“Precisamos trazer a população de volta para dentro da Câmara Municipal”

Presidente eleito do Legislativo da capital, o vereador Romário Policarpo (Pros) defende como prioridade de sua gestão a reaproximação da Casa com o povo

Presidente eleito da Câmara de Goiânia, vereador Romário Policarpo (Pros) | Foto: Alexandre Tavares

Recém-eleito presidente da Câmara de Goiânia, o vereador Romário Policarpo (Pros) afirma que seu partido se fortaleceu bastante com sua eleição para comandar a mesa diretora da Casa, ter o presidente estadual Lincoln Tejota como vice-governador eleito, além das votações de deputados escolhidos pela população para exercer novos mandatos a partir de 2019. Policarpo, que é guarda civil metropolitano, diz que o maior desafio no próximo biênio no Legislativo goianiense será fazer a instituição Câmara se aproximar da população.

Sobre os problemas com o presidente estadual do Pros, o presidente eleito da Câmara defende que o assunto está resolvido. A meta do partido é lançar candidato a prefeito de Goiânia. Se será Policarpo o nome a disputar a Prefeitura de Goiânia? “Obviamente meu nome vai estar sempre à disposição do partido. Se essa for a decisão do partido sim. Mas nós queremos ser protagonistas em 2020.”

Marcelo Mariano – O sr. disputou a eleição da presidência da Câmara como candidato do grupo dos 24, que tinha também os vereadores Welington Peixoto (MDB) e Rogério Cruz (PRB). O que foi determinante para que o grupo escolhesse o sr. e não um dos outros dois vereadores como candidato?
Não houve um fator que fosse preponderante para que eu ser o escolhido do grupo. Houve o espírito político dos vereadores Welington e Rogério, que são meus amigos, que sentiram que naquele momento talvez meu nome fosse o melhor pelo fato de eu não ter ligações com nenhum grupo político, não ser de qualquer segmento. Isso trazia uma independência para o grupo por eu não ter ligações políticas, o que facilitava mais essa identidade criada para o grupo. Apesar de acreditar que não haja muita coisa que possa ter interferido, a não ligação com um grupo político pode ter sido um dos fatores que fizeram com que os outros dois abrissem mão para que eu pudesse ser o presidente do grupo.

Marcelo Mariano – Que balanço o sr. faz dos dois anos de presidência do vereador Andrey Azeredo (MDB) e o que o sr. pretende fazer de diferente como presidente da Câmara?
É complicado falar da gestão dos outros. Posso falar como cidadão. A Câmara Municipal de Goiânia é afastada do povo. Não os vereadores, mas a entidade Poder Legislativo se afastou da população. O Poder Legislativo municipal é a esfera política mais próxima da sociedade. As demandas diretas das pessoas nos bairros chegam primeiro aos vereadores. Esse distanciamento não é bom. O que podemos fazer diferente é essa aproximação com a população criando um canal direto do povo com a Câmara Municipal. É o grande norte que teremos na gestão.

Precisamos trazer a população de volta para dentro da Câmara para que ela saiba que o Legislativo é e possa ser o fiscal do povo. Esse é um dos papeis constitucionais da Câmara. Ao meu ver, esse é o principal papel da Câmara. Até mais do que fazer leis o tempo inteiro, o grande papel é de fiscalização junto à população. É algo que a Câmara Municipal tem de fazer, que vamos defender na nossa gestão e faremos com certeza essa aproximação do povo com a Casa.

Augusto Diniz – O sr. falou sobre a necessidade de se aproximar o Legislativo da população, mas o que ainda precisa ser feito para que haja uma aproximação entre a Câmara de Goiânia e a prefeitura, onde essa comunicação tem falhado e o que precisa ser melhorado?
Em alguns momentos houve arestas que ficaram expostas. É complicado falar até por não ser atribuição do presidente. Existe um líder na Casa que tem a obrigação de fazer esta aproximação do Poder Legislativo com o Executivo. Isso não é bom para ninguém. O Poder Legislativo tem de trabalhar ao lado do Poder Executivo naquilo que for bom para a sociedade, lógico que cada um desempenhando o seu papel. Acredito que no biênio que vai se iniciar, pelo menos da parte da mesa diretora, a ideia é que possamos discutir junto com a Prefeitura de Goiânia os pontos, não apenas concordar com tudo que for apresentado, mas discutir de forma clara e aberta as necessidades da população.

Neste instante a Casa falha e a prefeitura também falha nas discussões que chegam a ser até desnecessárias, mas que aconteceram no decorrer do tempo, muito por falta de diálogo, de posicionamento. Tivemos casos em que secretários acusaram vereadores de estarem complicando a gestão da prefeitura. O que não é verdade. Os vereadores fazem apenas o seu papel de fiscalização. Esse diálogo tem de acontecer mais. Não é bom para ninguém como está. Mas de fato, o maior responsável para que haja a aproximação entre Paço Municipal e Câmara não é o presidente da Casa, mas sim o líder do governo.

Augusto Diniz – Qual avaliação o sr. faz do trabalho desenvolvido pelo vereador Tiãozinho Porto (Pros) como líder do governo na aproximação entre Câmara e prefeitura?
Complicado. Hoje não é possível vislumbrar uma base na Câmara. Nesta mesa em que estamos aqui ninguém consegue citar, com dois anos de gestão, quais são os vereadores do prefeito. Não sei quais motivos levaram a chegar a esse ponto. O vereador Tiãozinho Porto tem feito o trabalho da forma como entende ser o melhor possível. Mas em algum ponto as coisas não estão encaixando, porque a prefeitura continua a ter problemas, declarações de secretários fora de contexto, continuamos a ver diversas matérias do prefeito sendo vetadas.

Talvez o diálogo de aproximação entre prefeitura e Casa não venha sendo feito da forma como os vereadores esperam. Espero que nos próximos dois anos isso possa ser corrigido. O líder do prefeito tem hoje uma grande missão: fazer com que a Prefeitura de Goiânia cumpra as emendas impositivas. Das emendas impositivas dos vereadores, nenhuma foi cumprida. Um dos papeis da mesa diretora será o de cobrar e o líder do prefeito terá de fazer esse meio de campo.

Marcelo Mariano – Apesar de não ser papel do presidente da Câmara fazer o diálogo entre prefeitura e a Casa, o sr. já conversou com o prefeito Iris Rezende (MDB) depois que foi eleito?
Conversei um vez. Sempre fui um aliado do prefeito Iris Rezende, respeito o trabalho que ele tem feito, é um homem trabalhador, com 60 anos de vida pública. Acredito que eu não conheça alguém no Brasil que tenha essa história de vida pública que Iris tem. Quero o diálogo com o prefeito, quero discutir Goiânia com ele. Não conversamos nada pontual sobre qualquer assunto, foi uma conversa sobre uma proximidade que pode acontecer nos próximos dois anos, logicamente respeitando as diretrizes que o Legislativo tem e que o Executivo também tem.

Marcelo Mariano – O sr. acredita que o prefeito será candidato a reeleição?
Não sei.

Marcelo Mariano – Iris teria condições de disputar a reeleição? Não fisicamente, mas politicamente?
A avaliação política não pode ser feita por mim porque eu não sou do MDB, sou do Pros. Posso fazer as avaliações políticas do meu partido. Meu partido pretende sim lançar um candidato a prefeito em 2020 pelo crescimento que o partido apontou. Temos o vice-governador eleito, o presidente eleito da Câmara, três deputados estaduais, três vereadores. Queremos trazer mais dois vereadores nesta janela. O Pros tem condições de lançar um candidato a prefeito. Se o prefeito Iris pensa em reeleição acredito que seja um assunto interno do MDB e do prefeito.

Rafael Oliveira – O sr. acredita que pode acumular os cargos de presidente da Câmara e líder do governo?
Quero ajudar o vereador Tiãozinho Porto no que for necessário. Não quero ser líder de governo. Até porque não condiz com o cargo que ocuparei de presidente da Casa. Presidente da Casa tem de cuidar dos vereadores independente de serem base ou oposição. Todos vereadores tem de ter o mesmo cuidado e o mesmo tratamento em relação até à respeitabilidade que o Paço tem de ter com esses vereadores. O Paço Municipal não tem de respeitar só vereadores da base, tem de respeitar também vereadores da oposição e independentes.

Quero ajudar o vereador Tiãozinho Porto no que ele achar que for necessário para que possa fazer um bom serviço. Não queremos que a Prefeitura de Goiânia derrape. Queremos que a Prefeitura de Goiânia caminhe bem para que a cidade caminhe bem. E obviamente os vereadores caminhem bem. Só existe oposição porque tem algo de errado. Não veremos oposição se estiver tudo certo. O diálogo que defendo é o de que possamos chegar a um denominador comum ajudando o vereador Tiãozinho Porto naquilo que ele achar necessário.

Rafael Oliveira – O sr. disse que a sua eleição não contou com a atuação de grupos políticos, mas como, por exemplo, o Pros, o vice-governador Lincoln Tejota, o governador eleito Ronaldo Caiado (DEM), o prefeito, MDB, Maguito e Daniel Vilela atuaram?
Não houve interferência externa de ninguém. É preciso enfatizar a postura do prefeito Iris Rezende que de fato não interferiu em momento algum na eleição da mesa diretora. Por diversas vezes Iris disse, e cumpriu, que essa era uma decisão exclusiva da Casa e dos vereadores. Assim o fez. O senador e governador eleito Ronaldo Caiado deu declarações de que também não interferiria na eleição. Em um momento final, o senador Wilder Morais (DEM) nos procurou, não para interferir na eleição, mas para saber como estava o processo, preocupado com a questão do próximo governo para que, independente de quem fosse eleito, pudesse haver um diálogo aberto com o governo eleito. Foi uma eleição definida somente pela opinião dos vereadores.

Augusto Diniz – Como presidente do Sindigoiânia, o sr. acompanhou as dificuldades que o então prefeito Paulo Garcia enfrentou com o assunto reajuste do IPTU. E as discussões sobre a atualização da Planta de Valores continua a ser uma grande dificuldade para a gestão Iris Rezende. Em que ponto a prefeitura tem errado na negociação com a Câmara para aprovar reajustes que os vereadores tem agido para barrar?
Esse assunto para mim é um erro. O assunto IPTU é equivocado. A Prefeitura de Goiânia não tem de discutir IPTU. Temos um IPTU caríssimo, que é um imposto que não tem mais de ser discutido porque para mim já está no limite do que tem de ser cobrado. Não é há muitos anos a principal receita da prefeitura. IPTU deixou de ser a principal fonte de receita da prefeitura há mais de 20 anos. Antigamente poderia ser. Hoje não é. Existem outras formas de a Prefeitura de Goiânia capitalizar recursos infinitamente maiores do que IPTU e que não sangram a população mais carente.

IPTU é hoje o imposto que quando passa por alguma alteração impacta diretamente nas pessoas mais humildes. Esse não é o imposto que deveria ser discutido. A prefeitura erra pelo simples fato de querer discutir IPTU. Discussões como as de ISS e outros assuntos que poderiam ser muito mais bem trabalhados pela Prefeitura de Goiânia, que poderia arrecadar muito mais sem penalizar aquele que menos ganha. Temos como exemplo a Lei de 2017 que regulamentava a cobrança do ISS dos bancos, agências bancárias e transações financeiras feitas em Goiânia.

Até hoje a Prefeitura de Goiânia não conseguiu regulamentar a cobrança do ISS dos bancos. O ISS das movimentações financeiras feitas em Goiânia vai para São Paulo e outros Estados. E insistem em mexer no IPTU. O que a prefeitura arrecada com ISS em um mês é praticamente o que se arrecada em um ano com IPTU.

Marcelo Mariano – Como o sr. avalia a notificação que a prefeitura enviou aos proprietários de imóveis para que seja feita a atualização do IPTU pela internet?
Mais uma atitude equivocada. A prefeitura não pode colocar a população contra a parede. Pessoas me ligaram com medo de ser presas perguntando “não sei nem mexer na internet, se eu não conseguir acessar o site vou ser preso?”. Não é com terrorismo que resolvemos as coisas. A prefeitura tem outros meios para isso. Se não existe a atualização cadastral, é preciso ficar muito claro que quem errou primeiro foi a prefeitura. Quando a pessoa fez a obra a prefeitura não teve fiscal suficiente para chegar até a obra, fiscalizar e de fato acompanhar.

A prefeitura errou ao deixar de fazer a atualização do cadastro dos imóveis. Espero que a Prefeitura de Goiânia volte atrás nesse cadastro. O cadastro é uma espécie de armadilha. A partir do momento que a pessoa faz o cadastro ela deixa de ter direito aos deflatores que foram criados pela Câmara na época, o IPTU vai aumentar em quase 300% caso seja feita a atualização cadastral. A Câmara tem de fazer o papel de fiscalizar casos como esse. Caso a prefeitura não notificar da forma correta, que a Câmara municipal faça esse papel.

Augusto Diniz – O sr. disse que a prefeitura está equivocada no reajuste do IPTU, mas o Paço chegou a criticar os vereadores por não terem aprovado o Código Tributário, enviado no dia 11 de setembro. Como ficou essa situação?
Fico triste quando vejo estas declarações. O secretário de Finanças [Alessandro Melo] foi um pouco infeliz na declaração. É uma pessoa muito prudente e responsável. Não se pode votar um Código Tributário que chega no dia 11 de setembro em um mês ou 20 dias.

Augusto Diniz – Para entrar em vigor deveria de ter sido aprovado até o início de outubro.
Exatamente. Para que se obedecesse o princípio da noventena. Não se pode pegar um Código Tributário, que há mais de 40 anos não é mudado, e querer que seja votado no afogadilho. Isso não vai ser feito. A Câmara Municipal agiu corretamente. A mesa diretora agiu há época corretamente. E esse será o mesmo princípio que iremos utilizar. Matérias que vão regular a vida da comunidade goianiense nos próximos 20 a 30 anos não podem ser votadas em um mês, sem a devida discussão, sem mostrar para a sociedade o que de fato está acontecendo, sem exaurir todas as dúvidas daquele projeto que está sendo votado. O secretário não pode atribuir essa culpa à Câmara. A prefeitura teve dois anos para mandar o Código Tributário para análise. Por que deixou para mandar faltando 20 dias para encerar o prazo de aprovação? A culpa não foi nossa.

Augusto Diniz – Como o sr. avalia a aprovação do projeto dos vereadores Elias Vaz (PSB), Lucas Kitão (PSL) e Alysson Lima (PRB) que muda o texto da Lei que altera a Planta de Valores e evita o reajuste integral do IPTU?
Acredito que seja correto. Estamos acelerando a tramitação do projeto. Apesar de ter sido assinado pelos três vereadores, a proposta tomou um corpo e se transformou em um projeto da Câmara de Goiânia. Esse é o papel da Câmara: fazer o contrapeso do Executivo municipal. É a voz população. Ninguém hoje na população deseja que esse aumento seja feito dessa forma. Foi um projeto acertado. Esse sim discutido com a população, com os vereadores, e acredito que será aprovado e que os vereadores manterão a posição de evitar a integralidade da Planta de Valores.

Augusto Diniz – Como a Câmara tem acompanhado a realidade das contas da prefeitura e qual é realidade desde que Iris assumiu a prefeitura alegando uma dívida deixada pela gestão Paulo Garcia para hoje?
Vivemos uma crise econômica mundial. O Brasil foi afetado neste contexto nos Estados e prefeituras. Temos casos de Estados o municípios que não pagam seus servidores há dois ou três meses. Este é um ponto em que o prefeito Iris acertou com todas as dificuldades. O secretário de Finanças é um bom técnico, mas às vezes não tem de interferir em questões políticas porque acaba dizendo coisas equivocadas. Nos últimos dois anos, a Prefeitura de Goiânia conseguiu colocar a casa em dia e praticamente zerar o déficit de quase R$ 40,5 milhões.

Se a gestão conseguir entender o anseio que vem das ruas – a população que tem de saber de fato o que quer -, a prefeitura pode deslanchar sim no bom sentido. Não tivemos atraso na folha de pagamento dos servidores. Obviamente houve uma mudança na data do pagamento, mas é uma mudança que a lei permite. Na conversa que tive com o prefeito, para não dizer que não tocamos em nenhum ponto, Iris informou que enviará um Projeto de Lei à Câmara para aprovar uma renegociação das dívidas que a prefeitura ainda não pagou. Se a prefeitura começa a renegociar com os credores antigos é um sinal de que a situação pode caminhar melhor.

“Qualidade dos vereadores novatos da 18ª legislatura foi provada nas urnas com a votação expressiva que esses membros tiveram”

Fotos: Alexandre Tavares

Marcelo Mariano – Nas eleições de 2018, vereadores da oposição foram eleitos para outros cargos e deixarão a Câmara, como é o caso de Jorge Kajuru (PRP), Elias Vaz, Alysson Lima, Delegado Eduardo Prado (PV), Vinícius Cirqueira (Pros). Isso enfraquecerá a oposição ao prefeito na Casa?
Esta legislatura da Câmara tem uma postura diferente. A oposição não fica prejudicada. Lucas Kitão continua, a vereadora Sabrina Garcez (PTB), Dra. Cristina (PSDB), Priscilla Tejota (PSD), Cabo Senna (PRP) e outros vereadores. O perfil da Câmara nestes dois anos é o de discutir os projetos. A própria prefeitura não consegue vislumbrar quem é de fato a sua base. A oposição continua tendo o seu valor, a sua importância com novas pessoas que entram. Por outro lado, a Câmara perde ao não contar mais com esses parlamentares que se destacaram nesses dois anos. As urnas mostraram a prova disso. Ganhamos no contexto nacional com Elias, Kajuru e no Estado com os três deputados eleitos. Mas a oposição não perde nesse momento. Tudo se reconstrói. Nenhum espaço permanece aberto. Com certeza outros vereadores ocuparão esses espaços de destaque da oposição e também como parlamentares independentes.

Augusto Diniz – Dizia-se muito que a renovação da Câmara nas eleições de 2016 era apenas de nomes, mas que não tinha qualidade. Depois de dois anos de legislatura, que avaliação o sr., que também é recém-chegado à Câmara, faz da atuação dos novatos?
A renovação foi de qualidade. É a primeira vez na história da Câmara que se elegeu tanta gente da Câmara. É a primeira vez que um vereador virou senador. Não me recordo a última vez que um vereador virou deputado federal. Três vereadores foram eleitos deputados estaduais. Outros vereadores, como Dra. Cristina e Cabo Senna, tiveram votações expressivas. A qualidade da Câmara aumentou. A sintonia dos vereadores com a população foi muito boa. Falta a sintonia da Câmara com a população. Se essa harmonia tivesse sido feita da Câmara Municipal junto dos vereadores nessa aproximação talvez tivéssemos dez vereadores eleitos em 2018 para outros cargos.

Não tivemos nenhum projeto que a Prefeitura de Goiânia enviou e foi aprovado goela abaixo dos vereadores. Prova disso é o Código Tributário que não foi votado no afogadilho, não tivemos aumentos de IPTU votados na Câmara. Isso mostra uma qualidade da Câmara. Tivemos diversas CEIs [Comissões Especiais de Inquérito]. Essa é uma das legislaturas em que mais se investigou. A qualidade dos vereadores novatos, sem deixar de mencionar os vereadores que foram reeleitos, da 18ª legislatura foi provada nas urnas com a votação expressiva que esses membros tiveram.

Marcelo Mariano – O sr. disse que o Pros pretende lançar um candidato à Prefeitura de Goiânia. Esse candidato pode ser o sr.?
É um assunto de decisão do partido. Obviamente meu nome vai estar sempre à disposição do partido. Se essa for a decisão do partido sim. Mas nós queremos ser protagonistas em 2020. Essa é a intenção do Pros, do presidente nacional, do nosso presidente estadual Lincoln Tejota, que com certeza irá construir as condições para que cheguemos em 2020 com candidato.

Augusto Diniz – Como está a relação do sr. com o presidente do partido, o vice-governador eleito Lincoln Tejota?
Marcelo Mariano – Algumas falas foram colocadas em, digamos, lugares estranhos.
Você foi muito republicano. Houve algumas falas colocadas em lugares que não deveriam ter sido colocadas. Falas mal colocadas geram processos que não deveriam ter acontecido. Não é porque o Lincoln é o meu presidente estadual que vou concordar com tudo que ele faz. Acredito que ele foi infeliz nas declarações. Conversei com Lincoln, colocamos a situação em pratos limpos. Assuntos internos do partido têm de ser resolvidos internamente, não expondo o partido. Lincoln é o grande líder do partido no Estado de Goiás.

Ele é a nossa referência no partido, até porque é o vice-governador. Por mais que não tenha entrado, interferido e ajudado na eleição da mesa diretora, ele não pode de maneira alguma colocar essas rupturas do partido. Até porque eu o procurei sim, e ele disse que eu não o procurei. Fui à Assembleia procurá-lo. Esse foi o motivo que logo após eu disse que ele não entraria na minha eleição. Se existe algum problema interno no partido tem de ser resolvido internamente junto dos presidentes. Não sou presidente do partido, não posso ser culpado por problema que às vezes possa estar existindo na cúpula executiva do partido.

Marcelo Mariano – É possível dizer que o Pros está rachado?
Rachado não. Não diria que rachado, mas nós temos diferenças ideológicas que precisam ser resolvidas. Isso é natural. Em um partido que cresceu como o Pros cresceu nas eleições deste ano é natural que fique com rusgas e rachaduras, mas que vamos corrigir. Na quarta-feira, 12, Lincoln nos visitou na Câmara Municipal. Minha relação com o Lincoln sempre foi muito boa. Espero que agora melhore ainda mais. Ele fez uma fala mal colocada, eu obviamente tive de responder a fala mal colocada dele. Mas o Lincoln continua a ser o nosso grande líder no partido.

Marcelo Mariano – O que fez com que o Pros um desempenho eleitoral tão grande e se tornasse um dos principais partidos em Goiás?
A primeira coisa que o Pros fez foi acreditar em novos políticos. A mesma oportunidade que um político jovem como eu tenho existe para um político que está há 30 anos, sem desmerecer quem está há tanto tempo na político, porque se está há tanto tempo na política é porque tem qualidade. Pros deu oportunidade a pessoas como o Vinícius Cirqueira ser eleito deputado estadual, deu oportunidade para que uma pessoa como Cairo Salim fosse eleito. O Pros nacional colocou como meta a minha eleição na mesa diretora. O Pros deu protagonismo não só para uma ou duas pessoas.

Quando pegamos um político jovem como Lincoln, que é indicado a ser vice-governador, deputados novos sendo eleitos, percebemos essa diversificação de nomes. O Pros pegou nomes novos que estavam em ascensão e deu a oportunidade que essas pessoas precisavam. Isso fez com que o partido crescesse. É corajosa a postura do presidente nacional e do estadual em dizer que o Pros tem de ter protagonismo nas eleições de 2020 lançando candidato a prefeito. Isso mostra que o Pros está sintonizado com aquilo que a população deseja, que novos nomes sejam postulados para escolha da população.

Marcelo Mariano – Desde o início, o Pros nacional apoiou a candidatura a presidente de Fernando Haddad (PT). O sr. acredita que foi a decisão correta?
Correta talvez não tenha sido. PT vive um desgaste histórico provocado por ele mesmo. É um desgaste que não adianta quererem culpar A ou B. O desgaste foi provocado pelo próprio PT. A decisão do Pros nacional em caminhar com o PT talvez pela sintonia que houve nos governos do PT dos quais o Pros fez parte. O Pros acabou não sendo protagonista na campanha do PT. O Pros em determinado momento se afastou da campanha nacional, até mesmo por divergências ideológicas.

O Pros tem uma linha de raciocínio. Talvez naquele momento com o PT fosse o melhor. Mas ao longo do processo eleitoral houve um distanciamento do Pros e, talvez acertadamente, cuidou das campanhas dos seus federais, estaduais, e talvez por isso logrou êxito no País. Há uma nova realidade política, um novo cenário nascendo. O Pros, mesmo caminhando com o PT, ao perceber que aquele não seria o melhor projeto para o partido e para a população resolveu se afastar.

Marcelo Mariano – Como o sr. classifica o Pros: um partido de centro, direita ou esquerda?
É complicado fazer essa definição. Pros é um partido que tem diversas linhas e segmentos. É um partido muito aberto que aceitaria tanto uma ligação da esquerda quanto uma ligação da direita. Eu particularmente refuto um pouco a classificação em direita e esquerda. É algo que tem dividido o País. É preciso ser a favor do povo independente de a sua ideia ser de esquerda ou direita. O Pros não te obriga a ser um parlamentar de direita ou de esquerda como acontece em determinados partidos. Isso pode até ter estragado um pouco a dinâmica do País. Podemos ter um país muito grande, mas essa divisão entre aceitar algo e não outra coisa, defender isso e não aquilo, talvez isso esteja estragando a política hoje. Se você me perguntar se eu sou um político de direita ou esquerda eu não sei responder. A minha defesa é de uma linha que talvez defenda aquilo que eu entendo como correto. Nada que é muito extremo, tanto para a direita quanto para a esquerda, vai ser muito legal para o País neste momento.

Augusto Diniz – A situação eleitoral do Lincoln Tejota, que chegou a ser chamado de traidor por seus ex-aliados do que era a base aliada dos governos Marconi Perillo e José Eliton (PSDB) ao tomar a decisão de ser candidato a vice-governador na chapa do então opositor Caiado, é um assunto resolvido no Pros e compreendido por todos os filiados?
Lincoln veio para o partido para ser candidato a deputado federal. Não posso falar pelo Lincoln, até porque não tenho procuração para isso. No meio desse contexto, ele foi convocado a ser o candidato a vice do governador eleito Ronaldo Caiado. Obviamente teve o apoio total e irrestrito do partido, que ficou feliz com a indicação do Lincoln. De fato Lincoln é essa liderança hoje dentro do partido, mas essa pergunta talvez tenha de ser feita a ele mesmo porque essa é uma definição mais do que pessoal do Lincoln se foi correta ou não. No parido esse assunto é muito bem resolvido. Entendemos que a decisão para o partido foi acertada ter o Lincoln como vice-governador.

Rafael Oliveira – Partidos menores ao Pros já citam a possibilidade de fusão para atender às determinações da cláusula de barreira. O Pros foi procurado para receber outros partidos? Há interesse em fusões com o Pros?
Neste momento o Pros não discute fusão com nenhum partido. Alguns partidos no início tentaram fusões, mas nada que avançou muito. O que o Pros tem feito no Estado e no Brasil é procurar os parlamentares que, por algum problema da limitação dos partidos, recebam convites para se filiarem ao Pros. O Pros ainda não foi procurado para tratar qualquer fusão.

Augusto Diniz – Como presidente eleito da Câmara, o sr. acredita que o fato de ser do mesmo partido do vice-governador eleito e a boa relação do prefeito Iris Rezende como o governador eleito Ronaldo Caiado podem ajudar a prefeitura a começar a andar de alguma forma?
Da minha parte sim, mas isso depende também da boa vontade da Prefeitura de Goiânia em estar sintonizada com a população. Se essa sintonia houver, da minha parte farei tudo que for possível para ajudar tanto o governo do Estado quanto a Prefeitura de Goiânia no que tange a uma melhora da administração.

Marcelo Mariano – O sr. já conversou com o governador eleito?
Ainda não. Mas pretendo conversar com o governador eleito ainda no mês de dezembro.

Augusto Diniz – Havia a expectativa de que o projeto de atualização do Plano Diretor de Goiânia seria envidado à Câmara, mas até hoje isso não aconteceu. Há alguma discussão do assunto na Casa?
Na Câmara há uma discussão muito pequena, até porque não temos muita noção do que vai chegar a nós. Mas, de antemão, posso te dizer que essa discussão na Câmara será exaurida até o fim. Não vamos votar um Plano Diretor de forma rápida. Talvez por isso alguns problemas aconteceram anteriormente. Esse projeto deve demorar um pouco a ser votado na Casa.

Como presidente da casa, quero convocar a sociedade civil organizada e a população para audiências públicas para debater todos os pontos do Plano Diretor. Só quando tivermos 100% de convicção de que o texto que está sendo votado é importante para a cidade que vamos votar. A prefeitura já deveria ter enviado esse projeto para a casa. Os vereadores poderiam aproveitar o recesso para se debruçarem sobre esse Plano Diretor para que de fato ele possa ser discutido com qualidade.

Marcelo Mariano – Comenta-se que no dia da eleição a presidência da Câmara representantes do setor imobiliário estavam na Casa interessados justamente na questão do Plano Diretor. Isso procede? O sr. chegou a ser procurado?
Não me procuraram. Não os vi, até porque não os conheço. Se estavam lá passaram despercebidos por mim porque de fato não é uma área que tenho uma ligação profunda com essa área imobiliária. Conheço de nome uma ou outra pessoa, mas de fato não fui procurado nem ninguém do grupo ao qual faço parte foi procurado. O que ouvimos mesmo foram informações divulgadas pela imprensa a respeito disso.

Augusto Diniz – Um assunto que nunca se resolve é a Marginal Botafogo. A prefeitura defendeu, por meio de um decreto, a ampliação da via. Mas nem a manutenção regular é feita nas pistas. Há um entendimento na Câmara sobre o futuro da Marginal Botafogo?
Eu não sou engenheiro, mas meu amigo Vinícios Cirqueira sim. E a visão do Vinícius como engenheiro é a de que a Marginal Botafogo precisa ser refeita. Ela não suporta mais o fluxo que existe hoje em Goiânia. O problema da Marginal Botafogo, da forma como está sendo resolvido, só vai mudar o problema de lugar. Hoje vai desabar um lugar, vai ser consertado, na próxima chuva vai desabar outro, que precisará ser consertado, e assim sucessivamente. A Prefeitura de Goiânia precisa resolver o problema da Marginal Botafogo, que seja talvez hoje a principal via de desafogo da cidade.

Não vejo uma solução a curto prazo para esse problema. Quando chega o final do ano, principalmente no início da Marginal, próximo ao comércio da Rua 44, que se intensifica, aquela região fica estrangulada. Não temos mais um pedaço da Avenida Goiás, que ficou prejudicado. Basicamente é o escape que a Região Norte tem tido com o restante da cidade é pela Marginal Botafogo. Não vejo solução imediata, nem a prefeitura tentando licitar uma nova obra da Marginal Botafogo e acredito que teremos novos problemas infelizmente.

“Saúde em Goiânia hoje vive um caos. Você resolve um problema aparecem dez outros novos”

Romário Policarpo em entrevista aos jornalistas Augusto Diniz, Marcelo Mariano e Rafael Oliveira: “Os vereadores, tentando resolver os problemas da população, acabam apagando focos de incêndio que aparecem a todo momento” | Foto: Alexandre Tavares

Augusto Diniz – Depois da conclusão dos trabalhos da CEI da Saúde, como os vereadores têm acompanhado o problema da saúde em Goiânia? O que mudou de lá para cá?
Complicado se falar em saúde não só em Goiânia mas nacionalmente em relação ao SUS. Há uma crise nacional. A saúde em Goiânia hoje vive um caos. Você resolve um problema aparecem dez outros novos problemas. A gestão hoje não tem médicos suficientes, não tem profissionais suficientes. A estrutura é precária. Os vereadores, tentando resolver os problemas da população, acabam apagando focos de incêndio que aparecem a todo momento. A nossa preocupação em relação à saúde é que todas as pessoas tenham um mínimo de direito possível de acesso à saúde.

Não é porque você é amigo de um vereador ou um deputado que você tem de ter acesso a isso. Talvez esse seja um ponto que a CEI tenha avançado. Graças à CEI, que as investigações avançaram, problemas como os das antigas máquinas de chequinho que eram espalhadas em Goiânia inteira acabaram. Antigamente em Goiânia em todo começo de mês, quando eram liberados os exames, existiam filas quilométricas nos Cais e unidades de saúde. Tudo isso porque as máquinas de chequinho estavam ligadas a algumas pessoas que tinham contatos. Quem tinha contato, conhecia alguém, conseguia exame. Quem não tinha não conseguia. Um dos grandes marcos da CEI da Saúde foi eliminar as filas provocando o sistema online que existe hoje, sem as máquinas de chequinho espalhadas por toda Goiânia.

Augusto Diniz – Havia virado uma indústria de impressão de chequinho que precisava ser remarcado.
Era remarcado o tempo inteiro. Se você não conhecesse alguém que tinha ligação com alguma pessoa não se conseguia marcar exames e consultas. No meu ponto de vista, a grande vitória da CEI foi essa.

Augusto Diniz – Todo fim de ano surge o problema das faltas de vagas nos CMEIs. Há a formação de uma força tarefa de vereadores que irá acompanhar esses casos?
Provavelmente receberemos diversas denúncias relacionadas a isso. A Câmara tem procurado a Secretaria Municipal de Educação por algumas medidas que foram tomadas, como crianças de 3, 4 e 5 anos que não poderão mais ficar em tempo integral nos CMEIs. Temos procurado a Prefeitura de Goiânia para tentar amenizar isso. De fato Goiânia não tem CMEIs suficientes para atender todas as crianças.

E ainda temos problemas relacionados às creches, que são filantrópicas e deveriam estar recebendo ajuda da prefeitura, mas que não recebem. A Câmara tem feito o papel dela de procurar a Secretaria de Educação para que pelo menos as creches filantrópicas sejam colocadas em dia, isso aumentaria o número de vagas e possibilitaria que a população não passasse esse sufoco como todo começo de ano é provocado pela ausência de vagas.

Augusto Diniz – Como ficou a situação das escolas municipais que seriam adaptadas para receber crianças, mas que não estavam equipadas para atender a determinação da Secretaria Municipal de Educação?
Eu particularmente não vi movimentação nenhuma da Secretaria para fazer essa adaptação. Tanto que os professores têm discutido como será a recepção dessas crianças nas escolas que não têm o devido preparo. A Prefeitura de Goiânia precisa até o final de dezembro dar uma resposta a essa situação. Essas escolas precisam ser adaptadas. Os professores estão preocupados com isso. Se a prefeitura não der uma resposta convincente, esse pode ser o grande problema na parte da educação, junto com a ausência de vagas, no ano de 2019.

Augusto Diniz – Como ex-presidente do Sindigoiânia, continua a acompanhar a situação dos servidores de Goiânia? Há outros problemas que chegam ao seu conhecimento e que a prefeitura precisa tratar com mais atenção?
Esse assunto poderia ser a pauta de uma entrevista só sobre isso. São muitos problemas. O piso dos professores não foi pago. Profissionais da saúde que estão recebendo insalubridade de forma errada ou a menos, alguns nem recebem. A estrutura das unidades de saúde para os servidores praticamente não existe. Faltam as progressões dos planos de carreira. Existem as carreiras da educação e as carreiras da saúde. A prefeitura não paga a progressão desses servidores. Algumas estão atrasadas há quatro anos. Apesar de os salários estarem em dia, os compromissos, que são os direitos do trabalhador, continuam atrasados.

Augusto Diniz – A prefeitura chegou a discutir algum tipo de solução para as progressões atrasadas?
A prefeitura começou a colocar em dia as progressões atrasadas. Segundo a prefeitura, até o final de dezembro todas as progressões serão pagas. São 14 mil processos parados na prefeitura. Não envolve só saúde e educação, mas todos os servidores. Muitos processos já foram pagos. De fato esse é um problema que ainda incomoda os profissionais.

Rafael Oliveira – Como está a situação da Guarda Civil Metropolitana, categoria da qual o sr. veio?
A Guarda vive um problema estrutura como a própria prefeitura de Goiânia vive. Temos um plano de carreira defasado, que inclusive só contempla até 12 anos de serviço, quando na verdade se tem 30 anos de serviço a prestar. O uniforme, o fardamento da Guarda, não é dado um novo há mais de seis anos. O local físico onde os guardas trabalham é um local totalmente insalubre e inadequado. Se pegarmos as grandes demandas dos servidores de qualquer categoria chegaremos a um denominador comum. Os espaços físicos onde os servidores prestam os serviços e os direitos e benefícios a que eles têm direito não estão sendo respeitados.

Marcelo Mariano – Como está a situação do programa de estágio da Câmara? Vai ser mesmo implementado?
Temos de conversar, voltar a dialogar com o Ministério Público. Precisamos ter noção de como foi feito esse TAC [Termo de Ajustamento de Conduta] apresentado pela atual mesa diretora e vamos discutir junto ao MP e à Justiça uma forma que fique eficaz para todos. Os estágios são importantes hoje para a Câmara, é importante para a cidade de Goiânia. Diversos estagiários conseguiram, ao longo dos anos, concluir seus cursos porque faziam estágio remunerado na Câmara Municipal. Defendemos que isso continue.

Marcelo Mariano – Foi uma recomendação ou uma determinação do Ministério Público?
Foi uma recomendação do Ministério Público. Vamos sentar com o Ministério Público, entender os motivos do Ministério Público, respeitando aquilo que a lei determina vamos fazer o melhor possível.

Marcelo Mariano – Muitos vereadores alegaram que não queriam ter um estagiário em seus gabinetes que não fossem conhecidos. Como fica essa questão?
Esse foi um equívoco que ocorreu. Não tem como ter um estagiário no gabinete que não tem nada a ver com o seu viés político. É possível ter no gabinete um estagiário que trabalhou para um vereador da mesma região e que era um opositor político em determinado momento eleitoral. Isso de fato não funcionou.

Marcelo Mariano – É um cargo de confiança?
É um cargo de confiança. Os estagiários que fazem o serviço administrativo da Câmara tudo bem, não tem importância quanto a isso. Estiveram prejudicados inclusive os próprios estudantes, a quantidade de estágios na Câmara reduziu de 30% a 40% porque o vereador não quer uma pessoa estranha a posição política dele dentro de seu gabinete.

Augusto Diniz – Apesar de o currículo político e administrativo exitoso de Iris Rezende, que o sr. destacou durante a entrevista, um programa extinto pelo prefeito é sempre lembrado por não ter havido nenhuma política pública para substituir essa lacuna até hoje, que era o Cidadão 2000. Qual a avaliação o sr. faz do fim do programa? É possível que se crie outro programa voltado aos jovens em Goiânia?
Eu sou fruto do Cidadão 2000. Não como primeiro emprego, mas no acompanhamento escolar que era feito com prática esportiva. Se eu estou aqui hoje conversando com vocês é porque lá atrás fui fruto do Cidadão 2000. Boa parte dos meus amigos de infância que não foram para o outro lado foi porque na época tinham esse acompanhamento do Cidadão 2000. Esse talvez seja o maior drama que a prefeitura viveu. Acho muito ruim quando alguém pega um programa que ajudou tantas crianças e jovens a não estarem na rua, a terem um acompanhamento escolar e termina com ele de forma tão abrupta sem ter nada para colocar e substituir.

Hoje a parte social da Prefeitura de Goiânia se resume a dar comida e um lugar para morador de rua dormir. Não existe nenhum trabalho na Prefeitura de Goiânia para retirar moradores de rua da situação de rua, para ajudar criança em situação de risco. É zero. Isso não existe hoje na Prefeitura de Goiânia como acontecia há anos. É uma total regressão nessa parte social. Eu apresentei um projeto, até hoje engavetado na Câmara, que obriga quem ganha licitação na prefeitura para construção a contratar até 5% da mão de obra de moradores de rua cadastrados pela prefeitura.

A prefeitura alega que não tem condição de fazer esse cadastro. A situação de moradores de rua em Goiânia só aumenta. Hoje em dia a criança não fica mais na rua. Mudou um pouco. Antigamente tínhamos muitas crianças morando na rua. Hoje em dia o tráfico pega essas crianças. Onde existe um vácuo de poder alguém vai chegar e absorver. A falta do Cidadão 2000 é gritante para a sociedade. Um novo programa nos moldes do Cidadão 2000 tem de ser pensado para Goiânia urgentemente porque podemos num futuro muito próximo um problema muito grande com isso.

Augusto Diniz – Há algum outro projeto além do que o sr. apresentou do cadastro dos moradores em situação de rua para encaminhar ao emprego que pode ser considerado uma substituição do Cidadão 2000 ou algo parecido?
O único projeto que eu tenho conhecimento é esse da minha autoria que prevê a criação dessas vagas de emprego para moradores de rua cadastrados que infelizmente não avançou por problemas obviamente na própria gestão que entende que nesse momento não poderia ser feito isso. Mas em 2019 vou insistir nesse projeto porque acho que é importante para Goiânia. A quantidade de moradores de rua cresce em Goiânia de forma assustadora. Eu já fui morador de rua e sei muito bem o que se passa do outro lado. Tem muita gente do outro lado que precisa de uma oportunidade para sair das ruas. A única coisa de fato que a Prefeitura de Goiânia faz hoje é dar comida e um lugar para eles dormirem. E durante 27 dias, que é o limite que eles podem ficar nos abrigos.

Augusto Diniz – O sr. disse que já foi morador de rua?
Sim.

Augusto Diniz – O sr. ficou quanto tempo nessa situação? Qual a idade que o sr. tinha nessa época?
Eu tinha por volta de 18, 19 anos de idade. Foi logo que minha mãe de criação e meu pai biológico morreram. Eu passei uma fase morando na rua, coisa de 6 a 7 meses. É um período que eu não gosto muito de comentar sobre ele, porque quando fala sobre isso, principalmente no meio político, tem aquela impressão de que eu falo daquilo para a pessoa sentir dó de mim e votar. É um período que eu não comento muito justamente porque acho que a pessoa tem de acreditar em mim pelo o que eu posso desenvolver, não pelo o que eu passei.

Mas posso te afirmar que foi um período difícil da minha vida, mas que por ter oportunidades eu consegui sair da rua. Nada mais que eu quero é que as mesmas pessoas que está lá tenham essa oportunidade também de deixar as ruas e possam trabalhar, ter dignidade nas suas famílias. Tem muita gente que está na rua que não é usuário de drogas, que não é alcoólatra, e que na verdade só precisa de uma oportunidade para trabalhar para poder sair da rua.

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