“Nosso partido no Iphan é o patrimônio cultural brasileiro”

Superintendente do Iphan em Goiás diz que segredo para gerir os bens tombados passa pela gestão compartilhada e alerta: o Plano Diretor de Goiânia precisa cuidar da parte antiga da cidade e também de Campinas

Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Salma Saddi Waress de Paiva já é um nome que pode, desde hoje, ser celebrado como uma referência em Goiás. Seu trabalho e, principalmente, seu carinho e zelo pelo patrimônio histórico a fizeram ser bem mais do que “apenas” a superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Estado: ela é uma tocadora de obras e uma militante pela preservação da memória goiana, seja ela em forma de prédios (patrimônio material) ou de saberes e fazeres (imaterial).

Não foi por acaso, portanto, que Goiás foi a unidade federativa que liderou a execução de recursos pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Cidades Históricas: simplesmente cada centavo recebido foi investido e se materializou. Um terço de todos os recursos financeiros do PAC no Brasil ficou no Estado, dividido entre a nova e a antiga capital. Entre as obras as quais o Iphan administrou diretamente as verbas destinadas estão a restauração da Praça Cívica, em Goiânia, e a Escola de Artes Plásticas Veiga Valle, na cidade de Goiás. Mesmo assim, ela queria mais: “Perdemos a chance de restaurar de forma magnífica a Estação Ferroviária”, lembra. A obra custaria R$ 10 milhões tinha recursos carimbados, mas não chegou a ser licitada e um decreto de dezembro do governo Michel Temer (PMDB) vetando qualquer novo investimento em obras do PAC acabou com as esperanças. Por enquanto, porque Salma não desiste: “Precisamos reunir esforços do município, do Estado, da bancada federal para conseguir viabilizar a restauração novamente. É uma obra que merece todo o cuidado”, diz.

Vivendo um momento singular de sua vida, com 37 anos dedicados ao serviço público, Salma Saddi não esconde o orgulha do trabalho de sua pequena equipe, “uma meia dúzia de técnicos” para os 246 municípios do Estado. Um time que faz muito mais pela missão da qual se encarrega do que se poderia imaginar e que esteve, em parte, com a superintendente durante a entrevista ao Jornal Opção: Beatriz Otto de Santana, a Bia, coordenadora técnica; Hellen Batista Carvalho, arqueóloga; e Dafne Mar­ques de Mendonça, arquiteta e urbanista.

Marcos Nunes Carreiro — Muitos políticos e membros da sociedade civil reclamam do Iphan, pois, segundo essas pessoas, o órgão não cumpre suas funções a contento. Qual é, de fato, o papel do Iphan?
O Iphan tem um papel extremamente delicado e honroso. Nós cuidamos da preservação da memória, tanto em relação ao patrimônio material como o imaterial — também conhecido como intangível. O que ocorre é que vivemos em um País de dimensões fantásticas e pluralidade incomum. Tudo isso é de responsabilidade do Iphan? Não. Os bens tombados em nível federal são de nossa responsabilidade. Existem também os bens registrados como patrimônio imaterial. Aqui é importante lembrar que esses bens — que são os saberes e os fazeres da população — não têm tombamento, mas registro. Tombar se refere ao que é edificado, como casas, sítios arqueológicos etc.

O papel do Iphan é a preservação desse patrimônio, porque, assim como nós temos a oportunidade de conviver com essa memória, as futuras gerações também devem ter. Por isso digo que nós não trabalhamos com o passado, como poderia parecer, mas com o futuro, para que as próximas geração tenham essa memória também. Então, o instituto faz a salvaguarda, a proteção, a orientação, o tombamento, tudo relativo ao patrimônio. Porém, basicamente a mesma atribuição que deu ao Iphan, com exceção à competência de fazer o tombamento, foi dada pela Constituição de 88 ao Ministério Público Federal e o Ministério Público Estadual.
Somos muito abertos a críticas, desde que contribuam com nosso trabalho. Não precisamos de críticas que sirvam apenas para denegrir a imagem de meia dúzia de técnicos que cuidam de 246 municípios.

Cezar Santos — É esse o quadro do Iphan em Goiás?
Praticamente isso. Hoje, no Iphan, temos na verdade oito técnicos para todo o Estado. Além deles, temos o pessoal administrativo e um pequeno grupo de servidores temporários. O tombamento existe em três esferas: na federal, pelo Iphan; na estadual, pelo governo do Estado; na municipal, por meio de um decreto do prefeito.

O governo de Goiás é um dos poucos que têm uma Superin­tendência de Patrimônio Histórico, no caso com uma excelente gestora, Tânia Mendonça, que tem feito conosco uma boa parceria. Neste governo, temos conseguido atuar conjuntamente, o que não era possível em outras gestões. Sempre que necessário nós chamamos a superintendente, ou vice-versa, Fazemos vistorias em comum e nos auxiliamos.

Marcos Nunes Carreiro — E como é o tombamento em nível estadual?
Por meio de decreto do governador, desde que solicitado pelo órgão competente, hoje vinculado à Secretaria de Educação, Cultura e Esporte (Seduce).

Uma questão que nos incomoda muito é a forma como veem o tombamento. Um jornalista, ao fazer sua reportagem, ele pesquisa e se aprofunda no tema de que pretende falar. Da mesma forma é na nossa área: o objeto a ser tombado precisa ser extremamente pesquisado. Por isso as pessoas se espantam, dizem “nossa, o Iphan leva até cinco anos para fazer um tombamento de um bem?”. Exatamente, porque precisamos promover e esgotar o conhecimento sobre esse bem, não se pode tombar algo que não traga alguma referência, sem que fique registrada a importância desse bem.

Elder Dias — A sra. pode dar um exemplo de um estudo que foi feito mais rapidamente?
O conjunto art déco de Goiânia é o único bem desse porte tombado em nível federal no Brasil. Fizemos um trabalho de um ano e meio, o mais rápido que fizemos. Entretanto, percebemos que as autoridades competentes não perceberam a grandiosidade do que possuem. Não é questão de gostar ou não da art déco, ou de achar que é um tipo simples de arquitetura. Ela tem sua importância. O barroco mineiro é muito rebuscado e impressiona quem vai a Minas Gerais e o conhece. Mas nossa arquitetura colonial, vernacular, é tão importante quando a arquitetura barroca de Minas, porque cada uma conta um momento da história.

O tombamento de Goiânia chega para romper uma série de questões, porque até então se cuidou muito da história do século 17, do século 18. Mas, e a história dos séculos 19, 20 e 21? Isso também precisa ser contado (enfática).

Cezar Santos — O que está sendo feito pelo Iphan em Goiânia, exatamente?
Quando chegamos a Goiânia, nossa superintendência fazia parte de um conjunto de superintendências cuja sede ficava em Brasília. No fim do governo Lula foi criada uma superintendência para cada unidade federativa. Acho isso uma preciosidade, porque cada Estado tem o direito de estabelecer sua própria política de preservação.

Em Goiânia, ao chegar, começamos a trabalhar a questão do art déco. O tombamento só saiu após estarmos aqui. Antes, cuidávamos de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Tocantins, ou seja, vivíamos “apagando incêndios”, em vez de formular uma política. Mas por dez anos eu cuidei de toda essa região e todos esses Estados, com muito gosto.

O tombamento do Iphan não é decidido por nós, mas por um conselho consultivo, com 22 especialistas das mais diversas áreas e cuja presidente não tem direito a voto. São pessoas de grande destaque em suas áreas, como Roque Laraia [antropólogo e professor da Universidade de Brasília (UnB)], Nestor Goulart [arquiteto e professor de História da Arquitetura], Ulpiano Toledo Bezerra de Menezes [professor da Universidade de São Paulo (USP), da área de Museologia], entre tantos outros. Eles analisam o dossiê que preparamos e decidem se o tombamento será efetivado.

Salma Saddi fala à equipe do Jornal Opção: “Temos de ter mobilidade eficiente e respeito ao patrimônio tombado” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Elder Dias — De que governo partiu esse pleito?
Isso foi na época do professor Pedro Wilson [PT, prefeito de Goiânia de 2001 a 2004]. Ele criou um grupo chamado G-Centro, dirigido pela professora Lana Jubé [hoje conselheira federal do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU)]. Foi um grupo muito profícuo, excelente, que atuou, por exemplo, na retirada do comércio da Avenida Goiás, embora não desejássemos que ocorresse a ocupação da Avenida Paranaíba como ocorreu [com o chamado Mercado Aberto, foram retiradas árvores da via e o comércio ambulante foi para lá transferido].

No projeto de Attilio Corrêa Lima para Goiânia, ele chamava a área de “zona tampão”, porque sabia que ela, cedo ou tarde, seria ocupada. O que não pode ser descaracterizado é o traçado da Paranaíba — que é tombado —, mas vivemos em uma cidade quente e aquela cobertura do Mercado Aberto precisa ser repensada. É muito ruim, espero que o prefeito Iris Rezende (PMDB) ou qualquer autoridade tome providência, porque já fui lá e já ouvi de várias pessoas muita reclamação sobre aquela cobertura, que foi colocada após aquela gestão.

Partimos, depois, para aquele que considero o melhor projeto já elaborado para essa cidade, chamado Cara Limpa. Ele contemplava as quatro quadras da Avenida Goiás que surgiram com a implantação de Goiânia e fazia o processo completo, com tudo — acessibilidade, embutimento da fiação aérea, letreiros, paleta de cores, entre outras coisas. Essas quatro quadras seriam uma espécie de “sedução” para que o mesmo fosse feito em toda a área conhecida como “manto de Nossa Senhora” [formada pela Praça Cívica e as Avenidas Paranaíba, Araguaia e Tocantins] de Attilio.

O projeto estava pronto, com maquete e tudo. O responsável por ele foi o professor Wolney Unes [da Escola de Música e Artes Cênicas (Emac), da UFG], que convidou a professora Ana Maria Diniz para o trabalho. Ela se dedicou bastante, porém, não conseguiram captar os R$ 5 milhões necessários para como recurso para o projeto. Uma quantia que eu nunca achei muito grande, porque contemplava toda a obra, mas não obtiveram nem R$ 400 mil, o que tornava impossível a execução.

Elder Dias — Esse projeto não poderia ser resgatado?
Para mim, esse projeto ainda é muito atual e, como foi pago pelo município, deveria ser, sim, resgatado pelo prefeito para buscar implantá-lo. Nem sei se alguém da atual gestão conhece esse projeto, mas lembro-me de que Pedro Wilson deixou um documento e esse projeto sob a guarda de um determinado departamento, para que não desaparecesse. Outro dia, fomos a uma reunião na Prefeitura e vimos, através de uma vidraça, em uma sala, as maquetes que foram feitas dessas quatro quadras do projeto Cara Limpa.

Conseguimos também naquela época recursos para a restauração da Estação Ferroviária de Goiânia, quando o secretário de Cultura do município era o professor Sandro di Lima [dos quadros do Instituto Federal de Goiás (IFG)]. Um trabalho que foi feito de forma incompleta, porque os recursos não cobriram a recuperação dos dois painéis fantásticos — que ficam na parte interna da estação — de Frei Confaloni, cujo centenário, aliás, se celebra este ano. Espero que essa obra não continue no estado de abandono que se encontra.

Quando começamos a instruir o processo de tombamento do centro de Goiânia, a pessoa que mais nos incentivou se tornou hoje o presidente do Icomos Internacional [sigla em inglês para “International Council of Monuments and Sites”, ou Conselho Internacional de Monumentos e Sítios, em português], o arquiteto argentino Alfredo Conti, que tinha vindo aqui para analisar a candidatura da cidade de Goiás ao título de patrimônio mundial. Ele veio à capital e ficou boquiaberto ao contemplar a Estação Ferroviária e o Teatro Goiânia. Em La Plata [cidade da Argentina] há um conjunto art déco muito bonito, mas ele se espantou com o que viu e disse que era de uma riqueza fora do comum.

Elder Dias — Em relação à Estação Ferroviária, existe um movimento, liderado pelo professor Pedro Célio Alves Borges [docente aposentado da UFG], que reivindica a reconstrução do Monumento ao Trabalhador, que ficava em frente ao conjunto arquitetônico. Como o Iphan se posiciona em relação a esse pleito?
Fomos convidados para uma audiência pública na Câmara de Goiânia para tratar desse assunto. Recentemente, com o movimento puxado pelo superintendente de Planejamento Urbano da Secima [Secretaria do Estado de Cidades e Meio Ambiente], Marcelo Safadi, o tema voltou à tona. Podemos nos reunir para achar uma alternativa. Não é inviável esse monumento ser reimplantado, o que precisa haver é um local que não impeça a visibilidade do bem que é a Estação Ferroviária. Não somos contra o retorno, até porque é uma obra que foi retirada de forma totalmente arbitrária.

Da mesma forma, em sua gestão, o professor Sandro di Lima quis fazer uma homenagem aos exilados e o artista que concebeu essa obra foi Siron Franco [Monumento aos Desaparecidos Políticos de Goiânia]. Nós, do Iphan, não nos opusemos, achamos uma solução. Hoje o monumento fica erguido na Avenida Assis Chateaubriand, em frente à entrada do Bosque dos Buritis, embora o artista a tenha instalado no solo, ao nível do cidadão. A depredação impediu que continuasse assim. Infelizmente isso ocorre, porque não existe vigilância.

Marcos Nunes Carreiro — E sobre a Praça Cívica, como a sra. avalia a reforma feita, inclusive com a atuação do Iphan?
Conseguimos R$ 15 milhões para restaurar a Praça Cívica, que é o centro cívico da cidade, foi nisso que Attilio pensou ao conceber o projeto de Goiânia, todas as principais avenidas convergiam e convergem para lá. De repente, no entanto, o que se tinha era um imenso estacionamento e nenhuma praça, uma coisa vergonhosa.

Dentro do PAC Cidades Históricas obtivemos os recursos necessários. Em princípio, foram contemplados 44 municípios brasileiros, dos quais dois daqui — Goiânia e a cidade de Goiás. Os prefeitos tinham como opções executar a obra, passar a execução ao Estado ou, ainda, ao Iphan. O então prefeito Paulo Garcia (PT) foi a Brasília conosco e recebeu a notícia de que sua cidade seria contemplada com R$ 25 milhões, sendo que R$ 15 milhões iriam para a Praça Cívica e os R$ 10 milhões restantes para a Estação Ferroviária.

O governo de Goiás havia encomendado um projeto ao arquiteto Luiz Fernando Teixeira, o Xibiu. Este já havia entregue o trabalho, que foi doado pelo governo à Prefeitura. Dos R$ 15 milhões foram empenhados um pouco mais de R$ 13 milhões, segundo o valor que a própria administração municipal colocou nas planilhas. O Iphan trabalha com os valores da tabela da Caixa Econômica Federal. Depois da licitação, nós acompanhamos a obra, por meio das arquitetas Dafne Mendonça e Wanessa Correa.

Até arqueologia nós fizemos na Praça Cívica. Descobrimos três fontes enterradas lá, foi uma praça mexida várias vezes. Depois da inauguração a praça estava sendo ocupada pelo povo. Aos domingos, tivemos grupos de pessoas e tribos diversas, hip hop, gospel, gente andando de patins. Um dia fiquei muito emocionada vendo isso. Agora isso mudou, nos últimos meses: as fontes luminosas se transformaram em grandes lavanderias e usam os bancos para secar roupas; estão arrancando peças das fontes; e também já levaram a placa de inauguração.

Estamos em uma angústia profunda. Por isso, pedimos uma audiência com o prefeito Iris Rezende, realizada na semana passada. Ele nos recebeu muito bem e falamos sobre todas essas questões. Desde o dia em que a obra se iniciou estamos pedindo um termo de uso para a praça.

Elder Dias — Como seria esse termo de uso?
Seria uma normatização do uso. A praça é universal, tem cinco tipos de piso, para contemplar todas as pessoas e precisamos ter todo o cuidado possível. Assim fizemos pedidos por exemplo à Câmara. Nossas arquitetas também fizeram uma série de propostas, enviadas a todos os órgãos envolvidos com a praça. A Prefeitura precisa responder, porque há interessados em gerir a praça. O prefeito atual nos garantiu que vai trabalhar a normatização com seu pessoal jurídico.

Desde a inauguração houve vá­rios eventos. Tivemos um show com 2 mil pessoas em homenagem a Luiz Gonzaga no ano passado. Não vetamos a apresentação e foi belíssima. Não teve um único estrago, porque os caminhões ficaram do lado externo e tudo foi carregado manualmente para lá. Da mesma forma ocorreu com o evento Bonecos do Mundo, com 12 carretas do Sesc, que pararam ao redor. Um acontecimento grandioso que também não deu nenhum prejuízo, inclusive com os organizadores arcando com a vigilância. O mesmo não ocorreu num evento de uma igreja que destruiu um canteiro — mandei a conta para os responsáveis e pagaram o que deviam.

“Goiás executou um terço do PAC Cidades Históricas”

Marcos Nunes Carreiro — Iris Rezende foi quem construiu o Palácio das Campinas na Praça Cívica, demolido com a restauração. Como foi o trato dado pelo Iphan a esse ponto?
O Palácio das Campinas foi demolido e nós autorizamos a intervenção, porque ele não se comunicava arquitetonicamente com nenhum dos outros prédios nem nada do contexto. O que não sabíamos é que o prefeito iria colocar ali uma obra de Siron Franco, o que só nos foi comunicado depois. Fora isso, o restante foi pago pelo Iphan. A última parcela ainda não foi repassada por estar retida na Prefeitura, mas não devemos mais nada. Tudo o que foi realizado pelo PAC nessas 44 cidades tem sido pago religiosamente, de forma até impressionante. Tenho 37 anos de serviço público e não preciso puxar a sardinha para a lata de ninguém, mas quem trabalhou para o PAC recebeu, isso posso dizer.

Cezar Santos — E por que não ocorreu o mesmo com os recursos para a Estação Ferroviária?
Nós cobramos da Prefeitura, ficamos “apertando” o prefeito e chegamos a lhe propor que executássemos a obra pelo Iphan. Contrataram um projeto, aliás muito bom, da arquiteta Janaína Oliveira. Mas como funcionam os recursos do PAC? O projeto é avaliado por nós em Goiânia e as planilhas vão para Brasília, criou-se um núcleo do PAC dentro do Iphan. Nove vezes isso foi para lá e nove vezes voltou. Eu falei que iríamos perder essa obra. Dito e feito: em 15 de dezembro de 2016, um decreto foi baixado para informar que nenhuma obra do PAC seria mais licitada. As pessoas falam que o dinheiro voltou (para Brasília), mas a verdade é que o dinheiro nem chegou a vir, pois não houve licitação. Perdemos a chance de restaurar de forma magnífica a Estação Ferroviária, pois eram quase R$ 9 milhões.

Elder Dias — A sra. considera que isso ocorreu por inoperância da Prefeitura?
O problema maior é que trocam demais os assessores responsáveis. Quando começamos, a secretária era uma; ela saiu e veio um senhor, de forma interina — ele chegou a procurar o Iphan, pois não tinha achado nada sobre o projeto; por fim, veio um terceiro secretário, que também não sabia das coisas. A Prefeitura passou a responsabilidade, então, para outro órgão, a Semob [Secretaria Municipal de Obras]. Ou seja, não tem como funcionar dessa forma. Se alguém sai aqui do jornal, é preciso que deixe com outro a memória do que fazia. Essas coisas não podem mudar assim. No Iphan, temos a memória de tudo que fazemos. Chamamos isso de nota técnica.

Augusto Diniz — Seria um problema que passa pelo Iphan esbarrar em algo que precisa ser feito em curto prazo?
Nosso trabalho mais demorado é quando se exige pesquisa interna. Se alguém resolve construir uma casa em Pirenópolis, a gente estabelece um prazo para responder a demanda. O Iphan não demora a responder, pelo contrário, às vezes fazemos algo de forma tão dinâmica que nem sei como conseguimos. Um dia, a senadora Lúcia Vânia (PSB) nos comunicou que tinha dois dias apenas para não perder uma emenda parlamentar para a igreja de Luziânia. Uma igreja linda, que estava a ponto de tombar, mas de forma literal. É uma construção tombada em nível estadual, mas nem por isso é menos importante — futuramente esta casa aqui [local onde se encontra o jornal] vai contar parte da história de Goiânia, por exemplo. Então, falei para a senadora que nós conseguiríamos, mesmo assim, sem projeto, sem nada.

Marcos Nunes Carreiro — E sobre o Grande Hotel, também uma obra art déco, na Rua 3?
Temos muita vontade de restaurar o Grande Hotel, mas nem sabemos quem é o dono. Já solicitamos da Prefeitura várias e várias vezes uma declaração de que o imóvel é dela. Como vou pedir recurso ao governo federal sem saber quem é o proprietário? E se for um particular? O imóvel é do INSS, não foi transferido para o município. O próprio prefeito nos disse que está tentando negociar a transferência e sugerimos o tipo de negociação que estava sendo feita pela gestão passada, para que possa haver uma continuidade.

Outro problema, também importante, é viabilizar o uso adequado para espaços como esse. Por diversas vezes as intervenções não têm uma sequência com atividades. Foi o que ocorreu com a Estação Ferroviária, que passou por essa reforma relativamente recente, mas que não teve um uso adequado. Virou depósito depois de pouco tempo de alguma atividade. E edifício fechado é um prédio à espera da degradação. É preciso também estabelecer segurança e vigilância, o que não houve no caso. Aliás, é um problema sério para praticamente todos os prédios públicos importantes da cidade.

Augusto Diniz — O Iphan é um órgão eminentemente técnico. Como fica a questão política?
A gente precisa parar com essa história de ver tendência em tudo aquilo que é coletivo. Nosso partido político no Iphan é o patrimônio cultural brasileiro, em quem nós votamos, como pessoas, isso é uma questão interna de cada um. Tenho de ter essa visão e, por isso, conseguimos implantar gestões compartilhadas. Quando nos juntamos ao Estado e ao município, tudo dá certo.

Na cidade de Goiás, a prefeita [Selma Bastos, do PT] conseguiu executar as seis obras do PAC destinadas para lá, no valor de quase R$ 27 milhões. Por quê? Ela disse assim, para nós, em Brasília: “Salma, você e sua equipe podem assumir três das seis obras para mim?”. Eu respondi: “Posso assumir três, quatro, cinco, as seis ou nenhuma. É como a senhora achar melhor.” As nossas três já foram todas inauguradas. Dia 25 de maio vamos entregar talvez o melhor teatro do Estado de Goiás, o Cine Teatro São Joaquim, uma obra de responsabilidade da Prefeitura. Está um espetáculo, foi contemplado em todos os aspectos.
Outro bom exemplo de parceria foi a restauração, já entregue pela Prefeitura, do Mercado Municipal — aliás, vocês precisam ir lá comer um pastel ou um bolinho de arroz. Quem doou o projeto da obra foi o governo do Estado, que já tinha o projeto, a Prefeitura precisou fazer somente as planilhas. Para a parte central do mercado, conseguimos mais algum recurso para montar tendas e um pequeno palco para os artistas da região se apresentarem. Queremos dar vida ao lugar.

Nós reunimos o Arquivo Arquidiocesano, com toda a obra de dom Tomás Balduíno [bispo de Goiás de 1967 a 1998, falecido em 2014]. Fizemos também a Escola de Artes Plásticas Veiga Valle, que está linda e atende a todas as faixas etárias, bem como uma ponte que estava condenada pela Defesa Civil, que liga à Carioca, uma área de lazer da cidade de Goiás. A única das seis obras que falta entregar é a sede da Prefeitura, o que deve ocorrer até novembro deste ano.

Só em Goiás o PAC Cidades Históricas executou um terço da execução de recursos financeiros de todo o PAC nacional. Estamos em 1º lugar nacionalmente e nos tornamos o único Estado que executou todos os recursos recebidos. Digo com muita tristeza que gostaria muito de ter entregado a Estação Ferroviária. Infelizmente, não tivemos essa oportunidade, mas acredito na gestão política para executar esse projeto que já temos e que é muito bom. Eu disse ao prefeito Iris para se juntar ao governador, à bancada federal para ir atrás desses recursos, para trazer de volta esses recursos. Podemos contar também, para isso, com as empresas goianas — afinal, tem empresário aqui que exporta frango para os Emirados Árabes. Eu acredito nessa possibilidade.

O PAC foi tão bem organizado que, sabendo que somos meia dúzia de técnicos, fizeram um concurso para servidores temporários e nos enviaram cinco técnicos. Um deles mora na cidade de Goiás há três anos e tem ainda mais dois anos de prestação de serviços. Aqui em Goiânia temos dois arqueólogos, uma analista e uma arquiteta, que, graças à Dafne — que praticamente a adotou —, se apaixonou pela causa depois de chegar sem ter ideia do que era o Iphan. Hoje tenho toda a segurança nela para elaborar um parecer técnico. Os meninos riem de mim, mas digo a eles que temos dois salários: um que paga meu aluguel, condomínio, supermercado etc.; e outro que se chama “emoção”. Esse ninguém paga para mim e acontece quando eu olho para um bem que estava caindo e que hoje está cheio de vida (emocionada).
Um exemplo é o Instituto Federal de Goiás (IFG) na cidade de Goiás está com 160 garotos e garotas dentro de um prédio do século 18. E eles não estragaram o edifício em nada; pelo contrário, deram vida e alegria a esse prédio. Essa de achar que o bem tombado é engessado e intocável não funciona. Temos de entender que, da década de 30 para cá, as coisas foram mudando. Hoje não precisamos recorrer a falsos históricos, um pastiche, como alguns lugares querem fazer. O que entendo é que o Iphan pode até pecar por excesso, por zelo, mas é muito bacana ver nosso trabalho realizado.

Cezar Santos — Existem casos complicados em relação a pessoas que temem que suas casas sejam tombadas e elas fiquem no prejuízo?
O direito de propriedade é algo muito forte e a gente sente isso frequentemente. Um dia, nosso trabalho no Iphan — que é silencioso — foi interrompido por uma gritaria vindo do andar de baixo. Desci as escadas e encontrei um senhor fora de si. Ele me exigiu: “Estou esperando um documento do Iphan e quero dizer à senhora o que quero que seja escrito nele!”. Eu perguntei: “Qual é o nome do senhor?”. “Meu nome é Homero [Sabino, ex-presidente do Tribunal de Justiça de Goiás (TJ-GO).” Eu disse “muito prazer, sr. Homero, o que o sr. deseja?”. “Eu sou dono de uma casa no Centro de Goiânia e quero um documento do Iphan dizendo ‘esta casa não é tombada pelo Iphan’ e então a sra. assina!”. Eu disse a ele que sairia do jeito que deveria sair, que a casa não era tombada, mas que era uma casa de época que mereceria um bom tratamento. No outro dia, as máquinas da Prefeitura derrubaram o bangalô inteiro, porque é um lote fantástico e a especulação imobiliária compra imediatamente. É só algum de vocês ir até o Iphan para, na primeira casa acima de nosso prédio: uma casa modernista belíssima que está toda cercada de tapumes para cair.
É fundamental que o Plano Diretor esteja em sintonia com a parte mais antiga da cidade e com Campinas, um lugar o qual não podemos deixar de olhar. Muito antes de Goiânia existir, Campinas já estava lá. Em respeito a isso, tombamos dois imóveis lá. E todos os imóveis tombados na capital são públicos.

Em Goiânia, o acervo art déco representa o poder tomando sua parte na ocupação do espaço, construindo uma nova capital e definindo uma linguagem arquitetônica para seus prédios públicos. O Estado e o município têm mais bens tombados em Goiânia do que o Iphan, a maior parte de imóveis públicos. Já o acervo privado é principalmente residencial e sua preservação preocupa, pois os herdeiros deles e herdeiros de herdeiros não têm, geralmente, a mesma obstinação pela preservação. Então, ficam expostos à procura da especulação e, depois, temos então a verticalização do espaço. Grande parte dos edifícios conseguimos mapear nas principais avenidas — com os elementos arquitetônicos preservados atrás das marquises. É preciso que haja o interesse financeiro de preservar o imóvel, além do interesse afetivo.

Augusto Diniz — Como está sendo, pelo Iphan, o acompanhamento da obra do BRT?
Nós conhecemos o projeto por inteiro e o acompanhamos desde seu início. Porém, nossa análise fica restrita à área sob nossa tutela, na Avenida Goiás da Praça Cívica à Praça do Trabalhador. Algumas recomendações que fizemos foram ajustadas pelo projeto, como a disposição das plataformas, por exemplo. Para o que não foi possível, foi apresentada justificativa técnica. O principal objetivo da obra é fazer funcionar o transporte público. Consideramos que é preciso estabelecer uma linha expressa de circulação para ônibus no Eixo Norte-Sul, para maior celeridade.

O centro histórico não pode ficar engessado, sem receber esse tipo de intervenção. Então, temos de contemplar uma mobilidade urbana eficiente com respeito ao patrimônio tombado. As plataformas de embarque são grandes porque precisam ser assim, mas estão alocadas nos lugares onde vai gerar menos impacto à visibilidade e aos bens tombados. Nenhuma das plataformas influencia na visibilidade desses bens. É uma intervenção que assusta por sua grandiosidade, mas precisamos de um transporte público decente. l

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luiz carlos

Perdeu a oportunidade de falar das estações que foram restauradas e as que ainda não fora restauradas como as de Bonfinópolis, Leopoldo de Bulhões, Goiandira, Senador Canedo dentre outras.