Óscar Martins, o goiano que conquistou o segmento de festas no Brasil

Empresário responsável por um das principais eventos de Goiânia, que gera empregos e movimenta a economia local, conta por que está de mudança para São Paulo

Óscar Martins | Foto: Nathan Sampaio/Jornal Opção

Óscar Martins, 29 anos, é um empreendedor clássico. Em 2014, quando já tinha falido cinco empresas e se aventurado na carreira política, resolveu apostar em uma cachaça e decidiu fazer uma festa para lançá-la. O evento, que, inicialmente, era para cerca de 500 pessoas, teve quatro mil participantes.

A Festa Óscar foi um sucesso e entrou de vez na agenda de Goiânia. Mas não se trata de uma festa qualquer. O empresário investe em produção e diz que o objetivo não é vender artistas, e sim o espetáculo, que conta com apresentações teatrais ao longo da noite.

Contudo, algumas dificuldades fizeram com que Óscar Martins mudasse sua base para São Paulo. Em entrevista ao Jornal Opção, ele explica suas motivações, além de comentar sobre sua trajetória e seus planos para o futuro.

A sua primeira festa foi em 2014. De onde surgiu a ideia?
Tentando empreender, constituí cinco empresas em segmentos diferentes. Todas elas deram errado. Daí fui passar um tempo na fazenda do meu pai em Quirinópolis e lá tinha um alambique que estava praticamente abandonado. Viajei para São Paulo e lá conheci uma cachaça para beber com gelo que mistura mel e limão. Tomei o produto, gostei e levei a ideia para reativar o alambique. Demorei seis meses para desenvolver a cachaça e tive a ideia de fazer uma festa para lança-la. A princípio, seria uma festa para 500, 600 pessoas, mas deu mais de quatro mil. Percebi que a procura estava grande e contratei uma agência, a B2, que produziu a primeira Festa Óscar. A segunda, em 2015, eu já produzi por conta própria. Esta foi a festa que, de fato, mudou o conceito deste tipo de evento, com palco maior.

Qual é o conceito das suas festas?
Internamente, não chamamos mais de Festa Óscar. Chamamos de Espetáculo Óscar. Investimos muito em produção, em palcos maiores. Em 2018, foi o segundo ano que houve horário máximo de entrada. Ninguém pôde entrar depois das 2 horas da manhã mesmo portanto convite. O planejamento leva em torno de oito meses, criamos um roteiro e é como se fosse literalmente um teatro. Um espetáculo, com começo, meio e fim. Pelo valor alto do tíquete que vendemos, colocamos o horário máximo de entrada para a pessoa ser obrigada a pegar toda a história desde o começo da festa, até para não sair do evento e dizer que o produto não é bom. Para entender o produto, é preciso chegar no máximo até este horário estipulado. Seria como ir ao cinema, chegar atrasado e perder uma parte do filme.

É inegável que as festas deram certo. Mas a cachaça também deu?
A cachaça acabou ficando em segundo plano. Mas ainda estamos produzindo, estocando e envelhecendo.

Então ainda é um desejo fazer com que a cachaça dê certo?
Sim, sim. Mas, por enquanto, está de standby.

A cachaça é servida nas festas?
Sim, servimos. É uma cachaça com mel e limão e teor alcoólico bem baixo. É uma bebida bem refrescante.

Hoje, não existe só a festa. Há também uma empresa. Como ela funciona?
Ela se chama Agência Óscar. Como é um evento que demanda bastante tempo para fazer o planejamento, acabamos contratando pessoas para ficar full time. Estamos executando também eventos corporativos, produção de clip e todo tipo de criação de conteúdo para marcas.

A empresa fica em São Paulo?
Sim. Consegui mudar toda a minha base de Goiânia para São Paulo há seis meses.

Em média, são quantas festas por ano?
De quatro a cinco.

E elas ocorrem em quais cidades?
Trancoso, Campinas e São Paulo são algumas das cidades.

É verdade que a Festa Óscar deixará de ser realizada em Goiânia e passará para São Paulo?
Sim.

Por que desta mudança?
Porque aqui eu só encontrei dificuldade para executar o empreendimento.

Que tipo de dificuldade?
Muita burocracia, às vezes até mais do que o normal. Até por parte do setor privado eu encontrei dificuldade. Pessoas querendo aumentar valores de algumas coisas pela festa ter fama de ser só com gente de alto poder aquisitivo.

Querendo ganhar em cima?
Exatamente.

Em Goiás, o sertanejo é muito tradicional. Este tipo de música já entrou nas festas que houve em Goiânia?
Não é o nosso foco. Até hoje não entrou, mas poderia ter entrado. Para acontecer isso, precisaríamos de algum artista de peso. A festa é eletrônica e seria melhor ter alguém tocando ao vivo do que um DJ colocando música sertaneja.

Como funciona a seleção dos DJs?
Jorge Pyerre é de Goiânia e está desde o começo. O restante é outros lugares do País. Já teve DJ de fora do Brasil também, mas não é o nosso foco. Como disse antes, a festa é basicamente a entrega de um conjunto. A nossa diferença para as demais é que as outras festas focam mais em artistas e nós focamos em um conjunto de coisas. Demanda mais tempo de planejamento. Tem que pensar mais, trabalhar com criação. E os outros eventos simplesmente contratam um artista que está estourado no Spotify e pronto. Eles vendem o artista e não o evento.

Voltando à questão dos problemas enfrentados em Goiânia, já houve reclamações de som alto?
O Ministério Público de Senador Canedo sempre fazia uma reclamação, mas eu acho que é mais por falta de conhecimento da parte deles. A promotora Marta Loyola é uma dessas pessoas que eu acho que fica tentando encontrar pelo em ovo. Todas as vezes eu tive que ir lá, assinar TAC [Termo de Ajustamento de Conduta], fazer doações. Uma vez fui obrigado a fazer uma doação de R$ 90 mil para uns meninos que cometeram infrações. Alguns, até onde eu sei, já cometeram homicídio. São menores que foram pegos traficando e usando drogas. Ao invés de pegar os melhores alunos da rede pública de Senador Canedo, ela optou por pegar os piores. Ao invés de reconhecer os melhores, ela reconhece os piores e dá esta oportunidade para quem não quer, coloca esses meninos em uma sala de contêiner, com ar-condicionado e computador, e deixa os melhores que querem, de fato, crescer na vida, sem esta oportunidade. Não sei se ela anda com segurança ou carro blindado, mas acho que isso ocorre porque ela provavelmente nunca teve um adolescente apontando uma arma para a cabeça dela. Eu já tive.

Em Goiânia, nota-se que há muitas festas. Este boom foi após a primeira Festa Óscar?
Sim, mas não posso afirmar que foi por conta da Festa Óscar.

“São Paulo sempre me prestigiou mais”

Óscar Martins diz que o mercado de festas está “muito prostituído” | Foto: Nathan Sampaio/Jornal Opção

Na sua visão, o mercado de festas em Goiânia tem potencial para crescer ainda mais?
Hoje, é um mercado que não tem mais espaço. Mas não só em Goiânia. Até em São Paulo penso que é um mercado que está muito prostituído.

Prostituído em que sentido?
Não cobram mais ingresso e distribuem muitas cortesias para tentar ter lucro no bar. As boates, hoje, estão voltando. E acho que estão voltando com força porque a experiência do público que vai a estes eventos está sendo muito ruim. A pessoa não sabe se terá que fazer xixi no muro, dentro do lixo ou escondido, porque não tem banheiro suficiente. As boates estão voltando devagar, mas estão voltando. A pessoa que vai a uma boate sabe onde é o banheiro. Por mais que seja às vezes uma experiência média, você sabe que será uma experiência média. Já nesses eventos que distribuem muitas cortesias, você sabe que a entrega não será tão boa.

De onde vêm as pessoas para as suas festas em Goiânia?
O Estado que sempre mais me prestigiou foi São Paulo. E este também é um dos motivos pelo qual resolvi mudar minha base. Goiás é geralmente o segundo e já chegou a ser o terceiro.

Quais Estados geralmente estão em terceiro, quarto e quinto?
Muda bastante. Neste ano, o Paraná foi o terceiro Estado que mais comprou convite. No ano passado, o Rio de Janeiro ficou em quinto e, em 2018, ficou em sétimo.

Vem gente de outros países também?
Pouco, mas vem. Dos Estados Unidos sempre vem gente. Há muito brasileiro que mora fora do País e aproveita a data para vir.

Há uma noção de quanto se movimenta na economia goiana com essas festas?
Movimenta bastante. Já inicializamos este estudo algumas vezes, mas nunca foi finalizado. O termômetro que eu tenho é a dificuldade de as pessoas em pedir Uber, de ir a restaurante e de comprar roupa. Já até aconteceu um fato engraçado dentro de casa. Minha mãe foi comprar um casaco em uma loja e a vendedora disse que havia vendido tudo para pessoas que foram à Festa Óscar.

Goiânia certamente sentirá bastante com a sua saída.
De fato. Todo mundo agradece e diz que ganhou muito dinheiro. Motoristas de Uber, garçons, hotéis, salão de beleza.

O segmento de eventos precisa de mais apoio do Estado?
O segmento de eventos gera empregos e movimenta muito a cidade. Acho que o Estado deveria abraçar mais quem trabalha com isso. Mas, além de não abraçar, nos olha com um pouco de preconceito, principalmente com os menores. Hoje, este segmento está se profissionalizando bastante e deveria ter mais apoio.

Este preconceito tem aumentado ou diminuído?
É difícil dizer, mas acho que tem diminuído porque a nossa classe está tentando se unir. Estamos nos organizamos mais para justamente acabar com este preconceito.

Em São Paulo há mais apoio do Estado do que em Goiânia?
Acredito que sim. Aqui, corre o risco de se fazer todo o planejamento e, no dia da festa, o fiscal meter a caneta e embargar o evento ou de darem o alvará e depois não darem mais. Não há segurança jurídica.

A festa do réveillon será a sua última em Goiânia?
A última eu não digo, mas a Festa Óscar, que é o nosso principal, é 99,9% de certeza que não será mais em Goiânia. A única chance de ser em Goiânia é por causa de um patrocinador, a Itaipava, que tem interesse em manter o evento aqui.

Então ainda não é certeza?
Tive uma reunião com eles recentemente. De qualquer forma, se mantermos o evento aqui, farei um braço em São Paulo. O único motivo por ainda não ter decidido é esse.

Quais são as suas expectativas para o futuro da Agência Óscar?
Nossa meta dentro da empresa é consolidar os novos braços como produtora, ficar mais forte na entrega de eventos corporativos e pegar todo o know-how que temos das festas e aplicar em outros segmentos. Estamos tentando também fazer gestão de carreira de DJs e youtubers.

Procede que o sr. já tentou ser político?
Sim. A pessoa que consegue descobrir o que gosta de fazer é privilegiada. Muitas pessoas morrem sem descobrir algo com o qual goste de trabalhar. Meu pai me perguntava muito sobre isso quando estava na batalha de tentar empreender. Em 2008, fui candidato a vereador em Quirinópolis pelo DEM e fiquei como segundo suplente.

Teria vontade de tentar ingressar na carreira política de novo?
É algo que eu gosto, mas acho que este não seria o momento.

Mas não está descartado?
Não. Não está descartado.

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