“Me calei e disse ‘só volto o dia em que for considerado inocente’”

Com autorização da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal, ex-senador cassado quer espaço na base aliada e diz que José Eliton será eleito no primeiro turno em Goiás

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Depois de se livrar de 12 procedimentos na Justiça, entre ações e inquéritos, o procurador de Justiça e ex-senador cassado – em 11 de julho de 2012 – Demóstenes Torres (PTB) conseguiu a vitória que tanto esperava no Supremo Tribunal Federal (STF). Vinte e um dias depois de conseguir uma liminar concedida pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo, que autorizava o petebista a ser candidato nas eleições deste ano, a Segunda Turma da Corte decidiu por 3 a 2 que a elegibilidade de Demóstenes estava garantida mesmo com a cassação pelo Senado há quase seis anos.

“Como alguém que ganha tudo não pode ser candidato? Tem que esperar o julgamento político de novo de uma Casa que errou, mas não quer reconhecer seu erro?” Considerado por ele o maior calvário que já enfrentou na vida, Demóstenes afirma que aparecer com 33,3% de rejeição na última pesquisa Serpes de intenção de voto é até pouco para quem já teve mais de 60% no auge da Operação Monte Carlo. Ao se postar como injustiçado e defensor das leis, o ex-senador diz que pretende voltar ao Senado pela chapa majoritária da base aliada para reescrever sua história e mostrar aos brasileiros quem ele realmente é, não o que “áudios fraudados” fizeram com sua reputação.

Na aposta de que José Eliton (PSDB) pode fazer um bom governo, Demóstenes coloca todas suas fichas no pré-candidato a reeleição no Estado de Goiás. “O perfil qualitativo de José Eliton é o do homem que vai ganhar a eleição no primeiro turno para o governo.” Na busca por critérios claros para a escolha da segunda vaga na chapa majoritária para o Senado, que disputa com a senadora Lúcia Vânia (PSB), o procurador quer que os critérios fiquem claros na definição. “Jamais deixarei de ser político. Posso não fazer política partidária se não for candidato. Mas acredito que vou ganhar essa eleição.”

Cezar Santos – O ex-presidente Lula da Silva e os petistas, de um modo geral, dizem que ele foi perseguido e está sendo injustiçado, que foi condenado sem provas. Como que o sr. vê essa situação?
Não conheço o processo. Mas acredito que seja muito difícil ele ter sido condenado sem provas em duas instâncias. Acredito que houve provas robustas contra Lula e conseguiu-se provar que ele realmente devia. É assim que eu penso. Agora, a história de que Lula é vítima, é um perseguido político, não tem nenhuma valoração, porque se submeteu às leis do Brasil, foi julgado até por desembargadores que ele mesmo escolheu, lá do Rio Grande do Sul. Não vejo qualquer sentido nisso.

Pode ter erro judicial? Pode. Se isso aconteceu, as instâncias superiores vão reavaliar. Lembrando que pro­va já não se mexe mais. A partir do Superior Tribunal de Justiça (STJ) só se avalia se o direito foi ferido quando da condenação. E no Su­pre­mo se foi infringida alguma lei ou nor­ma inserta dentro da Constituição.

Augusto Diniz – Tem se defendido, pelo menos por parte do PT, que haja a discussão do mérito na terceira instância. Isso seria possível?
Impossível. Na terceira instância é impossível se discutir mérito. O que acontece é o seguinte: o Supremo passou a ter um novo entendimento, de dois anos para cá, que a prisão deveria ocorrer em segunda instância. É uma nova interpretação dentro da Constituição que existe. Antiga­mente, até há dois anos, sempre o Supremo vinha mantendo uma tradição quase que centenária de definir pela execução da pena de prisão só após o trânsito em julgado, ou seja, só após esgotarem-se todos os recursos, inclusive no STF.

Em 2011, eu era presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado e o presidente [Cezar Peluso] do Supremo tentou fazer uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) — foi chamada “PEC do Peluso”. Ele defendia justamente isso: a antecipação da execução, não só na área penal, mas principalmente na penal. Mas os ministros do Supremo naquele momento foram totalmente contra. Eu mesmo dizia ser favorável à emenda, mas os senadores não queriam votar. O estranho é que isso virou lei diante de uma interpretação, não mesmo de uma lei.

Acredito que para se dar o conforto necessário para que as pessoas saibam o que vai acontecer com elas, se condenadas em segundo grau, era preciso que isso fosse disciplinado em lei. Até porque virou uma loteria. Hoje nós temos seis ministros que, se um processo cair na mão deles, mandam prender; e cinco que mandam soltar. Há uma injustiça gritante em relação a isso. Precisa que imediatamente se julguem aquelas ações declaratórias de constitucionalidade (ADCs) que estão na mão da presidente do Supremo [Cármen Lúcia] desde dezembro, para que o STF passe a decidir só de um jeito – prendendo todo mundo ou soltando todo mundo.

Ou que o Senado tome uma providência, a Câmara também, para que se resolva isso imediatamente. Que se apresente uma PEC autorizando a prisão em segundo grau. Embora o ministro Celso de Mello acredite que isso nem possa acontecer, porque na opinião dele trata-se de uma cláusula pétrea, portanto, só pode ser mudada com uma nova Constituinte.

Augusto Diniz – Cabe constitucionalmente a discussão da mudança do trânsito em julgado por PEC?
Segundo o ministro Celso de Mello não cabe. De acordo com o magistrado do Supremo, isso não pode acontecer. Se não pode acontecer através de lei, muito menos através de interpretação. É uma discussão se trata-se de cláusula pétrea ou não. Porque se for cláusula pétrea, só com uma nova Assembleia Nacional Constituinte, só voltando a ter um legislador originário para poder alterar essa situação.

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Marcelo Mariano – O sr. acredita que Lula poderá ter prisão domiciliar de­cre­tada, até pela idade dele [72 anos]?
Essa que é a grande discussão. Como ainda está em andamento o processo do Lula, várias medidas podem ser tomadas em favor do ex-presidente. Pode ser que ele saia com uma tornozeleira eletrônica. Mas quem é que pode tomar essas decisões? No STJ, o ministro Felix Fis­cher, que já negou. E no Supremo, o ministro Edson Fachin, que também já negou. Resta ao Lula a discussão das ADCs. Se a ministra Cármen Lúcia não fizer isso, o ministro Dias Toffoli já disse que vai fazer no mês de setembro ou outubro [quando assume como presidente do STF]. Até lá Lula ficará encarcerado.

Augusto Diniz – O que podemos esperar da eleição presidencial nesse cenário de divisão do entendimento do STF sobre a prisão a partir de condenação em segunda instância?
Acredito que essa seja uma eleição muito peculiar. É uma eleição como a de 1989. Venho dizendo isso há muito tempo e agora alguns analistas passaram a entender assim também. É uma eleição em que os partidos grandes não têm muita influência. Vejam que pelo PSDB Geraldo Alckmin não é um candidato popular, no PT seu principal líder está fora da disputa. E se ele estiver realmente fora, o PT vai encontrar dificuldades. O eleitor vai se centrar em nomes.

Veja que na eleição em 1989 o [Fernando] Collor estava atrás. Até que eleitor se encantou por ele. Por último, a união [Leonel] Brizola e Lula quase fez com que o petista ga­nhasse a eleição. Collor despencou muito e ganhou por um “bei­ço de pulga” na última hora. E este ano eu vejo um quadro parecido. [Jair] Bolsonaro (PSL) tem pouquíssimos votos para chegar à Pre­sidência. Os demais – Ciro Go­mes (PDT) e Marina Silva (Rede) – também não têm fôlego hoje nem para chegar ao segundo turno.

A grande surpresa é o Joaquim Barbosa (PSB). Temos de ver se ele vai conseguir construir essa candidatura. Dos candidatos tradicionais, Alckmin está muito mal. Talvez se João Doria fosse o candidato – o Alckmin não vai deixar –, o ex-prefeito de São Paulo poderia ser uma surpresa nova, agradável, algo que pudesse encantar o eleitor.

Marcelo Mariano – Quem o sr. acredita que herdará os votos do Lula?
Veja que os nordestinos especificamente estão bastante revoltados. Os votos do Lula não foram para ninguém. O eleitor do Lula quer o Lula. Mesmo o segundo plano do PT pode não levar isso. O grande impulsionador de votos dentro do partido é o Lula. E na cadeia ele não pode fazer campanha para ninguém.

Yago Sales – O sr. vê governabilidade se Bolsonaro for eleito presidente?
É muito difícil. Qualquer figura muito radical não tem trânsito fácil no Congresso. Ele mantém o estilo e pode se dar mal, a não ser que queira dar um golpe, como insinuou várias vezes, ou vai ter de ceder porque senão po­de acontecer com Bolsonaro o que aconteceu com Dilma [Rousseff].

Cezar Santos – Bolsonaro terá de fazer a velha política que ele tanto critica?
Qualquer um hoje tem de fazer essa velha política.

Yago Sales – É mais fácil fazer essa velha política na Câmara dos Deputados ou no Senado?
Nos dois lados é fácil transitar com a velha política, porque se tem um número muito grande de partidos, tem pessoas que não têm consistência alguma. Tem senador que não saber para que serve o Senado. Qual a função de um senador? O que ele tem de fazer? Como ele pode atuar? Não tem noção da relevância, da importância, daquele cargo. A Constituição deu uma vulgarizada no Senado porque era uma Casa revisora, decisiva.

Mesmo assim o Senado ainda bate a mão na mesa quando tem de resolver alguma questão importante. Mas evidentemente que o Senado – até porque os mandatos são muito longos e uma reeleição significa 16 anos – tem figuras que aprenderam a conviver ali e ninguém consegue abalar o prestígio deles. Podem ter contra eles as denúncias mais cabeludas que nem abrem processo no Conselho de Ética.

Cezar Santos – A microrreforma eleitoral, que instituiu novas regras, pode ser positiva para o cenário eleitoral brasileiro?
Vai impedir a renovação. Porque não tem campanha. Como gente nova vai fazer campanha? São 45 dias de campanha, só. Então agora se tem uma pré-campanha, que todo mundo utiliza para fazer campanha. E não terá dinheiro. Imaginar que alguém vai dar 10% do seu rendimento do ano anterior para uma campanha política? Isso não vai acontecer.

Cezar Santos – Quem tem dinheiro vai se bancar.
Exato. Ou dinheiro sujo. A campanha de 2016 foi feita basicamente no caixa dois. Vi as pessoas correndo atrás de empresários. E o empresário não quer saber mais de político. Mas quem conseguiu alguma coisa não conseguiu oficialmente. A lei bem intencionada conseguiu o efeito contrário. Hoje a campanha é basicamente feita no caixa dois e só rico pode se eleger com o seu próprio dinheiro.

Marcelo Mariano – Costuma-se dizer que a América do Sul passa por ciclos presidenciais. Durante alguns anos com governos de esquerda, outros com governos de direita. Com a recente eleição do presidente do Paraguai e governos em outros países da região, estamos passando da esquerda para a direita. O sr. acredita que o Brasil seguirá a tendência e elegerá um governante de direita?
Acho que o Brasil precisa de um choque de liberalismo. Por conta da instabilidade do Brasil, os países vizinhos estão pegando as empresas e muitos brasileiros estão indo para lá por várias questões: segurança pública, facilidade de montar empresas, ausência de leis trabalhistas tão rigorosas quanto as brasileiras, um sistema previdenciário mais benéfico para o empresário, leis tributárias bem simplificadas. Veja que o Paraguai está buscando hoje essa prosperidade que era só do Brasil. E o Brasil vai ter de se debruçar fortemente sobre esses temas.
Hoje ninguém quer discutir isso, está em campanha política e diz que é contra. Mas no ano que vem não terá outro caminho para o Brasil. Faz a reforma da Previdência ou se lasca.

Augusto Diniz – Como o sr. avalia as mudanças nas regras contratuais trabalhistas incluídas na reforma do setor nesse cenário de transformação do quadro do mercado de trabalho?
Foram boas, mas ainda são insuficientes. O próprio trabalhador viu que o discurso de que isso não ia dar em nada não estava certo. Hoje aumentou o número de empregados. Ainda é insuficiente, mas precisamos trabalhar para desregulamentar o Brasil em muitas áreas e propiciar o aumento de renda, emprego e entre na era de modernidade dando tranquilidade ao cidadão.

Marcelo Mariano – Dos pré-candidatos a presidente, quem é liberal?
Entendo que o melhor seja o Alckmin. Mas temo que ele não consiga chegar lá. Bolsonaro, embora tenha feito esse papel de “cachorro louco”, digamos assim, para ganhar a eleição, tem uma figura econômica perto dele bem centrada [economista Paulo Guedes]. Marina Silva, embora seja de esquerda, já disse que fará um governo conservador. Talvez até para conquistar o voto do eleitor, mesmo os pré-candidatos de esquerda estão fazendo discursos liberais. O Brasil pode se aproveitar dessa fase. E tem que se aproveitar.

Estamos chegando em um momento em que o presidente da Toyota [Takeshi Uchiyamada] dizia nas páginas amarelas da “Veja” que o problema do Brasil é a complexidade. É um país em que você monta uma empresa e precisa montar outra empresa do mesmo tamanho com advogados e com contabilistas senão você não consegue sobreviver na selva brasileira. Enquanto a China, Índia, os tigres asiáticos e outros países aqui da América do Sul estão caminhando no sentido da simplificação.

Cezar Santos – Pra piorar, o Brasil é um país muito fechado em termos econômicos.
Totalmente. Vimos isso mesmo no governo Lula. Quando ele baixava imposto era para determinados setores. Baixou linha branca, depois determinados veículos. Depois vimos porque isso foi feito. Mas tem de ser feito de uma maneira geral.

Augusto Diniz – Nesse cenário de dificuldade para se definir a linha política, ideológica e econômica dos pré-candidatos, ao mesmo tempo em que Bolsonaro pode perder a força de polarização com Lula preso, surge o fortalecimento de Joaquim Barbosa, um nome publicamente de centro-esquerda, mas que defende privatizações, o que seria uma política econômica liberal. Como que sr. vê a chegada do Joaquim Barbosa?
É um pré-candidato cuja seriedade não se pode questionar. Agora, é também conhecido pela truculência. E não sei se isso é bom para o Brasil, porque precisamos viver um momento de conciliação. Não precisamos entrar na era da rudeza. Porque o Lula tentou pregar isso agora, o nós contra eles. Não podemos partir para aceitar esse discurso. Nós brasileiros temos é de lutar para vencer essa carga tributária ridícula, o modelo trabalhista antigo, lutar ao mesmo tempo para que o ambiente de negócio floresça, para que o meio ambiente seja conservado.
O Brasil tem de pegar as bandeiras — não só conservadoras — de meio ambiente, que não é conservadora, mas deveria ser. Acredito que hoje não temos um candidato puro de nada. Não temos um liberal puro, não temos um esquerdista puro. Veja que o Ciro é o mais preparado por ser o mais estudado, mas ao mesmo tempo é o mais mercurial. Explode facilmente.

Marcelo Mariano – Joaquim Barbosa teria condições de negociar com o Congresso?
Hoje não. Ele tem de mudar. Todos esses que estão pregando o radicalismo não compreendem o jogo no Congresso, como eu mesmo não compreendi. Achei que poderia sobreviver lá sozinho e isso é impossível. Hoje eu prego não que é preciso condescender com as práticas ilícitas, mas tem de se construir consenso.

Augusto Diniz – Tirando Bolso­naro, que o sr. classifica como direita radical, por que os pré-candidatos de centro ou de centro-direita têm dificuldade em se assumir de posicionamento ideológico ou econômico de direita?
Porque houve um momento no Brasil, especialmente de 1964 em diante, em que teve uma ditadura militar. A ditadura militar ensejou essa Constituição pouco proveitosa que nós temos no Brasil. É a Constituição Cidadã, mas também a Constituição dos entraves. O Supremo tem 100 mil processos para julgar por ano. Eram 200 mil quando eu criei um projeto de lei da repercussão geral, que diminuiu pela metade o número de processos. Muita gente ainda tem aquela visão.

Lula fez, querendo ou não, um governo social. O primeiro governo social do Lula foi muito exitoso. Um governo com bolsas, com entrada de pessoas mais carentes no ambiente negocial, gente que estava fora do jogo.

Cezar Santos – Só que o dinheiro para dar bolsas acabou.
Além de o dinheiro acabar, Lula acabou com o Brasil. Muita gente não quer nem saber disso. O problema é que se construiu uma demonização da classe política. E com uma classe política demonizada, Lula sobrevive. Se ninguém presta, o Lula está no meio e pelo menos o governo dele agradou um grande número de pessoas carentes no Brasil. É por isso que ele está em primeiro lugar nas pesquisas.

Marcelo Mariano – Como o sr. analisa a retirada dos processos contra Alckmin da Lava Jato?
Acredito que são acusações muito simples contra Alckmin. Mas qualquer acusação hoje é muito desgastante. Não só porque perdeu o mandato, mas porque ele está sendo investigado mais na área cível. O inquérito foi instaurado contra ele.

Augusto Diniz – Aécio Neves ter se tornado réu no STF por corrupção e tentativa de obstrução à Justiça prejudica a pré-candidatura de Alckmin?
Prejudica. Apesar de o eleitor estar muito centrado nas figuras, vai construindo aquela demonização do político. E as acusações contra Aécio são muito consistentes, ao contrário das acusações contra Alckmin.

“Gilmar Mendes segura a nossa Constituição”

Augusto Diniz – A demonização da clas­se política, em alguns momentos justificável e em outros não, explica por que o governo Michel Temer tem apenas 6% de avaliação positiva, apesar da tentativa de criar uma base que ajude a recuperar a economia?
Temer conseguiu uma antipatia geral. É um presidente sem jeito de ter acesso ao povo. Só que, por incrível que pareça, tem feito um bom governo. Conseguiu recuperar a economia, domar a inflação, fazer uma reforma mínima trabalhista, colocar em discussão a reforma da Previdência. Ele tem noção do que o Brasil precisa, mas ele próprio não tem salvação.

Cezar Santos – Mas a máquina de moer reputações do PT não tem uma parcela de responsabilidade?
Total. Mas veja só: Dilma caiu porque não soube construir o consenso dentro do Congresso Nacional. Porque Dilma é uma pessoa honrada. Qual acusação foi feita contra ela? A não ser de ela ser uma “anta”?

Cezar Santos – Não se provou, ainda, nenhum roubo dela.
Dilma é uma pessoa honrada. Ela caiu porque não se submeteu ao jogo político. E muitos podem cair. Não se iludam. O Congresso vai manter praticamente a mesma composição. Esse espaço curto de tempo já foi premeditado para isso. Aqui em Goiás quem vai mudar para deputado? Praticamente ninguém.

Marcelo Mariano – Dilma teria chance de ser eleita senadora?
Não. Ela é muito impopular. Todo mundo sabe das deficiências que Dilma tem. Ela tem deficiência intelectual, nunca poderia ser presidente da República. É quase burra, vamos dizer assim. Incapacitada. Não pode ocupar nada. O que não quer dizer muita coisa.

Marcelo Mariano – Em Minas Gerais, mesmo Estado pelo qual Dilma é pré-candidata ao Senado, Aécio Neves consegue se reeleger?
Também acho que não. Acredito que hoje ele terá de passar por um calvário e vai ter de conseguir se explicar ou ser condenado.

Augusto Diniz – Mesmo com um cenário de duas vagas em disputa por Estado para o Senado, vai ser difícil para o Aécio se reeleger?
Muito difícil. Duvido até que o partido o lance.

Yago Sales – E o sr. está otimista quanto à sua pré-candidatura em Goiás?
Vou ganhar. Aqui eu vou ganhar.

Marcelo Mariano – Na última entrevista ao Jornal Opção, o sr. disse que o ministro Gilmar Mendes (STF) é o maior homem público do Brasil. Sete meses depois, o sr. mantém essa posição?
Claro. É o contramajoritário hoje, é o homem que segura a Consti­tuição. Como gosto de lei, aprecio muito o trabalho do ministro Gilmar.

Cezar Santos – Mas Gilmar Mendes não deveria se declarar impedido quando decide pela soltura de compadre, padrinho de casamento de filha e em situações parecidas? Isso não pega muito mal?
Eu digo por mim. Eu fui padrinho de tanta gente que eu nem conheço.

Cezar Santos – Mas o ministro conhece o [Jacob] Barata [empresário do setor de ônibus do Rio de Janeiro].
Mas não sei se tem apreço. A ligação tem de ser íntima. Aquele sentimento de amizade ou de ódio faz com que a pessoa se dê por suspeita para julgar por não ter isenção. Vou dar um exemplo do que aconteceu aqui. Caiu na minha mão um dos processos do serial killer de Goiânia [Tiago Henrique Gomes da Rocha] em que a Defensoria Pública alega uma série de coisas a favor dele.

Li o processo e poderia realmente ter vícios. Só que eu tenho ódio do serial killer porque ele matou uma pessoa que eu conheci criança, filha do promotor de Justiça de Goianésia, com quem convivi muito tempo, o dr. Uigvan Pereira Duarte, quando eu também era promotor. A menina cresceu junto comigo. Eu me dei por suspeito naquele momento porque o ódio que eu sentia me impedia de enxergar se aquele processo tinha erros ou acertos.

O que a lei diz é isso. O seu sentimento de amor, de ódio, de amizade tem de ser aquele te impede, te deixa em suspeição. Eu era suspeito naquele caso, não daria um parecer como deveria. Me dei por suspeito. Os impedimentos são bem regrados e as suspeições são mais abertas.

No impedimento, não se pode julgar causa que esteja diretamente envolvido um parente seu até determinado grau. São impedidos, isso é objetivo. Quanto à suspeição, a lei deixa ao caráter de quem vai julgar. Eu posso julgar essa pessoa, mas eu devo julgar? O ministro Gilmar entendeu que deveria julgar porque ele não tinha suspeição naquele caso. Por conhecer bem o mundo político, o fato de ser apadrinhado, até um parente não tão próximo – tem parentes até que você não gosta –, juridicamente Gilmar Mendes agiu de forma correta.

Cezar Santos – Que critérios o sr. defende para a formação de uma chapa majoritária como o caso da base aliada, que tem muitos postulantes?
A base aliada está assim: José Eliton (PSDB) é a candidato a governador e Marconi Perillo (PSDB) é candidato ao Senado – definido. Eu disputo uma vaga com Lúcia Vânia (PSB). Se Vilmar Rocha (PSD) vier disputar acredito que será bem-vindo. Se a Luana Baldy (Podemos) vier disputar será bem-vinda. Quais são os critérios? Primeiro deles é a intenção de voto, pesquisas qualitativas, apoio de partidos políticos, apoio dos prefeitos, dos deputados federais e dos deputado estaduais.

Ouvir o governador José Eliton e o ex-governador Marconi Perillo. Com esses dados todos, teremos um candidato. Se Lúcia Vânia, Vilmar ou Luana estiverem melhores do que eu, irei apoiá-los com entusiasmo. Não vou ficar contrariado de forma alguma. Vou agradecer a Deus pela oportunidade que o eleitor de Goiás me deu de ganhar duas eleições para senador. O que eu peço é que existam critérios. Ninguém é candidato de si mesmo. Eu sou escravo da base aliada. Se a base decidir que estou fora, eu estou fora.

Marcelo Mariano – O sr. cogita ser candidato a deputado federal?
Em hipótese alguma. Fiz uma carreira no Senado, aprendi como as coisas funcionam naquela Casa, tive como fazer 189 leis ou ajudando a fazer como relator, emendante ou autor. Leis importantes para o Brasil. Como os jornalistas, que precisavam de uma lei de transparência. Naquele momento, o jornalista Fernando Rodrigues, que estava na “Folha de S.Paulo”, me procurou porque havia um projeto na gaveta há muito tempo. Retirei da gaveta, avoquei a relatoria e hoje é lei do jeito que eu relatei. Isso é muito importante para a liberdade de imprensa no Brasil.

A lei da Ficha Limpa, que acabou me apanhando, também fui eu que relatei. Todas as leis contra a pedofilia. Vi nesta semana o governador en­tregar o Passaporte do Idoso, que só existe por que eu pude relatar a lei do Estatuto do Idoso, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS). As medidas cautelares no processo penal, que possibilitaram a existência da Lava Jato. Tornozeleira eletrônica. Muitos senadores, e até deputados, me procuravam e pediam para que eu relatasse o projeto de lei deles no Congresso. Foram conquistas tremendas.
Eu sei fazer e sei transitar no Senado. Não sei se daria conta de fazer a mesma coisa na Câmara dos Deputados. E confesso que hoje ainda teria uma prudência muito maior para não acontecer de novo o que aconteceu.

Marcelo Mariano – O sr. diz que uma das vagas para concorrer ao Senado pela base aliada seria do ex-governador Marconi Perillo. Mas na última entrevistas concedida pelo tucano ao Jornal Opção, ele diz que ainda não há uma definição e que poderia vir a ser vice na chapa do Alckmin. Isso é possível?
É possível porque é um nome limpo do PSDB. Mas é uma chapa pura, já tem essa dificuldade. Outra dificuldade seria em uma região que tem poucos votos como o Nordeste. Mas também é algo superável. Torço para que ele realize o sonho, mas com Marconi como candidato a senador. Até porque Marconi é muito jovem, pode voltar a ser governador de novo. Pode ser candidato até no Distrito Federal, onde ele tem uma liderança muito grande no Entorno e na capital. O futuro político do Marconi está assegurado.

“Até minha neta de 6 anos foi investigada. Fizeram tudo e não acharam nada”

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Marcelo Mariano – Qual disputa está maior na base aliada: a segunda vaga ao Senado ou a suplência do Marconi?
A suplência do Marconi também é muito disputada. Como ele tem a mão na taça, muita gente quer. E digo que eu não aceitaria. Eu realmente quero trabalhar no Senado. Embora ache lisonjeio se fosse convidado.

Cezar Santos – Na sua situação específica, houve uma decisão recente que deu condições para que o sr. seja candidato. Não pode acontecer nenhum revés até o momento do registro da sua candidatura?
O Supremo vai julgar o mérito um dia. São os mesmos cinco ministros que já anteciparam os seus votos. O processo só não foi julgado no mérito porque não deu tempo. A procuradora pediu uma antecipação porque entendia que não cabia a retomada do cargo, que era uma decisão que só o Senado poderia tomar. Mas o Supremo decidiu diferente. Eu sabia que se não fosse ao Supremo não teria chance. Porque é o mesmo Senado que me cassou, muitos estão lá dentro, muitos ainda não gostam de mim.

Minha chance no Senado seria mínima. Mas acredito que tenha usado a estratégia jurídica correta ao provocar o Supremo a me dar o direito de candidatar. Como alguém que ganha tudo não pode ser candidato? Tem que esperar o julgamento político de novo de uma Casa que errou, mas não quer reconhecer seu erro? Não julga nem para negar e nem para admitir. Simplesmente deixa o processo parado. Nessa condição, eu passaria o resto da vida, porque o Senado não quer fazer. Só houve a minha saída de buscar o Supremo.

Augusto Diniz – A Segunda Turma do Supremo, que julgou a sua inelegibilidade, ficou dividida em 3 a 2. Isso não mostra que falta ao STF um entendimento claro sobre a possibilidade de seu direito a ser candidato?
O Supremo decidiu pela primeira vez dessa forma. O que os outros dois ministros [Celso de Mello e Edson Fachin] disseram? Um entendeu que eu deveria ter entrado com mandado de segurança ou com uma ação de nulidade, ou seja, não questiona o meu direito, só questiona a forma como o direito foi buscado. E o outro também não questiona o direito de jeito nenhum, só diz que quem tinha de fazer era o Senado, a mesma postura da procuradora-geral da República. Todos dizem que eu tenho direito sim. Só que uns preferem que aconteça de um jeito e alguns de outra forma. Pela discussão, todo mundo já se antecipou e já votou no mérito.

Yago Sales – O sr. imaginava quando foi cassado que concorreria novamente ao Senado?
Sempre imaginei. Sempre foi o meu objetivo. Busquei rebater passo a passo tudo o que aconteceu. Essa discussão que está acontecendo hoje, eu a travei em 2012: as nulidades das provas, as provas fraudadas com montagem. Tudo isso estava nos meus discursos em 2012, só que ninguém queria ouvir. Cheguei a um ponto que disseram que eu era culpado e pronto. Me calei e disse “só volto o dia em que eu for considerado inocente”. O primeiro passo foi dado pelo Ministério Público em 2015, quando fez uma perícia e pediu o arquivamento de um inquérito por lavagem de dinheiro e organização criminosa. Constataram que eu jamais obtive vantagem de quem quer que seja.

Yago Sales – A perícia dos áudios?
Essa é outra. A perícia dos áudios também foi feita. Todos os bancos do Brasil e internacionais, cartões de crédito, cartórios, meus parentes, funcionários. Até minha neta de 6 anos foi investigada. Fizeram tudo e não acharam nada. O Ministério Público pediu o arquivamento no mérito. Fez uma investigação profunda e pediu esse arquivamento. Quem foi que divulgou isso? Ninguém. Porque as notícias boas não são divulgadas. Para não dizer que ninguém divulgou, o Jornal Opção e o “Diário da Manhã” noticiaram o arquivamento. A maior parte da imprensa não deu uma linha sobre o assunto.

Yago Sales – A que o sr. atribui a precipitação no caso?
A pressão da procuradora-geral para que se definisse se era o Supremo ou o Senado que deveria julgar e qual ação deveria ser analisada.

Yago Sales – Como o sr. avalia a cobertura da imprensa à época?
Totalmente tendenciosa. Ninguém quis me ouvir. Tudo que estou dizendo, que a Justiça foi me dando ganho de causa, eu disse naquela época. A perícia dos áudios eu também fiz. O maior perito brasileiro, Joel Ribeiro Fernandes, fez a perícia e constatou que todos os áudios que me envolviam eram alterados. Tem áudio com mais de 30 edições.

Augusto Diniz – A Operação Monte Carlo foi deflagrada em 29 de fevereiro de 2012 e no dia 11 de julho daquele ano o sr. foi cassado pelo Senado. Na sua tentativa de consolidar uma pré-candidatura a senador pela base aliada, como a população entende toda essa situação? As provas foram anuladas, mas há quem acredite que o sr. seja culpado.
Isso faz parte. Essa rejeição vai existir sempre. Até porque a cobertura da absolvição não é a mesma da cobertura do massacre. E muita gente que não entende de direito começa a dar palpite, especialmente jornalistas. Mais recentemente Merval Pereira [O Globo] disse que a decisão sobre meu caso abre uma brecha para reverem o caso do Lula. Dei uma resposta dizendo que ele não passaria em um concurso para procurador do município de Riachão das Éguas (risos)… Aí pronto! Arrumei um inimigo que bate em mim todo dia. Devia ter ficado calado.

Simplesmente não tem nada a ver uma coisa com a outra. A brecha na lei da Ficha Limpa existe por um artigo na lei. Fui eu mesmo que redigi. E duas pessoas – dois paraenses, um deles senador pelo PT – tiveram a candidatura autorizada na eleição de 2014. Esses precedentes já existem. Mas não adianta. O que vale é que o jornalista tem prestígio, vai escrever e está valendo.

Cezar Santos – A cassação no Senado foi política e é legítimo que a Casa faça julgamentos políticos. O que fica para o cidadão é que o sr. terceirizou seu mandato para Carlinhos Cachoeira.
Claro. Desde que baseada em provas. Me diga um caso só em que eu ajudei Carlinhos Cachoeira. Pode até estar no imaginário popular. Estamos aqui em cinco pessoas na mesa, me diga quando ajudei Cachoeira em alguma coisa.

Augusto Diniz – Quando o sr. disse na entrevista da TBC que o sr. errou, mas não cometeu crime, que erro foi esse?
O erro era manter amizade com Carlinhos Cachoeira.

Marcelo Mariano – Essa amizade continua?
Não tenho mais amizade, porque se for eleito o povo não quer que eu tenha amizade com ele. Eu tenho de ser escravo do povo.

Marcelo Mariano – A última pesquisa Serpes aponta o sr. como o segundo mais rejeitado entre os pré-candidatos a senador, com 33,3%. É um porcentual alto?
Hoje para mim é um número muito baixo. Já foi mais de 60%. É um índice que está caindo. A medida que o eleitor for esclarecido, tenho certeza que esses índices vão baixando. E repito: não há nada, há um discurso. Qual é o fato em que eu ajudei Carlinhos Cachoeira? Não existe. Simplesmente não existe.

Cezar Santos – Se dizia que o sr. comandava um lobby pela liberação do jogos de azar. Isso é verdade?
Tem um áudio que eu digo para ele “esse processo aqui não tem nenhum cabimento”. Assumi o mandato no dia 1º de fevereiro de 2003 e saí no dia 11 de julho de 2012. Fiquei quase dez anos no Senado. Nunca houve no Senado, durante o período em que eu estava lá, um projeto para legalização de jogos.

Cezar Santos – Tem na Câmara.
Imagine! Que lobista sou eu que estou lá para isso e não apresento nenhum projeto.

Marcelo Mariano – O sr. é favor da legalização dos jogos de azar?
Hoje sou. Antes era contra. Qual o discurso do Ministério Público? Que se lavava dinheiro com jogos. E o que descobrimos com a Operação Monte Carlo? Que se lava dinheiro com tudo. Escritório de advocacia lava dinheiro, empreiteira lava dinheiro, Eletrobrás, Petrobrás. Se brincar escritório médico, associação, sindicato. Por esse viés já não dá mais, porque se descobriu que no Brasil em tudo se lava dinheiro. Apoiaria, mas não seria nunca uma bandeira minha.

Augusto Diniz – E o áudio mais lembrado é aquele em que o sr. pergunta ao Cachoeira como deveria votar no processo que transformaria contravenção em crime nos casos de jogos não autorizados no Brasil.
Mas como? Onde é que está esse áudio? Esse áudio nunca existiu. Ache esse áudio e coloque-o em cima da mesa. Outra coisa: eu me corrompi em quê? Não fui acusado em nenhum momento de desviar dinheiro de nada. Não fui acusado de desviar dinheiro de ponte, não fui acusado de desviar dinheiro da Eletrobrás, da Petrobrás, de hospital, de nada. E onde é que tem alguma coisa que eu recebi dinheiro do Carlinhos Cachoeira? Eu corrompi em quê?

Augusto Diniz – Se for candidato a senador, como vai convencer o eleitor que acredita que o sr. fez algo ilegal?
Vou trabalhar com a verdade. Vou trabalhar mostrando o resultado da Justiça. No Brasil está todo mundo na cadeia ou perto da cadeia. E eu estou livre. Tenho um fato concreto a meu respeito. Não foi uma decisão, foram 12. Porque o Ministério Público cindiu os processos em vários. Ao invés de fazer um só, fez 12 processos na área cível, na área administrativa, de tudo. E eu me livrei de tudo. Os áudios que dizem respeito a mim foram fraudados.

Augusto Diniz – Por que teria alguém interessado em inventar algo sobre o sr.?
Pergunte a esse alguém.

Augusto Diniz – Sua atuação como senador incomodava?
Eu tinha índice de intenção de voto para presidente, tinha 12%. Tinha mais de 60% para ser governador do Estado. Tinha mais de 70% para ser prefeito de Goiânia.

Cezar Santos – Claramente Lula fez um movimento para detonar o então governador Marconi Perillo e também pegar o sr. Confere?
Sem dúvida. O dedo do Lula estava em todo lugar. Quando explodiu o escândalo, no dia 6 de março de 2012, todos os senadores, inclusive os do PT, pediram a palavra e me apoiaram. Em seguida, o PT mudou de posição. Porque estava próximo o julgamento do mensalão. Eles queriam criar um tumulto para poder misturar as coisas. E tentaram. Isso é público.

Além do quê, Lula tinha ódio do Marconi. Tinha e deve ter por conta do episódio do mensalão, que foi o próprio Marconi que deflagrou. Foi uma reportagem da “Folha de S.Paulo” que ganhou robustez com uma declaração do Marconi dizendo que já tinha avisado o Lula sobre isso. Lula também não gostava de mim, porque era um crítico voraz do governo. Inclusive vou lançar uma coletânea de artigos que escrevi na época em vários jornais brasileiros, nos quais alertava sobre a cleptocracia do PT. E não foram um, quatro cinco, dez vezes. Para o cúmulo da desgraça – vamos dizer assim –, tinha me envolvido em duas brigas grandes no Senado. Uma com Renan Calheiros e outra com José Sarney.

Augusto Diniz – Quando senador, o sr. lançou o livro “Ensaios Sobre a Crise: segurança do Brasil e outros temas” (Senado Federal, 2004), que pode ter antecipado o que tem acontecido no País desde o mensalão e outros casos. Como avalia o que aconteceu com o Brasil desde então?
Tenho um amigo que diz que foi o furo no dique. Consegui furar o dique do PT. Só que ninguém prestava muita atenção porque os êxitos econômicos – querendo ou não Henrique Meirelles [à época presidente do Banco Central] é uma figura divina em termos de economia – fizeram com que o Brasil vivesse o milagre financeiro dois. Meirelles conseguiu alavancar isso e ninguém percebeu o que estava acontecendo.

Tanto no “Ensaios Sobre a Crise” quanto nos novos artigos que vou lançar na coletânea – inclusive fiz o lançamento de um livro pequeno, alternativo, agora – será possível se verificar a minha animosidade com o PT e vice versa. Tanto é que tentaram logo em seguida melar o julgamento do mensalão. Mas não deu certo.

Demóstenes Torres fala aos jornalistas Augusto Diniz, Marcelo Mariano, Cezar Santos e Yago Sales: “Agora, todo mundo está vendo que José Eliton dá conta de governar. Ele vai ganhar a eleição no primeiro turno”

“Perfil qualitativo de José Eliton é o de quem vai ganhar a eleição no primeiro turno”

 

Augusto Diniz – Na disputa por uma vaga ao Senado na chapa majoritária da base aliada, o sr. pensa em explorar o discurso de que pode ter sido vítima do PT e que os mesmos que teriam sido os responsáveis pela cassação do seu mandato estão hoje em uma situação muito pior?
Eu vou contar a história. Mas tenho que me centrar muito no futuro. Claro que vou partir para essas explicações. E os meus inimigos estão em uma situação muito difícil. Não me regozijo disso, não acho graça nem me divirto com isso. Aprendi a ter dó das pessoas. Não tenho nenhum prazem em ver Lula preso. Sei que ele foi meu algoz, mas não tenho.

Vou me concentrar em fazer de novo bons projetos para o Brasil, como o divórcio direto, que antes era preciso fazer uma separação, ou o divórcio em cartório, que hoje é possível. Até a prorrogação do Bolsa Família. Porque chegou um momento em que o programa acabaria. A então senadora Marina Silva, naquela época, defendia que o Bolsa Família precisava acabar, e defendi que deveríamos prorrogar porque tínhamos naquele momento muitos brasileiros passando fome no País. E fome é uma coisa que não se discute. Sei que um dia o Bolsa Família vai ter de acabar, mas naquele momento não dava.

Relatei o Estatuto da Igualdade Racial, mesmo tirando várias loucuras, como a criação de um sistema público de saúde para negros, o que seria a divisão completa do Brasil. Admiti as cotas, embora sendo contra. Admiti para que outras loucuras desse gênero não fossem criadas.

Augusto Diniz – O sr. disse ser contra às cotas raciais, mas apoiou a criação delas mesmo assim, quando defendia as cotas sociais. Por que da cota social e não a racial?
Acho que é mais justo com o Brasil, porque nós temos brasileiros pobres de toda cor. O conceito de negro hoje foi ampliado. Antigamente negro era sinônimo de preto, que são 6% dos brasileiros. Hoje qualquer um, até com fenótipo branco, pode ser considerado negro. Acho que era mais justo com o brasileiro a cota social, o pobre independentemente de qualquer que seja a cor. Apesar de que mais recentemente as cotas sociais também foram adotadas de certa forma. E até para deficientes físicos.

Cezar Santos – Há uma vigilância sobre os políticos, hoje, e o sr., por tudo o que lhe aconteceu, sofre um escrutínio ainda maior. Em vista disso, o sr. acredita que dar um banho de champanhe na sobrinha em uma festa é algo que o eleitor vai entender? O sr. faria isso de novo?
Faria. Como já fiz no passado. Na minha sobrinha não, na minha filha, na minha enteada, que passou em um dos cursos de Medicina mais difíceis do Brasil. Passou na Universidade Federal do Rio de Janeiro, no Fundão. Não tenho arrependimento nenhum disso. O champanhe custar R$ 1,5 mil. Muito caro. Eu poderia dar um carro de presente para ela. Alguém iria reclamar disso?

Augusto Diniz – O sr. não teme que esse ato seja tratado com algo soberbo ou elitista pelo eleitor?
Pode ser. Com minha sobrinha, no passado, eu era chefe do Minis­tério Público e fiz a mesma coisa. Que repercussão deu? Nenhuma.

Marcelo Mariano – Do ponto de vista eleitoral não pode ser negativo?
Pode ser. Mas vocês estão perguntando se eu me arrependi? Não. E faria de novo. Fiz para a minha filha, menina que eu crio desde os 4 anos de idade. Minha enteada, maravilhosa, conseguiu um sucesso na vida. Coisa que poucos goianos conseguiram. Entrou em uma disputa para 48 vagas por mérito. O resto era cota. Mais de cem vagas por cota. Ela conseguiu. Achei aquilo fabuloso. Passou em mais tantas outras universidades federais. Faria? Sim. E fiz onde? Como pode ser encarado como soberba ou elitismo ou extravagância ou para aparecer se eu fiz dentro da minha casa? E quem filmou foi um colega dela, um menino – coitado –, que postou em uma rede social, um “gavião” pegou e transformou no que virou.

Marcelo Mariano – Mas eleitoralmente pode ser negativo?
Não sei se vai ser. Será? Mesmo ex­plicando para o eleitor? O sujeito não faz churrasco para a filha dele? Eu mesmo fiz e participei de vários co­memorando formatura de pessoas. Consegui mais de 2 mil bolsas de estudo, muitas pessoas se formaram por meio dessas bolsas. Todas elas me homenagearam do jeito que acharam que era devido ou que tinham condição. Fiz uma homenagem à minha enteada querida e não me arrependo.

Cezar Santos – O senador Ronaldo Caiado (DEM) tem liderado as pesquisas para o governo. O sr. acredita que José Eliton tem condições de reverter esse quadro? Caiado pode cair?
Caiado tem direito de candidatar. É uma pessoa que faz política há muitos anos. É o sonho da vida dele. Agora, José Eliton vai ganhar no primeiro turno.

Marcelo Mariano – No primeiro turno?
José Eliton vai ganhar a eleição no primeiro turno. Escrevam isso.

Augusto Diniz – As pesquisas mostram que José Eliton ainda é um candidato desconhecido.
Exatamente. Muita gente não o conhece. Mas agora todo mundo está vendo que ele tem essa capacidade de gestão, que dá conta de governar. E José Eliton tem uma coisa que eu acredito muito: a vitória pelo mérito. Quem é José Eliton? É uma pessoa cujo pai era feirante, depois passou no concurso para o Banco do Brasil. Ele sofreu todas essas agruras. Veio para cá estudar dentro de um sistema de dificuldade. Andou de ônibus, usou o serviço do Sistema Único de Saúde (SUS).

Aquela pessoa que se transformou no maior advogado eleitoral do Estado, que é um gestor inquestionável – por onde passou deu certo –, que estuda os problemas de Goiás. Se botar na mesa para discutir com qualquer candidato vai dar um banho. É humilde. Os projetos que está lançando, está fazendo porque ele sofreu na pele essas coisas. O batalhão que José Eliton criou nos terminais do Eixo Anhanguera foram criados porque ele sabe que nos ônibus mulheres são assediadas, há ladrões, batem carteira. Por saber, o governador se tornou uma evolução do Marconi.

Marconi é, indiscutivelmente, o maior político da história de Goiás, mas o José Eliton está indo à frente. Essas coisas vão dar resultado. Estive no lançamento de um programa absolutamente revolucionário. Temos em Goiás 7 mil cirurgias eletivas represadas, milhares de exames e consultas. Não era atribuição dele, era do prefeito. José Eliton pediu, avocou para ele e o Estado vai começar a operar em terceiro turno, de noite, de madrugada, para poder atender as pessoas. O médico Áureo Ludovico vai fazer dez cirurgias de graça de redução de estômago. Outros médicos também.

As pessoas precisam disso. E José Eliton sabe porque foi usuário da rede pública de saúde. Governante não vai ganhar no grito ou na porrada. Vai ganhar no trabalho, no consenso, na humildade. E José Eliton é essa figura. Hoje ele ainda é desconhecido, poucos o conhecem bem. Mas com esse tipo de atitude, ele vai chegar lá. Anotem: o perfil dele, qualitativo, é de quem vai ganhar a eleição no primeiro turno. Quem é o candidato honesto mesmo em Goiás? Quem é o candidato da ética em Goiás? Ele ainda não se apercebeu dessa bandeira. Os outros todos um dia tiveram problema na vida, ele não.

José Eliton é uma figura limpa, inquestionável. É produtor rural. Não é daqueles que sobrevive da desgraça dos outros. É um trabalhador. Está lá pequeno produtor, mas está lá. Sofre com a falta de chuva, o excesso de sol. Nasceu em uma cidade rica de Goiás, foi morar em uma cidade pobre. Essa pessoa vai ganhar a eleição no primeiro turno. O eleitor ainda não descobriu, está começando a descobrir agora o José Eliton. Escutem o que estou dizendo. Vai levar a eleição no primeiro turno. O perfil qualitativo dele é muito melhor do que o dos demais. É uma pessoa que tem tolerância, conhecimento, humildade e gosta de fazer o bem. É esse o governador que Goiás precisa.

Augusto Diniz – Esse é um grande desafio para José Eliton, encarar o problema da saúde de Goiânia, que um gestor experimentado e com a experiência de serviços prestados para a capital e para o Estado, como Iris Rezende (MDB), não tem conseguido resolver.
Iris, por exemplo, é outro baita gestor. Talvez seja o segundo político mais expressivo da história de Goiás. No entanto, está com dificuldade. Nesse caso não tem nem de brigar, é preciso aceitar a mão estendida e dizer “José Eliton, obrigado, estava precisando disso” do que ficar nessa disputa de quem é que pode ou não fazer. É fazer, pegar e realizar.

Cezar Santos – De certa forma, José Eliton está tirando uma bandeira do Caiado, que chegou a defender a instalação de hospitais de campanha.
São coisas inimagináveis.

Augusto Diniz – A primeira das mudanças veio ainda como vice-governador, que foi a troca do secretário de Segurança Pública, quando o ex-governador Irapuan Júnior assumiu o cargo no lugar de Ricardo Balestreri, que foi para o gabinete de assuntos estratégicos. Como o sr. avalia o início da gestão Irapuan na pasta?
Balestreri é um craque, está ajudando agora em assuntos estratégicos. Eu o conheço desde a época que eu era secretário de Segurança Pública e ele trabalhava no Ministério da Justiça. Construímos em Goiás um perfil de segurança absolutamente técnico e de enfrentamento à delinquência. E deu resultado. Balestreri disse que foi a única época em que a segurança pública diminui seus índices no Brasil, especialmente em Goiás, porque houve planejamento, investimento e uma série de situações que favoreceram o combate ao crime.

Irapuan é outro craque. Político mais culto da história de Goiás, genial e de coragem. Não adianta balançar a moita para ele que ele não vai correr: “a Rotam está matando demais”. A Rotam (Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas) tem de fazer determinado trabalho. Não tem de matar de mais ou de menos. Não tem nem de matar. Tem de reagir ao crime. E essa reação pode chegar às vezes em morte. Na defesa da sociedade, o policial tem de enfrentar toda essa situação. O revólver não está no coldre do policial para embelezar ele, é para ele defender o cidadão, a sociedade. Irapuan joga pesado no sentido de apoiar o policial.

Ele fala: “Faça o seu trabalho, não erre. Não aceito grupo de extermínio, não aceito corrupção, não aceito desvio”. Mas dentro da regra do jogo, se tiver de morrer alguém que morra o bandido, não vai ser o cidadão de bem. Irapuan sabe jogar bem esse jogo. Sou admirador dele. Inclusive estou lendo um livro do Irapuan muito interessante: “Jogos da Memó­ria: lembranças, livros e história” (Câ­no­ne Editoral, 2015). Muito interessante. Mostra o que ele pensa sobre livros, algum episódio que viveu ou análises históricas. Irapuan é uma figura genial.

Foto: Fernando Leite

Marcelo Mariano – O sr. colocou Marconi como o maior político da história de Goiás, Iris como o segundo. Quem seria o terceiro maior político do Estado?
Acredito que Pedro Ludovico. Marconi até pela quantidade de tempo que teve no governo, que são 20 anos, já que Alcides Rodrigues está na cota do ex-governador. Lembro que mudamos o Estado inteiro. Não foi só a segurança pública. Chegávamos na Polícia Técnico-Científica e estavam os sacos com vísceras de 10 a 12 anos atrás para serem analisados, processos parados na Polícia Civil. Foi preciso ser criado IML no interior. Não existia Serviço de Verificação de Óbito (SVO) em Goiânia, o que foi criado em parceria com a prefeitura. Para se liberar um corpo é preciso um “pistolão”. Muitas vezes um parente esperava três dias pela liberação do corpo do irmão ou da mãe no necrotério.

Na educação, para pegar documento você tinha que andar em todas as repartições. Hoje existe o Vapt Vupt. A Universidade Estadual de Goiás (UEG) foi criada no joelhaço, na porrada. Não tinha nada. Lembrou que eu dei 500 livros para começar a UEG.

Cezar Santos – Com sua cassação, o empresário Wilder Morais (DEM) herdou o seu mandato. Como avalia o trabalho de Wilder como senador?
Muito bom. Ele gostava dos prefeitos, os prefeitos gostavam dele. Foi e é um senador municipalista. O erro foi ter perdido a paciência. Nesse jogo político é preciso ter paciência, senão toda hora alguém cria uma situação nova e quer te colocar para fora. Isso faz parte do jogo. Se ele tivesse paciência, os prefeitos iriam ajudá-lo. Só que com essa falta de paciência, Wilder foi para o outro lado e creio que perdeu o apoio e condição de sobreviver politicamente.

Augusto Diniz – Como é contar com a possibilidade de concorrer a uma das duas vagas ao Senado com um pré-candidato que tem mostrado força de voto nas últimas duas eleições em Goiânia (2014 e 2016), que é o vereador Jorge Kajuru (PRP)?
Kajuru tem muito voto em Goiânia, é uma boa figura, um bom vereador e será um prazer enfrentá-lo nas urnas.

Augusto Diniz – Não dificulta a disputa?
Não. O eleitor tem o direito de discutir e de ter várias opções. Tabuleiro quanto mais candidatos melhor.

Augusto Diniz – O que ainda empolga o sr. a ser candidato em uma eleição?
O que me empolga é reescrever minha história, mostrar realmente quem eu sou e trabalhar em favor do cidadão. Eu jamais deixarei de ser político. Posso não fazer política partidária se não tiver êxito, se não for candidato. Acredito que vou ganhar essa eleição. Mas vou fazer serviço social voluntário. Vou ajudar o mais pobre, o mais carente, talvez com escola.
Já pensei em buscar tanta gente que a vida ajudou e que tem para oferecer: professor de universidade de Medicina, de Engenharia, gente genial que pode dar aula, empresário que pode ajudar a bancar uma escola. Temos de começar a pensar e fazer mais ou menos como se faz nos Estados Unidos. Se tem gente que precisa e quem tem recurso sobrando, vamos canalizar isso para fazer o bem. Vou ajudar as pessoas de qualquer jeito, seja na política seja como voluntário.

Augusto Diniz – Como amante dos livros e dos discos, o que o sr. pretende fazer na área da cultura caso tenha a oportunidade de voltar ao Senado?
Temos no Brasil uma leva de pessoas que vão aparecendo, bons escritores, bons músicos. E a medida que eles aparecem a gente até assusta. “Esse cidadão era um favelado e conseguiu via internet alguma coisa.” O Estado tem que deixar de bancar só shows de pessoas famosas, filmes de cineastas famosos e passar a buscar a inovação. Não descartar totalmente, mas não dá para o Estado ficar bancando show de artista a vida inteira.

Pessoas que vivem às custas do Estado praticamente. É por isso que a cultura toda está com o Lula, porque também levou a sua beirada. Precisamos ajudar quem realmente tem necessidade. Esses se viram. Se vem aqui em Goiânia enche o teatro, faz seu show, lança seu livro e já tem o público certo. Precisamos ajudar a quem precisa e tem talento.

Augusto Diniz – Além do livro do Irapuan Costa Júnior, o que mais o sr. tem lido?
Gosto muito do Valter Hugo Mãe. Comprei obras completas dele para poder ler. Mas acabei de ler o “Trem Noturno para Lisboa”, do Mercier Pascal (Record, 2009). Do Aldous Huxley, estou lendo “Eminência Parda” (Itatiaia, 2000). É uma história fantástica de um frei que teve influência decisiva em muitos reis franceses. Essa é uma teoria que o Huxley constrói que muita gente hoje acha que é provável. Essa série de guerras iniciadas em muitos momentos e que envolveram França, Alemanha, Inglaterra se desdobraram ao longo do tempo até a Segunda Guerra Mundial. É uma tese que pode ser tratada como forçação de barra, mas ao mesmo tempo, da forma que ele constrói é muito interessante.

Augusto Diniz – E que discos, artistas e bandas o sr. tem ouvido?
Tenho ouvido dona Ivone Lara porque ela morreu. Tenho muitos discos dela. Tenho uma grande coleção de música instrumental. Estava pegando os discos do Raphael Rabello e comparando com os dos Yamandu Costa, com os do Dilermando Reis, Garoto [Aníbal Augusto Sardinha], Baden Powell. Eu tenho um ciclo de rever aquelas coisas muito interessantes que o Brasil tem, a força dos instrumentistas brasileiros.

Gosto muito de MPB, de blues e de jazz. Gosto muito do trabalho do Basileu França, tenho conversado muito com a professora Zaira Turchi, diretora-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa de Goiás (Fapeg), e também a Sandra Cristine Grabriel, que trabalha com ela – diretora de gestão, planejamento e finanças da Fapeg.

Estamos estudando muito inovação junto com o Gilvane Felipe, pensando como será o Brasil daqui 15 anos. Grande parte dos empregos tradicionais estará morrendo. Juízes e promotores possivelmente estarão trabalhando de suas casas. Estamos estudando startups e a economia criativa. Porque quero chegar ao Senado tendo o que falar e fazer. Temo muito pelo futuro do Brasil. Se o Brasil não conseguir essa simplificação o mais rápido possível das leis tributárias e outras que emperram o destino do brasileiro, em pouco tempo não daremos conta de mais nada. E como vamos investir em tecnologia.

Quem carrega nas costas o Brasil hoje? O setor agropecuário. E é um setor que deveria ser apenas um bônus. Além de tudo, o País tem essa quantidade imensa de terra agricultável, pode fazer e criar. Deveríamos estar investindo em economia criativa e tecnologia de ponta, porque é isso que dá mais dinheiro hoje, é isso que vai contemplar as profissões do futuro. Será que os jovens brasileiros vão querer ser estivadores? Isso já era.

Temos de trabalhar o setor de inteligência artificial. E no Brasil não tem ninguém preocupado com isso. Quando cheguei ao Senado, o então senador Aloizio Mercadante (PT-SP) me chamou e disse que o governo queria fazer do entorno de Brasília uma espécie de Vale do Silício, com uma revolução na área de tecnologia. Mercadante me pediu ajuda para conseguir o apoio dos parlamentares de Goiás, Distrito Federal e Mato Grosso. Sabe quem se encantou por isso? Ninguém.

Perdemos esse projeto. Lula pode ter feito um monte de coisa errada, mas algumas coisas que ele encasquetou conseguiu fazer. Ele queria criar campeões nacionais. Criou a JBS, incensou essas empresas de construção e foi fazendo. O sonho dele de fazer um Vale do Silício na região do entorno não se concretizou por falta de informação dos nossos parlamentares. Precisamos fazer isso mesmo.

Augusto Diniz – Da defesa de grandes pautas, uma delas era o reconhecimento do Cerrado como patrimônio brasileiro, o que parece nem haver campo para acontecer. Qual é o risco para o nosso bioma essa falta de amparo legal?
Vou insistir muito nisso. Essa questão parece algo simbólico, mas a conservação do Cerrado é essencial. O Cerrado existe aqui, mas também ali perto da Floresta Amazônica, no Pará. É estabelecer regras, não é impossibilitar o cultivo. A medida que for reconhecido como patrimônio nacional, facilita o estabelecimento de regras.

Augusto Diniz – É possível aliar a preservação do Cerrado com a produtividade e o investimento em inteligência?
Sem dúvida. Eu credito muito ao mundo estar existindo tão bem ao êxito do desenvolvimento tecnológico. [Thomas] Malthus previu, como a população crescia em progressão geométrica e os alimentos em progressão aritmética, que o povo morreria de fome. Aconteceu uma revolução agrícola. Terras inaproveitáveis como o Cerrado, que não eram usadas para nada, hoje são campeãs de produtividade. O mundo come a medida que a tecnologia se desenvolveu. Empresas como a Embrapa, com essa excelência toda, ajudaram o Brasil a criar essas tecnologias.

O grande mal do século passado eram os resíduos dos cavalos nas grandes cidades, as moscas que esse resíduo gerava. Era preciso ter casas ao lado para ficar com as cocheiras. Era um problema imenso. Como o mundo ia resolver isso? Ninguém sabia. Veio o carro e o problema foi resolvido, mas se criou outro. O aquecimento global vai ser resolvido com tecnologia.

Duvido que a China vá reduzir a emissão de poluentes, a Índia e outros países. Chegou a vez deles. Agora eles não vão comer carne ou comprar carros? Temos discutido muito e a situação só tem piorado, por melhores que sejam as intenções. Isso vai se resolver com o desenvolvimento da tecnologia. Acredito piamente nisso. Por isso que eu insisto: o Brasil tem de investir em tecnologia. Daqui 15 anos o mundo será outro. Nós não vamos nos preparar para isso?

Cezar Santos – Tem algo que não perguntamos e que o sr. queira falar?
Só que eu adoro o Jornal Opção, quando sai todo domingo eu leio a parte cultural, que é talvez uma das melhores ou a melhor do Brasil, além da parte política. Vocês são muito bons. Obrigado por existir o Jornal Opção.

2 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
2 Comment authors

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

ziro

DO JEITO QUE AS COISAS ANDAM NÃO DÁ PARA COFIAR EM JUSTIÇA, MAIS ESSA AUTORITÁRIA MONÁRQUICA. Essa história lembra dos meus dias quando eu deparava com decisões e acórdãos alinhadinhos com a obscuridades incompreensíveis, que deixava a impressão de que todo cidadão não tem a capacidade de perceber algo que atentava contra a lógica da ciência jurídica. Quando a lei deixa de ser aplicada em prol da opinião do julgador, que não estudo, que não analisa as provas, nesse exato momento o Estado passa a ser inimigo de seu povo que começa a se perguntar pra que serve a administração… Leia mais

Sandoval Neto

Ele não foi considerado inocente. Teve o processo arquivado por desqualificação das provas. Apesar de as provas não mentirem