“O carro tem de deixar de ser um bom negócio no Brasil”

Presidente do Detran-GO defende redução de impostos sobre os veículos, mais rigor na punição a motoristas infratores e diz que o órgão tem de ser parceiro do cidadão

Presidente do Detran Goiás, Marcos Roberto Silva | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Marcos Roberto Silva assumiu a presidência do Detran Goiás no início do ano. Desde então, o órgão adotou uma política de redução de taxas para o motorista. A inspeção veicular, por exemplo, custava R$ 175,76, valor que caiu para R$ 108. A taxa de emplacamento, que era de até R$ 200, passou para R$ 120, mais R$ 8 do lacre.

As mudanças, segundo ele, foram possíveis graças à revisão de contratos com empresas que prestam serviços ao órgão. “Já economizamos 143 milhões, entre a redução de custos para o Detran e para o cidadão”, diz. Em entrevista ao Jornal Opção, Marcos Roberto Silva conta que é favorável a mais rigor contra o motorista infrator, mas critica o uso de câmeras de videomonitoramento para multar. Leia a seguir.

 

Euler Belém – Como é a questão da inspeção veicular? Existia um esquema sobre isso?Não posso dizer que existia um esquema. O que existe é uma empresa que tem a concessão pública por dez anos. Os órgãos de controle – Tribunal de Contas do Estado, Controladoria-Geral do Estado e Procuradoria-Geral do Estado – estão avaliando essa concessão. Até hoje não houve uma definição sobre esse contrato.

Quanto a uma eventual corrupção, não é uma situação que temos conhecimento até agora. O que fizemos, a pedido do governador [Ronaldo Caiado], foi reavaliar o contrato e chegamos a uma revisão da taxa, que era de R$ 175,76 e foi para R$ 108. Também avaliamos dentro da Resolução 466 e retiramos alguns serviços. Só nesse contrato, que ano passado foi de R$ 91 milhões arrecadados com as taxas cobradas da população, esse ano houve uma redução de R$ 49,2 milhões. Foi, portanto, uma mexida de mais de 50%.

Não estou dizendo que o contrato estava errado, mas a AGR [Agência Goiana de Regulação] entendeu que os valores cobrados não estavam adequados, por isso foi feita a readequação de valores. Isso pode ser revisto a qualquer momento.

Rafael Oliveira – Essas taxas foram reduzidas porque foi encontrado algum tipo de superfaturamento?
Não. O contrato especifica que a vistoria tem uma limitação de lucro, 2%. Como estava acima, apresentamos um estudo ao Tribunal de Contas do Estado, que se convenceu que o contrato tinha mesmo de ser revisto para que fizesse o balanceamento das cobranças ao cidadão.

O que houve foi uma análise mais profunda do contrato, não foi nada além.

Rodrigo Hirose – O sr. disse que a limitação deveria ser de 2% na margem de lucro. Qual a margem estava sendo praticada?
Mais de 3%. O contrato estipulava um limite mínimo de repasse para o Estado de 15% sobre a concessão. Quando o valor estava em R$ 175,76, o Detran ficava com R$ 26. Além desse valor do Detran, a empresa tinha de apresentar todas as despesas dela com aluguéis, pessoa, etc. Foi, então, constatado que a empresa estava tendo um lucro superior ao que estava no contrato. Por isso, foi feito o balanceamento do preço. A empresa, agora, está querendo uma nova reavaliação, pois alega que vem tendo prejuízo, o que é um direito dela.

Rodrigo Hirose – Existe a possibilidade de se chegar a um meio-termo nesse valor da taxa?
Lógico. Podemos fazer isso a qualquer tempo. Não estamos ali para penalizar ninguém. Dentro da lógica contratual e legal, não há problema nenhum em rever [a taxa]. Já coloquei isso à diretoria da empresa de vistoria. Mas nossos técnicos farão a averiguação e ver se realmente os valores têm de ser revistos, tudo com direito ao contraditório.

Tudo que temos feito é transparente, não é um processo sigiloso. Como o governo o é novo, há quem acredite que exista perseguição. Não estamos perseguindo ninguém, mas trabalhando dentro do contexto exigido pelo governador. A primeira ordem foi rever todos os contratos e o contrato de concessão pode ser revisto.

Augusto Diniz – O que tem sido feito para diminuir os gastos do Detran?
Tivemos uma redução de mais de 20% nessa nova negociação de contratos. Estamos deixando de pagar R$ 46 milhões para empresas. Revimos o contrato com os Correios, que é o maior que o Detran tem atualmente, revimos o contrato [de confecção] de CNH. Abrimos o processo licitatório para [confecção] do CRV e CRLV. Fizemos várias repactuações com a TI [Tecnologia da Informação].

Tiramos a taxa de R$ 182 que era cobrada por registro de contratos. O órgão não perdeu, pois ele não ficava com nenhum centavo, o cidadão é que deixou de pagar. A empresa ganhava sozinha, pois foi credenciada por meio de uma ata de registro de preços.

O Detran não ganha nada com a empresa de placa, a não ser a taxa normal de vinte e poucos reais, enquanto o cidadão pagava mais de R$ 200 para fazer uma placa. Reduzimos esse valor para uma situação de preço de mercado. Buscamos essa avaliação em todos os Estados, entramos em contato com quase todas as empresas credenciadas no Denatran. Estamos introduzindo uma nova maneira de administrar, privilegiando o cidadão, e buscamos o menor valor. Conversamos também com os estampadores e chegamos a R$ 120 mais R$ 8 do lacre.

São várias as situações de redução [de gasto] para o cidadão. Com o projeto Mãos Dadas, estamos chegando a R$ 143 milhões de economia direta e indireta. Só para o cidadão, a economia foi de R$ 97 milhões em recursos que eram cobrados sem necessidade.

Estamos apenas no começo. A partir do momento em que desenvolvermos nosso sistema de tecnologia, o cidadão se beneficiará mais ainda, porque quase todos os serviços irão para o celular. O aplicativo será o maior foco do Detran daqui para frente.

A CNH Digital é um dos serviços online oferecidos pelo Detran Goiás | Foto: Divulgação

Rodrigo Hirose – Quais os serviços serão prestados via aplicativo?
O último que colocamos foi o comunicado de venda. Tem também os boletos. São Paulo foi o primeiro Estado do Brasil que desenvolveu a emissão da segunda via da CNH sem precisar ir ao Detran. O nosso sistema está bem desenvolvido, mas surgiram alguns questionamentos a partir da experiência de São Paulo, em relação ao aproveitamento da foto.

O Detran paulista aproveitava foto de até dez anos, mas o Denatran determinou que o limite tem de ser dois anos. Em Goiás, para diminuir o valor do contrato com a Valet – que é a responsável por confeccionar a CNH –, vamos aproveitar as fotos com até cinco anos.

Rodrigo Hirose – Não é possível o aplicativo utilizar uma selfie, como fazem as fintechs, os bancos digitais?
É uma situação de padronização nacional, o Detran de Goiás não pode criar uma regra nova. Há o sistema nacional, o Renach, e todas as informações vão para ele. Se não estiver no padrão, não passa. O Detran é um permissionário do Denatran.

Ítalo Wolff – Haverá uma economia ainda maior quando todos os serviços estiverem no aplicativo?
O aplicativo já está operando, é o Detran Go On. Além da economia, há a redução de serviços dentro do órgão. Faremos uma reunião com as empresas operadoras de cartão de crédito e credenciaremos também bancos grandes para que os proprietários possam pagar todas as despesas do veículo, e até mesmo a CNH, via aplicativo. É economia de tempo.

Também queremos colocar a emissão de certidões de graça dentro do aplicativo. Outros serviços que irão para o aplicativo serão divulgados em outro momento, para se evitar as pressões.

Augusto Diniz – As empresas alegam que fim da obrigatoriedade do uso de simuladores nos Centros de Formação de Condutores trouxe prejuízos a elas. Como está a relação dos Detrans com elas, a partir do momento em que os alunos decidem se querem ter aulas no equipamento ou não?
Digo sempre ao pessoal das autoescolas que temos de nos preparar para o futuro. O simulador é apenas uma questão entre vários detalhes que o governo federal quer modificar. As associações das empresas têm de se unir e entender que o cidadão que quer tirar a CNH não pode sofrer uma cobrança tão alta. Em média, para se tirar uma CNH, o candidato pagava R$ 2 mil. Sem o simulador, esse preço caiu para em torno de R$ 1,7 mil, que ainda é alto. Com a facilitação por meio das novas tecnologias, o Detran também pode baixar suas taxas.

As autoescolas gastaram com telemetria, com simuladores – ainda que a maioria trabalhe em condomínios. Agora, temos de nos reinventar diante da nova política do governo federal. O Detran não consegue diminuir valor de CNH, quem consegue é o governo federal.

As autoescolas devem se organizar e levar ao Ministério da Infraestrutura e ao Denatran medidas que realmente beneficiem o cidadão.

Augusto Diniz – Pessoalmente, o sr. entende que o simulador é necessário?
O uso do simulador, até o momento, não gerou qualquer dado estatístico. Mas tem pessoas que têm dificuldade em guiar veículo. Tivemos de abrir o Detran para que as pessoas tivessem acesso ao departamento de psicologia. Porque há pessoas que podem ter 30 horas de aula de volante e continuar com dificuldade, elas sabem dirigir, mas quando veem o examinador começam a tremer, o medo de dirigir a faz ter dificuldade de dirigir. Então, o simulador é caso a caso. Ao decidir pela facultatividade, o governo federal pensou mais em reduzir o valor para tirar a CNH.

O uso de simulador não será mais obrigatório | Foto: Divulgação

Rodrigo Hirose – O governo federal apresentou uma série de mudanças para ter ou renovar a CNH, como a diminuição de horas aulas prática e intervalo maior na renovação. Qual impacto dessas medidas na qualidade do motorista?
O aumento no período para renovação, de dez anos ou cinco anos, dependendo da idade do motorista, terá um impacto financeiro em Goiás em quatro anos. Mas na questão da saúde pública, a mudança deve ser olhada com uma visão um pouco crítica. As pessoas perdem a visão de forma muito rápida. Qual será o critério [para a renovação]: haverá um critério mais rigoroso? Isso tem de ser avaliado de forma profunda. A discussão tem de incluir órgãos de estatística, segurança pública e saúde.

Hoje, mais de 40 mil pessoas perdem a vida todo ano em acidentes de trânsito. Nós, brasileiros, temos de nos preocupar com isso. Todas as mudanças no trânsito são impactantes. Nos lugares do mundo em que o trânsito é bom, os veículos não são negócio. No Brasil, o veículo é negócio.

Ítalo Wolff – Há estudos em longo prazo acerca de como essas facilidades se converte em número de motoristas?
Ano passado, houve mais de 600 renovações ou novas CNHs. Isso representa uma arrecadação de mais de R$ 100 milhões. Se a renovação passa de cinco para dez anos, vamos perder receita. Esse impacto começaria a surtir efeito em quatro anos.

O que preocupa é o fato de alguém que hoje tem 60 anos de idade, amanhã terá 70. No Brasil, um dos grandes fatores de perda de visão é o diabete. Há também a questão da pressão arterial, que é um dos fatores mais importantes nas reprovações dentro do Detran. O motorista que tem alteração na pressão arterial não pode dirigir, pois pode enfartar ou ter um AVC a qualquer momento ao volante.

Todos os órgãos têm de estar unidos pois, apesar dos benefícios [financeiros], eles têm de proteger a vida do cidadão. Tudo bem dar um benefício, mas o motorista tem de entender que precisa se cuidar.

Rodrigo Hirose – Já há algum estudo do impacto da retirada dos radares móveis das rodovias goianas, tanto estaduais quanto federais?
Em relação aos acidentes, temos uma redução de 17% na comparação com ano passado. Em relação às multas, também tivemos redução. No ano passado, foram arrecadados mais de 3,6 milhões de multas. Esse ano, estamos em 2 milhões, com projeção de chegarmos até o fim do ano com aproximadamente 2,7 milhões de multas. Ressalvando que 2018 foi ano eleitoral, que estaticamente tem redução no número de multas.

Marcos, sobre a retirada dos radares móveis: “Houve diminuição de acidentes e multas este ano” | Foto: Agetop

Mas o mais importante em nosso trabalho é a educação do cidadão. Estamos construindo a escola pública de trânsito e queremos uma parceria com a Secretaria de Educação para entrarmos em todas as escolas, via EAD [Ensino à Distância], prestando informações e educando desde o início escolar até as pessoas que estão saindo.

É muito interessante ver uma criança chamando a atenção do pai por causa de alguma imprudência no trânsito. As crianças têm de entender desde novinha que tem de ir na cadeirinha. Isso vai forçar o pai, que mesmo que não esteja obrigado, em uma eventual mudança na legislação, a usar a cadeirinha para resguardar a vida do filho.

Esse é o sentimento que temos de ter. Nós dirigimos é para nós mesmos e não para os outros. Já me quebrei todo no trânsito. Um cidadão na ordem contrária atravessou a pista dupla e me pegou de frente. Tive várias fraturas que vou levar para a vida toda, que vão avançar para artrose, hérnia de disco. Temos de pensar nas consequências de um acidente de trânsito, pensar que temos de nos proteger.

Rafael Oliveira – Algumas estatísticas apontam que até 80% dos acidentes de trânsito são causados por imprudência dos motoristas. Como o sr. avalia as campanhas de trânsito no Brasil? Por que as campanhas antitabagismos dão o mesmo resultado e as de trânsito não?
Quando o código de trânsito foi feito, caso uma pessoa morresse atropelada, por exemplo, seria homicídio culposo. Não importa se o motorista estivesse embriagado. O código de trânsito passou por uma discussão ampla, no início foi um projeto tímido. Depois veio a lei seca e surgiu a figura do homicídio doloso. Foi um avanço.

Mas temos de avançar ainda mais para a responsabilidade. A punição por furar um sinal vermelho não pode ser só a multa, pode, por exemplo, ter de prestar serviço comunitário. Nos Estados Unidos, se o motorista faz isso vai parar na corte.

Augusto Diniz – O sr. faltou do trabalho que o Detran pretende fazer com as crianças. Mas o que pode ser feito com a população que já está no trânsito?
Em Goiânia, temos de trabalhar a reeducação em toda a Região Metropolitana, mas toda campanha gera uma despesa. Queremos trabalhar em uma parceria com as prefeituras, governo do Estado e órgãos de segurança pública, tanto para conscientizar o cidadão quanto para reorganizar o trânsito.

Temos um modelo aqui do lado, na Colômbia. O trânsito de Bogotá era violento e desorganizado. Hoje é um dos melhores trânsitos da América do Sul. Tem jeito, basta os órgãos responsáveis se unirem e, em uma nova mentalidade, começar a trabalhar. Tem de ser algo o tempo inteiro, nas escolas, no trânsito, nas empresas, envolvendo a sociedade toda.

Brasília é um exemplo. No Plano Piloto, onde há intensa fiscalização, o trânsito é organizado. Já nas cidades satélite, não é. Mas temos de mudar essa mentalidade. Ninguém precisa ser vigiado para obedecer a uma faixa de pedestres. Não precisa uma câmara para não passar um sinal vermelho.

Rodrigo Hirose – Além da educação, o que pode ser feito em termos estruturais para que o trânsito possa ser mais amigável, especialmente em Goiânia?
A integração entre o Detran e os entes municipalizados está sendo quase diária. Estamos trabalhando com estatísticas com foco em acidentes, para saber onde há mais multas, onde há mais furto e roubo [de veículos]. Temos esse conhecimento.

No Entorno do Distrito Federal estamos fazendo algo assim, conversando para fazer uma integração dos municípios com o Detran de Goiás. Na região, a maioria das pessoas prefere fazer serviços em Brasília.

Goiânia arrecada muito, é o município que tem mais veículos, depois vem Aparecida. Esses valores, se vêm de taxas de veículos, têm de ser aplicados no trânsito. Aí vai se ter uma engenharia de tráfego funcional – a maioria dos municípios não tem engenharia de tráfego, é o Detran que banca esse serviço.

Existem lugares que não precisam de um semáforo, tendo maior mobilidade. Isso é engenharia de tráfego. O administrador público também tem de se convencer que é preciso mudar, tem de estudar. É nisso que temos de trabalhar.

Augusto Diniz – A CTM propôs a criação de um fundo para desonerar a tarifa do transporte coletivo. Como o sr. avalia a proposta de aumento na taxa de licenciamento para que os valores sejam revertidos para o transporte coletivo?
Minha visão pessoal, e não de governo, é que se for aumentar o licenciamento tem de ser apenas na Região Metropolitana. Não posso me aprofundar muito no assunto, porque não fui chamado para discuti-lo.

Rodrigo Hirose – O Detran está buscando agilizar a entrega dos documentos aos motoristas. Como estão esses prazos?
Na sede do Detran, conseguimos entregar o documento em até duas horas após o pagamento da guia. No interior, demoramos até uma semana. No interior, estamos acionando os Ciretrans, para enviar os malotes para os municípios. Os documentos ficarão disponíveis no Ciretran, assim não ocorre a devolução por causa de inconsistências no endereço, por exemplo.

Augusto Diniz – Não há mais o contrato com os Correios?
Sim, a entrega dos malotes aos Ciretrans é feita via Correios, só diminui o custo. Estamos avançando também com os Correios para que o cidadão possa buscar neles os documentos em municípios que não possuem o Ciretran. Estamos nos preocupando muito com isso, porque a pessoa, quando paga, geralmente já está em cima do vencimento, então ela precisa do documento.

O que vai facilitar muito é a implantação, pelo governo federal, do CRLV eletrônico. Aliados à CNH digital, o motorista não terá mais preocupação, desde que queira seus documentos no celular. Em alguns Estados, como Santa Catarina, isso já está acontecendo. Em pouco tempo, isso chegará a Goiás.

Augusto Diniz – Hoje já é uma regra em todas as blitz a aceitação do documento digital?Já é assim. Só que não havia redução de custo para o cidadão. Haverá uma redução de até mais de 50% na segunda via ou renovação de CNH.

Rodrigo Hirose – A Balada Responsável está sendo feita com frequência? Ao longo do tempo, os motoristas estão ficando mais responsáveis?
As blitz continuam normalmente de terça a domingo e, em situação eventual, fazemos a blitz surpresa na segunda-feira. Os sete dias da semana são trabalhados. Como a fiscalização está bem rígida, a quantidade de flagrantes tem aumentado, como no caso de pessoas alcoolizadas ou com o documento do veículo atrasado.

Há casos em que o veículo apreendido tem tantos débitos que o valor é maior que o do próprio veículo, então a pessoa o abandona. Mas as blitz são mesmo para averiguar a documentação e se o motorista está alcoolizado. Isso é a busca pela segurança. Tem motorista com 60 anos de idade e não tem CNH.

O motorista goianiense costuma se recusar a fazer o bafômetro, para depois tentar uma limitar na Justiça que suspenda o processo administrativo. Mas o STJ [Superior Tribunal de Justiça] entendeu recentemente que a recusa do bafômetro não é suficiente para que as pessoas se beneficiassem desse tipo de procedimento.

Em pouco tempo, não haverá mais a necessidade de que o motorista sobre o bafômetro [para fazer o teste de alcoolemia], bastará aproximar o equipamento dele. As coisas vão evoluindo. Culturalmente, as pessoas têm que mudar.

Augusto Diniz – Como o sr.  vê a recente decisão da Justiça Federal que restringiu a aplicação de multas, por meio de câmeras de monitoramento, apenas àquelas que não invadem a privacidade do motorista?
Existem outras formas de fiscalização menos agressivas. O motorista não pode se sentir intimidado apenas porque está dirigindo. Há diversas situações de vídeos em que a intimidade das pessoas foi invadida. É preciso um regramento nacional para que eu acredite que o videomonitoramento não invade a privacidade. Portanto, sou totalmente contrário [ao videomonitoramento].

Augusto Diniz – O que já mudou em relação ao preço do emplacamento e o que ainda vai mudar em relação à padronização das placas?
Desde 1º de agosto, o cidadão paga, em Goiás, R$ 120 [pela placa] mais R$ 8 do lacre. Estamos trabalhando duramente para que esse valor não mude com a vinda das placas do Mercosul, que têm uma tecnologia nova. O valor atual é uma vitória grande para o órgão e para o cidadão e, se entrar a obrigatoriedade da placa Mercosul em fevereiro, não aja muita alteração. Todas as medidas que fizemos até hoje visaram a proteção do órgão e do cidadão.

Uma de nossas maiores bandeiras é a limpeza dos pátios, que estão abarrotados em todos municípios, com sucatas e veículos de 20 anos. Outra bandeira é a realização de concurso para o Detran, que é quase uma obrigação, devido à escassez dos quadros. Nós temos 193 servidores, de um total de 2,1 mil, que são efetivamente do quadro. Precisamos rever isso, assim como a disparidade em relação ao plano de cargos e carreira.

Os governantes anteriores não olharam para a estruturação do órgão. Nós mantemos uma grande parte do Estado, mas o que estamos querendo é continuar com nossas obrigações, mas que as pessoas que ali estão sejam valorizadas. O concurso e o plano de cargos vai sanar essa situação de abandono que existe desde a década de 1980.

Augusto Diniz – Como funciona o programa de Mãos Dadas?
O PCD [pessoa com deficiência] tem dificuldade de mobilidade, de dirigir e para adquirir carros. No meu ponto de vista, eles sempre foram deixados de lado, as pessoas não têm paciência com eles. Isso é uma coisa direta minha. Fiquei vários meses de cama, usei cadeira de rodas, andador e muleta. Sei o que essas pessoas passam de dificuldades.

Pensei em como ajudar essas pessoas que não têm capacidade financeira. Hoje, um laudo médico custa em torno de R$ 300, mas elas, quando vão ao Detran, já usam a perícia médica. [do órgão]. Então, ele pode usar esse laudo, para que ter outro para levar para a Receita Federal e para a Secretaria da Economia?

Rodrigo Hirose – Esses laudos são aqueles utilizados para obter isenções de impostos para adquirir veículos?
Exatamente. Então, passamos a aproveitar esse laudo, que tem toda a veracidade das informações, e tiramos os terceirizados que faziam o serviço junto à Receita e a Secretaria da Economia, cobrando em média R$ 700. Agora o Detran faz tudo, tem uma sala onde o cidadão fica aconchegado. O documento é digitalizado e enviado à Receita e para a Secretaria de Economia, sem precisar ir a cada órgão, perdendo o tempo.

Temos de avançar ainda mais. Esse é apenas um dos pontos. Temos uma relação de aproximadamente 200 pessoas com essa dificuldade.

Augusto Diniz – A Semana Nacional de Trânsito teve como tema “No trânsito, o sentido é a vida”. Quais são as ações dos órgãos de trânsito para que a vida seja mesmo o mais importante?
Trabalhamos em toda a Região Metropolitana e demais municípios para levar a mensagem da importância do cuidado no trânsito. Estamos focando na quantidade de vítimas, por isso estamos dentro do Hugo, Hugol e do Crer. Estivemos em corridas de rua. Vamos onde as pessoas realmente possam nos ver e também tentando fazer com que aquelas que tiveram algum problema no trânsito para saber que, se sou um sobrevivente, temos de comemorar ao ponto de levar a mensagem de que é preciso ter cuidado no trânsito. Também estamos levando as informações em campanhas de mídia, em rádio e televisão.

Augusto Diniz – Entre as medidas enviadas ao Congresso pelo governo federal está o fim da multa pelo não uso das cadeirinhas infantis dentro dos carros. O sr. acha que é possível retirar a multa ou ela continua necessária?
Só consigo forçar o cidadão a usar a cadeirinha se tiver multa. Uma cadeirinha pode chegar a até R$ 1,2 mil. O cidadão faz as contas e imagina que basta dirigir devagar. Mas sempre haverá outro motorista correndo.

Não existe sistema veicular que dê garantia de segurança às crianças, estatisticamente, quem está fora da cadeirinha morre mais. Acredito que a multa deve ser mantida. Dificilmente o Congresso Nacional vai mudar isso, votando pela facultatividade.

Augusto Diniz – No início do ano, o Sindifisco apresentou ao governo estadual uma série de propostas para aumentar a arrecadação do Estado. Uma delas é ampliar a cobrança de licenciamento para veículos com até 20 anos de fabricação. Essa medida é viável?
O governo anterior diminuir para dez anos a idade máxima dos veículos para cobrança de IPVA. Isso mexeu muito com a economia dos municípios, porque a legislação anterior estipulava esse limite em 15 anos de fabricação. A Prefeitura de Goiânia, então, conseguiu uma limitar manter a regra dos 15 anos, alegando que estava perdendo R$ 50 milhões em arrecadação.

Sempre que um novo governo assume, surgem propostas que podem levar a mudanças de pensamento. Mas já existe uma legislação. Às vezes os municípios também não aceitam essas mudanças.

Rafael Oliveira – Em alguns estados norte-americanos, o motorista é dono de uma placa, que é levada com ele quando ele troca de carro. Um modelo desses é viável no Brasil? Traria algum benefício?
Nos Estados Unidos, o carro é visto de forma diferente. No Brasil, o carro é um negócio. Existe uma cadeia lucrativa. Tem vistoria, placa, venda de peças, reforma, venda de veículos. O governo federal e os governos estaduais sabem disso. Na maioria dos Estados, são os Detrans que mantêm a máquina estatal girando.

Temos que quebrar essa cultura de o veículo ser um bom negócio. O veículo é muito taxado. Se o governo [Jair] Bolsonaro conseguir fazer entrar na cabeça dos congressistas, na reforma tributária, medida para que o Estado brasileiro não passe mais a tratar o veículo como bom negócio, o valor de taxas e placas vai diminuir.

No mundo afora, onde o trânsito tem mais mobilidade, o cidadão não é onerado, pois a economia tem outra vertente, sem tanta carga em cima dos veículos. Veículo não pode fazer governo andar, há outras medidas.

Augusto Diniz – Em que o Detran precisa avançar?
O Detran precisa demonstrar para o cidadão que ele é um órgão parceiro. Como permissionário de serviço público, ele está ali para servir. Aumentamos em mais de três vezes o atendimento da ouvidoria. Tem muitas reclamações, mas tem elogios também, e conseguimos formar um grande banco de dados, para saber quais são os maiores problemas. O dia em que não quisermos mais ouvir o cidadão, podemos entregar o cargo.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.