machado – Dizem que na política só serve quem tem mandato. Quando o sr. perdeu a eleição para governador, ficou a impressão de que o sr. perderia o comando do partido, quadro que foi revertido. Como o sr. pretende manter a liderança e imagem para não perder força?
Primeiro pedindo para o Jornal Opção abrir espaço para mim sem mandato. A política mudou muito. Não é preciso ter um mandato eletivo para desempenhar um papel político de posicionamento, cobrança e oposição construtiva e inteligente. As redes sociais hoje ajudam a viabilizar isso. Nos dois primeiros anos sem mandato ainda terei muita emenda e recurso que vão se viabilizar em obras e entregas de equipamentos. Com certeza, vou aproveitar tudo para criar uma agenda positiva de presença no Estado com os frutos do nosso trabalho. Não fico muito preocupado com o futuro.

Patrícia Moraes Machado – Mas o futuro se faz no presente.
Vou fazer o presente e as coisas vão acontecer naturalmente.

Augusto Diniz – Não está preocupado com o futuro, mas e a eleição de 2022?
2022 está muito longe. Até 2020 acredito que está muito precoce para se discutir, imagine 2022.

Patrícia Moraes Machado – O sucesso eleitoral de Caiado vem do contexto nacional e por ter mantido a crítica ao governo.
Caiado é oposição há 30 anos.

Patrícia Moraes Machado – O sr. pretende percorrer o Estado, estar mais no interior ou vai administrar o MDB da capital?
Sempre tive a característica de ser e estar o mais presente possível no interior do Estado. E vou continuar a fazer este trabalho. Até porque como presidente, para construir as candidaturas, preciso ir aos municípios dialogar, conversar. E vou fazer isso com toda certeza.

Uma resposta para ““Se Caiado foi eleito como candidato de oposição foi em razão da situação em que o Estado estava””

  1. CAUBI disse:

    Tem razao. Oposição crítica ajuda em um governo mais sibtonuzado. Mas precisa mudar o discurso que usou como candidato. Me enoja discurso de promessa paternalista. Isso já se esgotou. Foi do tempo do pai dele, a vinte anos atrás.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.