“A nova mesa da Câmara de Goiânia vai ajudar Paulo Garcia mais do que ele imagina”

À espera da definição para sua situação no PT após ter renunciado à vice na chapa de Antônio Gomide ao governo, vereador eleito para a mesa diretora diz que prefeito deveria ser mais transparente e mostrar em que condições recebeu a administração de seu antecessor, Iris Rezende

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Tayrone: “Paulo age de forma errada com os vereadores, aí ele diz que sabe que está certo” | Foto: Marcello Dantas/Jornal Opção

Se houvesse uma votação para indicar o vereador goianiense que mais esteve em foco no ano passado, certamente o vencedor seria Tayrone di Martino. O petista, que almejava uma candidatura a deputado federal, acabou por assumir a vaga de vice na chapa puro sangue do partido nas eleições de 2014. A menos de uma semana de ir às urnas, ele renunciou e responsabilizou o prefeito Paulo Garcia pela decisão.

No processo de abalo que a atitude provocou no meio político, especialmente no PT, ambos trocaram fortes acusações durante seguidos dias. Em meio à disputa política, pairou sobre o vereador a suspeita de ter sido cooptado pela base governista, o que ele nega peremptoriamente. “Não tenho contato com o governador. Se hoje eu precisasse falar com Marconi Perillo (PSDB), nem saberia a quem procurar”, responde.

O estopim da crise com Paulo foi a rebelião na votação do IPTU — o que o vereador considera que ter contribuído decisivamente para que o aumento no imposto fosse posteriormente rejeitado pela Câmara. Passados mais de quatro meses, hoje ele é o único petista na mesa dominada pela oposição. Mas hoje, apesar de a relação com o prefeito estar ainda abalada e de manter um tom crítico à gestão, Tayrone afirma que quer contribuir com ele, assim como toda a Câmara, e salienta que é necessário ter diálogo e reciprocidade. Porém, faz observações importantes.

Ao ser questionado se a crise da administração — com uma dívida altíssima — não teria sido uma “bomba-relógio” deixada pelo ex-prefeito Iris Rezende (PMDB), e, caso positivo, se Paulo não deveria ir a público e expor essa situação, ele foi enfático: “Se o gestor anterior deixou de contribuir não só com o sucessor, mas com a cidade toda, as pessoas precisam saber disso.” Nesta entrevista ao Jornal Opção, o jovem político — tem 31 anos — mostra que ganhou em segurança e maturidade depois da decisão radical que o deixou no epicentro de tanta polêmica.

Elder Dias – Em meio a um mandato de vereador em Goiânia o sr. foi conduzido a uma candidatura a vice-governador de Goiás pelo PT. Muitos achariam isso um privilégio, inclusive dentro de seu partido. Mas o sr. tinha a pretensão de ser candidato a deputado federal. Abriu mão para assumir essa candidatura. Foi um privilégio obtido ou um sacrifício?

Participar de uma chapa majoritária, seja a governador, vice ou mesmo ao Senado — como foi o caso de Marina Sant’Anna — é sempre um privilégio, seja no PT seja em outros partidos. Sinceramente, fiquei muito feliz em poder ajudar o partido, mesmo tendo a pretensão de ser candidato a deputado federal. E pessoalmente acho que foi importante me colocar como candidato a vice de Antônio Gomide, que é uma pessoa por quem tenho muito respeito. Admiro o bom trabalho realizado por ele em Anápolis, sua seriedade como político e o vejo como uma pessoa que quer fazer o bem para a população de Goiás.

Quando renunciei a algo que me fazia me sentir honrado, orgulhoso — e sabendo que era importante politicamente para mim —, isso aconteceu simplesmente devido à não articulação dessa candidatura. Eu quis dar uma resposta ao PT, pois o partido — não digo a legenda como um todo, pois alguns militantes entraram de fato na campanha — abandonou o trabalho encabeçado por Gomide e por mim. A campanha foi feita basicamente pelo grupo político de Gomide. As outras tendências estavam cuidando de suas candidaturas proporcionais e outras nem estavam participando da campanha.

A gente percebia que, principalmente em Goiânia, havia uma ausência perturbadora da militância e dos grandes líderes do partido. Era uma ausência que, de tão visível, se tornava presente. Isso, somado à votação do IPTU, às perseguições que sofri e às declarações errôneas do prefeito da cidade, fizeram com que eu não tivesse outro caminho a não ser dar uma resposta à pessoa que tentava me perseguir e à sociedade.

Elder Dias – Então, pode-se afirmar que, se as coisas acontecessem da mesma forma, o sr. renunciaria de novo?

Eu sempre ressalto que dizer não também é poder. Por exemplo: ao dizer não a situações que não concorda na política e às negociatas, você não está sendo ausente, mas assumindo uma postura. Então, ao renunciar, eu proporcionei que o partido colhesse muitos mais efeitos positivos do que se eu tivesse ficado quieto. O partido pode querer me questionar e fazer reuniões para minha possível expulsão, mas o efeito que eu causei ficará. É como uma casa: só se reconstrói quando se diz que está tudo errado e se propõe um projeto de reconstrução.

Marcos Nunes Carreiro – O sr. diz que o prefeito Paulo Garcia não apoiou a candidatura do PT ao governo. Por que então o partido não se pronunciou a respeito disso para, ao invés de permitir sua renúncia, oferecer sanções ao prefeito, que, segundo consta, apoiou a candidatura do peemedebista Iris Rezende?

Política não é “dois mais dois são quatro”, mas um aglomerado de questões. Por exemplo: por mais que muitas lideranças não vissem o prefeito Paulo Garcia na campanha, do ponto de vista político criar desgastes dentro do partido seria muito ruim, pois uma coisa é o prefeito não estar na campanha — e não estava; outra coisa são as pessoas que estão na administração municipal e que apoiaram a candidatura do PT. Se o PT para Vencer [tendência a que pertence o grupo de Antônio Gomide no partido] ou mesmo o próprio Gomide se posicionasse contra Paulo Garcia, isso geraria uma desmotivação na militância.

Ou seja, é uma discussão muito complexa. Eu tomei minha decisão porque precisava dar uma resposta às pessoas, pelas perseguições que estava sofrendo. Meu posicionamento na Câmara foi guiado de acordo com aquilo que eu acreditava. Não acho que o caminho de fazer as melhorias para a cidade seja jogando nas costas do contribuinte um aumento de imposto que sequer foi debatido. Se a cidade amadurecesse o pensamento, no sentido de observar que o aumento viria para melhorar a fiscalização e os investimentos, por exemplo, isso seria razoável. Mas sequer teve discussão. Havia casos de aumento de até 3.000%. Isso até era afirmado pelo presidente da Casa na época [Clécio Alves, do PMDB], tanto é que quando os vereadores conheceram o projeto, que eu já conhecia, também houve rebeliões generalizadas.

Então, acho que, com erros e acertos, naquele momento a renúncia era necessária. Se eu não tivesse feito isso, o projeto do IPTU talvez teria sido aprovado, o partido não estaria tentando se reoxigenar e Gomide teria terminado a campanha como o grande derrotado. Eu falo sinceramente: se a administração em Goiânia fosse bem avaliada diante da sociedade e tivesse apoiado a candidatura de Gomide, ao invés de apoiar uma candidatura perdida, devido ao retrospecto, que era a de Iris Rezende, tenho certeza de que teríamos vencido as eleições. Não tenho dúvida disso.

Elder Dias – O sr. fala de perseguições. De que tipos elas foram?

Eu tinha pessoas ligadas a mim na administração municipal; pessoas competentes, com formação superior e que trabalhavam de fato, com eficiência. Elas foram demitidas sem que houvesse qualquer outra motivação.

Elder Dias – Quantas pessoas?

Cerca de 30. Tinham até pessoas que já estavam na administração antes de eu ser vereador. Eu trabalhava na Prefeitura e fiz amizade com pessoas que gostaram de minha seriedade e, depois, me apoiaram na campanha de 2012. E, apenas pelo fato de elas me apoiarem e eu me posicionar da forma como me posicionei, no dia seguinte da primeira votação do projeto do IPTU, elas foram demitidas — inclusive, com data retroativa ao dia da votação. Ou seja, a intenção era deixar claro que elas estavam sendo demitidas por causa de meu posicionamento.

Eu cheguei a participar de eventos em que as pessoas viraram a cara para mim, não me cumprimentaram. Militantes do PT com quem eu tinha um relacionamento bom, meus amigos até, me pressionaram para que eu mudasse meu posicionamento e votasse contra aquilo que eu acreditava. Então, eu precisava agir dessa maneira até para dizer: “Vocês estão falando com alguém que tem história no partido, que foi escolhido para ser candidato a vice-governador e que não está na política por brincadeira, poder ou vaidade, mas porque acredita na mudança por meio dela.” Nada mais justo do que ver o que estava acontecendo com Gomide e comigo na campanha e dar a resposta que dei.

"Falta a ele [Paulo Garcia] ouvir mais.  É um fator fundamental” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

“Falta a ele [Paulo Garcia] ouvir mais.
É um fator fundamental” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Marcos Nunes Carreiro – Falta habilidade política ao prefeito Paulo Garcia? Ele é um gestor que não é político?

Acho que sim. Trabalhei com o prefeito durante dois anos, eu o conheço e, sinceramente, se me perguntarem o que tenho contra ele, posso responder que não tenho nada. Acho que ele é uma pessoa honesta, não acho que ele esteja usurpando o dinheiro público, vejo-o com vontade de acertar. Acho que ele quer que sua gestão dê certo. Ele é inteligente, tem muita capacidade — não é à toa que é um médico neurocirurgião. Ele tem muitas qualidades, tenho certeza disso. Mas acho que falta a ele ouvir mais.

Paulo age de forma errada com os vereadores, aí ele diz que sabe que está certo. Quando lhe dizem que não está certa a forma com que determinado projeto foi encaminhado, ele diz “não, eu sei que estou correto”. Quem ouve mais tem uma melhora na relação com as pessoas, que querem ser ouvidas. E se você ouvir mais, as pessoas podem aconselhar, podem ajudar. Isso é bom para sua vida pessoal e, para sua vida política, é fundamental.

Marcos Nunes Carreiro – Após sua posição de conflito com a Prefeitura e também com seu partido, o sr. agora compõe a mesa diretora da Câmara, cujo presidente é do PSDB [Anselmo Pereira]. Houve uma aproximação sua com a base do governador Marconi Perillo? E, se houve, como se deu essa aproximação?

Eu não tive aproximação com o governador Marconi Perillo. Eu o conheço de eventos, como a participação dele nas festas de Trindade. E também tivemos duas reuniões: em uma delas eu tive oportunidade de pedir a execução de esgoto na região noroeste de Goiânia — serviço que, inclusive, está sendo executado; e em outra, com todos os vereadores, em 2013 ou início de 2014, quando se falou sobre transporte coletivo e eu pude reafirmar o pedido do esgoto na região noroeste.

Elder Dias — Então o sr. teve apenas um encontro particular com o governador durante seu mandato, em 2013?

Exatamente, em meu primeiro ano de vereador, com essa pauta do esgoto na região noroeste. Portanto, não tenho proximidade com o governador. Eu o respeito, quero que ele faça uma excelente gestão para o Estado e acho que ele fez muitas mudanças positivas do ponto de vista de enxugar a máquina, de fazer a administração se azeitar para dar respostas à população.

Acho que ele fez muitas coisas boas para a cidade de Trindade, com a qual tenho uma relação importante — é a cidade da família de minha mulher e tenho um trabalho ligado à devoção do Divino Pai Eterno —, apesar de não ser vereador de lá. Reconheço que Marconi mudou muita coisa em Trindade, fez vias de acesso, melhorou a GO-060, que é a Rodovia dos Romeiros. Tenho críticas à gestão do governo, principalmente nas áreas de saúde e segurança, mas acho que ela tem pontos positivos. Porém, não tenho contato com o governador. Se hoje eu precisasse falar com ele, nem saberia a quem procurar.

“Não tenho proximidade com o governador Marconi” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Elder Dias – Depois do episódio com o então candidato Antônio Gomide, ninguém da parte do governador ligou para o sr.?

Houve ligações de pessoas ligadas a ele, ligadas à candidatura, gente dizendo para eu declarar apoio a Marconi. Mas, apesar de eu achar que Iris Rezende não iria fazer muita coisa pelo Estado, não iria contribuir muito, aquele momento era de eu ficar quieto, não apoiar nenhuma candidatura nem fazer declarações. Tanto que não apoiei ninguém no segundo turno. Aguardei a definição eleitoral.

Eu achava que a decisão do partido de apoiar Iris era errada, mas entendi o posicionamento do PT pelo apoio que Iris possivelmente daria à candidatura de Dilma Rousseff, o que não aconteceu — em nenhum momento se viu Iris pedir voto para ela. Eu achava que o PT deveria ter exigido isso na hora de apoiar Iris. Mas, do mesmo jeito, eu achava errado declarar apoio a Marconi naquele momento.

Fora isso, esses pedidos para que eu declarasse apoio ao governador, não tive nenhum outro contato com o pessoal dele. Tive contatos de partidos políticos. Jovair Arantes, deputado federal e presidente do PTB, me ligou, me convidou para entrar no partido. O deputado Francisco Júnior e o vereador Virmondes Cruvinel, do PSD, também me convidaram para filiação. O vereador Elias Vaz teve um conversa comigo para que a gente caminhasse junto, já que naquele momento ele estava em dúvida sobre ir ou não para a Rede. Tive convite de várias outras siglas, como o PDT, o PSB e o PP.

Cezar Santos – Mas o PT não poderia tomar seu mandato, se o sr. quisesse sair do partido?

Se eu fosse expulso do PT, não. Aliás, eu poderia, se quisesse, arguir na Justiça que a minha suspensão no partido foi indevida. Tenho como provar por A mais B que fui suspenso indevidamente. Eu poderia entrar na Justiça para pedir desfiliação, tenho absoluta certeza de que, se o fizesse, eu ganharia. Mas acho que não é assim que se faz política.

Se eu for expulso do PT, vou seguir minha vida, ir para outro partido, vou me reconstruir. Mas acho que a gente precisa mudar o lugar onde a gente está. Se eu tenho problema em Goiânia, não vou para outro município porque a cidade está mal administrada. Se há problema em Goiás, não vou para outro Estado por ter problema em Goiás.
Vou lutar para mudar o PT, até porque o PT de hoje não é o PT ao qual me filiei. O PT a que me filiei era um PT que discutia, que debatia, que se reunia. Tinha até a brincadeira de que o PT marcava reunião para marcar outra reunião, de tanto que o partido conversava internamente. O PT a que me filiei era o partido que não admitia de forma alguma qualquer tipo de ato ilícito. O PT a que me filiei era o partido que, na hora de tomar grandes decisões, consultava a população, como era o caso dos orçamentos participativos. O PT a que me filiei é o partido que tinha o apoio dos movimentos sociais, inclusive para questionar sua própria gestão. Lula fala isso, diz que o problema do governo Dilma é o fato de os movimentos sociais não pressionarem. O partido não pode achar que chegou ao poder e agora precisa só mandar; ele precisa continuar dialogando com a sociedade.

Eu, sinceramente, vejo muitos problemas no PT, mas acho que somos um partido democrático, do ponto de vista de ser o único em fazer eleição direta com seus filiados. Foi o único que estabeleceu paridade de gênero entre seus membros. A executiva, o diretório zonal e o diretório nacional do PT são formados por 50% de homens e 50% de mulheres. Isso é um avanço e, por isso, entendo que o PT tem muitas coisas positivas. O partido tem uma decisão interna de que seus quadros não podem se recandidatar por três vezes ao mesmo cargo, medida que visa oxigenar novas lideranças. Ou seja, vejo que há coisas positivas no PT.

Porém, entendo que existem muitos equívocos, e muitos militantes do partido dizem isso e querem corrigir as coisas. Sou uma dessas pessoas. Se eu não conseguir e o partido me expulsar, não tenho problema nenhum de me reconstruir, de ir atrás e de seguir a vida. Eu também acho que meu posicionamento, meus princípios e minha ideologia estão além de qualquer partido. Não é o fato de me filiar a um determinado partido que serei bom ou ruim. Posso estar em um partido em que há pessoas de conduta questionável, mas se eu tenho uma conduta que estabeleço como princípio, estarei correto, em paz comigo mesmo. O que de fato importa é o que você é. Neste momento, acho que devo brigar internamente dentro do partido para mudar o PT.

Elder Dias — Até que ponto o sr. vai brigar para não ser expulso? Se a executiva municipal vier a expulsá-lo, vai recorrer à estadual, por exemplo?

Se eu sofrer qualquer tipo de expulsão, em qualquer instância, não acho que eu precise brigar para me manter e fazer luta interna. Isso é desnecessário. Eu tive uma suspensão que já foi equivocada, por isso nem poderia tomar outra suspensão para o mesmo problema. A primeira suspensão foi indevida, porque ela não teve quórum para ser aprovada — precisavam de 12 votos para me suspender e só houve 9 votos. Mas, se o partido achar que não devo ficar no PT, não vou brigar pela minha permanência, longe disso. Tenho muitas pessoas dentro do PT que me defendem e essas pessoas são fortes.

Quando tivemos a aliança de Iris com Paulo para a vice, muita gente achava que o PT precisava de uma candidatura própria, mas a movimentação do partido possibilitou a aliança. Ou seja, o PT não tem dono. O único dono do partido é sua própria militância e ela é quem pode mudar qualquer coisa. Quero falar com cada filiado, com cada militante, para que possamos internamente mudar o partido. Se o partido quiser se reoxigenar ele precisa de mudanças e de se reposicionar, principalmente em Goiânia, para se reafirmar na sociedade.

Cezar Santos — Foi colocada pelo Executivo municipal a necessidade da reforma administrativa, mas até hoje não chegou esse projeto na Câmara Municipal.
Marcos Nunes Carreiro — Há também rumores de que, quando o projeto chegar para votação, o prefeito vai sofrer uma nova derrota.

Não se pode afirmar que o prefeito vai perder assim que o projeto chegar. Se o prefeito conversar com os vereadores, dialogar com a sociedade e fazer uma coisa planejada, a tendência é ele ganhar. Se o projeto for bom, eu vou votar a favor e vou defender. Minha postura é de que, se está certo, tem de votar a favor. Se estiver errado, vou votar contra. Se não tiver o debate, vou pedir o debate. Se for um projeto embasado, discutido, dialogado e que contemple a sociedade e que produza economia, devemos defendê-lo na Câmara.

Cezar Santos — Mas qual a dificuldade do Executivo em mandar esse projeto?

O prefeito disse em reunião da visita da mesa diretora eleita, que tivemos no Paço, que ele não precisaria da Câmara para fazer a reforma — poderia deixar os cargos a ser excluídos em vacância, sem nomear. Acho que é preciso fazer um planejamento detalhado.

Vou citar alguns exemplos: foi criada a Secretaria de Defesa Social (Semdef), que foi criada para contemplar a delegada-geral da Polícia Civil Adriana Accorsi, que estava saindo da administração do Estado; teve também outra secretaria, que era de Turismo, para contemplar um pedido de Barbosa Neto (hoje no PMDB) e que foi juntada com a Secretaria de Desenvol­vimento Econômico. Mas Barbosa Neto saiu deixou de ser de Desen­volvimento Econômico e a de Turismo. Daí, veio a nova reforma e a secretaria de Turismo voltou a se juntar com outra de segmento diferente.

Cadê o planejamento? Ou seja, vão criar e deixar de criar secretarias de acordo com as necessidades políticas? Cadê o pensamento para a cidade? A coisa deve ser planejada, não se pode criar secretaria para contemplar um ou outro. É planejamento que faz uma gestão ser eficaz.

“O cidadão tem direito de saber o que a gestão de Iris causou”

Tayrone di Martino em entrevista ao Jornal Opção: “O bom gestor faz obras e uma administração eficiente"   | Foto: Marcello Dantas/Jornal Opção

Tayrone di Martino em entrevista ao Jornal Opção: “O bom gestor faz obras e uma administração eficiente” | Foto: Marcello Dantas/Jornal Opção

Cezar Santos — Essa dificuldade de desenhar uma reforma por parte do Executivo vem por conta de ter de contemplar aliados?

Não posso lhe afirmar isso, porque não estou acompanhando o processo de dentro. Às vezes, eles até fizeram um planejamento, que não foi apresentado. Não posso afirmar coisas que não sei. O que posso dizer é que, se a gente não fizer um planejamento estratégico do município, não haverá avanços e não vamos muito longe.

Marcos Nunes Carreiro — O sr. disse que o partido tem se organizado visando 2016. Como está sendo este processo?

Acho que é a reoxigenação do partido que vai possibilitar o PT entrar forte nas eleições de 2016. Se o partido expulsa um vereador como eu, que está brigando para mudá-lo para melhor, passa para a sociedade um sinal de que não quer mudança e quer tirar qualquer problema interno que queira fazê-lo crescer. Se o partido não cobra mais melhoria da administração, ele passa para a sociedade uma imagem de que não se importa com o prefeito que ele ajudou a eleger.

Então, acho que o PT está num momento muito delicado e importante, do qual ele pode sair fortalecido, se conseguir fazer as movimentações corretas, para 2016. Mas, se tiver medo de fazer este debate ou de se posicionar, como ocorreu na candidatura a governador de Antônio Gomide, quando o partido tinha um nome muito bom, mas não abraçou a candidatura, aí 2016 poderá ser uma catástrofe.

Marcos Nunes Carreiro — Há tempo?

Acredito que dá, pois política é dinâmica e, por mais que seja um tempo curto, está em cima das ações que se queira fazer. As pessoas não necessariamente querem resultados de imediato. As pessoas querem ações que vão proporcionar esse resultado. Todo mundo sabe que temos problemas, mas há aspectos que podem melhorar. Se o PT tiver capacidade, há, sim, possibilidades de o partido chegar forte em 2016.

Elder Dias — O sr. chegou a dizer que apoiava a expulsão de Paulo Garcia do PT. Ainda mantém esse posicionamento?

Isso foi uma força de expressão para as que pessoas entendessem a gravidade do problema. Eu acredito que o PT precisa chamar o prefeito Paulo Garcia para um diálogo franco e puxar as rédeas da gestão. A administração de Goiânia é do PT e quem vai responder por ela não é o prefeito Paulo Garcia. Ele também vai responder, mas não será candidato em 2016 e, se o PT não quiser, não será nem em 2018. Paulo Garcia termina o mandado dele em dois anos, mas o PT, não. O partido tem uma vida política muito mais longa. Por isso, o PT precisa falar para Paulo Garcia que é necessário ter o modo petista de governar.

Elder Dias — E hoje não é o jeito petista de governar?

Hoje está claro que não é, muito claro para mim. Hoje percebemos que os problemas não têm nada a ver com o modo PT de ser. Se o partido for para o debate, isso vai até ajudar o prefeito a terminar sua gestão de forma mais digna. Eu acho que a grande responsabilidade de tudo agora é do PT, mas não necessariamente será preciso ter a expulsão do prefeito. Porém, ele precisa escutar.

Pois, se o PT também chamá-lo para a responsabilidade e pedir para que mude sua postura, indicar o caminho, mas ele não escutar, o partido, então, tem de adverti-lo, dizer “você está representando o partido, você foi eleito pelo PT”. O prefeito Paulo Garcia não foi eleito por Iris Rezende. O Iris o apoiou, mas quem lhe deu legenda para que fosse eleito foi o PT. Então, ele tem primeiro de escutar e dialogar com o PT.

Elder Dias – O PT de Goiânia parece muito tolerante com Paulo Garcia. Parece que há um incômodo, pois boa parte do diretório municipal está dentro da Prefeitura ou tem mandato. Parece que a situação é conveniente para ambos os lados e assim fica difícil cobrar do prefeito. O sr. concorda com essa análise?

Sim, é um problema que enfrentamos. Por isso, eu digo que farei um debate interno, mas não sei se sairei vitorioso dele. Eu posso, neste primeiro momento, ser uma voz dentro do partido junto a outras pessoas, mas acabar derrotado em todas as teses e o partido continuar do mesmo jeito até 2016 e ser um fracasso. Isso pode acontecer, mas cabe à militância mudar esse quadro. Por isso, afirmo que internamente brigarei muito para incendiar essa militância no partido e buscarmos tudo o que eu comentei.

Frederico Vitor – O sr. acredita que em 2016 se manterá essa aliança com o PMDB?

Sinceramente, acredito que essa aliança não tem sido boa para a cidade. O que existe de bom nessa aliança, atualmente? As unidades de saúde estão funcionando bem? As ruas estão sem buraco? Onde não havia asfalto já tem? O problema de transporte coletivo foi resolvido? O gravíssimo problema de mobilidade urbana, de estrutura de pontes e viadutos, de tudo que precisa ser feito em Goiânia nesse sentido, já foi encaminhado? E a coleta de lixo, como está? Tudo isso é resultado da aliança PT/PMDB.

Nós temos de fazer esta discussão. A aliança tem sido positiva para o partido e para cidade? Ou ela precisa ter um fim e cada um seguir seu projeto? Ou, ainda, existe algo por trás da continuidade dessa aliança? O PT precisa avaliar isso. Precisamos saber se essa aliança valoriza a militância do partido, se é um modo petista de governar, pois, sendo muito sincero, se não for para governar do jeito que o partido quer que aconteça, é melhor não governar (enfático). Se você for pautado por algo em que não acredita, não adianta.

O PT precisa governar quando ele for para fazer a política que acredita que precisa ser feita. Do contrário, se não for ao modo petista, que já foi muito elogiado –– e já tivemos vários governos assim, elogiados Brasil afora, como a gestão de Darci Ac­cor­si, muito bem avaliada ––, o fracasso está à porta e à frente. Eu trabalharei sempre em prol do partido.

Elder Dias – De acordo com o que o sr. diz, a gestão Paulo Garcia, claramente, não é um modo petista de governar. O modo do prefeito seria irista, então? A crise que ocorre hoje na Prefeitura é consequência da gestão Iris Rezende? É uma herança maldita?

Já que você falou sobre a “herança maldita”, eu serei muito direto: talvez Paulo Garcia não tenha um modo irista de governar, mas, sim, um modo pós-irista. Pois, se a administração deixada por Iris Rezende estava azeitada e “redondinha” e acabou havendo uma má gestão de Paulo Garcia, podemos dizer que sim, é um problema de Paulo. Mas, se existiam problemas financeiros e veio um caos a partir da gestão de Iris, será que essa é uma gestão irista ou pós-irista, uma gestão que sempre herda um problema, falida de origem? Esse questionamento precisa ser feito, pois o bom gestor não é aquele que só faz obras, mas sim aquele que faz a obra e termina sua administração de forma redonda, eficiente, algo que ajude a cidade não só em curto prazo, mas em curto, médio e longo prazos.

Particularmente, eu digo: quero ajudar o prefeito Paulo Garcia. Quando eu faço essas críticas não é para prejudicar a imagem do prefeito, nem porque sou contra ele; quando eu as faço é porque quero dizer para meu partido, para o prefeito e para as pessoas que estão na gestão que, se não mudarmos, o PT de Goiânia e de Goiás será penalizado por muitos e muitos anos. Portanto, o PT precisa tomar a conduta correta e, assim, ajudar o prefeito a sair do buraco em que a atual gestão está.

Elder Dias – Em outras palavras, o sr. acredita que houve uma bomba-relógio deixada por Iris e que estourou nas mãos do Paulo Garcia?

Acredito que sim, tenho quase certeza de que sim. Já ouvi –– e têm também outras coisas que não falamos, pois não temos como provar –– que muito do que está acontecendo tem vínculo com o fato de a gestão anterior, que era de Iris Rezende, não ter deixado caixa ou uma vida financeira sanada que pudesse fazer o sucessor ter uma gestão eficiente.

Elder Dias – O sr. acha que Paulo Garcia deveria deixar isso às claras?

Claro, gestão é gestão. Sei que o prefeito tem sua fidelidade ao anterior e eu acho isso correto. Também sou leal às pessoas com quem tenho proximidade e isso é realmente importante na política. Mas, se o gestor anterior deixou de contribuir não só com o sucessor, mas com a cidade toda, as pessoas precisam saber disso (enfático).

A vida pública exige esse tipo de atitude, o cidadão tem de ter conhecimento. Eu defendo que tudo seja transparente. Só na vida privada se tem o direito de fazer as coisas de forma privada. Por exemplo, a conta pessoal do secretário de Finanças ou a do prefeito não tem de ser mostrada a ninguém, isso é seu direito. Mas a conta da administração é pública e precisa ser disponibilizada a quem quiser ver.

Cezar Santos – Seu discurso como homem de partido é perfeito, ao dizer que o PT tem de resgatar a credibilidade. Mas o grande anseio do goianiense é que o prefeito faça pelo menos o mínimo, que recolha o lixo — que voltou a ser um problema, que desentupa as bocas de lobo, coisas assim.

É por isso que vou fazer essa discussão interna. Antes de pensar nos grandes viadutos ou no Mutirama ou em outras obras, ainda que importantíssimas — afinal, o prefeito trouxe coisas boas para cidade —, é preciso fazer o básico, precisa fazer as coisas acontecerem de fato. As pessoas querem resultados.

Ontem, um amigo me disse que quando a pessoa passa com o carro em um buraco, ela imediatamente se lembra do prefeito. Pois, se o carro cai no buraco e tem o pneu furado, a pessoa terá absoluta certeza de que a cidade está malcuidada. Da mesma forma, se ela passa pela rua e percebe que não existe buraco, mesmo em época de muita chuva, ela vai creditar o fato ao prefeito. O prefeito é uma figura muito próxima. O buraco da porta da sua casa vai fazer você se lembrar do prefeito da cidade.

Frederico Vitor – Sua proximidade com o padre Robson de Oliveira, responsável pela construção da nova Basílica de Trindade foi algo questionado quando de sua renúncia à candidatura de vice-governador. A saída teria sido uma forma de se aproximar do governo Marconi, com quem o padre teria um maior alinhamento, para haver uma melhor parceria para a obra. O que o sr. pode dizer a respeito?

Sou amigo e admirador do padre Robson. Ele me ajudou a crescer política e profissionalmente, do ponto de vista de ajudar a ampliar minha visão. Eu aprendo com ele dia após dia. Tenho de dar graças a Deus por ter alguém como o padre me ajudando no desenvolvimento profissional. Ele é um sábio em termos de comunicação e em termos humanísticos. É a pessoa com a resposta certa quando tenho algum problema. Quero tê-lo como amigo, mestre e orientador para o resto da vida. E assim ele é com todas as pessoas com quem tenha convivência, mesmo que seja pela televisão, pela novena no rádio. Todas as pessoas ficam maiores e melhores com a presença dele em suas vidas.

Então, de fato eu tenho uma proximidade, um respeito e um carinho muito grandes com o padre Robson de Oliveira. No entanto, politicamente ele nunca me orientou ou me pediu para fazer alguma coisa. Quando aconteceu todo esse processo (em relação à renúncia à candidatura), o padre, sim, estava ciente do que estava acontecendo e me ajudou a ter discernimento em várias coisas. Só que em nenhum momento ele determinou qualquer coisa, ou sugeriu pensar algo, em termos de estratégia política. Pelo contrário, ele jamais faria isso.
Agora, com o passar do tempo, as pessoas estão vendo na prática que eu não tenho contato com o governador, que não tenho qualquer tipo de relação com ele, que minha posição no PT continua a mesma, assim como meus posicionamentos na Câmara.

Cada dia eu mostro mais para a sociedade que o Tayrone é alguém constante, que acredita em algo e defende aquilo em que acredita. E isso eu também devo em grande parte ao padre Robson, que sempre disse a mim que a coerência, a responsabilidade e a forma com que levamos a vida é o que de fato vai nos dignificar no futuro. O padre Robson pode ter amizade com o governador — como aliás, tinha com o ex-prefeito Iris Rezende —, até porque Marconi fez muita coisa por Trindade e ele é grato a isso. Mas, do ponto de vista político, o padre é amigo tanto de Marconi como de Iris ou de Paulo Garcia.

Cezar Santos — Resumindo, o padre Robson não tutela o vereador Tayrone?

Ele pode me orientar, me ajudar, mas não é do mundo da política. O mundo do padre Robson é o mundo religioso. Aliás, acho que nenhum padre pode falar que tem este ou aquele candidato.

Um padre deve orientar seus fiéis a votar bem, com consciência, a refletir para escolher o melhor candidato. Ele não deve falar para votar nesse ou naquele, mas, se alguém tem uma postura correta como político, estando próximo ao padre isso será levado em consideração. Se o padre Robson fala para votar em uma pessoa séria e as pessoas vão analisar meu trabalho, minhas atitudes e julgar se eu mereço ou não o voto.

Quando eu falei ao padre que tinha o desejo de ser vereador, anos atrás, ele me disse: “Você tem certeza? Se você quiser, não vou proibir, mas acho que não precisaria, porque você tem capacidade profissional e outras possibilidades.” Ele sempre foi muito respeitoso com o que eu acredito.

A política, se for feita tendo em vista o bem comum, pode mudar a sociedade. Da mesma forma com que ele tem feito coisas maravilhosas em relação a Trindade, às questões sociais, quero, próximo a ele e aprendendo com ele, fazer dessa forma na política.

Elder Dias — Como está sua relação hoje com Paulo Garcia? O sr. já foi assessor de imprensa dele e um dos candidatos a vereador que ele apoiou mais proximamente em 2012. Em seu primeiro ano de mandato, manteve muita fidelidade ao que ele propunha, até em questões polêmicas. Depois veio o rompimento e acusações graves que ele fez e que o sr. respondeu à altura. Como está hoje essa situação?

O prefeito Paulo Garcia errou em muitas coisas, da mesma forma que eu posso ter errado. Todos nós, seres humanos, erramos.

Elder Dias — Mas, objetivamente, que contato houve entre vocês desde setembro do ano passado?

O único contato que tivemos foi na reunião realizada na Prefeitura, com a mesa diretora eleita agora. Ele foi seco não só comigo, mas com todos. De forma especial comigo e com Zander [vereador do PSL]. Mas, sinceramente, sou vereador da cidade de Goiânia e, queira o prefeito ou não, serei até 2016, quando termina o mandato. Paulo Garcia é prefeito de Goiânia e, queira eu ou não, será até 2016, quanto também termina seu mandato. Como pessoas que querem o bem da cidade, independentemente de relação pessoal, precisamos conviver, dialogar e cooperar mutuamente.

Não será a primeira nem a segunda vez que vou dizer isto: quero ajudar o prefeito Paulo Garcia e sua gestão, e vou fazer de tudo para isso. Inclusive com questionamentos. Quando alguém tem um filho —e eu nem tenho um ainda — o qual não está no caminho correto, não pode virar as costas para ele. É preciso dizer qual é o rumo certo e estar lá para ajudar. Tenho questionamentos, mas acredito que devemos pensar na cidade, independentemente de convivência política ou de ser da base aliada ou de grupo de oposição, até porque tenho uma crítica ferrenha em relação a esses termos, que criam um jogo de cartas marcadas que não é bom para ninguém.

Marcos Nunes Carreiro – Existe um novo comando na Câmara de Goiânia. Uma direção, da qual o sr. faz parte. Quais serão as mudanças e como isso será realizado? Haverá uma influência maior do governo do Estado na Câmara? Como o sr. enxerga tudo isso? Por fim, qual a avaliação o sr. faz dos dois anos de gestão de Clécio Alves?

Sobre a presidência de Clécio, posso dizer que foi uma gestão comum. Ele não trouxe grandes mudanças, não há nada de grandioso ou ações de porte. Mas ele também não prejudicou a Câmara, o que poderia ter sido um risco. Ele se saiu bem, pelo menos do ponto de vista da dignidade. Ainda que não tenhamos conhecimento de tudo, mas Clécio deixou um caixa tranquilo e não houve escândalos, nada que agravasse a imagem dele. Por mais que ele não tenha sido “o” presidente, consigo ver algo positivo. Houve também uma presença muito boa nas sessões e votações. As coisas aconteceram na Câmara.

Por outro lado, houve problemas. Em vários momentos, Clécio, para mostrar fidelidade ou cumprindo algum compromisso com a administração municipal, colocou estágios, nomeações, coisas próprias da Câmara, como ações para controlar a base. Ou seja, isso faz com que a Câmara, em vez de ser um poder legislativo, se torne uma extensão do Paço, como se fosse uma secretaria. Se se utiliza o poder que a instituição tem para favorecer um projeto ou outro poder, essa instituição se torna um anexo. Outras vezes, alguns projetos foram aprovados a fórceps, também com atuação dessa presidência. Pode até parecer estranho, mas isso não foi ruim para o presidente que estava lá: foi ruim para cidade e para o próprio gestor, o prefeito Paulo Garcia.

Suponhamos que –– e assim entramos na resposta à sua primeira questão–– alguém discuta bem os assuntos, não deixe coisas irregulares caminharem, não deixe as coisas saírem a fórceps, mas faça tudo de uma forma correta. Assim, não teríamos um problema comum ultimamente na Câmara, que é o de muitos projetos pararem na Justiça. Foi o caso do Plano Diretor, apresentado pelo prefeito, que não se efetivou, pois houve decisão contrária da Justiça. A venda de áreas públicas, em que não teve diálogo nem mudanças que os vereadores sugeriram, também foi barrada pela Justiça.

De minha parte, fiz os questionamentos que tinha de fazer. Briguei internamente no partido em relação ao Plano Diretor, todos os meus pronunciamentos dentro do partido foram contra o que estava acontecendo com a região norte. O PT sempre foi assim, sempre precisou primeiramente fazer os debates internos. Mas nós chegamos a um ponto em que esse debate interno não aconteceu em relação ao IPTU.

Cezar Santos – Quer dizer que o sr. teve um determinado posicionamento interno e outro posicionamento externo?

Não, quero dizer que o posicionamento externo era um posicionamento do partido e que todos os questionamentos que eu tinha de fazer, eu os fiz internamente. Participei de todos os debates internos e coloquei todos os meus questionamentos, sem exceção. Inclusive, os referentes à educação. O projeto que tirou a gratificação de difícil acesso e criou o auxílio-locomoção tinha como primeira versão um benefício de 90 reais, que era o valor destinado ao transporte coletivo.

Minha atuação fez com que esse benefício chegasse a 210 reais e, com a negociação e com a greve que ocorreu — e minha participação durante todo esse tempo tentando solucionar —, depois de dois anos todos os professores da rede municipal – não só os 4 mil que recebiam o benefício –, tivessem o acesso ao benefício, de forma geral. Isso é para ressaltar que sempre trabalho em busca de fazer um mandato responsável, buscando melhorar, questionar.

Na questão do aumento do IPTU deste ano, entretanto, não houve sequer discussão dentro do partido. O tratamento que foi dado nos impunha que aceitássemos tudo de forma submissa, votando sem questionar, e isso eu não poderia admitir. Para concluir a questão sobre a relação com o Legislativo, a Câmara pode ajudar muito mais o prefeito puxando o debate, fazendo-o acontecer. E essa nova gestão da Casa tem esse princípio: fazer o debate de todas as matérias, de forma independente. Nisso, vamos ajudar Paulo Garcia mais do que ele imagina.

Frederico Vitor – O prefeito perdeu alguns quadros importantes na Câmara: além do sr., Djalma Araújo, que era um nome histórico do PT e saiu por desentendimentos internos, e também Felizberto Tavares, que às vezes não joga com a Prefeitura. Faltou traquejo político por parte do prefeito, em sua avaliação?

Acho que falta uma atenção especial em relação ao PT e a seus vereadores. Por exemplo: dificilmente há diálogo entre o prefeito e a executiva do partido. Se não me engano, desde que Paulo Garcia se tornou prefeito da cidade, ele só foi uma ou duas vezes, no máximo, prestar conta de sua gestão ao partido que o elegeu. Acredito que, quando se disputa uma eleição, a intenção é disputar o projeto político de partido.

Então, em primeiro lugar, o prefeito precisa, sim, dialogar com o partido mensalmente, fazer reuniões, saber os posicionamentos, falar de seus problemas, ouvir conselhos das lideranças. Segundo ponto: os vereadores do PT sempre foram tratados com falta de atenção, ou pelo menos sem a atenção que mereceriam de um prefeito do PT. O prefeito precisa saber, estrategicamente, que o coração dele é o partido dele.

Se os próprios membros do partido não estão de acordo ou estão questionando a gestão, que imagem terá o prefeito diante dos vereadores dos outros partidos? Fica o questionamento: se nem os vereadores do PT estão querendo votar tal matéria, por que eu vou votar? Se os vereadores do PT não estão defendendo a administração, eu vou defender? Se nem os vereadores do PT estão participando das discussões, eu vou participar? É um questionamento generalizado.

Isso prejudica muito o andamento de qualquer relação política. Falei com a liderança do PT na semana passada que o prefeito tinha de se reunir toda segunda-feira com a bancada do partido para pautar a semana na Câmara Municipal, para dizer o que quer, saber o que a bancada pode ajudar, o que a Câmara pode ajudar. Na época de Darci Accorsi [prefeito de Goiânia de 1993 a 1996] era assim: os vereadores do PT iam lá, debatiam, conversavam com o prefeito e atuavam na Câmara.

Agora chegaram ao absurdo — e isso foi um dos motivos para o meu posicionamento — de, em uma reunião com todos os vereadores da base, ser prometida a eles minha punição. Ou seja, por minha coerência, pelo jeito que trato as coisas, com responsabilidade, foi uma forma de dizer a eles “tudo bem, o Tayrone vai votar contra, mas ele será punido no partido”. Era uma forma de me usar como bode expiatório no processo. Então, digo que a relação precisa mudar muito; precisa ser recíproca, de diálogo, com o prefeito ouvindo e dizendo o que acredita e propondo como deve ser.

Frederico Vitor – A Prefeitura não se comunica muito mal tanto com os vereadores, como com a imprensa e a sociedade? A impressão é de que os goianienses não estão a par dos projetos que o Executivo está tocando. Falta mexer na comunicação da Prefeitura?

Eu sou jornalista, fui assessor de imprensa da Prefeitura e, então, posso falar disso. Tem gente que acha que comunicação em uma gestão é fazer propaganda. A propaganda tem de ser feita, mas a comunicação está além disso. A comunicação está, por exemplo, no relacionamento do prefeito com os vereadores, no relacionamento dele com seu partido, na relação dele com as entidades classistas — fórum empresarial, sindicatos, associações de moradores etc.

A comunicação está no conteúdo daquilo que se quer apresentar, no conceito. Só propaganda — e podem-se fazer quantas queira — não vai mudar a imagem de qualquer gestão. Gestão só comunica bem quando as atitudes também forem nesse sentido. Não adianta eu dizer que alguém é bom se as atitudes não são boas.

De fato, existe um problema na comunicação da Prefeitura. Mas não é problema só da comunicação, esse problema está enraizado em toda a gestão, que é o que se tem para comunicar. Ninguém pode dizer que a gestão é boa se ela realmente não é boa. Quando a gestão for boa, aí sim, é preciso realçar o que tem de ser valorizado, para que as pessoas possam perceber que ela é realmente boa.

Marcello Dantas – O vereador Carlos Soares (PT) está tanto na liderança do partido como na do governo. A relação do Paço com a Câmara tende a melhorar com ele?

Eu respeito muito a vereadora Célia Valadão (PMDB). É uma pessoa de fé, de igreja, muito séria e correta, mas acho que ela não tem habilidade política. Ela poderia ter feito um trabalho mais profundo de diálogo, de envolvimento com os vereadores, de às vezes bater de frente com o próprio Paço —porque, na vida política, é preciso também saber dizer “não”, não é só dizer “sim, senhor”. Se Célia tivesse feito isso, também a gestão teria ganhado muito mais.

Acho que Carlos Soares terá capacidade de fazer isso. Ele é centrado e vai dialogar com os vereadores. Se vir que algum projeto de fato não será tão bom e será questionado, vai chegar junto ao prefeito ou ao secretário de Governo e falar que não concorda com isso. A prova é que tanto Carlos como eu éramos contra esse projeto de venda das áreas públicas. Ele era contra, também.

Cezar Santos – Ou seja, ele vai liderar de fato.

Sim, vai liderar, o que não vinha acontecendo.

Elder Dias — Falando de governo federal, o do seu partido. Enquanto Marconi Perillo reduziu seu secretariado para dez pastas, Dilma manteve 39 ministérios. Ela deveria seguir a iniciativa do governador?

Eu acho que sim. Se fosse dedicar um dia a cada um desses 39 ministérios, não se conseguiria fazer uma reunião mensal com cada ministro. Claro, a questão política é muito maior do que isso. Mas, se o governante azeitar a máquina, diminuí-la, compacta-la, ter menos gastos públicos e fazer a gestão acontecer, mais do que contemplar aliados, ele passa a ter o povo do seu lado.

Se a gestão acontece, os aliados vêm naturalmente. O mesmo vale para a administração de Goiânia: se a gestão passar a ter resultados, mais do que qualquer outra coisa para ter os vereadores próximos, eles estarão próximos porque a administração está dando certo.

Alguns agora questionam o governador por perder cargos, mas, se o enxugamento der resultados, essas pessoas vão parar de reclamar. O modelo de gestão ideal tem de ter composição com os aliados, o que não pode é ficar refém deles. Quando há uma gestão eficiente, com redução de gastos, transparência e planejamento, com retorno para a cidade e aprovação popular, o que os aliados farão será só reafirmar a necessidade de estar com aquele governante.

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