Natalia Pasternak: “No Brasil, as perspectivas de vacinação ainda estão um pouco nebulosas”

Presidente do Instituto Questão de Ciência diz que 2021 será o ano das vacinas, mas que País peca na vontade política, planejamento e logística para imunizar população contra Covid-19

Microbiologista Natalia Pasternak: “Nós já temos algumas vacinas aprovadas que começam a ser aplicadas em alguns países. Certamente, ao longo de 2021, teremos novas aprovações e uma maior cobertura vacinal global” | Foto: Divulgação

“2021 certamente será o anos das vacinas.” Microbiologista e presidente do Instituto Questão de Ciência (IQC), Natalia Pasternak se tornou presença quase que diária no noticiário brasileiro durante a pandemia da Covid-19. O trabalho de esclarecimento e popularização do conhecimento sobre a doença, métodos de prevenção e formas de transmissão tomou praticamente todo o tempo da pesquisadora e divulgadora científica em 2020.

Pasternak alerta que para o Brasil conseguir vacinar seus 211 milhões de habitantes será preciso mais vontade política, planejamento e logística para garantir a quantidade de doses necessárias, o armazenamento e o transporte adequados dos imunizantes. “Tivemos muito pouco planejamento feito até o final de 2020 para que isso realmente ocorra em 2021, para que tenhamos bons acordos internacionais que garantam a quantidade de doses necessária para nossa população, com a logística necessária para que a vacinação seja feita.”

De acordo com a presidente do IQC, a comunicação sobre as formas eficazes de evitar a Covid-19 precisa ser clara e transparente: uso de máscaras, higiene das mãos com água e sabão ou álcool em gel e distanciamento social e físico. “Medição da temperatura é uma medida a mais que pode oferecer algum grau de segurança porque alguém pode estar com febre e não perceber. Mas como muitos dos casos são assintomáticos ou, mesmo com sintomas, não apresentam febre, não é uma medida muito efetiva”, explica.

O que podemos esperar de 2021?
2021 certamente será o ano das vacinas. Nós já temos algumas vacinas aprovadas que começam a ser aplicadas em alguns países. Certamente, ao longo de 2021, teremos novas aprovações e uma maior cobertura vacinal global. No Brasil, as perspectivas ainda estão um pouco nebulosas pela falta de acordos internacionais que garantam o número de doses necessárias para que efetivamente possamos ter uma boa cobertura vacinal em um país de mais de 210 milhões de habitantes.

Até o momento, temos acordos internacionais com a AstraZeneca, que deve atrasar um pouco para pedir aprovação nas agências regulatórias porque teve alguns problemas no caminho, e com a Sinovac, da China, a vacina CoronaVac, do Instituto Butantan, que deve chegar logo. Se tiver uma boa eficácia e segurança, certamente irá conseguir uma aprovação rápida na Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] e deve começar a vacinar em 2021. Mas para escalar a produção dependerá da capacidade de importação e de produção do Instituto Butantan.

Fora isso, temos o acordo Covax Facility, pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que nos dá acesso a um portfólio de nove vacinas, mas ao qual aderimos com uma cota muito pequena. Foram pedidas doses para vacinar apenas 10% da nossa população. Seria interessante firmar novos acordos para garantir uma maior cobertura no Brasil. O acordo com a Pfizer/BioNTech parece estar em andamento, mas até agora não foi batido o martelo.

Quais ações de fato funcionam para conter a transmissão do Sars-CoV-2 (novo coronavírus)?
As medidas de contenção que realmente funcionam são o distanciamento físico e social, a higiene das mãos, o uso de máscaras e evitar aglomerações. Essas são as medidas que realmente fazem diferença na prevenção da doença.

Medição da temperatura é uma medida a mais que pode oferecer algum grau de segurança porque alguém pode estar com febre e não perceber. Se for detectada a febre, aquela pessoa já volta para casa e adota o isolamento ou verifica se tem mais sintomas. Mas como muitos dos casos são assintomáticos ou, mesmo com sintomas, não apresentam febre, não é uma medida muito efetiva.

De qualquer modo, para a medição de temperatura ter qualquer efeito, tem de ser medida no local correto, que é na testa ou na têmpora. E não no pulso, como tem sido medido em vários estabelecimentos, alguns até estabelecimentos de saúde como hospitais. A medição no pulso não tem validade alguma, porque o aparelho não foi calibrado para isso.

Como o mundo passou a encarar a ciência a partir da pandemia da Covid-19?
Em 2020, o mundo passou a voltar todos os olhos para a ciência em busca de respostas. Mas, muitas vezes, frustrados com as respostas que a ciência dá, porque não são respostas absolutas, dogmáticas, pretas no branco e trazem muitas incertezas, as pessoas se voltam para a pseudociência, que traz respostas perfeitas, fechadas, cheias de certezas incorretas.

Por um lado, sim, o mundo passa a olhar de um modo diferente. Mas os movimentos pseudocientíficos e anticientíficos também crescem e ganham muito espaço, como, por exemplo, o movimento antivacinas. É algo que vamos ter de olhar com muito cuidado no futuro para garantir que a autoridade epistêmica da ciência seja respeitada. Que a ciência seja respeitada como um método, como um processo de geração de conhecimento que é carregado de incertezas e que não traz verdades absolutas.

“Seria interessante firmar novos acordos para garantir uma maior cobertura vacinal no Brasil”

“Fora isso, temos o acordo Covax Facility, pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que nos dá acesso a um portfólio de nove vacinas, mas ao qual aderimos com uma cota muito pequena. Foram pedidas doses para vacinar apenas 10% da nossa população” | Foto: Divulgação

A sra. acredita que manteremos os mesmos hábitos de higiene após o fim da pandemia?
Alguns hábitos que aprendemos com a pandemia são interessantes e não têm por que não se perpetuarem. Usar álcool gel depois que você usa um transporte público, onde você compartilha de locais que todo mundo pôs a mão, é interessante. Por que não usar? Por que não carregar um álcool gel na bolsa e utilizar depois de usar o transporte público? Ou quando frequentamos um restaurante por quilo, por exemplo, por que não usar o álcool gel ou lembrar sempre de lavar as mãos antes de se sentar à mesa e depois também? Porque você vai manusear talheres que são de uso comum, como os de servir a comida no bufê.

Alguns hábitos, se ainda não tínhamos adotado antes, são interessantes de serem adotados. Irão prevenir outras doenças que são transmissíveis desta maneira além da Covid-19. Mas não há motivo para ficar paranoico. São simplesmente hábitos de higiene que são saudáveis de qualquer maneira.

Depois da pandemia de H1N1, em 2009, quando se instalaram os repositórios de álcool gel em todos os corredores de hospitais, acabou por diminuir também a incidência de doenças bacterianas nesses ambientes. Sempre são medidas interessantes, mas sem que tenhamos de ficar paranoicos.

Alguns países saíram na frente no início da vacinação de suas populações contra a Covid-19. A tendência é que continue assim ao longo de 2021?
Num primeiro momento, vamos observar uma diferença entre os países mais ricos que tiveram acesso mais rapidamente a mais doses de vacina e os países mais pobres, que acabam por ficar na fila. Durante o ano de 2021, esta situação deve se estabilizar. Mas, com certeza, no início podemos ter essa diferença observada.

É possível estimar quantas vacinas diferentes contra a Covid-19 teremos em uso na imunização da população mundial a partir de janeiro?
Não tem como prever quantas vacinas aprovadas teremos no mundo em 2021. Algumas vacinas extremamente promissoras, como a da Universidade de Queensland, na Austrália, ou da GSK, que é uma empresa multinacional consagrada na produção de vacinas, infelizmente morreram na praia. Não deram certo e foram abandonadas.

É muito difícil de prever. Com certeza teremos várias vacinas que ainda estão em fase de teste e devem ser aprovadas em 2021. O importante é saber que temos pelo menos duas, a da Pfizer e a da Moderna, aqui no Brasil a CoronaVac se mostra muito promissora e deve chegar com bons resultados, e vamos poder contar com algumas vacinas.

O que precisa mudar no comportamento das pessoas para evitarmos uma segunda onda ainda mais forte da pandemia?
Nós precisamos educar as pessoas para cumprir o isolamento social com muita informação, muita transparência e muita clareza de que a Covid-19 é uma doença da sociedade. E a solução só pode vir da sociedade. A solução é colaborativa. A solução para a Covid-19 só é tão eficiente quanto a quantidade de pessoas que colaboram com as medidas preventivas: o isolamento social, o uso de máscaras e evitar aglomerações.

Isso precisa ser comunicado de forma muito clara, muito honesta e de uma maneira que as pessoas entendam as consequências dos seus atos. Se nós não conseguirmos fazer isso, não iremos conseguir contar com a colaboração da sociedade para conter a doença.

O que ainda falta ser feito para que o Brasil consiga vacinar toda sua população em 2021?
Para o Brasil conseguir vacinar a população em 2021, é preciso garantir a quantidade de doses necessárias, precisa ter a logística implementada para armazenar, distribuir e transportar todas as vacinas para os locais mais remotos. Tudo irá depender da nossa capacidade de planejamento e logística, o que, até agora, não parece ter sito um objetivo do Ministério da Saúde.

Porque nós tivemos muito pouco planejamento feito até o final de 2020 para que isso realmente ocorra em 2021, para que tenhamos bons acordos internacionais que garantam a quantidade de doses necessária para nossa população, com a logística necessária para que a vacinação seja feita. Isso precisa de vontade política, planejamento e logística. Até o momento, não vi nenhum dos três.

“Tudo irá depender da nossa capacidade de planejamento e logística, o que, até agora, não parece ter sito um objetivo do Ministério da Saúde”

“Para o Brasil conseguir vacinar a população em 2021, é preciso garantir a quantidade de doses necessárias, precisa ter a logística implementada para armazenar, distribuir e transportar todas as vacinas para os locais mais remotos” | Foto: Divulgação

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