“Precisamos defender nossas posições com responsabilidade e respeitar o governador eleito”

Deputada estadual mais bem votada em Goiás, campeã de votos do PT leva para a Assembleia, além de sua experiência como policial, propostas para a segurança, como a construção de delegacias modelo

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

“Com muita esperança.” Foi com essa ex­pressão que A­driana Accorsi en­cerrou sua entrevista de uma hora e meia ao Jornal Opção. Pela primeira vez, a delegada de carreira que sempre se destacou nas funções em que atuou, assume um mandato. E isso veio com um aval considerável. Mais de 43 mil votos — “43 mil e 424”, como ela gosta de frisar —, tornando-a a mulher mais bem votada da Assembleia Legislativa e a campeã de votos do PT.

Seu carisma e presença de espírito evocam o de seu pai, o ex-prefeito de Goiânia Darci Accorsi, que lutou bravamente contra o câncer e a ajudou em toda a campanha. Darci morreu no fim do ano passado, o que foi um baque na forte estrutura da delegada. “Por mais que ele estivesse doente, sempre se manteve firme comigo. Nunca pensei que o perderia”, diz, segurando a emoção.

Na Assembleia, ela quer aplicar as li­ções aprendidas com o pai — que era também um brilhante professor de Fi­lo­sofia — e achar os atalhos para ser bem-sucedida no mandato.

Entre os compromissos assumidos. Adriana quer acompanhar de perto a destinação e aplicação dos recursos para a segurança pública, trabalhar com a prevenção e conscientização de crianças e adolescentes, atuar em prol dos servidores, especialmente os de seu setor e fazer oposição consciente. Em resumo, tudo o que pôde amealhar em seu trabalho como chefe da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), co­mo delegada-geral da Polícia Ci­vil e como secretária mu­ni­cipal de Defesa Social.

Elder Dias — A sra. teve uma votação expressiva. Foram 43.424 votos. Em sua visão, quais foram os motivos que levaram a esse número?
Acho que é bom refletir sobre o porquê de as coisas terem ocorrido dessa forma. Essa votação foi uma surpresa muito agradável para mim. Eu tinha a esperança de vencer a eleição, porque sempre trabalhei bastante pelos objetivos aos quais me dispus, mas não imaginei essa votação. Hoje, quando as pessoas me perguntam como eu estou começando essa nova fase, eu digo que tenho dois grandes sentimentos. Um deles é a gratidão pela votação fenomenal, para a qual pode ser atribuído um conjunto de fatores. Primeiro, o reconhecimento por meu trabalho como delegada — foram 15 anos que dediquei à Polícia Civil. Ouvi muitas pessoas dizerem que um dia queriam agradecer por algum trabalho que prestei como delegada e, se essas pessoas votaram em mim pensando que me recompensariam, pensaram certo. Fico muito grata por esse reconhecimento por meus serviços como delegada, em especial como delegada-chefe da DPCA. Quando falamos com as pessoas durante a campanha, foi possível ver o reconhecimento do processo de mudança cultural de dar importância à criança, algo que aconteceu no Brasil todo com a criação das DPCAs.

O segundo motivo: acho também que existiu um reconhecimento ao trabalho do meu pai, a tudo o que ele fez como vereador, deputado e primeiro presidente do Partido dos Trabalha­do­res, um de seus fundadores, além de pro­fessor. Ouvi muito isso: “Ele foi meu professor e me ajudou a entender a filosofia, a ética, me ajudou a gostar de estudar, de ler.” E ele ficava muito feliz de ouvir isso. Acho que essa eleição foi a oportunidade que as pessoas tiveram de se reconciliar com ele e vi­ce-versa. Ele foi candidato a deputado es­tadual na última vez e não obteve uma grande votação, não houve muitas condições financeiras. Então, penso que nessa eleição as pessoas tiveram a o­portunidade de recebê-lo muito bem. Por onde eu andei, foi motivo de mui­to orgulho ouvir: “Estou votando em você por causa do seu pai” ou “me des­culpe, mas não vou votar em você por sua causa, mas por causa de seu pai, porque, se hoje eu tenho uma casa pa­ra morar, é porque ele fez o (Setor) Goiânia Viva” ou “porque ele criou o Cidadão 2000 e hoje eu tenho a oportunidade de ter um emprego”. Algu­mas pessoas disseram que estavam vivas por causa disso. Acho que teve muito disso, e não apenas em Goiânia, mas também no interior, onde antigos companheiros o ajudaram.

E o terceiro motivo não tem a ver co­migo, mas com o tema que minha pre­sença traz, devido à minha história pro­fissional, que é a segurança pública. As pessoas têm esperança de que a minha presença no Parlamento goiano possa melhorar a segurança em Goiás. Então, acho que foi um terço para cada motivo, o que resultou nessa votação, a quinta maior do Estado, a maior do meu partido e a maior votação de uma mulher para deputada estadual nessa eleição, sendo a primeira deputada pelo PT em Goiás. Tudo isso é motivo de muita honra, mas também de muita responsabilidade, uma responsabilidade e tanto com as pessoas.

O outro sentimento que tenho é o de perda, por causa da perda de meu pai [Darci Accorsi morreu em 20 de novembro, vítima de câncer]. Isso foi devastador para mim. Então, eu começo esses trabalhos sentindo muita falta dele. As pessoas, quando perdem um ente querido, vão trabalhar e isso as distrai. Isso não acontece comigo, porque o meu trabalho é o que sonhei fazer com ele, o que conversava com ele. Composição do gabinete, por exemplo, é o que conversávamos todos os dias depois da eleição: a minha participação na política, a minha contribuição para o Partido dos Trabalhadores. A posse no domingo, dia 1º, foi um momento muito bonito para mim, pois simbolizou o início dessa nova fase, mas também foi muito triste, pois iríamos comemorar. Meu pai sempre fazia um churrasco especial para mim, porque eu não sou gaúcha, sou goiana e gosto de carne bem passada (risos), ao contrário dos meus irmãos. Então, foi muito difícil. Está sendo. Ele estava muito doente e as pessoas às vezes não entendem isso, porque nós, os filhos, o víamos de outra forma. Ele sempre foi muito forte. Mesmo na campanha, depois de uma cirurgia, de radioterapia e quimioterapia, sem conseguir retomar a saúde, ele esteve presente comigo o tempo todo. Acho que todos veem seu pai como pessoa forte em sua vida. Eu não imaginei que ele não fosse se recuperar.

Elder Dias — Então, nesse contexto que a sra. traçou, podemos dizer que seria 33% para cada motivo?
Sim, mas talvez a preocupação com a segurança tenha tido um peso um pouco maior.

Elder Dias — Isso pode ser deduzido também pela votação do delegado Waldir Soares (PSDB), eleito deputado federal, e de seu colega de Assembleia Mané de Oliveira (PSDB). O tema segurança pública será realmente o centro do seu foco como parlamentar?
Penso que essa é a minha missão. Acredito que as pessoas votaram em mim por entender que tenho uma história de dedicação, de competência e que, ali, eu consegui cumprir com o que a função exige. E minha intenção é priorizar o tema, no aspecto imediato, ou “stricto sensu”, da segurança pública, sobre condições de trabalho aos policiais, plano de carreira, enfim, investimento diretos em segurança.

Mas também temos de investir naqueles aspectos que, às vezes, as pessoas não entendem como segurança pública, mas que têm impacto no setor: políticas sociais. Uma das minhas prioridades na campanha e que será foco do meu mandato são as políticas de inclusão da juventude — primeiro emprego, capacitação profissional para os jovens. Quero também que meu mandato priorize o combate à violência contra a mulher. O fortalecimento das delegacias de proteção à mulher; criação das delegacias no Estado; criação dos juizados de atendimento à mulher no interior, pois só temos dois em Goiânia; a criação das casas-abrigo para que as mulheres ameaçadas sejam recebidas com seus filhos e se sintam seguras. Mas também conscientização sobre a violência doméstica, para que a mulher sinta paz em seu lar; campanhas educativas. Outra questão que impacta na segurança: a ressocialização do adolescente em conflito com a lei. Precisamos pensar mais nisso e investir nesse fator. Às vezes, temos de internar os adolescentes em conflito com a lei, mas não pensamos em ressocialização. Por fim, acredito que, como servidora pública, quero ser representante de todos os servidores do Estado.

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

A questão da violência contra a mulher está seriíssima.
O que aconteceu?”

Marcos Nunes Carreiro — A sra. conhece o sistema da segurança pública por dentro e citou a ressocialização, uma questão que está prevista na legislação penal brasileira, mas que não funciona. Por quê?
A ressocialização está prevista no Código de Execução Penal brasileiro. Ou seja, o objetivo da pena não é a vingança da sociedade, mas que a pessoa se ressocialize e retorne à sociedade capaz de viver de forma pacífica, principalmente considerando que não temos, no Brasil, pena de morte ou perpétua. Temos um sistema muito problemático, que não cumpre seus objetivos, nem em Goiás nem no Brasil. Nós temos uma imensa quantidade de presos no País. Somos um dos países que mais encarceram pessoas e isso nos leva a perceber que essa não é a solução, simplesmente. Precisamos investir na ressocialização.

Eu não só fui delegada no interior, como fui diretora de minipresídios. Sempre participei dessas discussões. Como delegada-geral da Polícia Civil, enfrentei uma crise, que foi a superlotação das delegacias de Goiânia e da região metropolitana, inclusive cerceando o trabalho de investigação dos policiais. Essa é uma questão grave e, para mim, o caminho é o trabalho e o estudo para essas pessoas. Que o presídio seja um local onde isso seja possível. Entretanto, a superlotação hoje impede que tenhamos trabalho e estudo para os reeducandos — que é o nome que a legislação confere às pessoas encarceradas, porque esse é o objetivo.

Ou seja, precisamos repensar esse objetivo e criar formas para que essa pessoa seja ressocializada, principalmente o jovem e o adolescente. As pessoas não sabem, mas temos centenas de adolescentes internados — termo que usamos para os adolescentes presos. E temos de investir nessa ressocialização.

Uma de nossas principais propostas de campanha é encontrar uma forma de, como deputada estadual, criar em Goiás um programa que invista na oportunidade, nos moldes do Cidadão 2000, que beneficiou milhares de jovens. Ou seja, antes de ele se tornar um jovem infrator, precisamos lhe dar atenção. Antes que ele seja aliciado, precisamos cuidar dele. E isso funcionava no Cidadão 2000, criado por meu pai, mas que foi ampliado na gestão de Nion Albernaz (PSDB) e continuou na de Pedro Wilson (PT), mas que infelizmente acabou.

Frederico Vitor — O Cidadão 2000 é um programa que pode ser retomado? Mais que isso, ele pode produzir bons resultados?
Fui contra seu fim e entendo que é preciso retomar a ideia, que é: a­té os 14 anos, no horário em que não esteja na escola, que o menino ou a me­nina tenha uma atividade esportiva ou cultural. Na época, só tínhamos o fu­tebol. Hoje, há mais alternativas. Existem outros esportes que a juventude tem gostado. Que esse menino ou menina possa também aprender uma profissão dentro do que a lei permite. Depois da escola, ou antes, que ele passe um período aprendendo u­ma profissão. E que ele saia dali com um emprego garantido. Isso funcionou muito bem com o Cidadão 2000 em Goiânia, em parceria do município com os empresários. Sinto que, hoje, se fizermos essa proposta em Goiânia e em Goiás, teremos apoio da sociedade.

Há empresários e comerciantes que foram alunos do Cidadão 2000 que querem nos ajudar nisso agora. Precisamos atuar contra esse extermínio da juventude humilde e negra que acontece em Goiás e no Brasil. Para os adolescentes já em conflito com a lei, precisamos ter locais adequados para a internação. Precisamos de vagas suficientes. Tivemos, há poucos dias, a libertação de cem adolescentes infratores em Goiás, em razão da falta de local. Nós não temos um local adequado, não temos um presídio juvenil. Se as pessoas pensam que esse adolescente será internado e não voltará mais, elas estão enganadas. Ele retornará, e em breve, assim como os adultos — que, muitas vezes, voltam em três dias. O adolescente é altamente influenciável. Não que eu pense que ele não saiba o que está fazendo. Ele sabe, mas é mais vulnerável.

Nesse sentido, o projeto Cidadão 2000 era muito importante para a segurança pública. No último ano antes de ser fechado, o programa já não funcionava muito bem. Mas eu era chefe da DPCA e, portanto, responsável por investigar os homicídios de todas as pessoas menores de 18 anos. O programa foi extinto, se não me engano, em novembro de 2008. Naquele ano, tivemos 20 assassinatos de menores. No ano seguinte, esse número subiu para 70 e, depois, só foi aumentando. Isso porque não foi criada nenhuma alternativa de oportunidade para esses meninos e adolescentes. Como deputada, preciso pensar nisso para todo o Estado, para que as cidades tenham condição. Hoje, diferentemente do período em que o Cidadão 2000 foi criado, há verba federal destinada para esse tipo de programa. Mais do que isso, acredito que a sociedade civil quer e vai participar de uma iniciativa dessas. É uma política que encaro também como ligada à segurança pública.

Elder Dias — A sra. priorizará a segurança como tema na Assembleia. Mas quais serão suas linhas de trabalho?
Quero levar minha experiência como delegada à Assembleia. Debater todas essas questões com a sociedade e com os demais parlamentares e chamá-los para conversar sobre isso. Por isso, acho importante participar da Comissão da Segurança Pública com o Major Araújo (PRP), para que ali possamos levantar essas questões. Além disso, teremos oportunidade de dialogar com os colegas da segurança pública, com os que atuam na área de violência doméstica contra crianças, com as pessoas que tentam resgatar quem está em situação de rua. O diálogo será o princípio de nosso mandato, seja com os movimentos sociais, seja com os colegas de todas as polícias. Não só os da Polícia Civil — em­bo­ra seja com ela que eu tenha maior pro­ximidade, é minha casa, conheço quase todo mundo e de que me sinto re­presentante —, quero também quero ser a representante das demais po­lícias: da Polícia Militar, dos Bom­beiros, da Agência Prisional, que é a po­lícia penal, como chamamos os agentes prisionais, e também das guardas municipais e da Polícia Técnico-Científica.

Temos como proposta que tenhamos delegacias modelo em todo o Estado, que durem por muitos anos. Cada cidade, muitas vezes pela prefeitura, oferece uma casa para servir de delegacia, um local quase sempre inadequado. Precisamos pensar na dignidade do trabalhador e em sua segurança, bem com na segurança de quem visita — precisamos ter entradas separadas para visitas e autor do crime. É preciso ter um local para o policial que fica ali a noite toda, um local para pessoa que está detida conversar com seu advogado.

Quero trazer para a discussão as oportunidades para a juventude, a inclusão de todos os meninos e meninas na perspectiva de uma vida digna. A preocupação em relação à criminalidade juvenil é voltada para soluções paliativas e ilusórias, como redução da maioridade e pena de morte. Temos de pensar nas causas. Temos que acolher a juventude antes que os criminosos façam isso. Acredito que a questão da violência contra a mulher em Goiás está seriíssima. Talvez não tenhamos pesquisas aprofundadas a respeito, mas quero fazer isso em meu mandato, pesquisar as mulheres que foram vítimas de feminicídio em Goiás, saber onde houve a falha, se ela procurou a polícia, se tinha onde abrigar, se ela não acreditou que a lei a protegeria, ou se ela procurou a lei, mas não foi protegida. Será que foi a Justiça que não decretou a medida protetiva que está na lei Maria da Penha? Enfim, o que aconteceu para que tenhamos o aumento de 150% dos assassinatos de mulheres em Goiás?

Frederico Vitor — Isso não seria o reflexo da cultura machista que ainda está impregnada em Goiás?
Claro que sim. Ao mesmo tempo em que temos de fortalecer as ferramentas de combate ao crime e a impunidade, devemos fortalecer os mecanismos de proteção à mulher. É preciso criar em todo o Estado os juizados de atendimento à mulher que estão preconizados na Lei Maria da Penha. Há medidas que tem de ser tomadas na hora, como as medidas protetivas. Se o agressor se aproximar tem de ser preso, tem de sair a medida judicial de prisão imediatamente. Isso não está acontecendo hoje, por falta desse instrumento. Nós temos de ter as casas-abrigo onde as mulheres se sintam protegidas e seguras. Nós não podemos simplesmente dizer “mulher, denuncie a violência”, pois temos de protegê-la. Ela e seus filhos precisam ser protegidos. Nessa casa, ela receberia atendimento jurídico para que possa ter seus direitos respeitados, além de médicos e psicólogos. Mas, ao mesmo tempo em que precisamos dessas medidas protetivas, nós temos de fazer uma campanha de conscientização ampla e profunda em Goiás. Precisamos sensibilizar as autoridades para compreender o contexto complexo da violência doméstica.

Faz parte da minha carreira, também, o combate à violência contra a criança e o adolescente. Em Goiás nós temos medidas importantes a serem tomadas que não são difíceis, mas teriam impacto muito forte, como a criação das Delegacias de Proteção à Criança e ao Adolescente, porque o atendimento especializado faz a diferença — mais de 90% dos casos são em ambiente familiar. Outra medida é a criação de uma vara especializada. Estive há vários anos na CPI da Pedofilia na Assembleia Legislativa de Goiás, convidada pelo então deputado Fábio Souza (PSDB). Fomos juntos reivindicar a criação dessa vara e, infelizmente, até hoje, o Tribunal de Justiça não se sensibilizou. Temos varas, e mais de uma, para julgar crimes contra o patrimônio, crimes relacionados a finanças, para o adolescente infrator, mas não há nenhuma para atender à criança vítima de violência. Isso faz com que tenhamos casos com anos e anos para serem julgados, alguns com até oito anos. Isso significa impunidade, em especial porque sabemos que é um dos crimes que têm um número mais alto de reincidência. Isso não poderia acontecer.

Outra medida que já reivindicamos, e esta conseguimos —– fiz parte dessa conquista, por um breve período —, foi a sala do depoimento sem dano para crianças. É algo que existe em vários Estados e foi idealizado por um juiz de família de Porto Alegre, dr. José Antônio Daltoé Cezar; que veio a Goiânia a nosso convite e explicou a importância dessa medida para evitar a revitimização das crianças. Nessa sala, a criança conta sobre as violências que foram praticadas contra ela a um profissional da psicologia ou assistente social. Tudo é presenciado, por meio de uma câmera, na sala do juiz, para que a criança não tenha que repetir a cena de violência para juiz assistente, promotor assistente, advogado do réu, réu e, às vezes, até para estagiários de Direito. Isso é para evitar o trauma, a revitimização. São medidas que não são caras e que são possíveis que façamos aqui.

A priorização da ressocialização do adolescente, em situação de conflito com a lei, é também importante para mim. Hoje, um dos desafios que nós temos no Brasil é o assassinato de jovens, em especial da juventude humilde, da juventude negra. É uma preocupação em todo o País e existem vários projetos, com apoio financeiro da Secretaria Nacional de Segurança Pública, que se relacionam a medidas de combate à impunidade dos assassinatos e também de inclusão social da juventude vulnerável. Estou conhecendo-os para trazê-los para Goiás.
São prioridade que tenho, como deputada. Os jovens foram se afastando da política, pelo descrédito. Se trabalharmos com um canal de diálogo honesto, realmente abertos, pode haver uma reaproximação.

Marcos Nunes Carreiro — A sra. participou do governo Marconi Perillo como delegada-geral da Polícia Civil e teve um trabalho bem sucedido, com boa relação com o governador. A sra. saiu de lá para ser secretária de Defesa Social em Goiânia e, agora, foi eleita deputada pelo PT. Como a sra. vê a oposição que será feita ao governador Marconi na Assembleia?
Primeiramente, gostaria de esclarecer alguns fatos. Sou filiada ao PT desde os 16 anos e sou militante desde os 13. Nunca isso foi omitido do governador ou do então secretário de Segurança [João Furtado]. Acredito que eu fui convidada — e isso foi dito por ambos — por meu perfil técnico e por meu trabalho. Minha opção partidária e meu pensamento político sempre foram respeitados pelo governador. Ele, inclusive, me disse pessoalmente — e dizia isso frequentemente em seus discursos — que respeitava minhas ideias e que ninguém teria autorização para me coagir de alguma forma a mudar de partido. Isso foi colocado claramente sempre, assim como também deixei claro que tinha intenção de, no futuro, talvez ser candidata pelo Partido dos Trabalhadores. Jamais cogitei de deixar o PT. Tudo foi respeitado pelo governador Marconi Perillo e pelo secretário João Furtado. Minha saída do cargo ocorreu de forma amigável, pacífica. Vejo que tenho o respeito do governador como profissional.

Como deputada, desejo continuar com meu perfil técnico, atuando dentro do que acredito. Temos de ter lealdade partidária: o que decidimos co­mo partido — e é nele o momento de colocarmos nossas opiniões e divergências — obviamente eu seguirei. O governador, como político experiente, entenderá isso, até por sempre ressaltar o respeito à democracia em seus discursos. Procurei aprender muito com a sabedoria política de meu pai e uma coisa que seja parte do legado dele a mim é o respeito às opiniões diferentes, à democracia e aos outros partidos. As pessoas têm direito de ter pensamentos diferentes e de debatê-los. Isso é o melhor da democracia. Então, haverá momentos em que eu discordarei e outros em que concordarei. Nos projetos que entender que serão benéficos à segurança pública, a seus servidores e ao funcionalismo em geral, o governador terá meu apoio.

Também levarei a ele várias de­man­das, como já fiz como delegada-geral e, o que é normal, com algumas ele concordou e outras, não. Vejo com alegria a criação do Centro de Triagem das pessoas presas, que foi uma ideia de que participei dentro da Polícia Civil. Estávamos sofrendo com a superlotação das delegacias, o que estava impondo obstáculos a fazermos nosso trabalho. Fizemos parte da idealização dessa obra que agora foi inaugurada. Como delegada-geral levei o pedido e o dr. João Furtado teve a ideia do Centro de Triagem. Os policiais já são poucos, precisam ser liberados para seu trabalho. Enfim, creio que eu e o governador teremos uma convivência respeitosa, ainda que tenha pontos em que discordaremos.

“A lealdade ao partido é importante, assim como à população”
Adriana Accorsi em entrevista ao Jornal Opção: “Acredito que este ano será excelente para a administração de Goiânia" / Marcello Dantas/Jornal Opção

Adriana Accorsi em entrevista ao Jornal Opção: “Acredito que este ano será excelente para a administração de Goiânia” / Marcello Dantas/Jornal Opção

Frederico Vitor — A oposição na Assembleia já sofreu uma baixa, com a adesão de Simeyzon Silveira (PSC) ao governo. Em um universo de 41 deputados, são apenas 10 oposicionistas. A aposta será mesmo na qualidade, em vez da quantidade, para fazer seu papel?
É uma experiência que eu começo agora. Essa formação da Casa também é nova. Temos de trabalhar com responsabilidade e pensar no Estado. Falando pelo que conversei com minha bancada, vamos sempre colocar nossa opinião, mesmo em situações nas quais entendermos que perderemos no voto. É preciso ter essa integridade, porque o que dissermos pode ser levado em conta, podemos promover melhorias nos projetos. Parlamento é para isso, não só para ganhar votações, mas, principalmente até, para debater as matérias. Então, se eu apresentar uma proposta para destinação de recursos à prevenção ao uso de drogas nas escolas, um deputado de outro partido pode levantar questionamentos importantes, que acrescentem. É esse tipo de atuação que a população de Goiás espera. Precisamos respeitar o governador eleito, assim como devemos respeitar a presidenta eleita, e, diante disso, defender nossas posições com responsabilidade.

Elder Dias — O discurso da sra. é perfeito. Mas, na prática, a Casa das Leis do Estado, hoje, não é uma casa de despacho do governo?
Cada legislatura faz sua história. Estamos começando agora e precisamos construí-la. Se será assim, não será com o aval da bancada de oposição. De minha parte, quero estudar cada projeto que for encaminhado. Pelo que conversamos na bancada, os quatro deputados do PT farão dessa forma. Em nossa bancada, temos pessoas novas — eu e Renato de Castro —, com desejo de se dedicar bastante ao trabalho, e temos pessoas experientes [os deputados reeleitos Hum­berto Aidar e Luis Cesar Bueno]. De nossa parte, esse seu temor não vai acontecer.

Elder Dias — O PT em Goiânia elegeu quatro vereadores e agora só tem um. Djalma Araújo (SD), que entrou várias vezes em atrito com a cúpula, deixou o partido. Tayrone di Martino e Felizberto Tavares [ambos ainda sem novo partido] foram expulsos. Pessoalmente, considero que a atitude do diretório foi um tiro no pé diante do cenário atual da administração. Qual é seu posicionamento?
Minha razão para integrar um partido é acreditar em seus princípios. Não faz sentido se filiar a uma sigla com a qual não há uma ligação com o que a pessoa pense. É claro, ter uma afinidade de 100% com o pensamento partidário, mas uma boa parte precisa estar alinhada. Há inúmeras opções de partidos e as pessoas são livres para escolher. Temos de ser sinceros com as pessoas e conosco mesmos ao fazer a opção. Uma vez que decidimos, é preciso ter o mínimo de lealdade — uma qualidade que vale para a família, para os amigos, os colegas e também para a sigla.

É claro que haverá situações de conflito. A questão da liberalização das drogas, por exemplo, me causa conflito. Eu, como policial, mesmo sabendo de experiências nesse sentido que, dizem, foram boas, sinto dificuldade em lidar com essa situação. Mas é preciso debater questões como essa. A lealdade ao partido é importante, e a lealdade à população, também. Um partido como o nosso, em que temos a possibilidade de discutir todos os assuntos internamente, de forma democrática, precisa que seus filiados sejam corretos com o que foi decidido dessa forma. As críticas dos que têm mandato precisam ser colocadas nesse fórum, porque, se não, como poderemos confiar? Sei que não é tão simples e espero sempre tomar a melhor decisão, mas acredito que lealdade é algo sempre muito importante.

Marcos Nunes Carreiro — No caso de Tayrone, para justificar sua renúncia à candidatura de vice na chapa de Antônio Gomide ao governo, ele alegou que não poderia ir contra a população goianiense e que não votaria a favor do sacrifício dela por causa de erros cometidos pelo prefeito Paulo Garcia. Olhando por esse prisma, o PT não passa a imagem de estar punindo um vereador que, nas palavras dele, tentou fazer o certo para a população que o elegeu?
Dizer isso é a simplificação de uma situação complexa, de todo um contexto político ocorrido. A saída de Tayrone da chapa quase inviabilizou o trabalho de todo um conjunto de pessoas, entre candidatos e militantes. Temos mais elementos a avaliar, então. Esse pensamento é uma simplificação equivocada. É preciso dizer também que houve o momento em que o tema foi debatido internamente no PT. Era a oportunidade que o ex-companheiro, o vereador Tayrone, teria para propor algo diferente. Mas isso não foi feito por ele. Ele, como eu, participa do partido desde sua juventude e conhece bem nossa forma de agir e nossos trâmites. Isso é o que faz do PT um partido diferente e é um dos pontos positivos que temos. Gostaria de dizer sobre isso, por fim, que há outros elementos para essa decisão quase unânime do diretório.

Marcos Nunes Carreiro — Seu nome é sempre citado como possível candidata à Prefeitura em 2016. A sra. pensa nessa possibilidade?
Primeiramente, é uma honra ser lembrada dessa forma, e seria para qualquer pessoa que participa da política e vive em Goiânia. Acresça-se a isso o fato de que meu pai foi prefeito desta cidade. Fico muito feliz e até emocionada. Mas eu penso — e quem me conhece sabe de minha sinceridade — que neste momento eu só tenho de pensar em ser uma boa deputada. Não posso pensar em outra coisa. Seria uma irresponsabilidade e um desrespeito às 43.424 pessoas que votaram em mim (enfática). Penso isto mesmo: tenho de focar em ser uma boa deputada, em cumprir a missão que essas pessoas me deram. É isso que vou fazer.

Elder Dias — Então, neste momento, para mim fica claro que a sra. quer cumprir seu mandato de quatro anos.
Neste momento eu tenho de pensar nisso. Muita coisa acontecerá até a próxima eleição. Só acabamos de sair da anterior.

Elder Dias — Mas ocorre que o prefeito Paulo Garcia tem hoje uma alta rejeição. Vejo até que ele tem voltado a trabalhar muito, principalmente nas últimas semanas, para recuperar o tempo perdido. Está fazendo o corredor na Avenida 85, mostrando a obra do Projeto Macambira-Anicuns, cuidando das coisas básicas da cidade, fazendo o que um prefeito deve fazer. Mas os nomes do PT que hoje teriam vida própria diante da população são o seu e o do ex-reitor da UFG Edward Madureira. Em vocês, o estigma da má administração parece que não colaria. Nesse sentido, o PT deveria optar por ter seu candidato ou apoiar alguém do PMDB, com o qual o PT de Goiânia está tendo atualmente um “casamento” muito difícil?
Antes de tudo, acredito que este ano será excelente para a administração de Goiânia. Tenho acompanhado as medidas que estão sendo tomadas, seja em relação aos corredores ou a vagas nos Cmeis [Centros Municipais de Educação Infantil]. Quero ajudar o prefeito Paulo Garcia no que for possível e estou à disposição para contribuir. E, como eu disse, fico feliz em ser lembrada, mas é preciso focar em nosso trabalho. Se daqui a um ano e meio houver outro entendimento, será outro momento.

Este ano de 2015 é a oportunidade de aprofundarmos a avaliação desta aliança de muitos anos com o PMDB, que também ocorre em nível nacional. E fazer isso sem medo. Vejo isso com naturalidade o que tem ocorrido. Espero que consigamos continuar com essa aliança e a cidade só ganha quando tem partidos fortes.

Elder Dias — Alguns dizem que não falta dinheiro para a segurança pública, mas, sim, gestores que saibam administrá-lo. Existe mesmo uma falta de inteligência por parte das gestões? Vemos muitas pessoas que fazem muito com pouco dinheiro, em outras áreas. A área da segurança é complexa, envolve pessoal muito qualificado, presídios, investimentos em inteligência; faltam também condições para o trabalho do policial, e isso não é de hoje. Mas também não falta, por parte dos gestores, dos governadores, um direcionamento melhor desse dinheiro?
Essa questão não é simples. Por muito tempo, na história do Brasil, a questão da segurança não foi importante para as autoridades — presidentes e governadores. Ela nunca foi alçada a primeiro plano. Agora, que estamos em uma situação arriscada, em que a criminalidade avança e em que as pessoas se sentem inseguras, é que percebemos que isso não foi feito. E, quando falamos em investimento, não é só algo financeiro. Precisamos ter investimentos em políticas, em capacitação, em vários tipos. O principal é o respeito político, a consideração por parte das autoridades. Isso sempre faltou.

Por exemplo, podemos investir muito no combate ao tráfico. Temos de investir muito no combate ao grande tráfico, pois é a fonte do crime organizado; a pessoa assalta, rouba um carro e deixa uma família traumatizada para sempre com uma arma que veio do tráfico. Não adianta pensar que isso não é importante. É necessário investir nisso, mas, se não cuidarmos da prevenção com crianças e adolescentes, não vai adiantar. Isso é falta de políticas, de direcionamento. A história mostra que não planejamos a segurança em longo prazo, não é uma política de Estado, que continua através dos mandatos. A razão é essa. É simples falar que tem dinheiro demais e ninguém o aplica direito. Por exemplo, reformular todo o sistema prisional é muito complexo, sim. Dizer que tudo é culpa dos governantes atuais é injusto. Peguemos os presídios que temos no interior de Goiás, como exemplo: são casas adaptadas em que, depois, fizeram um puxadinho para cá, outro para lá e onde caberiam 30 pessoas ficam 180. O que isso diz de planejamento da segurança pública? E isso não é só em Goiás.

Marcos Nunes — O que temos no Brasil são políticos fazendo política de curto prazo; e segurança pública, educação e saúde, que constituem o tripé de todas as campanhas políticas, devem ser pensadas em médio e longo prazo. A sra. também acredita que deva ser assim?
Exatamente. É o que eu penso ser a solução e que não foi feito até hoje no Brasil. As autoridades têm de perceber que, independente de questões partidárias, a segurança pública é um grande desafio para todos. O número de pessoas assassinadas tem de preocupar e nos fazer unir em torno da questão. Temos de pensar além do mandato, pois nem sempre conseguimos tomar medidas necessárias, afinal, muitas vezes, os políticos e autoridades pensam em medidas apenas para seu mandato e sem soluções que são necessárias. A reformulação do sistema prisional brasileiro é necessária, não tem como falar de segurança pública sem tocarmos nisso. É complicado, difícil e demorará bastante. Ainda assim, essa simples implantação de delegacias padronizadas em Goiás já é algo que demora. É um investimento imenso, mas necessário. É preciso dar o primeiro passo. Todos têm falado em fazer uma delegacia bonita, um prédio imenso, mas uma só, pois assim pode inaugurá-la em seu mandato. Não estou falando de um político “A” ou “B”, só estou dizendo que temos de ir além disso. Por isso, apresentarei esse projeto, com a ideia de prédios modulares, baratos, todos iguais e, por serem módulos, podendo ser aumentados no futuro, de acordo com o crescimento da cidade. Provavelmente, como deputada, eu não inaugure nenhum. Ainda assim, eu farei esse e trabalharei muito para que ele aconteça.

Elder Dias — Talvez inaugure algum como governadora…
Quem dera (risos).

Marcos Nunes — Existe uma questão sensível a respeito das drogas, que é a legalização; o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, defende a legalização da maconha. A sra. acredita que essa discussão deve entrar também como política de segurança?
Elder Dias — Completando, o professor Dione declarou que a política é também uma avaliação de danos. Hoje, a liberação das drogas, com o consequente fim do tráfico, não seria um mal menor diante do cenário brasileiro?
Essa discussão tem de ser feita com coragem. Temos de fazê-la, sim, temos de estudar suas consequências em países, inclusive, da América do Sul. Mas, confesso que, para mim, como policial, é complicado dizer que sou a favor da liberação das drogas. Grande parte dos crimes que já investiguei, em minha carreira, se relacionava ao uso de entorpecentes lícitos ou ilícitos.

Se eu tivesse poder de decisão, neste momento, eu não a faria, pois vemos tanto sofrimento, tanto sangue, tanta covardia, tanta família destruída. Existe o sentimento de que a liberação possa facilitar ainda mais o acesso às drogas. Ainda assim, acredito que a sociedade brasileira tem de discutir o tema. Temos de pactuar sobre isso. Isso está sendo discutido no mundo todo e não dá para dizer que isso foi pacificado em outros países, porque não foi. Muitas pessoas que vivem em países em que foi liberada a maconha são contra a medida. Por isso, precisamos discutir isso profundamente, com coragem, sem hipocrisia; colocar, sim, a questão da redução de danos, a questão das mortes.

É preciso lembrar o que está ocorrendo no México, país que tem feito mais de uma década de combate ostensivo e rigoroso ao tráfico, combatendo situações de corrupção, de assassinato, de absoluta coação e ameaça das forças policiais, de extermínio da juventude, de envolvimento dos políticos no narcotráfico. É preciso lembrar o caso dos 43 adolescentes torturados e assassinados, recentemente, a mando de um prefeito, uma primeira dama foi presa por conta de narcotráfico. E veja que lá há um Estado que trabalha com apoio dos EUA —– apoio financeiro, logístico e policial. Temos lá um dos maiores índices de assassinatos do mundo, inclusive de mulheres. Em Ciudad Juaréz houve o maior índice de assassinatos de mulheres do mundo, praticados por criminosos de cartéis que a polícia não conseguia combater.

Então, não posso dizer que isso é um indício de que temos de liberar as drogas, mas acredito, sim, que isso deva ser levado em consideração. Nós temos de pactuar isso no País, pois tudo tem consequências e nenhuma situação é simples. Sendo muito sincera, como policial que vivi essa situação, que vejo relação do uso e comercialização das drogas com a exploração sexual de crianças e com a violência doméstica, eu tenho dificuldade com a descriminalização. Por isso, temos que aprofundar essa discussão sem simplifica-la, pois ela não é simples. Dizer que acabaremos com o tráfico não é bem verdade. O crime organizado é inteligente, se modifica, se adapta. É ilusão dizer que descriminalizando as drogas o crime organizado acabará. Claro que não, o crime organizado atua com armas, com pessoas, com tráfico de crianças. Isso também tem de ser colocado, não podemos ter ilusões sobre isso. Nada disso é simples.

Frederico Vitor — Muitas vezes, o preso comanda crimes de dentro da cadeia. Nas buscas, são apreendidos celulares e até armas. Não há um sistema podre dentro de outro sistema decrépito, que é o sistema carcerário brasileiro?
Esse tipo de coisa acontece no mundo todo, até nos sistemas mais rígidos. Faz parte da natureza humana tentar reproduzir dentro do presídio a vida que tinha antes. A corrupção também acontece em todas as profissões. E não só no Brasil, vemos isso no mundo todo. E em locais onde vivemos situações extremas, como nos presídios, isso talvez se acentue mais. E não só a corrupção dos agentes públicos, mas também a ameaça a eles e às suas famílias. Isso acontece e faz parte da impunidade que acontece no Brasil e em Goiás.

Esse sistema deve reformulado. E o caminho é pela educação. Vamos reformular com o objetivo de que essas pessoas sejam ressocializadas, mas, ao mesmo tempo, que a sociedade tenha segurança. Se um preso perigoso faz contato de dentro do presídio, pode ordenar atos de violência e de crime no exterior. A comunicação deve, sim, ser cerceada dentro da legislação. Tem de haver reformulação, investimento e como disse o professor Dione Antonio, em entrevista na semana passada aqui no Jornal Opção [edição 2065], existe um gasto grande em segurança. Então devemos rever a aplicação dessa verba dentro dos objetivos, não somente construindo presídios nos modos em que estão. Não acredito que a solução seja colocar gente cada vez mais jovem dentro da prisão, não acredito que isso seja a solução. O início de um governo federal e estadual é o momento de rever isso. Acredito que a presença de profissionais da segurança pública nos parlamentares abra essa possibilidade. Essa discussão deve acontecer incluindo os trabalhadores da segurança. Acredito que ela por muito tempo foi feita por políticos profissionais. A presença de profissionais da segurança, da saúde e da educação qualifica o debate. Eu passei anos fazendo revistas em familiares de encarcerados no interior de Goiás. Nós vimos o sofrimento e o que eles passam como ameaças de seus familiares, maridos e pais, nós conhecemos esse problema e acredito que nossa experiência pode contribuir para essa questão.

Marcos Nunes Carreiro — O governador Marconi Perillo quer implantar nos presídios as organizações sociais (OSs), nos moldes em que já ocorre na saúde, com o argumento que o sistema privado tem melhor condições de fazer as modificações necessárias. Como a sra. enxerga essa proposta?
Com muita preocupação. Isso deve ser muito bem pensado. Transferir a vida dessas pessoas presas para uma empresa é complicado. Tenho estudado essa experiência no exterior e, além das questões relacionadas à limpeza, não vejo nisso uma grande vantagem. Não vejo nenhuma pesquisa apontando que isso tenha diminuído a impunidade, a criminalidade ou trazido mais ressocialização. Acredito que é muito preocupante transferir essa responsabilidade. Vejo que é uma questão que deva ser estudada profundamente. Todas as propostas do governo relacionadas à segurança pública precisam ser discutidas com a sociedade, porque elas têm impacto na vida das pessoas. Mais uma vez acho que a presença de profissionais como eu, o Major Araújo (PRP) e outros que foram eleitos em todo o País qualifica o debate, assim como profissionais de outras áreas. Mas nossa presença ainda é importante. Creio que temos de ter cuidado com isso. Não conheço nenhuma pesquisa que demonstre que essa experiência trouxe benefício além de limpeza e disciplina, talvez. Mas a corrupção e a violência dentro dos presídios continuam. Por princípio, acredito que os serviços essenciais devem ser mantidos no Estado e que nós devamos procurar cada vez mais qualidade.

Marcos Nunes Carreiro — Onde no exterior já houve experiência de privatização de presídios?
Nos Estados Unidos e Inglaterra. Também já há no Brasil, em Minas Gerais. É uma experiência recente e não há no Brasil pesquisas que demonstrem os benefícios apregoados. Temos de estudar, pois a política prisional não é simplesmente o depósito de pessoas, é uma política pública de Estado.

Elder Dias — O índice de ressocialização de pessoas que estiveram presas nunca é divulgado pelo Estado. Isso é omitido de propósito porque seria passar recibo do fracasso do sistema prisional?
Óbvio que o índice de quantas pessoas foram presas e o de quantas toneladas de drogas foram apreendidas são, sim, importantes, porque demonstram o trabalho da polícia. Mas as políticas públicas devem se voltar para outras pesquisas. Eu acredito que esses dados não são levantados — posso estar enganada. Mas sabemos quantas pessoas reincidem no crime. Acho que um mandato como o meu pode contribuir nesse sentido, para levantar essas discussões.
Nós temos hoje em Goiás uma polícia que prende muito e apreende grandes quantidades de drogas. No ano passado tivemos recordes de apreensão. Os policiais do Denarc [Delegacia Estadual de Repressão a Narcóticos], para mim, são os mais esforçados e dedicados que eu conheço. Mas isso não tem significado a diminuição da criminalidade em nosso Estado. Ao mesmo tempo em que investimos no trabalho de melhoria da estrutura dos policiais na estrutura ao combate ao grande tráfico, temos de investir também, e pesadamente, na prevenção ao uso de drogas lícitas e ilícitas. Coloco isso como prioridade do meu mandato.

Outra questão colocada na entrevista do professor Dione — e com que eu concordo, como delegada que combateu durante toda a carreira a violência doméstica —, é sobre o álcool, uma droga lícita com aceitação social e que está presente em grande partes dos crimes. Das pessoas que hoje estão em situação de rua, muitas são usuárias de álcool. Também temos muitas pessoas envolvidas em violência doméstica por causa dessa droga, que causa problemas recorrentes, os quais todos os dias acompanhamos.

Elder Dias — Então são subestimadas as ocorrências que envolvem álcool?
Acredito que sim. Mas como você levanta uma estatística, que é a única levantada pelos órgãos de segurança e reproduzida pela mídia devemos usá-la, porque acredito que é importante ter uma dimensão que o trabalho da polícia está acontecendo, o que mais precisa ser feito. Mas devemos levantar quantos adolescentes em conflito com a lei foram internados e quantos conseguiram se recuperar. Devemos saber quantos jovens foram assassinados no Estado neste mês, mas também quantos são egressos do sistema prisional juvenil. Esse dado é importante para podermos dizer onde o Estado falhou na vida desses adolescentes. Com isso saberemos em que o Estado tem de intervir e em que as famílias têm que intervir para que esses garotos não sejam mortos aos 17, 18 ou 20 anos.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.