“Não é porque fui abusado que contraí HIV. Essa não foi minha tragédia”, diz produtor Lucas Manga

Integrante da equipe que gerencia a carreira da cantora Pabllo Vittar e sócio do Festival Bananada quer usar experiência de viver com o vírus para informar quem não sabe a diferença entre HIV e aids, falar sobre exame e vantagens do tratamento

Lucas Manga 3 - Foto Augusto Diniz

Lucas Manga, produtor cultural | Foto: Augusto Diniz/Jornal Opção

Lucas Manga viveu diversas experiências ao logo dos 35 anos de vida. Era um dos sócios da boate El Club antes de entrar para a sociedade no Festival Bananada. DJ e produtor cultural, Manga foi para a produção executiva e passou a fazer parte da equipe que cuida da carreira da cantora Pabllo Vittar.

Em 2018, passou a viver com HIV. Junto com o vírus causador da aids, Manga contraiu hepatite B. Estava em uma turnê da Pabllo Vittar na Argentina quando precisou se afastar por 40 dias para se recuperar da hepatite. Na sexta-feira, 26 de junho, o teste deu positivo para Covid-19 e provavelmente a mãe contraiu a doença pelo contato com o filho em casa. Em isolamento no quarto, Manga diz que está sem olfato e paladar há 19 dias.

“Eu vivo com HIV há dois anos, passei pelo processo de traumas e tudo que ocorreu comigo. Mas eu superei isso. E superei com a rede de apoio, com o conhecimento, com o apoio do SUS.” Na entrevista concedida ao Jornal Opção, o produtor cultural fala sobre o vídeo que publicou no dia 14 de junho no Instagram, quando resolveu falar publicamente sobre viver com HIV, que pretende usar as redes sociais para esclarecer dúvidas, ajudar aqueles que têm medo de fazer o exame e mostrar a eficácia do tratamento, que é gratuito, está disponível no SUS e salva vidas.

Quando você descobriu que estava com HIV?
Em junho de 2018. Passei por uma situação chata, tive uma relação não consensual com um cara que eu não conheço. Isso foi em um sábado. Eu tinha completa noção do risco que eu corria. Cheguei em casa meio desnorteado, naquele processo de entender o que tinha ocorrido comigo, e processar aquilo. Não compartilhei com o meu então namorado na época. Não tinha nem como. Estava muito traumatizado.

Na segunda-feira, fui ao médico. Coincidentemente, na mesma época, meu namorado tinha conhecido um médico. Parecia ser um bom médico, meio que Dr. Saúde, que cuidam da saúde em geral. Disse que precisava ir ao médico, que queria fazer meus exames há um tempo. Inventei uma desculpa. Fui a esse médico e, ao chegar lá, não tive coragem de contar a forma como as coisas tinham ocorrido, o abuso.

Só falei que tinha tido uma relação sexual sem camisinha com um cara que eu não conhecia muito bem. Já tinha conhecimento da PEP [Profilaxia Pós-Exposição ao HIV], já tinha feito uma vez em uma situação em que eu e meu então namorado ficamos. Eu já sabia do protocolo. É bastante simples. Você vai a qualquer unidade de saúde… O jeito mais simples de fazer é no HDT [Hospital Estadual de Doenças Tropicais Dr. Anuar Auad].

Basta chegar ao HDT e dizer que pode ter tido contato com o vírus. Imediatamente há o encaminhamento para o teste rápido. O resultado sai em 40 minutos. A partir daí, a pessoa é encaminhada à farmácia do HDT, que fornece a medicação para 30 dias, que são basicamente dois remédios que compões toda a gama dos medicamentos de combate ao HIV. No caso de uma manifestação recente, de até 72 horas, os remédios impedem que a pessoa seja contaminada com o vírus.

É um protocolo de prevenção extremamente eficiente e de graça. Tem isso no SUS [Sistema Único de Saúde]. Eu sabia disso tudo. Só que tomar um remédio porque uma pessoa sofreu abuso dentro de uma realidade de preconceito com HIV e aids é muito difícil. Entendo porque a Prep [Profilaxia Pré-Exposição], a PEP e as conversas sobre HIV não ocorrem. Existe um grande estigma na construção estrutural da homofobia de que aids é doença de viado e que mata porque transou.

Existia muita culpa no lance. E infelizmente o médico foi bem negligente comigo. Tenho hoje dentro de mim que não tenho vontade nenhuma de processá-lo. Acho que o universo vai cuidar do erro que esse médico cometeu. Gostaria que eu fosse o pivô para que esse profissional não seja mais negligente com outras pessoas como ele foi comigo. Ao passo que sei que se for trazer isso à tona num regime de punição, esse médico vai perder a carreira e eu não quero esse carma para mim.

Tomei a decisão de não denunciá-lo. Mas foi o médico que me aconselhou com todas as palavras de que eu não precisaria fazer a profilaxia pós-exposição.

Então houve a conversa no consultório sobre a necessidade ou não da PEP?
Sim. E o médico falou “a possibilidade de você ter contraído o vírus HIV é muito baixa”. Me julgou como um homem branco, bem instruído, que não poderia estar passando por uma situação de perigo. Achou que eu devia ter feito um Grindr [nome do aplicativo, que tem como descrição “o melhor aplicativo social móvel grátis para gays, bi, trans e homossexuais se encontrarem” na Google Play] com um boyzinho qualquer e transei sem camisinha.

Só que esse não é o protocolo. O protocolo é o paciente que estiver com qualquer dúvida… Se eu procurei o médico falando sobre isso é porque eu quero tomar a PEP.

Quando você resolveu contar em junho que vive com HIV há dois anos, você não chegou a dar detalhes sobre o que ocorreu. Não sei se é uma situação que você prefere não falar.
Não é um problema mais para mim. É uma situação que eu já processei há um tempo. Mas é uma situação que pretendo trazer à tona de alguma forma para problematizar em cima disso. Eu não queria problematizar a minha história porque tem toda uma linha tênue no fato de eu compartilhar isso com realmente oferecer uma ajuda efetiva para que eu transforme a situação de pessoas e não seja simplesmente um meio de monetarização do meu canal digital.

Foi uma situação em que eu estava muito bêbado e existiu um flerte com a pessoa. Não o conheço, encontrei essa pessoa na rua. No momento do flerte inicial, deu aquela vontade. Logo que ele chegou perto de mim, eu já bati a mão no peito dele e disse “não, não, não, estou bêbado, não quero”. Ele não me respeitou. Eu estava em situação de total vulnerabilidade. Ele realmente foi para cima de mim, me jogou no chão e fez quis fazer.

Foi um processo muito dolorido para mim de saber que tem uma linha machista em torno disso, de que eu sou homem, sou forte e me deixei subjugar em uma situação dessa. Enfim… São processos que já foram levados para a análise, já foram tratados. Eu trazer isso à tona no momento da minha revelação seria trazer uma falsa esperança e gerar uma sensação de pena e piedade com algo que pode ocorrer com todo mundo.

Não é porque eu fui abusado que eu contraí o HIV. Essa não foi a minha tragédia. Qualquer um pode ser infectado em qualquer tipo de situação. Independente da situação, o protocolo tem que ser o mesmo, o tratamento. Não quis protagonizar a minha forma de contágio para que não fosse tida como “está bom, então ele vai ser perdoado, porque se fosse só sendo viado não vale”.

A forma como ocorreu comigo não pode me validar ou me proteger do preconceito mais do que uma pessoa que contraiu em uma sessão de hemodiálise ou porque não quis usar camisinha. Não é que eu não me sinta confortável em falar como foi a forma do meu contágio, mas tenho muita responsabilidade em dizer. Porque não quero que a minha história seja romantizada, o fato de eu estar vivendo superbem, estar saudável, ter acesso ao tratamento, de a minha família estar linda comigo.

Isso é muito irreal e muito distante das pessoas que convivem com HIV e sabem. Porque tem muita gente que não sabe porque não tem coragem de testar.

Quando você contou que vive com HIV há dois anos, fiquei na dúvida se houve uma negativa para que você fizesse a PEP.
Não levei essa questão porque não queria que girasse em torno da forma do contágio nem do erro, da negligência médica. A minha realidade é: eu vivo com HIV há dois anos, passei pelo processo de traumas e tudo que ocorreu comigo. Mas eu superei isso. E superei com a rede de apoio, com o conhecimento, com o apoio do SUS. E é isso que eu quis trazer.

Aids é um tema complicado? É. HIV é uma marca que vou levar pela vida inteira enquanto não tiver uma cura? É. Só que por que as pessoas que vivem com HIV são criminalizadas, e até discriminadas, levando à morte dessas pessoas por conta de uma doença que hoje tem o mesmo efeito crônico de uma diabetes?

Parece que o preconceito ainda é o mesmo daquele dos primeiros casos da doença, no início dos anos 1980.
Exato. Um amigo meu morreu. Perdi um amigo ano passado. Esse amigo recebeu o diagnóstico, já estava com aids, tinha pelo menos três ou quatro anos de contágio. Temos um número gigantesco de amigos médicos na turma. Esse amigo foi para um posto de saúde porque morava perto da unidade. Soubemos que ele tinha ido porque estava com uma gripe.

Passadas três semanas, ele estava internado no posto de saúde. Chegou a notícia de que precisava comprar um antibiótico que ele não tinha dinheiro para comprar. Um amigo foi à casa dele, mexeu nas coisas e encontrou os exames. Descobrimos que ele vivia com HIV. Um amigo nosso correu para o hospital. Quando chegou ao hospital, ele já tinha sido entubado e faleceu. Perdemos um amigo porque estava com vergonha. Porque teve vergonha de nos contar. É nesse nível que o HIV mata.

Por isso você se preocupou em contar seu caso publicamente? Você não tem a doença manifestada, você vive com HIV?
Sim. Não falamos portador do vírus HIV mais porque é uma forma de objetificar o corpo da pessoa positiva como simplesmente o portador de um vírus. A forma correta de dizer é viver com HIV. Eu vivo com HIV. Minha família convive com o HIV. Essa é a forma que preferimos lidar.

Existe uma grande diferença, que a maioria das pessoas não entende. HIV é o vírus, aids é a doença. Nunca cheguei a desenvolver qualquer sintoma de aids. Nem daria tempo. Minha contaminação foi muito recente quando comecei tratamento. Infelizmente fui infectado por HIV em uma infecção cruzada com hepatite B. Tive que fazer um tratamento de hepatite B por três meses antes de começar o tratamento do HIV.

Logo após começar o tratamento, dois meses depois o vírus já estava indetectável. Minha carga de HIV nunca passou de um milhão de cópias do vírus por mililitro de sangue (cópias/ml). Hoje está em menos de 20 cópias. Nunca tive a experiência de passar pelo risco de algum sintoma.

Consegue explicar o que significa a carga viral?
É a quantidade de cópias do vírus que a pessoa tem no corpo. Quando a pessoa é infectada, a carga pode chegar a até 100 milhões de cópias do vírus. Isso é a velocidade de replicação que o vírus HIV tem. Para que o vírus mine as defesas da pessoa, chegue a destruir a contagem de linfócitos CD4 e abra o espaço para as infecções oportunistas, por exemplo, é um processo que varia de pessoa para pessoa, mas demora de três a quatro anos.

É uma doença silenciosa. Por isso que hoje grande parte do conteúdo em torno da prevenção não fala mais em “use camisinha”. Já passou dessa época. Camisinha previne, mas não adianta nada usar camisinha nove vezes e na décima não usar. É muito mais fácil tem ciência sobre a sorologia através de uma rotina de testagem periódica para ter ferramentas para como se prevenir ou se tratar melhor.

Todo processo de divulgação da Unaids [Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids] e todos os órgãos de influência em torno do assunto têm deixado de falar um pouco de camisinha e tratam de prevenção combinada, no sentido de que o diálogo com o parceiro ou parceira é uma maneira de prevenção. Se você tem a confiança do diálogo de que a pessoa não transou com outra pessoa, é uma confiança de 90%, coisa que o método de prevenção também entrega.

“Infelizmente o médico foi bem negligente comigo. Tenho hoje dentro de mim que não tenho vontade nenhuma de processá-lo”

Lucas Manga cineminha - Fotos Augusto Diniz Jornal Opção

Fotos: Augusto Diniz/Jornal Opção

Você tem todo o tratamento disponível pelo SUS?
Sim. Existe um projeto de lei do maluco do nosso presidente tramita em torno disso, mas, humanitariamente, é algo que o presidente nunca faria, que é cortar o acesso ao tratamento no Brasil, porque é modelo no mundo inteiro. Acredito que aí o presidente poderia ser enquadrado por crime humanitário.

Tenho o privilégio e a oportunidade de ter um médico particular que me acompanha. Faço as consultas no médico particular, quer faz o encaminhamento dos meus exames, me dá o formulário com o pedido. Com o formulário, vou a Centro de Referência em Diagnóstico e Terapêutica (CRDT) no HDT ou na Rua 87. Estou no estágio de tratamento de seis em seis meses. Pego o medicamento para três meses e depois para mais três meses.

A política do governo é de liberação para três meses para não acumular remédio. Tem gente que para de tomar, que desiste do tratamento. É 100% de graça. Tem a possibilidade de ser particular, mas gastaria entre R$ 4 mil e R$ 5 mil por mês por causa das licenças, até o remédios chegarem aqui. Nunca tive que passar por consultas e exames no SUS, só fazia os encaminhamentos. Quando tenho que ser atendido pelo SUS é realmente muito bom. É algo que sinto até orgulho de dizer e fazer.

Quando vou ao SUS, preciso deixar o nome de pessoas como contatos, caso eu fique doente e alguém precise buscar os medicamentos para mim. Mas também há a opção para manter sigilo. Geralmente pessoas pedem para outras pessoas buscarem. Algo que eu sempre quis fazer, independente de abrir o meu diagnóstico para todo mundo ou não, é utilizar desse privilégio. Se eu posso matar um dia de trabalho para buscar o meu medicamento, que está disponível gratuitamente para mim, faço questão de ir lá buscá-lo.

Uma grande arma do preconceito, que faz com que a aids seja uma pandemia, é o fato de que o preconceito faz com que pessoas não busquem tratamento mesmo sabendo que estão infectadas. Para um profissional assalariado fazer o tratamento, ele precisa ir uma vez por mês ou a cada três meses buscar os remédios. Precisa de um atestado médico, porque a pessoa vai passar o dia no HDT.

Quando se apresenta no departamento de recursos humanos da empresa um atestado médico que indica que a pessoa é soropositiva, muito provavelmente vão indicar para aposentadoria. Hoje qualquer pessoa que vive com HIV pode entrar com processo de aposentadoria por invalidez, o que eu acho maluco.

Pela realidade do tratamento, a depender do caso, a aposentadoria por invalidez não seria necessária?
Eu nunca tive nenhum efeito colateral do tratamento. Fui muito sortudo. Descobri muito cedo. Tive oportunidade de fazer exames que ninguém tem acesso. Fiz a genotipagem da cepa do vírus que estava no meu corpo. Descobri exatamente qual o remédio certo. Tive todos esses privilégios, mas que não são privilégios muito fora da realidade. Gastei R$ 2 mil com os exames. Não algo que custe R$ 50 mil.

A tecnologia está aí. O conhecimento está aí. O tratamento é muito avançado, chamamos de cura funcional. Existem poucas cópias do vírus, é impossível que eu transmita o vírus para qualquer pessoa. Nunca estive tão saudável. Estou com meus rins, função hepática, tudo monitorado. Se for pensar bem friamente, estou bem melhor do que há dois anos.

Ao mesmo tempo, você contraiu hepatite B. Qual foi o efeito da hepatite B? Você ainda está com a doença?
Eu dei muita sorte. Em seguida do episódio, eu fiz o exame. O primeiro exame deu positivo para HIV, mas deu negativo para hepatite B. Duas semanas depois, comecei a ter sintomas de hepatite B. Só tive sintomas de hepatite porque estava em um ritmo de trabalho muito alto e minha imunidade e minha imunidade baixou muito.

Estava na Argentina trabalhando com a Pabllo [Vittar] e a hepatite me derrubou. É muito raro a hepatite derrubar, é uma doença mais silenciosa. Hoje a hepatite contamina mais do que o HIV no Brasil por vias sexuais. É uma doença que tem um potencial de letalidade maior do que o HIV. Bem maior.

Como está a hepatite hoje?
Fiz três meses de tratamento. É um tratamento dolorido. Fiquei pior com a hepatite, sensação de estar doente e que a pele muda. Fiquei 100% amarelo, minha urina ficou 100% amarela. Meu principal sintoma da hepatite foi enjoo. Emagreci dez quilos em dez dias porque não conseguia comer. Enjoava com tudo.

É um tratamento que não existe. O tratamento é o seu corpo ficar em descanso. Não pode tomar qualquer medicação porque tudo é processado no fígado. Não pude tomar uma novalgina para dor de cabeça. Esperar em repouso, não absoluto, mas parcial, que o corpo reaja.

Com três meses de hepatite, meu corpo deu uma assentada e começamos o tratamento com antirretroviral, que é o mesmo tratamento. O antirretroviral do HIV também é o antirretroviral para hepatite. Fiquei livre da hepatite, não detectável. Isso tudo em 2018. Estou livre de hepatite B. Estou imunizado por ter tomado vacina, mas não por ter tido contato com o vírus.

Você falou no início da entrevista e chegou a dizer também nas redes sociais sobre revelar publicamente viver com HIV ser confundido com uma tentativa de autopromoção, uma forma de ganhar dinheiro ou visibilidade. Por ser produtor cultural, trabalhar com a Pabllo Vittar e ser sócio do Festival Bananada, certa visibilidade você já tem. Em alguns momentos, você parece dar a entender que esse ponto talvez seja um assunto delicado em como lidar. Como você tem lidado com isso? Como tem sido a reação das pessoas?
Eu sabia que, a partir do momento em que coloco um conteúdo on-line, a forma como as pessoas absorver é só delas, independe de mim. O meu papel vai até o momento em que eu clico postar. Depois disso, eu não posso fazer mais nada, só posso lidar com isso. Percebi que se a pessoa quisesse achar que eu estava romantizando ou monetizando o meu diagnóstico, ela vai achar e eu não tenho nada para fazer.

O que eu, como ser humano, posso fazer com o resultado das ações que estou construindo com o objetivo principal de ter trazido. É claro que grande parte daquele vídeo é um processo muito egocêntrico de construção minha. Eu sou um cara muito carente, sempre fui muito carente de afeto. É da minha característica. Isso faz com que eu busque por atenção de form diferente. E, principalmente, por ser um homem solteiro, é muito complicado lidar com o medo da rejeição o tempo inteiro.

A qualquer novo relacionamento que eu tinha, sempre tinha o fantasma de que se eu transar com este cara uma ou duas vezes, eventualmente terei que sair do armário de novo e ter que lidar com a rejeição. Pode ser que ele não queira. Pode ser que a pessoa se sinta enganada.

Muito desse processo é deixar esse rótulo… Engraçado. Lutamos o tempo inteiro para não sermos rotulados. Ao mesmo tempo que procuramos o tempo inteiro signos que nos representem, que nos protejam em um nicho. Estou trazendo o meu maior rótulo, que é o meu maior medo, o de ser etiquetado, vir à tona para ser etiquetado como tal. Porque não tem jeito. Agora sou o Lucas Manga que vive com HIV.

Como vou produzir conteúdos e lidar com a minha carreira mostrando a normalização do meu processo de diagnóstico, entendendo e compartilhando como é viver com HIV sem que isso seja a minha ferramenta de trabalho? Ao mesmo tempo que se isso me gerar dinheiro, vou usar do diagnóstico para ganhar dinheiro. Se eu for contratado neste momento para dar uma palestra para contar a minha história, vou deixar de receber o cachê?

Vou pegar metade do cachê e vou direcionar para uma causa. OK. Mas não queria que o objetivo principal da minha revelação fosse um grande biscoito. Ao meu ver, qual era a única opção que eu tinha? Divulgar o vídeo e executar ações, a partir do vídeo, que eu, como ser humano, estivesse em paz com a minha decisão. Porque o que o outro vai pensar de mim independe.

Uma mulher escreveu no meu vídeo: “Você está sendo negligente. Você está falando de forma romantizada. Você é um em um milhão. Você tinha que falar de camisinha”. Eu falei que discordava veementemente, mas entendia o ponto de vista. Só que o objetivo principal do meu vídeo foi cumprido. Do dia que postei o vídeo até hoje, já devo ter influenciado diretamente na testagem e início de tratamento de 30 pessoas.

Esse é o dado que é importante para mim. Uma pessoa me mandou mensagem e disse “eu não tenho coragem de me testar, mas por causa do seu vídeo eu vou me testar, porque prefiro saber e me cuidar do que ficar com esse negócio”. A decisão que essa pessoa tomou porque viu um minuto e meio do meu vídeo ajuda a vida dele. Pronto. Valeu a pena.

O importante disso tudo é compartilhar comigo, com a minha família e com os meus seguidores como eu tenho vivido, as minhas dores, o preconceito que passar. Eu quero trazer isso à tona. Tanto que não quero virar um influencer que fala de HIV. Eu sou o Manga produtor de eventos. Também criador de conteúdo e comunicador.

Em uma das facetas do meu Instagram tem a minha fala sobre HIV. Como também tem a minha fala sobre empreendedorismo, como também tem a minha fala sobre produção executiva. É isso: expor o rótulo para que a minha história seja maior do que o rótulo que recebo.

“Estou trazendo o meu maior rótulo, que é o meu maior medo, o de ser etiquetado, vir à tona para ser etiquetado como tal. Porque não tem jeito. Agora sou o Lucas Manga que vive com HIV”

Quem sabia que você vive com HIV desde 2018?
Algumas pessoas sabiam e outras não. Tomei muito cuidado. Tenho muita ciência e sobriedade em dizer que desde o primeiro dia, independente da minha luta, independente de quem estaria comigo, independente do suporte do meu namorado à época e dos meus amigos, sabia que seria uma luta só minha. Que as decisões que eu tomasse, que quem sofreria as consequências, podia respingar na minha família, nos meus amigos, mas era tudo direcionado a mim.

Tomei essa decisão, desde muito cedo no processo, em que eu não ia sucumbi à vontade do outro e ao que o outro achava sobre mim. Meu processo de contar e compartilhar com as pessoas era algo só meu. Se eu estivesse bêbado no meio de uma balada, estivesse completamente carente, ruim, triste e estivesse ali um amigo, provavelmente para aquele amigo eu me abriria. Utilizei do meu discurso como meu processo de cura.

Com Fabrício [Nobre, fundador do Festival Bananada] e Dai [Daianne Dias, sócia do Festival Bananada], nossa relação é muito de família. O baque que o Fabrício e a Dai tiveram foi parecido com o do meu pai e minha mãe. Os dois não sabiam. Fabrício e Dai descobriram quando publiquei o vídeo.

Qual foi a reação das pessoas que trabalham com você? Na sociedade e produção do Festival Bananada? Quando você teve o pior momento da hepatite B, estava em na Argentina com a Pabllo Vittar. Como o diagnóstico do HIV afetou a relação com a equipe de turnê da Pabllo?
Lá no começo, quando ninguém sabia, e tive que enfrentar a hepatite, fiquei 40 dias de repouso em casa sem trabalhar. A hepatite foi uma boa desculpa. A hepatite me trouxe a oportunidade de começar a falar sobre o que tinha ocorrido comigo sem expor o HIV. Tive a oportunidade de falar para as pessoas que peguei hepatite B em uma relação sem proteção, que isso era perigoso. Me trouxe uma liberdade de discurso.

Hoje eu tenho vergonha de ter usado a hepatite para falar o que eu queria dizer. Mas foi meu mecanismo de escape para entender que eu só trocava a palavra HIV por hepatite. Toda situação que estava vivendo era a mesma. Foi praticamente uma faculdade para começar a entender, porque foi um desafio. Aprendi muito em análise que a minha necessidade de compartilhar on-line vem de uma necessidade de fala.

Para qualquer pessoa que seja, como vemos a fala como mecanismo de interlocução. Se eu penso isso, sou o sujeito dessa ação. Se eu falo e me ouço, me torno terceira pessoa e consigo ter outras visões. Isso me ajudou muito. Mas no trabalho foi a oportunidade, não precisei me abrir.

Ajudou no início a saber lidar com a doença?
Exato. De qualquer fora, era uma doença que eu tinha e que me incapacitava de trabalhar. A situação em torno da hepatite era muito parecida com uma situação extrema de aids. Me levou ao extremo psicológico, até filosófico, de entender como seria minha vida caso eu não me tratasse. Me fez ter questionamentos. Foi importante, porque comecei a entender meu corpo parte de um todo.

Passei por muitos processo de rejeição interna, de me sentir contaminado, de me sentir sujo, de reconstruir o meu vocabulário. Quantas e quantas vezes você já deve ter ouvido algum amigo ou amiga falar “fiz os exames, estou limpo”. Quer dizer que eu estou sujo? Reconstruir esses novos vocabulários, me aceitar comigo, aceitar me relacionar com outras pessoas. Fiquei pelo menos seis meses sem encostar em ninguém.

Mesmo depois que estava indetectável, não tinha coragem de me relacionar com ninguém porque não queria ser o pivô da contaminação de alguém. Mesmo que não seria de forma alguma. Foram processos muito longos. Processos regados de muito privilégio. Acho que esse é o grande trunfo da minha construção.

Entender o meu privilégio como homem gay, branco, de classe média. Entender quais os recortes das pessoas que não têm o privilégio que eu tenho e como posso estender meu privilégio a essas pessoas. Esse foi o objetivo inicial do vídeo. Mudei a minha descrição no Grindr e faço todo dia um plantãozinho no app de pelo menos uma hora em que fico disponível para qualquer pessoa falar sobre HIV comigo.

Vou lá no aplicativo de pegação porque todo mundo quer transar sem camisinha. Ninguém gosta de camisinha. Mas ninguém gosta de falar isso. Como é que vou transar sem camisinha sem correr risco de me contaminar com inúmeras infecções? As ações que tenho feito são essas.

Vou lançar um programa no Twicht só para falar sobre HIV. Quero fazer um mini talk show em um esquema meio rádio/podcast para falar sobre HIV. A minha forma de fazer com que eu estenda meu privilégio para mais pessoas acredito que seja falando de forma natural sobre o assunto.

Qual é o seu trabalho com a Pabllo Vittar hoje?
Hoje sou produtor executivo da Mataderos, que é a empresa que coordena a carreira da Pabllo e da Urias. Eu fazia as funções de produção executivo e produção de estrada. Agora picotamos um pouco a empresa por conta da pandemia. A Gabi [Gabriela Fernandes] faz a produção executiva. Tudo que envolve as lives e contratação, a Gabi faz. Eu faço toda a direção de comunicação, estratégia e conteúdo para tudo: lançamento, direção de novos clipes etc.

Como foi seu contato com a Pabllo a partir do momento em que ela soube que você vive com HIV?
Pabllo, além de minha chefe, é minha amiga. Era uma das pessoas que sabiam há mais tempo. Desde o ano passado a Pabllo já sabia. Estávamos batendo um papo e eu quis compartilhar. Ela sempre foi muito grata por eu ter compartilhado isso.

Um posicionamento que me deixou muito feliz é que 100% de tudo que eu já compartilhei a respeito de HIV, a Pabllo foi lá e compartilhou. A Pabllo realmente usa do canal dela para isso, já me deu espaço. Quando contei para todo mundo, ela só me parabenizou. E é isso. Bola pra frente.

Eu vivo em um recorte de privilégio muito grande. 100% dos meus amigos e família são pessoas esclarecidas que poderiam não ter noção nenhuma. Um exemplo é a [Carol] Tinoco, que não sabia que existia diferença entre HIV e aids. Mas é uma pessoa esclarecida, que a partir do momento que viu meu vídeo foi pesquisar, me ligou, tivemos meia hora de conversa. Expliquei. Já está militante.

Todo mundo no meu ciclo está aberto ou já sabe muita coisa. Sempre tive uma rede de apoio, de suporte, 100% conectada com o assunto. Isso é um grande privilégio. Uma função nossa como comunicadores é isso: disseminar uma informação. Se você ver os comentários no vídeo, a maioria é “não sabia” e “que informação importante”. E para mim é informação básica, que HIV não é aids. Ninguém sabe.

O primeiro contato é: precisamos falar de prevenção. Precisamos falar de prevenção combinada? Precisamos. Mas acho que agora o basicão é o seguinte: sabia que você não morre mais de aids?

Tem muita gente que ainda não sabe disso?
Não sabe. Hoje é impossível morrer de aids se você estiver em tratamento. As pessoas não sabem disso. Temos que pegar o estrutural da informação. Depois disso, esmiuçar. Tem muito influencer que fala dos efeitos da Prep em um relacionamento poliamoroso. Não quero chegar nesse lugar. Não quero. O meu lugar é como fazer com que mais pessoas se testem e iniciem o tratamento ou se previnam melhor.

A tentativa é quebrar a barreira do preconceito, principalmente para quem não conta com pessoas próximas esclarecidas, como você tem?
Exato. É muito mais fácil e mais abrangente levarmos esse tipo de conhecimento. Tenho certeza que todo mundo que viu meu vídeo tem uma pulguinha atrás da orelha, da próxima vez que fizer a primeira relação sem camisinha vai pensar: “Eita, porra! O que eu estou fazendo?”. Começar a pensar. Bem no esquema de gerar conhecimento mesmo.

Porque, principalmente no mundo heterossexual, existem muitas campanhas que comparam a pílula do dia seguinte à profilaxia pós-exposição (PEP). Acho isso tão absurdo! A pílula do dia seguinte é um método contraceptivo após um ato consciente de um casal de transar sem camisinha. A PEP é uma ferramenta de prevenção contra uma infecção que pode te matar. Não pode ser tratada de forma leviana como a pílula do dia seguinte.

O mundo hétero é um mundo que desconhece o HIV. Só que a maior taxa de crescimento é no mundo heterossexual.

“Quantas e quantas vezes você já deve ter ouvido algum amigo ou amiga falar ‘fiz os exames, estou limpo’. Quer dizer que eu estou sujo?”

Lucas Manga 1-7-2020 - Foto Augusto Diniz Jornal Opção

“Reconstruir esses novos vocabulários, me aceitar comigo, aceitar me relacionar com outras pessoas. Fiquei pelo menos seis meses sem encostar em ninguém” | Foto: Augusto Diniz/Jornal Opção

E no campo pessoal? Como foi a relação do seu ex-namorado de conviver com o HIV? E qual é a reação das pessoas com as quais você tem algum tipo de envolvimento a partir do momento em que você conta que vive com HIV?
Uma coisa que me posiciono muito bem, que vem de muita construção, é entender que o meu diagnóstico não é um defeito, não é uma qualidade, é um traço. A forma como as pessoas lidam com o meu diagnóstico é só delas. Se a pessoa não lida bem, tenho o primeiro rompante de educar. Isso é uma função que eu me atribuí. E, num segundo momento, de simplesmente ignorar e praticar a indiferença com essa pessoa caso ela não aceite.

Existem algumas coisas na legislação que nos protegem. Hoje a sorofobia é crime. Posso denunciar alguém se sofrer sorofobia. Ao mesmo tempo que eu não tenho obrigação judicial ou civil alguma de revelar o meu diagnóstico a ninguém em nenhuma situação. Tenho o direito ao sigilo. Se eu me relacionar com alguém e a pessoa achar que estou a enganando por não contar, tenho a lei que me dá esse embasamento. Só que isso é para situações extremas.

O que a minha experiência contou? A primeira pessoa para a qual eu contei foi o meu namorado à época. Estávamos em casa quando eu recebi o diagnóstico. Ele participou desde o começo. Nossa relação era de muita amizade, uma relação que já estava caminhando para um fim. Não atribuo meu diagnóstico de forma alguma ao término. Sempre foi meu companheiro, sempre esteve comigo.

Teve a delicadeza de nunca me perguntar como foi. Contei um ou dois meses depois. Ele sempre se colocou na minha posição e disse “aconteceu com você, mas poderia ter sido comigo”. Ainda bem que não tínhamos tido relação sexual naquele período, ele não foi contaminado. No mesmo dia, foi fazer o exame. Tive essa experiência, que foi de suporte, de amizade. E que em momento nenhum, nem seis meses depois, quando terminamos, em momento algum o término girou em torno do meu diagnóstico.

A partir daquele momento, eu era um homem solteiro vivendo com HIV. Bem consciente dos meus atos. A grande maioria das vezes em que me relacionei com algum cara, que seja um beijo em um bar ou de chegar a uma transa, não abri de cara porque não me sentia na obrigação.

Primeiro eu não estava colocando a vida do cara em risco. Sempre mantive meu tratamento e exames em dia, não estava ameaçando ninguém. Usávamos preservativo. Se houve vezes em que não usamos, eu que corria risco de me infectar com outras ISTs [Infecções Sexualmente Transmissíveis]. Sempre tive o entendimento dos riscos das relações sexuais que podemos ter.

Em março do ano passado, tive uma relação mais fixa. Conheci um rapaz, começamos a ficar. Ficamos dois meses juntos, mas eu não tive coragem de contar. Chegamos a transar sem camisinha algumas vezes. Acabou que ele mudou de cidade, mas não tive coragem. E vivi com esse fantasminha de não ter contado, como se eu tivesse obrigação de contar. É uma questão que é muito pessoal.

Muitas pessoas vêm conversar comigo depois que postei o vídeo para perguntar qual é a minha postura nessa transparência. Consegui quebrar essa barreira. Com três ou quatro relações depois dessa, eu contei. Nunca tive experiência de ser discriminado ou ser rejeitado por causa do HIV. Mais uma vez eu senti o privilégio com o qual eu vivo. Porque nunca tive nada, foi bem tranquilo.

É claro que existe o preconceito velado. Existe o cara que talvez estivesse interessado em mim, mas quando soube do meu diagnóstico já não esteja mais interessado. Mas o que os olhos não veem o coração não sente, não é? Minha chefe já falava.

No meio do processo de tornar público seu diagnóstico de HIV, você e sua mãe pegaram Covid-19. Como vocês estão? Quais sintomas os dois manifestaram? Estavam e têm ficado em casa? Já se sabe se o novo coronavírus pode ter algum impacto no tratamento do HIV?
Até me preocupei se traria isso à tona on-line porque existem poucos dados sobre o que tem ocorrido com pacientes de Covid-19 e pacientes que vivem com HIV. Estávamos mantendo a quarentena. Tivemos a oportunidade de ficar me casa. Minha mãe não sai de casa de forma alguma. Eu saía de casa para fazer o básico, como mercado uma vez por semana.

E um dia decidi ir trabalhar. Fizemos uma ação. Foi provavelmente nesse dia que fui exposto ao vírus. Fiquei 112 dias muito bem quarentenado. Meu nível de isolamento foi de 95% a 97% desde 15 de março. Em uma tarde de trabalho com 100% dos protocolos sendo cumpridos, álcool gel e todas as regras, devo ter sido infectado.

É um vírus que tem um poder de infecção e propagação bem absurdo. Tive a infelicidade de ser infectado e ainda passar para a minha mãe. Mas mantivemos o isolamento. Manifestamos os sintomas quase que na mesma hora. Foi na segunda-feira 15 de junho. Acordei com uma dor de cabeça muito forte e com sintomas 100% de sinusite. Tenho uma sinusite crônica, jamais cogitei ser Covid.

Naquela madrugada, minha mãe também começou a ter os sintomas. Tempo seco, minha mãe sempre fica super gripada. De forma alguma cogitamos ser Covid. Nessa noite, eu tive febre, minha mãe também. Começamos a saga de nos alimentar de informação de WhatsApp que amigo mandou. Eu caí no conto da fake news duas vezes nesse processo inteiro.

E quais foram as mentiras nas quais você acreditou?
A primeira foi sobre testagem. Existem inúmeras teorias on-line sobre testagem. O teste rápido, de gotinha de sangue, a eficácia é de 30% a 40%. Seria gastar R$ 200 à toa. O teste de sorologia, no laboratório, que custa no mínimo R$ 250, só aparece traço de anitcorpos IgG ou IgM depois de 15 dias de sintoma. Nesse período em que a pessoa está sintomática, a única ferramenta para detectar o vírus é o PCR, que é aquele que faz pela narina.

Fomos atendidos on-line por um médico de São Paulo, que é amigo da família. E o protocolo é trata-se sintomas, não se trata teste. A rotina de testagem é falha. Um dos grandes motivos de não testarem todo mundo é porque realmente não existe teste eficiente o bastante para funcionar como dado. Também é por isso que a subnotificação é brusca e gritante.

Fiz três testes que deram negativo antes do exame que deu positivo: um na Unimed, um no laboratório de uma amiga e um teste rápido. Todos negativos, mas continuei com os sintomas. No segundo dia que falamos com o médico, fomos tratados para Covid-19, porque independe de teste. Existe um protocolo da USP que tem sido disseminado praticamente no País inteiro, que envolve o uso de um vermífugo [o protocolo da USP fala em testes com um anti-inflamatório] e um corticoide.

Tomei quatro dias de um vermífugo e quatro dias de um corticoide. No meu caso, não precisei de antibiótico porque não tive mais febre. E não precisei de anticoagulante porque minha função pulmonar não ficou comprometida. Minha mãe ficou três dias mais comprometida e a saturação dela abaixou, precisou tomar injeção de anticoagulante durante três dias e fez um ciclo de azitromicina (antibiótico) por quatro dias para segurar a febre.

Fora isso, passamos de forma muito amena. A casa é muito grande, eu me isolei no meu quarto, minha mãe no quarto dela. Álcool gel na maçaneta, que é o básico. Se a pessoa está isolada no quarto, o primeiro ponto de contágio é a maçaneta. É uma limpeza que evita muita coisa. Meus sobrinhos que moram aqui não foram contaminados. Estou morando de favor na casa da minha família.

Infelizmente – a decisão não é minha – temos duas funcionárias que trabalham aqui todo dia. Minha grande preocupação era trazer o vírus para casa e espalhar para pessoas que não moram em outros bairros. Ainda bem que conseguimos manter o vírus contido no meu quarto.

Vou participar de uma pesquisa da USP, que recolhe dados de pessoas que vivem com HIV e tiveram Covid-19. No meu caso, o que se fala é que pacientes em tratamento antirretroviral têm respondido muito bem à infecção de Covid. Existem conformações fisiológicas e químicas nas pessoas que fazem com que elas passem muito bem. Não existem casos registrados de morte por Covid em função de imunidade baixa por conta de HIV ou aids.

Você disse que vocês já tiveram os piores sintomas dos que se manifestaram da Covid-19? Como está a situação hoje?
Meu pior sintoma foi a partir do terceiro dia. Perdi o olfato e o paladar 100%. Estou até hoje. São 19 dias sem sentir sabor e cheiro de nada. Dizem que demora de 20 a 25 dias. O meu sintoma mais brusco foi esse. É realmente assustador.

Me assusta porque é um dano parcialmente neurológico que o vírus causa. E dano neurológico pode ser permanente. Existem casos de pessoas que não retomaram paladar nem olfato. Mas esperamos pelo melhor. Minha mãe está com zero sintomas, não perdeu olfato nem paladar e está 100%.

Vocês ainda precisam ficar isolados por quantos dias?
Fomos liberados na terça-feira, 30 de junho, do isolamento domiciliar.

Vão precisar passar por um último teste?
O teste final vai ser feito se eu quiser fazer daqui três semanas. Estou no 19º dia de sintoma. Isso quer dizer que, dentro dos protocolos, eu já não transmito mais o novo coronavírus, mas pode ser que meu exame de sangue ainda dê negativo. O protocolo passado pelo médico é de que, até que se prove o contrário, estamos imunizados.

Existem casos de reinfecção, mas não são casos catalogados. Existem outros fatores que causaram a reinfecção, desde um vírus latente a outros motivos. Até que se prove o contrário, estou imunizado contra Covid-19. Mas uma prima, que trabalha na Ceasa [Centrais de Abastecimento de Goiás S/A], está na segunda Covid-19.

Dois exames deram negativo para depois dar positivo. Ela trabalhou dois a três dias já com Covid-19. Dois a três funcionários também foram infectados. Foi um caos. Fecharam a empresa por duas semanas. Depois dos 14 dias, minha prima se recuperou, voltou a trabalhar. Mais uma semana depois e ela pegou de novo.

“Fiquei 112 dias muito bem quarentenado. Em uma tarde de trabalho com 100% dos protocolos sendo cumpridos, álcool gel e todas as regras, devo ter sido infectado”

Lucas Manga 1 - Foto Augusto Diniz

“Estávamos mantendo a quarentena. Tivemos a oportunidade de ficar me casa. Minha mãe não sai de casa de forma alguma. Eu saía de casa para fazer o básico, como mercado uma vez por semana. E um dia decidi ir trabalhar”| Foto: Augusto Diniz/Jornal Opção

Não dá para saber se sua prima foi infectada uma segunda vez ou se não recuperou completamente.
Exato. Manifestou sintomas de novo.

Você disse que está de favor na casa da sua mãe. Você tinha se mudado para São Paulo.
Tomei a decisão de mudar para São Paulo no começo do ano. Me mudei no finalzinho de janeiro. No dia 18 de março, começou a quarentena e eu resolvi voltar para Goiânia para ficar com a minha família, porque eu estava realmente com medo. Disse que ficaria o tempo que precisasse. Não imaginei que seriam quase 120 dias. Mas foi um momento bem importante para me entender como profissional e das minhas necessidades.

Fui para São Paulo para abrir meus horizontes como profissional. Sabia que em São Paulo a minha veia empreendedora seria um pouco menos desenvolvida. E minha veia de prestador de serviços e de produtor seria totalmente explorada. Este momento em Goiânia tem me feito perceber o quanto gosto daqui e o quanto eu gosto de empreender. Então acho bem pouco provável que eu volte para São Paulo.

Já estou começando a me organizar para olhar um lugar para mim, porque não dá para ficar morando na casa dos pais. É muito confortável. É uma gratidão incrível que tenho de estar aqui, de ter o café da manhã todo dia e essa folga toda. Mas nós não nascemos para isso. Preciso ter o meu espaço.

Depois de sair de casa uma vez, é difícil não ter o próprio espaço.
É difícil.

Em Goiânia, a primeira aventura na noite foi a boate El Club?
Foi. A nossa primeira tentativa, quando trabalhava na Ambiente Skate Shop, foi fazer uma festinha. Em seguida, fiz algumas festinhas no Metrópolis. Mas o primeiro negócio que abri em Goiânia foi o El Club. Três anos depois tive a oportunidade de entrar para o Bananada. Depois o Retetê e a Pabllo.

Você chegou a abrir outras casas? Você ainda tem alguma ligação com esse locais?
Ainda sou sócio do Retetê, só que não trabalho na operação. Foi sócio do Weón, antes de se tornar a Hype. Mas logo na semana de abertura do Weón, eu já negociei a minha parte e saí. Fora isso, Retetê e o Festival Bananada, que são os que estão funcionando.

Quando você fala em voltar a empreender, você pensa em voltar a investir na noite?
Penso. Quero muito, inclusive. Sou um cara muito otimista. Sempre fui um cara muito otimista. Até nas minhas decisões empresariais, isso trouxe bastante pontos positivos e pontos negativos. Quando você é bastante positivo, acaba ousando em um nível que transcende um pouco a realidade de execução das coisas.

Mas acredito que se o mundo percorrer o caminho que acho que vamos percorrer, apesar de que a nossa realidade é 100% distópica neste momento, até o meio do ano que vem é bem provável que exista um grande controle da Covid-19, tenhamos uma vacina ou um protocolo médico de tratamento. Existe um grande controle por conta da pandemia.

Acredito que 2021 vai ser, na minha experiência, o melhor ano do entretenimento na face da Terra. Por nunca teremos tantos meio para produzir entretenimento com tanta gente fazendo parte e consumindo entretenimento.

Você tem alguma ligação com a nova boate que deve abrir no imóvel onde era o El Club?
Não. Na verdade eu tenho uma desavença muito grande com eles. Bem grande.

Que está à frente daquela casa noturna?
Conheci uma pessoa que faz parte da sociedade. A informação que tenho é de que essa pessoa é um sócio minoritário, mas não sei se a informação é verdadeira. Mas quem encabeçou a negociação do novo clube com a dona do imóvel fui eu. A Carol recebeu o contato desse pessoal e começamos a triangular uma negociação em que faríamos a negociação da luva da estrutura do El Club com o aluguel da casa.

Adiantamos nas negociações. Chegamos a um valor. Devíamos quatro meses de aluguel para a dona da casa. El Club já estava quebrado, em uma situação financeira caótica. E era uma forma de recuperar um pouco do dinheiro investido e pagar o aluguel. Fizemos a triangulação toda, reuniões. A dona me tirou da jogada e fechou direto com eles. Absorveram toda a estrutura do El Club, tudo que estava lá dentro.

A dona do imóvel trancou a porta. Não tenho vergonha alguma de falar isso, é um negócio que já me machucou. Vejo fotos da Pulsar, tem ventilador meu lá dentro, tem coisa que é minha lá dentro. Acho isso péssimo. E espero que o universo cuide disso, porque judicialmente já estou cuidando.

Conversei com o Fabrício Nobre no final de maio, que falou sobre uma possibilidade de um dia o Festival Bananada deixar de existir. Como você vê a questão?
É engraçado, né? Aquela máxima e o clichezão de que a gente precisa realmente chegar no fundo do poço para ter um lugar para apoiar e subir faz muito sentido. Sempre acreditei no projeto do Bananada, mas a verdade é que se eu estou cansado, Fabrício e Daianne estão exauridos. E é cansativo.

É um processo que a gente sonha muito, que a gente ama muito fazer, mas o risco é muito alto. E a quantidade de dívida que a gente absorveu nos últimos anos não é algo que é fácil de ser gerido. Dinheiro de patrocinador que não entrou, dinheiro de fornecedor que sumiu, má gestão. A gente adquiriu uma dívida que não é facilmente sanável.

Hoje o Bananada, principalmente em tempo de pandemia, não tem condição de quitar a dívida que foi absorvida. O que não o impede de continuar funcionando. E é o que a gente tem feito. Nos processos de negociação do ano passado, tudo girava em torno da edição deste ano. Estávamos planejando um modelo de negócio em que fôssemos mudar um pouco a edição deste ano para que pudéssemos contratar os mesmos fornecedores do ano passado e diluir o custo do ano anterior e deste ano em uma operação só.

Ou talvez em duas operações, em dois anos. Era um plano de contenção de pagamento. Esse plano foi por água abaixo. Estava desenvolvendo, mas foi por água abaixo porque a gente não tem Bananada. Mas a pandemia trouxe também confirmações para nós sobre a presença do Bananada como plataforma no mercado. E acho que conseguimos entregar uma ação superlegal com um parceiraço nosso, que é a Devassa.

Em agosto é muito provável que tenha uma ação similar ao que seria o Bananada físico, com a robustez um pouco maior.

“Este momento em Goiânia tem me feito perceber o quanto gosto daqui e o quanto eu gosto de empreender. Então acho bem pouco provável que eu volte para São Paulo”

Lucas Manga 1-7-2020 6 - Foto Augusto Diniz Jornal Opção

“Fui para São Paulo para abrir meus horizontes como profissional. Sabia que em São Paulo a minha veia empreendedora seria um pouco menos desenvolvida. E minha veia de prestador de serviços e de produtor seria totalmente explorada” | Foto: Augusto Diniz/Jornal Opção

Tudo on-line?
Tudo on-line. Já tínhamos decidido um hiato. 2020 seria um hiato de protesto do Bananada.

Foi uma decisão tomada antes ou depois do início da pandemia?
Antes da pandemia. Já estava tomada essa decisão. Não ia ter Bananada. Tínhamos decidido remodelar o modelo de negócio, reentender e lidar com as dívidas. Não dava para simplesmente lançarmos o ingresso e começar a vender sem um plano para lidar com as dívidas.

A pandemia trouxe essa oportunidade. Temos um tempo de produzir ações on-line que componham a nossa função como veículo de transmissão de cultura, conhecimento e arte em geral num modelo que é sustentável com a relação que temos com os nossos patrocinadores. O dinheiro vai diminuir drasticamente, mas o custo também diminui.

Vamos continuar a entregar com a possibilidade de ter um tempo de replanejamento e reestruturação da dívida. Fabrício teve a oportunidade de fazer reunião com vários fornecedores e explicar que existem processos judiciais, que podem nos processar, que todo mundo tem que usar os meios legais. Só que a realidade é que a gente vem de uma dinâmica de quatro anos que está ruim e não tem previsão de melhorar. Como que vamos fazer isso como grupo?

Foi uma reunião bem positiva. A maioria dos fornecedores topou deixar rolar a dívida para o ano que vem e garantir um serviço. E o mercado é esse. O que falo para você agora com bastante ânimo é que nas últimas duas semanas eu e Fabrício tivemos inúmeras novidades a respeito do Bananada e deste novo mercado de música e transmissão digital.

Queremos realmente posicionar o Bananada como uma plataforma de conteúdo, seja ele on-line ou offline. Enquanto só pode ser on-line, vamos fazer on-line. Mas o canal do Bananada no Twitch vai se tornar um grande acontecimento. Muita coisa vai vir disso. Estamos usando da falta de recurso da pandemia e da oportunidade de dar uma chutada no pau da barraca empresarialmente falando para redesenhar o modelo.

O Bananada como vocês conhecem, que é aquela edição anual, já é algo que queremos pivotar há muito tempo. Não pivotar no sentido de não fazer, mas para nós já não fazia mais sentido que o Bananada fosse uma semana no ano. O Bananada precisar ser uma plataforma de conteúdo e cultura que funciona mensalmente, com um modelo de captação financeira que funcione mensalmente.

Não podemos viver de um dinheiro de um ano e dividir isso para o ano inteiro. Já vimos que isso não dá para fazer. Deu errado. Esse período nos dará tempo de reprogramar, de remodelar dentro da nossa realidade para. Isso sim, é uma vontade que eu, Fabrício e Daianne estamos secos. Daianne menos animada porque você sabe que ela fica com toda a produção.

Imagino, se tudo der certo, que a edição de agosto de 2021 será um dos Bananadas mais lindos que esta cidade já viu.

A ideia é que quando for possível fazer edição presencial, com público, não sabemos nem quando isso será uma realidade…
A gente sonha com agosto de 2021 porque é algo que tenho visto que está acompanhando o modelo mundial. Os eventos estão sendo reagendados para o segundo semestre de 2021. Esse é o nosso sonho. Mas nada marcado, nada confirmado. Nós nunca vamos fazer nada que seja um pivô do problema. Só queremos ser solução.

A proposta de fazer a edição presencial em 2021 seria uma das ações da marca? Os sócios entendem o nome Bananada como uma marca ou ainda precisa de algo para virar uma marca?
Temos trabalhado isso três últimos anos. O Bananada é uma marca. É inegável a presença do Bananada no mercado de entretenimento no Brasil. Só que o Bananada como as pessoas o conhecem é um modelo de negócio que não funciona para nós como sócios. Não podemos trabalhar 12 meses do ano para entregar um evento de uma semana e o evento de uma semana ser nossa única oportunidade de monetização.

Tratar o Bananada como a nossa galinha dos ovos de ouro é o nosso grande erro operacional que percebemos que não podemos ter. Quais são as ferramentas que precisamos para transformar o Bananada em uma plataforma de fornecimento de conteúdo e cultura que funcione o ano inteiro e monetize o ano inteiro. Essa é a pergunta que temos feito nos últimos três ou quatro anos.

Existem três pré-projetos para transformar o Bananada em plataforma de comunicação, só que nós nunca conseguimos fazer isso porque o dia a dia da produção executiva de uma edição física acumulava todos os esforços. Não conseguíamos gerar meios de produção para isso nem criar valores de orçamento para que fosse investido nisso porque estava tudo parado.

A decisão do hiato foi para organizar a casa. Precisamos trabalhar. Se não pararmos de trabalhar, a gente não vai organizar a casa. Porque os processos do Bananada do jeito que conhecemos envolvem 11 meses do nosso ano. Essa é a treta.

O Bananada é um festival de médio porte, mas segue a lógica dos grandes festivais do mundo para voltar a ter uma edição presencial, que têm remarcado suas edições para 2021, como Privamera Sound.
Você viu que o Primavera Sound remarcou e três dias depois deu sold out (ingressos esgotados).

É uma loucura.
Achei a coisa mais linda do mundo. Meu sonho. Você tem que ir. É o festival mais legal que eu já fui na minha vida é o Primavera Sound. Se você falar “vamos viajar para qualquer lugar”, eu iria para o Primavera Sound. Você que gosta de música, você vai surtar. É uma experiência 30 mais. Você vai comer uma paella com talher de metal e uma taça de vinho dentro da explanada do festival ouvindo uma música bem foda.

Ao pensar nos adiamentos para 2021 dos festivais, o grande festival no Brasil que ainda está marcado é o Lollapalooza, que foi reagendado para dezembro.
Só não anunciaram o cancelamento, mas vai ser cancelado.

Não tem viabilidade alguma para ser realizado?
Não. É nula a chance. Duas situações que são bem complicadas, das quais participei, mesmo estando de fora. Primavera Sound foi o primeiro festival de grande porte a se posicionar durante a pandemia e adiaram a edição. Só que adiaram com poucos dados, ainda em fevereiro, e remarcaram para agosto deste ano. E remarcar não é só mudar a data, é renegociar todos os contratos. E remarcaram tudo para agosto. Só que em agosto não vai ter.

Foi uma decisão parecida com a que a turma do Lollapalooza tomou. Remarcaram para o final do ano para dar um tempo. E o Coachella ficou sempre segurando porque sabia que era impossível ter. Principalmente o Lollapalooza, que é uma turnê sul-americana que exige que ocorra no Brasil, Chile e Argentina. Se qualquer um dos três cair, os outros caem.

Já sabemos que somos o epicentro da pandemia. O Brasil está fechado e vai ser o último país a ser aberto.

Há a questão da restrição de voos para o Brasil ou que partam daqui para outros países. Pode haver um receito dos artistas de virem para cá.
Existe toda uma questão xenofóbica em torno disso que é inevitável. As pessoas não vão querer ir para um país que é o epicentro da pandemia. O brasileiro infelizmente vai ficar malvisto. Ninguém vai querer entrar aqui e nós não vamos poder entrar em lugar algum.

Uma resposta para ““Não é porque fui abusado que contraí HIV. Essa não foi minha tragédia”, diz produtor Lucas Manga”

  1. Camila disse:

    Muito boa esta entrevista! Desmistificar o vírus é essencial. O preconceito ainda mantém a população afastada do tratamento, influencia na qualidade de vida, nas relações do indivíduo e na saúde emocional. Melhor saber e se tratar do que não saber.
    Conheço inúmeros casos, os quais as pessoas lidam das mais diversas formas. Então, por experiência, reconheço que lidar de uma maneira aberta, responsável e leve como o Lucas Manga vem fazendo é a forma mais saudável de conviver bem com o hiv.

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