“Nós do mercado imobiliário somos os que mais têm interesse em Goiânia”

Presidente da Fecomércio, uma das protagonistas da versão atual do Plano Diretor, diz que é melhor regular do que proibir loteamentos

O plano de trabalho que, no decorrer do ano passado, juntou técnicos da Prefeitura e vereadores a representantes do ramo imobiliário para discutir as emendas ao Plano Diretor de Goiânia foi sugestão de entidades ligada ao setor, como a Federação do Comércio do Estado de Goiás (Fecomércio).

Segundo Marcelo Baiocchi, a conversa se deu logo após a posse como prefeito de Rogério Cruz (Republicanos). “A ideia era atualizar [o Plano Diretor] segundo a visão da nova gestão e, então, mandar para a Câmara”, relata. Foi o mesmo procedimento, segundo ele, adotado em 2007, quando representantes do setor imobiliário também participaram decisivamente da discussão.

O dirigente classista diz mais: “Somos os que têm mais interesses em Goiânia. Interesses financeiros, econômicos? Não exclusivamente: temos interesse que Goiânia seja uma bela cidade, com mobilidade urbana, segurança, serviços de primeiro mundo”, afirma. Nesta entrevista ao Jornal Opção, além de bastante conteúdo sobre o Plano Diretor – que deve ser votado na Câmara em breve –, Baiocchi também falou sobre um possível futuro na política, a cooperativa de crédito que dirige – o Sicoob SecoviCredi – e os projetos desenvolvidos pelo Sesc e pelo Senac.

Elder Dias – Quando se discute um tema como o Plano Diretor, ou mesmo outros assuntos afins à cidade, tem-se a impressão de que há uma hegemonia do mercado imobiliário. Ou seja, quem mandaria em Goiânia seriam as incorporadoras, as empreiteiras, as construtoras. O sr. concorda? Até que ponto isso é um mito ou é verdade?

Antes de lhe responder, eu faço também uma pergunta: por que você acha isso?

Elder Dias – Porque chega até a imprensa depoimentos – em off, quase sempre, porque ninguém quer se comprometer – de que vereadores e outros políticos seriam ligados ao setor imobiliário. Alguns fazem isso de modo bem claro, como Anselmo Pereira (MDB), que é um representante da Ademi [Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Goiás], e não tem nada de errado. No sentimento geral da população, há uma ligação muito grande entre mercado imobiliário e políticos. E no ano passado, quando foi formado um grupo de trabalho pela Prefeitura, chamaram para compô-los, além dos técnicos da administração municipal e vereadores, representantes apenas do setor imobiliário. Não há um desequilíbrio de forças nisso?

Eu queria ver o seu ponto de vista para entendê-lo e fazer minha análise. Objetivamente respondendo, é mito. O mercado imobiliário – e aqui a gente engloba as empresas que atuam no parcelamento do solo, na construção, na comercialização etc. – não tem essa hegemonia. No ambiente legislativo, não há nenhum segmento que tenha alguma hegemonia lá dentro. E tem de ser assim, a democracia é isso, porque quando houver hegemonia a gente corre o risco de uma ditadura.

O que ocorre é que nós, do mercado imobiliário, somos os mais interessados na cidade. Nenhum outro segmento se preocupa mais com Goiânia – vamos exemplificar, já que poderíamos discutir qualquer outro município quando se fala em mercado imobiliário.

Nós somos os que têm mais interesses em Goiânia. Interesses financeiros, econômicos? Não exclusivamente: temos interesse que Goiânia seja uma bela cidade, com mobilidade urbana, segurança, serviços de primeiro mundo. Por quê? Vou dar um exemplo clássico: com R$ 1 milhão, uma pessoa pode construir aqui, no Setor Marista, ou em uma cidade de 5 mil habitantes. As duas casas tiveram o mesmo custo, com o mesmo material, mas qual terá mais valor de mercado? A do Setor Marista. Então, nós, mais do que para qualquer outro segmento, queremos preservar esta cidade, jamais empreender algo que possa prejudicá-la, desvalorizá-la.

A preocupação com essa suposta hegemonia do mercado imobiliário se dá porque é uma categoria organizada e que provoca debates. Sobre isso, posso citar quem trouxe a discussão do Anel Viário de Goiânia? Quem levantou isso? Nós, da Federação do Comércio, juntamente com o Secovi [Sindicato dos Condomínios e Imobiliárias do Estado de Goiás]. A primeira reunião foi em nossa sede. Convidamos todos os municípios do trajeto do anel viário, tivemos lá prefeitos, secretários de Estado, secretários municipais, vereadores e outros políticos. Foram 40 pessoas que estiveram ali debatendo, vendo a demonstração de técnicos capacitados que contratamos sobre o quanto a região metropolitana perdia sem o anel viário, com acidentes, mortes etc.

“Nós apenas demos o “start” e estamos entregando uma solução. O que ganhamos com isso? O mercado imobiliário não ganha nada objetivamente, apenas temos interesse na cidade”

Provocamos a discussão. O resultado disso é que o ministro Tarcísio [de Freitas, do Ministério da Infraestrutura] já está falando em licitar, a Triunfo/Concebra já prometeu devolver a concessão. Reunimos com governador, com prefeitos, trouxemos todo o fórum empresarial para o debate – Acieg [Associação Comercial e Industrial do Estado de Goiás], Fieg [Federação da Indústria do Estado de Goiás], Faeg [Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás], Facieg [Federação das Associações Comerciais, Industriais, Empresariais e Agropecuárias do Estado de Goiás], entre outras – e fomos levar isso avante. Nós apenas demos o “start” e estamos entregando uma solução. O que ganhamos com isso? O mercado imobiliário não ganha nada objetivamente, apenas temos interesse na cidade: vamos tirar o fluxo de caminhão de dentro da cidade, vamos facilitar o trânsito, a mobilidade urbana. O mercado imobiliário é propositivo e tem pessoas capacitadas para debater. Por isso sempre somos convidados para participar das discussões, sem desmerecer outros segmentos.

Elder Dias – Qual é a parte do Plano Diretor que mais atendeu ao mercado imobiliário?

Antes de responder objetivamente, é preciso dizer como nasceu a discussão do Plano Diretor. Assim que o prefeito Rogério Cruz (Republicanos) foi empossado, infelizmente pelo falecimento de Maguito Vilela (MDB) – grande administrador, basta ver o que ele fez em Aparecida de Goiânia como prefeito, diga-se, com a parceria do mercado imobiliário –, estivemos com ele, a Fecomércio e várias entidades – Secovi, Sindilojas, Sindinformática e outros sindicatos – com interesse na organização da cidade.

Levamos várias pautas para o prefeito, entre elas o Plano Diretor. Já estávamos quatro anos atrasados em relação à revisão a cada dez anos. Isso não pode ocorrer: Plano Diretor é o que, como o próprio nome diz, dá a direção para onde o empresário deve empreender.

Elder Dias – O Plano Diretor daria então, uma espécie de segurança ao investimento do empresário?

Eu diria menos segurança e mais direção, no sentido literal mesmo. Se se estabelecer que a cidade vai crescer para a região leste, quem quer empreender vai fazer isso nesse rumo. O que é preciso ficar claro é que, com ou sem Plano Diretor, o empresário vai empreender. Fizemos esse pleito e ele nos justificou: “ah, mas já tem um Plano Diretor discutido”. Eu falei, “mas, prefeito, como é a gestão do senhor, faça uma comissão com os vereadores, com os técnicos da Prefeitura e com os segmentos organizados”. Não foi um representante do setor imobiliário, na verdade quem indicou foi a Fecomércio – o indicado foi um técnico, o João Vítor, que conhece muito do assunto – para nos representar. A Acieg e assim outras entidades participaram desse debate.

Presidente da Fecomércio, Marcelo Baiocchi fala aos editores Elder Dias e Euler de França Belém | Foto: Fernando Leite

Elder Dias – Quer dizer, então, que a ideia desse grupo de trabalho nasceu não da Prefeitura, mas das entidades do mercado imobiliário?

Nasceu de nossa discussão. Mas isso não é novo. No Plano vigente, também foi constituído também um plano de trabalho, no qual a Fecomércio indicou o empresário Helder Paiva e a Fieg, Ilézio [Inácio Ferreira, dono da construtora Consciente]. Outras entidades também indicaram participantes, mas não me lembro os nomes. Então, sugerimos algo que já tinha ocorrido no Plano anterior, não era algo novo. Já este Plano, apesar de a redação da proposta já ter sido feita em comissão, a ideia era atualizar segundo a visão da nova gestão e, então, mandar para a Câmara. Porque, na realidade, quem legisla é quem faz o Plano. Nós, na realidade, fazemos sugestões e a Câmara vai validar ou alterar, e aprovar o que desejar.

Outra questão: a discussão do Plano Diretor, quando se prende só a adensamento – o que se pode construir – e expansão urbana – onde se pode lotear – se torna algo muito pobre para todo um código que tem centenas de artigos. Ou seja, a gente falar de dois assuntos é pouco demais, o Plano é muito mais abrangente. Ele trata de mobilidade urbana, trata de qualidade de vida, de segurança jurídica. E é natural que os legisladores do município definam para onde querem que a cidade cresça. Então, tal área vai inserida na expansão urbana. Se tal bairro tem toda a infraestrutura de serviço público – energia, água, esgoto –, o legislador pode permitir o adensamento. Então é ali que vai poder construir prédios. Isso é do ofício do legislador.

Isso não é trazer benefícios ao mercado imobiliário, porque, com essas áreas ou em outras áreas, vai se continuar empreendendo. Se andarmos em Goiânia, vamos ver bastante construção de prédios e um monte de loteamento sendo abertos. Não é porque tem ou não tem Plano Diretor que deixa de haver empreendimento. Mas o Plano vem dar a direção para onde se faz empreendimentos, mas isso não traz privilégios ao mercado imobiliário. Até porque, quando se abre adensamento para uma região, naturalmente isso se encerra em outra que já adensou, pelo próprio Plano.

Elder Dias – Mas, de tudo que está nesta atual proposta, o que mais atendeu ao interesse de vocês, do setor imobiliário?

Nada ali é de nosso interesse. Nada. Com ou sem Plano Diretor, a gente vai empreender. O que é tratado no Plano Diretor e que entendemos que será bom para a cidade, e a gente vai poder empreender, são novas áreas de empreendimentos. Sem dúvida nenhuma, nós vivemos de empreendimentos, se há mais áreas pra empreender é bom para o empresário e bom para a cidade. Por que seria bom ter mais loteamento e tem mais prédio? Vou dar um exemplo: o metro quadrado da Avenida Atlântica em Copacabana, no Rio – prédios velhos, é bom lembrar – custa R$ 30 mil, até R$ 40 mil. Lançaram um prédio no Leblon, baixinho, se não me engano oito andares, com dois apartamentos por andar, a quase R$ 80 mil o metro quadrado. Por quê? Oferta. Lei da oferta e da procura.

Então, no dia em que Goiânia não puder mais adensar nem parcelar, aquele lote que era vendido a R$ 100 mil será vendido a R$ 500 mil. E o mercado imobiliário não vai perder nada com isso: vai deixar de vender a R$ 100 mil para vender por R$ 500 mil. Quem vão perder são nossos clientes, o cidadão que não vai conseguir comprar um imóvel em Goiânia porque a oferta será baixa e o preço vai subir.

Elder Dias – Mas há a expectativa e a realidade. A expectativa, neste momento, é de que a população continue crescendo nos próximos anos e que haja uma demanda. Mas, em alguns anos, isso deve chegar a um pico e depois a população vai até decair. O mercado trabalha com tudo isso, está pensando lá na frente. Vocês não temem uma bolha que estoure por conta disso – ou por uma situação inesperada, como ocorreu com a pandemia?

A grande maioria dos empresários trabalha com pesquisas. Nenhum empresário responsável vai investir milhões sem ter pesquisa de mercado para avaliar se vale a pena empreender ou não. Com certeza, a grande maioria dos empreendimentos passaram antes, então, por uma pesquisa. Goiânia, por ser uma capital até jovem, atrai moradores tanto de outros Estados como do interior, que querem trazer os filhos para estudar, para dar oportunidade de trabalho. Isso naturalmente vai acontecer, de modo que a população vai continuar crescendo acima da média de outros municípios.

Outro ponto é que o mercado se autorregula. É a lei da oferta e da procura. E a lei de mercado é a lei mais equilibrada que existe. É a mesma coisa você perguntar “pra que mais posto de gasolina se a gente está vendo que estão vendendo menos carros?”. O posto que abrir, se não tiver mercado, vai fechar e quebrar. E esse é o melhor instrumento, muito melhor do que leis, para demonstrar se o empresário deve ou não continuar empreendendo.

Elder Dias – Dentro desse cenário, qual é hoje a área de Goiânia que teria mais potencial para o empresariado trabalhar hoje seus novos empreendimentos?

As cidades, de uma forma em geral, crescem para a região sul. Goiânia já “bateu” em Aparecida de Goiânia, na divisa sul.

Elder Dias – Ao contrário da Aparecida, que cresceu para o norte… Na verdade, Aparecida eram várias cidades numa só. E um dos méritos de Maguito em suas gestões foi conseguir unificar essas “cidades”, tornar Aparecida, dentro do possível, mais coesa e facilitar o acesso aos serviços públicos em geral. Aparecida se tornou uma cidade mais una. Isso, além da industrialização que ele promoveu. É assim que vocês, do mercado, também veem Aparecida?

Aparecida melhorou muito. No passado, lá se aprovavam empreendimentos sem critério algum. Foram criados aleatoriamente, sem pensar numa cidade unificada. E Maguito veio com uma gestão moderna, começou a interligar a cidade. Ele criou vias de acesso expresso, o que foi seguido por Gustavo [Mendanha (sem partido), prefeito de Aparecida]. Então, hoje, mesmo que haja ainda vazios, têm vias que interligam essas regiões. A cidade começou a ter de fato uma gestão planejada. Então, talvez, o que tenha faltado para Aparecida no passado – até porque não era algo obrigatório – foram planos diretores dando a direção para onde a cidade deveria crescer.

Goiânia hoje é uma cidade que cresce para todas as regiões. Se você for para a região leste, saída para Bela Vista, verá que ali virou lugar de empreendimentos de condomínios fechados, pequenos ou maiores. Já a região norte, na saída da Universidade Federal de Goiás [Campus Samambaia], também tem crescido. Da mesma forma, na divisa com Goianira, que cresceu muito na região perto de Goiânia. Vindo de lá, vê-se pela rodovia [GO-070] que têm muitos empreendimentos na divisa. Outro exemplo é a divisa com Trindade.

Euler de França Belém – Então, dessa forma, uma região conurbada como a de Goiânia, não tinha de ter um plano diretor metropolitano?

Nós defendemos isso, que pudéssemos ter não exatamente um plano diretor para cada cidade, mas uma gestão única da região metropolitana. A legislação estadual criou o Codemetro [Conselho de Desenvolvimento da Região Metropolitana de Goiânia] para essa gestão, unindo Estado e municípios da região metropolitana. Cada um com seu plano diretor, mas sempre que fosse mudar, lutando para fazer em conjunto, para que a gente tivesse uma região unificada, por exemplo, em termos de mobilidade urbana, para que as avenidas se encontrem; também em termos de tratamento de saúde – não adianta um município ter uma grande implemento de saúde, enquanto outros não tem. Outro problema sério são os aterros sanitários, algo que precisa ser resolvido. Com o Codemetro, isso estaria mais fácil de ser sanado.

Elder Dias – Há tempos atrás, essa unificação metropolitana parecia estar mais avançada. Como está isso hoje?

O Codemetro ainda não foi colocado em prática, não funciona efetivamente. Temos assento no conselho, mas isso é algo para ser levado à frente pelos entes públicos, para começarmos a pensar a região metropolitana como uma grande cidade.

Elder Dias – Cidades, naturalmente, são formadas para o caos e talvez isso seja uma das belezas da cidade, a dinâmica que ela tem, apesar de seus problemas. Goiânia tem como característica negativa – e isso é uma das maiores preocupações – a grande desigualdade social. Anos atrás, em classificação pelo índice Gini, essa desigualdade era uma das maiores do mundo. E é uma cidade que tem não tem favelas aparentes, mas mostra uma diferença muito grande na arquitetura de alguns bairros pra outros bairros, vizinhos. É o caso, por exemplo, de termos, logo na entrada de Goiânia, quando se chega por Anápolis, de um lado o Residencial Vale dos Sonhos, um bairro carente, e de outro o Aldeia do Vale, onde estão alguns dos mais ricos da cidade. Como a classe empresarial poderia contribuir para reduzir a discrepância desse cenário? Preocupa o setor imobiliário ter uma cidade tão desigual?

Isso nos preocupa muito. Tanto que os empresários sempre estão envolvidos em ações sociais. No exemplo do Aldeia do Vale e do Vale dos Sonhos, é bom informar que a creche que existe dentro do Vale dos Sonhos foi construída pela associação do Aldeia do Vale e é mantida e é organizada por eles. Ou seja, o empresário não está despreocupado morando intramuros, pelo contrário, está preocupado também com o cidadão que mora nas proximidades e que, de certa forma, até presta serviços dentro da casa dele, em uma situação na qual, para trabalhar, precisa deixar um filho sob cuidados. Então, lá dentro do bairro, tem uma creche que a Saalva [Associação dos Amigos do Residencial Aldeia do Vale] que construiu e toma conta.

Se Goiânia hoje não tem as favelas que em outras cidades do mesmo porte têm é porque o mercado imobiliário proporcionou moradia. Quantos clientes que a gente tem que lava roupa, vende picolé, junta o dinheirinho e paga a prestação do lote? Porque, às vezes, ele está no aluguel de mil reais e dessa forma vai passar a pagar uma prestação de 500 reais.

“Lei de mercado é o melhor regramento de qualquer segmento. Se tivermos mais opções, elas serão mais baratas e mais pessoas terão oportunidade de adquirir”

Euler de França Belém – Segundo o economista Luiz Estevão, Goiânia não tem favela porque empurrou os pobres para as cidades próximas.

Não é verdade. Afirmar isso seria afirmar também que a gente criou uma segregação. Não é verdade. Se voltarmos no tempo, a Praça Universitária tinha uma invasão de 200 famílias. Iris [Rezende, ex-prefeito de Goiânia por quatro mandatos] era prefeito e precisava retirar essas famílias de lá. Então, procurou o mercado imobiliário, que fez um acordo com ele, doou os 200 lotes, 200 propriedades com escritura para cada uma.

Nas cidades circunvizinhas, também não vamos encontrar favelas. É um conceito de moradia onde a ocupação se dá sem nenhuma regra, à revelia. Então, têm ruas em que não passa um carro, em outras não entra um caminhão de bombeiro. Não há nas cidades do interior esse tipo de ocupação. Eu concordaria com o economista se ele dissesse que nessas cidades da periferia têm pessoas de menor poder aquisitivo morando. Isso é um fato. É natural que um lote na capital de um Estado – seja ela Goiânia ou qualquer outra – seja mais caro.

Então, volto a insistir: lei de mercado é o melhor regramento de qualquer segmento. Se tivermos mais opções, elas serão mais baratas e mais pessoas terão oportunidade de adquirir.

Euler de França Belém – Só com o mercado regulando, tudo não fica muito “selvagem”? Não é importante a interferência do Estado.

O Estado interfere quando cria legislação de modo de ocupar. Seria muito “selvagem” se eu pudesse fazer um loteamento comprando uma área de alguns alqueires, fazer um projeto e aprová-lo na Prefeitura, abrir ruas e vender os lote sem água, sem luz, sem infraestrutura nenhuma. Depois, viraria as costas para quem comprou e o poder público que então se virasse pra resolver a questão. Isso foi o que aconteceu até a década de 70.

Euler de França Belém – Como é a situação da ocupação no Entorno do DF?

O Entorno de Brasília é muito carente, principalmente de empregos, uma região para a qual as pessoas não foram atraídas por Goiás, mas pelo próprio GDF [governo do Distrito Federal]. As pessoas não conseguiram morar em Brasília e acabaram tendo de ir para o Entorno. Há muitas ocupações sem organização, áreas invadidas, onde o próprio poder público pôs as pessoas pra morarem. Há também empreendimentos onde o poder aquisitivo é muito baixo. Realmente, há um cinturão de pobreza preocupante, mas sua origem não é do Estado.

Euler de França Belém – Como está a questão da ocupação do espaço, é desordenada ou tem alguma ordem?

Onde têm plano diretor e lei há ordem. Se há uma cidade no interior, ainda que com pequena população, se tiver um plano diretor, uma legislação de ocupação, o empresário tem de cumpri-la. E hoje em dia não se coloca um lote à venda sem energia, água e asfalto, porque o cidadão não vai comprar sem esses implementos. É a mesma coisa de pensar que alguém vai vender um prédio sem porta, sem piso e sem vidros.

Euler de França Belém – Há loteamentos em Goiânia sem água?

Sem água, não. Talvez haja alguns com problema de abastecimento de água. Mas não se pode aprovar loteamento sem serviço de água.

Elder Dias – Na verdade o que há são loteamentos antigos com serviço de poço artesiano. Na região norte de Goiânia há muito disso. Por outro lado, a Saneago, que é a operadora do serviço, diz que tem cobertura universalizada de água tratada em Goiânia. A interpretação que tenho é de a empresa tem condição de atender, mas não existe essa demanda nessas regiões por essas pessoas serem servidas por poços. A pergunta é: existe algum lugar em Goiânia que a questão da água vai ser impeditiva para o surgimento de empreendimentos?

Qualquer região de Goiânia – ou mesmo de Goiás – que não tiver viabilidade de água não se consegue empreender. E nem queremos isso, porque os desdobramentos pode ser muito piores.

Elder Dias – A Saneago pode negar ou conceder a AVTO [análise de viabilidade técnica e operacional]…

A Saneago vai dar ao empreendedor a opção de fazer um sistema independente, com poços artesianos, sistema de tratamento de água, caixa d’água elevatória e distribuição da água. Aí, o empreendedor faria isso tudo e entregaria para a Saneago. A maioria dos empreendimentos não comporta esse tipo de investimento, que é muito mais caro.

Elder Dias – Não tem nenhum que esteja fazendo atualmente?

Tenho certeza absoluta de que não tem. Hoje a Saneago não entrega AVTO positiva. Todas saem negativas, com a opção de sistema independente – estou falando de parcelamento de solo, não de prédios na região urbana. Dentro do sistema independente, o empreendedor pode negociar com a Saneago, por exemplo, furar os postos, tratar e jogar na rede dela. Na grande maioria, o empreendedor faz isso e também a caixa d’água, para poder armazenar.

Mas é bom lembrar que nós temos o reservatório do João Leite, que é uma caixa d’água a céu aberto, tanto que não pode haver nenhuma atividade ao redor daquela área [no Sistema Produtor Mauro Borges, na região norte, em parte da área do Parque Estadual Altamiro de Moura Pacheco]. Não tenho de cabeça até quando aquele reservatório poderá suportar a região metropolitana, mas é coisa para muitos anos.

Euler de França Belém – O sr. considera que o Brasil hoje é um país de primeiro mundo?

De qual aspecto você está falando? Se for em relação ao aspecto social, acabamos de concordar que não é, porque Goiânia não teria essa desigualdade social.

Euler de França Belém – Em termos de PIB.

Em termos de economia e riqueza, é um país que está dentro do G20 [grupo das 20 maiores economias mundiais]. Mas nós não somos um país que se poderia com todos os índices que se enquadrariam em países de primeiro mundo, como Estados Unidos, Canadá, Austrália, países europeus. A gente precisa melhorar muita coisa e, entre elas, penso eu, na redução da desigualdade social.

Euler de França Belém – Nesse sentido, nos loteamentos muito distantes que existem em Goiânia, não seria preciso que os empresários também contribuam, não deixar tudo por conta da Prefeitura ou do Estado em relação às condições de vida dessas pessoas que moram nesses bairros?

Todo empreendimento que hoje é feito, como eu já disse, já vem com toda a infraestrutura.

Euler de França Belém – Mas, quando vocês falam em infraestrutura, isso é asfalto, energia, água. Mas não é só isso que as pessoas precisam. Um loteamento desses poderia ter um espaço olímpico, um centro de lazer. O sr. não acha que os empresários precisavam investir mais e criar melhores condições para essas pessoas?

Elder Dias – Um exemplo sobre isso é, suponhamos, uma pessoa que more de aluguel no Setor Norte Ferroviário com a família, trabalhando no Centro. De repente, ele consegue o direito de morar em uma casa própria, no Residencial Jardins do Cerrado, na divisa com Trindade. O sentimento, em princípio, é de ter tirado a sorte grande, porque a casa agora é dele. Mas a vida dessa pessoa e de sua família muda totalmente, porque continuará trabalhando no Centro, agora morando muito distante. Às vezes, o que gastaria no deslocamento ida e volta entre a casa de aluguel e o local de trabalho, agora será só o tempo de espera pelo ônibus, fora o trajeto. Ou seja, o sonho de ter um imóvel não acaba causando um prejuízo muito grande também, já que o fator tempo pesa demais?

Nesse exemplo específico que você deu, do Jardins do Cerrado, é bom ressaltar que não foi um empreendimento privado, mas público.

Elder Dias – Sim, mas antes era uma área privada, que foi negociada.

Sim, foi negociada, mas a partir de então virou pública, e o poder público construiu. O empresário tem regras pra fazer um empreendimento. E a primeira regra é contiguidade. Não se pode fazer empreendimento no meio do mato. É preciso ter um loteamento ocupado para fazer outro ao lado. Se o Plano Diretor libera na expansão urbana, mas no meio não tem nada, você não faz nada. Ou seja, a lei já regula isso. Precisa ter contiguidade, precisa ter um posto de saúde a tantos metros, uma escola a tantos metros, uma série de regramentos que permite fazer ou não o empreendimento.

“Longe” é um conceito relativo: se a pessoa trabalhar no próprio bairro, ele obviamente vai estar perto de casa; se tiver um bom transporte, uma boa condição de mobilidade, o que é distante também fica “perto”. Em cidades de primeiro mundo, por exemplo, nos Estados Unidos com uma zona metropolitana como a de Goiânia, os bairros mais nobres são mais distantes do centro. A pessoa tem de sair de onde mora pra trabalhar. A diferença não é onde está o empreendimento, o problema está na mobilidade. Nós ainda não temos uma forma justa para trazer o cidadão de onde vive até onde trabalha. Se tivesse, nada era longe. Um trem, um metrô, uma linha de ônibus que servisse adequadamente, se houvesse qualquer coisa assim não tinha problema. A questão é de mobilidade. Então, concordo que a gente precisa pensar muito mais na cidade e na região metropolitana sobre como a gente quer essa mobilidade urbana. E digo mais: não vejo solução para a mobilidade urbana – e isso é no mundo inteiro – sem que o poder público participe financeiramente. Nas grandes cidades, onde a mobilidade urbana funciona, o poder público subsidia.

“Se for para sonho de consumo, o ótimo é metrô. Mas o ótimo é o inimigo do bom. Se a gente ficar esperando o metrô, a gente nunca vai ter o VLT. Então, que venha o VLT”

Euler de França Belém – O VLT [veículo leve sobre trilhos] na Avenida Anhanguera seria um avanço ou não? Digo isso porque os comerciantes estiveram contra esse projeto no passado.

Sou sempre favorável a qualquer forma de transporte que venha a melhorar. O VLT, sem dúvida, seria muito melhor que os ônibus articulados que temos hoje. Se for para sonho de consumo, o ótimo é metrô. Mas o ótimo é o inimigo do bom. Se a gente ficar esperando o metrô, a gente nunca vai ter o VLT. Então, que venha o VLT, e no dia em que a gente der conta, trocamos o VLT pelo metrô.

Euler de França Belém – O sr. participou das conversas sobre esse projeto?

Não, nós não participamos, mas sou favorável a tudo que melhore a mobilidade. Não precisa ir longe, só o Eixo Norte-Sul, que está sendo concluído, já vai ser um grande ganho, as pessoas vão ganhar tempo, porque os ônibus terão preferência de circulação.

Euler de França Belém – A criação da Avenida Leste-Oeste foi importante para o comércio?

Sob o aspecto do deslocamento, sem dúvida. Se for pensar o aspecto econômico e comercial, não mudou tanto, porque o comerciante não abriu portas para a Leste-Oeste. Mas, sem dúvida, o funcionário dele pôde transitar mais rápido e seu cliente passou a chegar mais facilmente até lá.

Euler de França Belém – Os comerciantes continuam reclamando do atraso das obras do BRT, especialmente sobre a questão do novo piso para trânsito dos ônibus. Todo dia tem gente reclamando dessas obras que não acabam. A Fecomércio cobra isso da Prefeitura?

Sim, a gente cobra, até porque esse atraso traz prejuízo para todos. Um exemplo você vê quando chega a Cuiabá, pelo aeroporto. Ao pegar o táxi, a sensação observando a cidade é de que aquilo passou por uma guerra. Tem um metrô que nunca terminou – era obra para a Copa do Mundo de 2014 – e você transita lá com a cidade inteira “furada” no meio das grandes avenidas. Obra tem de ter fim. O BRT da Norte-Sul é uma obra que precisamos terminar, vai trazer mais comodidade para quem anda de ônibus

Euler de França Belém – Como o sr. avalia a gestão do prefeito Rogério Cruz?

Levando-se em consideração que ele era vereador, veio candidato a vice-prefeito e nunca havia imaginado virar prefeito, ele está muito bem no cargo, desempenhando bem as funções que lhe foram conferidas. Ele tem grandes qualidade, por exemplo, a interlocução muito fácil com ele e sua equipe, não no sentido de conseguir o que a gente quer, mas de conversar e conseguir dialogar. Rogério Cruz nos recebe, a gente debate e aprofunda nos temas, de forma muito republicana. Assim, temos conseguido que as ações sejam cada vez mais favoráveis ao crescimento de uma cidade organizada. O prefeito se mostra preocupado com as obras estruturantes, com geração de emprego, com a área social. Então, a avaliação que faço da gestão é muito positiva.

Euler de França Belém – Em que o prefeito precisa melhorar?

Eu tenho uma sugestão que não é característica da gestão dele, mas é na própria Prefeitura, algo que ele já pegou assim. É a área tecnológica. A Prefeitura tem muito a oferecer com mais serviços de tecnologia, para que o cidadão possa ter o Habite-se da sua casa eletronicamente, protocolando e tendo o resultado no menor espaço de tempo, para que possa aprovar o projeto da sua casa. Isso vai favorecer não os empresários, mas o pequeno construtor mesmo, o cidadão que construiu sua casa e não sabe nem por onde começar a regularização. Nossa cidade precisa estar cada vez mais próxima de uma tecnologia pela qual a pessoa interaja com os serviços públicos.

Euler de França Belém – O sr. concorda com os novos valores do IPTU? Não estão muito altos? Um leitor diz que pagava R$ 42 reais e agora vai pagar mais de R$ 1,3 mil.

Esse é um aumento desproporcional e fora da lei. A lei deixou muito clara: o valor deve ser atualizado pelo IPCA, que foi de 10,74%, e pode ser reajustado em, no máximo, 45%. Então, em uma conta simples: deve-se multiplicar o IPTU de 2021 por 1,6, que daria 60% de aumento. Isso é o máximo de aumento que poderia haver.

Elder Dias – Então houve erro, nesse caso?

Está errado. Eu conversei com o secretário Geraldo [Lourenço, titular da Secretaria Municipal de Finanças] e ele me disse que é “de praxe”, todos os anos, mais de 3 mil lançamentos errados. Mesmo com os parâmetros, o sistema deixa passar e dar um cálculo errado. O que o cidadão que fez essa multiplicação por 1,6 e viu que seu valor está maior? Ir até a Prefeitura e protocolar a ocorrência, pedindo a correção do IPTU. Não pode passar desse índice.

Sobre as questões gerais do IPTU, há muita gente que vai ter redução de valor. E não só na periferia. Uma pessoa que conheço e mora num apartamento do Setor Marista teve seu IPTU diminuído com as novas regras. O novo modelo de cálculo do IPTU troca as zonas fiscais por alíquotas. As zonas eram uma forma desequilibrada de estabelecer o imposto. Uma casa na 1ª zona valia R$ 1 milhão e pagava, vamos dizer, um tributo de 0,55% [sobre o valor venal] e outra de mesmo valor, mas na periferia, pagava 0,10%. Então, eliminando zonas fiscais e estabelecendo alíquotas em função do valor venal, se criam regras mais justas. Nesse regramento, também conseguiram colocar 54 mil imóveis isentos de IPTU. A justiça social é esta: um número de imóveis que diminuiu valor; um número que manteve o valor, com o devido reajuste; e um número que chegou até a esse aumento de 60%, que é para quem está “doendo” mais essa mudança. Mas é difícil criar um regramento sem quem vá ficar feliz porque baixou e quem vai ficar com raiva porque aumentou.

Foto: Euler de França Belém

Elder Dias – Com o IPTU as pessoas prejudicadas ficam injuriadas imediatamente. No caso do Plano Diretor, que é uma lei de longo prazo, não parece haver preocupação por parte dos cidadãos. Ainda que o Plano seja aquilo que vai bater na porta das pessoas daqui a uns dias, com a permissão de instalação de uma indústria, com uma mudança no grau incomodidade, as pessoas não sentem esse impacto. Os empresários se preocupam com o futuro dessas pessoas que não conseguem ver lá “na frente”, como vocês podem ver? Existe essa, vamos dizer, empatia?

Proibir é pior do que autorizar com regra. Quando se fala “olha, naquela região não se deve fazer nada”, o cidadão de bem vai pegar a área dele e vender pra alguém que não está nem aí, e aquilo vai ser ocupado de qualquer jeito. E depois não tem quem tire. Dando um exemplo simplório: um lugar com “x” alqueires que caberiam 120 lotes, com áreas maiores e espaço de proteção de nascentes – porque construir perto de nascente não é problema, a questão é ter instrumentos para preservá-la. Se um empresário sério é proibido de fazer qualquer empreendimento ali, o dono da área tem a opção de vender para o primeiro que não tem compromisso algum. Então, da noite para o dia onde, com todo o regramento, caberiam 120 famílias, entram o triplo. Quando querem, ninguém segura.

Temos de criar regramentos rígidos de ocupação com defesa de nossos mananciais. Não tem nada mais valoroso, nada mais importante, hoje no mundo do que a água. A água é finita. A água doce, potável, então, mais ainda.

Elder Dias – A água está ficando cada vez mais cara, com vários países do primeiro mundo tendo a previsão de chegar a um nível altíssimo de estresse hídrico, como Estados Unidos, Espanha e outros. Já o Brasil ainda está no nível mínimo nessa escala. E Goiânia é uma cidade que foi planejada em torno das águas de mananciais.

Infelizmente, não se cuidou, não se tratou dessa questão no passado.

Euler de França Belém – Os empresários têm preocupação com essas questões? Por exemplo, a despoluição do Rio Meia Ponte?

Essa é uma questão ambiental complexa. Entendemos que é necessário despoluir, mas, entra governo e sai governo e não tem ação efetiva. E a iniciativa privada sozinha não dá conta.

Elder Dias – Tentativas de recuperar o Meia Ponte já foram feitas. Por exemplo, o projeto Produtor de Água, do governo anterior, já tem um trabalho na nascente do rio, em Itauçu. Ou seja, já há um começo. Não dá para ter uma parceria entre os dois lados, empresários e administração pública para salvar o Meia Ponte? Não seria uma baita bandeira para todos?

Os fazendeiros precisam ter benefícios para represar a água, para cuidar das nascentes, para plantar árvores. Isso precisa ser observado e incentivado com pagamento. O problema de água de Goiânia não começa aqui, mas lá nas nascentes que vêm abastecendo o rio. Uma recuperação real do Meia Ponte é um investimento que o setor privado não dá conta de fazer.

Elder Dias – Mas nem juntamente com o setor público?

O setor privado dá conta de mobilizar. Como mobilizamos para discutir o anel viário. Nós damos conta de fazer o anel viário? Não. Mas conseguimos convencer que é importante para a região. O poder público então, tem de investir e fazer.

Elder Dias – Mas o setor empresarial, então, não se interessa em puxar a discussão da despoluição do Meia Ponte?

Isso nos interessa, sim, e muito. Só que, até o momento, não encontramos eco pra dar andamento.

Elder Dias – Onde? Não há apoio no próprio empresariado?

É preciso que nós, no sistema organizado público e privado, nos sentemos à mesa, com todo esse contexto, para decidir “vamos despoluir”. Mas eu volto a insistir: são investimentos de altíssima monta que só poderia ser bancado pelo setor público e, creio, apenas com recursos da União para conseguir executar. Nem o Estado tem recursos próprios pra executar uma obra desse porte.

Elder Dias – Mas aí é uma questão de prioridade.

Como fazer? Estamos com uma pandemia, pessoas precisando ser tratadas com UTIs. Como tirar dinheiro disso e colocar na despoluição do Meia Ponte? É difícil sopesar o que é mais importante.

Elder Dias – Mas isso realmente é mesmo algo maior do que o orçamento que o Estado ou até a União dispõe. Só que tivemos um exemplo de obtenção de recursos aqui em Goiânia para algo semelhante: o Projeto Macambira-Anicuns, que foi aprovado com recursos do BID [Banco Internacional de Desenvolvimento], na gestão de Pedro Wilson [prefeito de 2005 a 2008]. A obra demorou muito tempo para ser feita e só foi concluída ainda em parte, mas mudou a realidade do pessoal lá do Setor Faiçalville: onde havia ponto de tráfico de droga e desova de corpos, onde as pessoas não saíam à noite, hoje a vizinhança curte um parque. Isso, com certeza, valoriza a região inclusive para os empresários. Não falta, então, uma vontade política, um pensamento mais avançado para montar um projeto para obter recursos, ainda mais num momento de alta da chamada “economia verde”, em que o mundo volta os olhos para o Brasil?

Certamente.

Elder Dias – Outro legado de Pedro Wilson – que, é bom ressaltar, foi à época um prefeito muito criticado, muitas vezes injustamente – foi o Residencial América Latina, construído ao lado da Marginal Botafogo no Jardim Goiás. A obra abrigou os que moravam na área de risco, numa invasão vizinha à via. Pessoas que saíram da área da obra, mas ganharam uma moradia ali mesmo, no predinho, com todos os vizinhos por perto, preservando laços já construídos e as distâncias para trabalho, escola etc.

Bom ressaltar que isso só foi possível porque a iniciativa privada participou. Os proprietários do Flamboyant doaram a área para a construção.

Elder Dias – Pois então, não falta mais gente assim em Goiânia, do setor empresarial e também do setor público?

É a diferença entre quem tem visão de Estado e visão de governo. Este pensa na próxima eleição; o outro pensa lá na frente. Esse tipo de visão é importante. Falta mobilizar para essas ações como essas? Falta, sim. Mas a gente vive em cima de muitos problemas, de uma forma geral, tanto na iniciativa privada como no poder público. Mas, então, é um problema menor a despoluição do Meia Ponte? Nunca, talvez seja muito maior do que isso tudo, mas é como a gente ter dentro de casa o filho com Covid e ao mesmo tempo uma torneira pingando, que está custando caro. Entre a torneira pingar e cuidar do filho, todos vão cuidar do filho para depois se lembrar da torneira. O que quero dizer é que ficamos envolvido com problemas no dia a dia e acabamos deixando para depois situações como essa.

Eu diria mais: a gente tem de pensar na água para daqui a cem anos, onde a gente vai buscar, antes que essas áreas sejam ocupadas e não tenha mais como represá-las. Hoje a barragem do João Leite só existe porque Altamiro de Moura Pacheco foi até Iris Rezende e negociou por um valor dez vezes maior para o Estado comprar. Porque ele, Altamiro, teve uma visão de Estado e convenceu o político a comprar. Altamiro foi um dos maiores estadistas que tivemos, pensando nessa situação.

Elder Dias – Altamiro é realmente uma personalidade goiana muito menos valorizada do que deveria, por sua história.

Euler de França Belém – O sr. acha que o Aeroporto Santa Genoveva, que se chama assim a pedido de Altamiro, que doou a área, deve ser mantido com esse nome? [o senador Luiz do Carmo (MDB) teve projeto de lei aprovado para mudar o nome para Aeroporto Iris Rezende Machado]

Nós, da Fecomércio, fizemos nota oficial sobre isso. Não é questão de manter ou não o aeroporto com o mesmo nome. Não acho certo ficar mudando nome de ruas e outros implementos públicos para homenagem assim. Isso cria muita confusão. Veja o caso da Avenida Castelo Branco [na Câmara de Goiânia existe projeto para mudar o nome para Avenida Iris Rezende Machado]. Quantos milhares de comerciantes e pessoas que passariam a sofrer com problemas diante da Receita Federal, da Receita estadual, cadastro de clientes e fornecedores. Iris Rezende é um homem digno de todas homenagens – e, diga-se de passagem a maior homenagem que recebeu em vida foi de nós do Sesc [Serviço Social do Comércio]. Pegamos nosso maior implemento na cidade, que é o Sesc Cidadania, e no auditório fizemos um Memorial Iris, com coisas que ele doou. Hoje chama-se Auditório Iris Rezende Machado. Então ele é digno de todas as homenagens, mas o fato se refere não ao político Iris, mas a qualquer mudança de nomes? Nós somos contra isso.

Euler de França Belém – Recentemente recebemos um material de uma pesquisadora, no qual ela diz que 100% do lixo pode ser aproveitado, o que já ocorre em vários países, inclusive pra fazer combustível. É uma pesquisa interessante. Em Goiânia já tem experiências, ainda pequenas, de pessoas que recolhem o lixo orgânico de casas, cobram certo valor, fazem a compostagem e devolvem como adubo. Como trabalhar isso de uma forma mais ampla aqui?

A consciência que vejo hoje de separação do lixo está muito mais em residências e grandes indústrias, que aproveitam muito o lixo reciclável, até porque vale dinheiro. Em algumas, os funcionários ficam com esse montante, em outras isso vira caixa para alguma atividade social. Precisávamos pensar o lixo muito mais à frente, a começar por nosso Aterro Sanitário. Não dá para culpar ninguém, até porque os gestores que aí estão pegaram seus municípios já nesse estado, mas a gente precisa mudar a consciência em relação à exploração do lixo. É um nicho que pode virar dinheiro.

Elder Dias – Creio que o centro de nossa entrevista está sendo essa relação do Estado com o empresariado e vice-versa. O sr. enxerga, em seus colegas de entidades, alguma visão de mais longo prazo, de pensar além, em parcerias maiores do ponto de vista social ou ambiental? Parece-me que, do ponto de vista dos governos, em geral, o que estes querem são ações imediatistas e eleitoreiras. Mas o empresariado, entra governo e sai governo, vai continuar e será a categoria a ficar na berlinda: na maioria das vezes, a população em geral acha que o empresário é o vilão – pela alta dos preços, pelo transporte ruim, pela poluição. Ações mais profundas não ajudariam a afastar esse estigma?

O empresário contribui muito para as gestões públicas, mas, muitas vezes, é convidado a contribuir nas questões sociais. Não se furta a ajudar, mas acaba preso no que é o atendimento social imediato, da necessidade básica. Nesse sentido, essa provocação que você faz é muito positiva, porque nós, como iniciativa privada, no mesmo modelo do que fizemos com o Anel Viário – uma questão agora já praticamente resolvida –, precisamos escolher outra bandeira e lutar por ela. Pode ser o próprio Meia Ponte, podem ser o os aterros sanitários que precisamos para a cidade. Então, vamos trabalhar para que soluções aconteçam.

Outro exemplo, das primeiras perguntas desta conversa, sobre a proeminência do mercado imobiliário: quando Iris voltou à Prefeitura pela primeira vez, em 2005, nós, já prevendo que os alagamentos em Goiânia ameaçavam se tornar como o que ocorria em São Paulo, provocamos um estudo sobre esse assunto. Trouxemos um professor especialista, de Curitiba, para um estudo sobre as bacias de contenção. Apresentamos o trabalho em uma reunião com Iris. O que são bacias de contenção? São estruturas como o lago do Parque Vaca Brava, que, além da questão estética, servem para segurar a água da chuva, para ela não entrar com tudo no córrego e sair arrebentando tudo o que tiver para baixo. Ou seja, o lago é um espelho d’água para conter a força das águas das chuvas.

O caso do Parque Cascavel é o exemplo mais prático. Foi um dos primeiros a ser criados depois desse estudo. Falam, muitas vezes, que o Cascavel assoreou, que está cheio de lama. Ora, ele foi feito para isso. Primeiramente, para conter sujeiras quando a chuva cai no asfalto, trazendo a sujeira para dentro dele, em vez de ir para os córregos; e também para evitar alagamentos, sem deixar a água entrar com força nos mananciais.

Euler de França Belém – Então Iris gostou do projeto e aplicou?

Sim, e a partir disso sugerimos um projeto de lei para que os loteamentos urbanos já contemplassem as bacias de contenção.

Euler de França Belém – A região próxima ao Fórum, no Setor Oeste, está com o problema de alagamento resolvido?

A área mais propícia para resolver esse caso é dentro do Lago dos Buritis. Nos últimos tempos, o lago foi ampliado e preparado para receber água. Então, acredito que esse problema tenha se reduzido.

Euler de França Belém – O sr. acha que o novo Código Tributário de Goiânia pode ajudar a revitalizar o Centro?

Ele trouxe avanços, no sentido de direcionar investimentos – por exemplo, para o setor de informática e outros, vocacionado para a região central. Em uma opinião pessoal, para revitalizar o Centro, nós precisamos levar a vida noturna para lá. O problema do Centro é que, de noite, não fica uma viva alma. Quem mora lá tem medo de sair e os donos de estabelecimentos não têm como funcionar até mais tarde porque ninguém passa. Se incentivarmos, se começar a ter escolas funcionando à noite, bares, restaurantes, a gastronomia em geral e outras atividades, isso pode crescer e trazer vida ao local.

Euler de França Belém – Na Rua 8 esse processo está começando, abaixo da Avenida Anhanguera. Há comida boa, petiscos bons, às vezes não se encontra uma mesa facilmente, lotado de gente jovem.

Ou seja, o Centro não é um problema. O que é preciso atrair pra lá são atrações gastronômicas. Porque há uma série de atrativos. Por exemplo, as vagas para estacionamento são fartas; também há poucas residências, então quase não há incômodo para vizinhos com barulho. Tudo isso é muito positivo.

Euler de França Belém – Como o sr. está vendo a construção civil no governo de Jair Bolsonaro (PL)?

Não é uma área que eu represente, mas a construção civil no governo Bolsonaro teve uma relação muito positiva no sentido de que, primeiramente, o presidente manteve os bons projetos que já vinham de outras gestões. Ele não encerrou nenhum, o Minha Casa Minha Vida, por exemplo, continua. Houve recursos, não exclusivos da Caixa Econômica Federal, mas de todos os sistema financeiros que trabalham com habitação. A taxa Selic também ajudou, a 2% ao ano. Isso proporcionou muito investimento para o mercado imobiliário e consequentemente as pessoas compraram mais imóvel, já que a taxa ficou muito atrativa. Consequentemente, todo o mercado imobiliário pode colher frutos disso.

Euler de França Belém – O setor comercial sofreu muito com a pandemia. Como está a situação do comércio em Goiânia e em Goiás hoje?

O comércio de uma forma geral em Goiás sofreu muito, principalmente para aqueles que não tinham a opção de trabalhar como delivery, por aplicativos. Essas pessoas acabaram se vendo com todas as despesas, mas sem faturamento. Tiveram de recorrer as “gorduras” que tinham guardadas. Quem não tinha reserva nem condição financeira, infelizmente foi à falência. Isso aconteceu com uma grande maioria de pequenos negócios, o que é ruim, já que a grande maioria são negócios familiares, onde trabalham marido, mulher e filhos. Ficou toda uma unidade familiar sem emprego, sem renda.

Daqueles que fecharam as portas definitivamente, muitos não conseguiram se recuperar. Esses infelizmente hoje buscam um emprego ou estão no trabalho informal. Já quem conseguiu atravessar toda a pandemia, voltar às atividades com dívidas. E aqui é bom ressaltar a importância dos refinanciamentos que as esferas de governo – municipal, estadual, federal – ofereceram, principalmente para os pequenos negócios. Isso deu condição ao empresário de se regularizar, parcelando suas dívidas fiscais.

Programas de incentivo, como o Pronampe [Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte], do governo federal, também serviram para dar caixa às empresas que consumiram seus recursos no tempo de fechamento.

Agora, não tivemos como recuperar, até porque é irrecuperável o tempo perdido. Quem não comprou uma calça durante o período mais grave da pandemia, quando isso passou e o comércio reabriu não foi na loja para comprar duas. Então, aquela calça que deixou de vender não volta. Isso vale também para o turismo: o hotel que não hospedou não vai conseguir hospedar dobrado para poder se recuperar. O que estamos vislumbrando é para frente, conseguir voltar a ter o faturamento que tínhamos antes da pandemia. Este fim de ano de 2021 foi muito bom, teve um Natal aquecido. Para a área da gastronomia e do turismo, foi maravilhoso. Com o dólar alto, quem decidiu viajar fez isso dentro do Brasil. Falando do goiano, especificamente, ele decidiu ir para o bar, para o restaurante, confraternizar com os amigos, com a família. A expectativa é de que isso continue, pelo menos, estável. Não acreditamos mais em fechamento, não tem motivação para isso.

Euler de França Belém – Como foi sua experiência com a Covid-19?

Eu tive duas vezes. A primeira foi em junho de 2020, quando ainda não havia vacina. Vários dos vídeos que eu postei na época, brigando para a abertura do comércio, eu estava com estava com Covid. Em vários, eu estava de camisa e bermuda, mas precisava manter minha postura como líder classista. Da mesma forma, várias entrevistas que eu concedi de forma virtual foram dentro do meu quarto, doente. Tive todos os sintomas, sem nenhum agravamento. A segunda vez foi agora, 30 dias atrás. Como da primeira vez, fiz duas tomografias de pulmão, que para mim é a coisa mais importante. E passei bem, diga-se de passagem.

Euler de França Belém – O sr. pretende seguir carreira política?

Política classista. Eu sou político classista.

Euler de França Belém – Mas política partidária, não?

Eu tenho muitos convites, até porque tenho muitas amizades. Isso, às vezes, para o público pode parecer que eu esteja preparando uma candidatura, mas não é nada disso: é que meu cargo, como presidente de federação, me obriga a me relacionar com a questão política. Porque nossas atividades, 90% delas, são políticas. A Fecomércio constantemente está em discussões políticas para melhorar o ambiente de negócio, para apresentar nossas posições. Então se confunde muito minha atividade classista com a atividade político-eleitoral partidária.

Claro, tenho convites de partidos, mas não entendo que seja meu momento. Não diria que nunca entraria na política, mas na minha visão pessoal no momento eu tenho um projeto na federação. Em maio tem eleição e já tenho o apoio de 29 dos 33 sindicatos filiados, que assinaram um abaixo assinado pedindo minha recondução. Eu teria então mais quatro anos e meio à frente da Fecomércio.

Euler de França Belém – E como está sua atuação cooperativista?

Há 16 anos eu presido uma cooperativa de crédito também que é o Sicoob SecoviCredi. Temos 18 mil cooperados e administramos R$ 1,1 bilhão de ativos. Uma cooperativa que começou há 16 anos, com R$ 220 mil de patrimônio líquido e hoje tem quase R$ 200 milhões de patrimônio líquido, que é de 18 mil pessoas. Então, esse é um negócio bacana, que eu faço com muito prazer. No dia em que eu tomar a decisão de ir para uma carreira política, terei de abandonar o cooperativismo financeiro, porque o Banco Central não permite atuação político-partidária e sistema financeiro simultaneamente.

Euler de França Belém – O Sesc e o Senac [Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial] estão sob sua batuta. Quantas pessoas são atendidas pelos serviços?

Por ano, a gente deve beneficiar algo em torno de 200 mil pessoas em Goiás. Temos uma escola, que é o Sesc Cidadania, com 3,6 mil alunos, sendo que 600 deles não pagam nada porque fazem parte de nosso projeto de gratuidade. Recebem uniforme, material didático e lanche todos os dias. Os demais 3 mil pagam, no máximo, R$ 980. Os comerciários pagam metade, R$ 480. E nosso colégio aprovou, nas universidades federais, quase cem alunos no ano passado, alguns entre os três primeiros lugares nos respectivos cursos.

A gente tem um ensino de alto nível e estamos investindo mais nisso. Temos também o Senac Idiomas, com mais 2 mil alunos, na mesma política, com gratuidade para alguns e outros pagando, mais barato. Temos academias, clubes, a Faculdade Senac. Dentro do Sesc, fazemos um trabalho com idosos, também atendimento odontológico.

Elder Dias – Ainda há projetos na área cultural?

Sim, inclusive na pandemia, quando os músicos e artistas em geral ficaram a ver navios, nós montamos o projeto Claque. Com ele, beneficiamos 600 artistas com R$ 2 mil cada um. O valor não é muito dinheiro, mas já dá um supermercado. Os candidatos inscreveram os projetos e nós escolhemos – imaginávamos que não iria dar nem 600 inscrições e foram quase mil. Tudo foi feito de forma virtual, ninguém tinha de sair de casa para assistir, apenas o artista ia para dentro de nosso teatro Sesc e focava em sua live de uma hora de duração. Estamos pensando em repetir o projeto este ano. Para o pós-pandemia, lançamos o projeto Capacitar-se e estamos com mais de 20 mil pessoas em todo o Estado, com custo zero para todas elas.

Euler de França Belém – O Senac está em quantos municípios goianos?

O Senac hoje está em 14 municípios. Já o Sesc está em 4 municípios.

Euler de França Belém – E a qualificação que vocês estão dando, está de acordo com o que o mercado precisa?

Foi algo com que nossa gestão se preocupou. Não adianta dar um curso que não tenha a ver com a realidade daquele município. Sempre procuramos então a realidade de cada lugar. Por exemplo, Catalão, o que a gente precisa treinar? Não adianta dar outro tipo de curso onde a vocação é mineral, porque não tem tanto emprego para outra área. A gente está sempre procurando a vocação do município para poder prestar o serviço dentro daquela realidade.

Uma resposta para ““Nós do mercado imobiliário somos os que mais têm interesse em Goiânia””

  1. Marcelo Baiocchi tem uma visão inovadora de tudo.Deve pleitar a carreira politica pela necessidade do estado.a seguir a necessidade do estado vem a necessidade de uma nação e enfim de uma cominidade que se torna global.

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