Marcos Marinho: “Eleitor estava com tantos problemas que não sobrou espaço para política”

Consultor em comunicação e marketing político avalia que distanciamento da população do processo eleitoral em Goiânia se deu em um ano atípico, no qual a economia e a saúde demandaram toda atenção da sociedade

Foto: Reprodução/Facebook

“Para a maioria das pessoas, a política é um problema.” Professor e consultor em comunicação e marketing político, Marcos Marinho avalia que um ano tão conturbado como 2020 não deixou espaço na cabeça das pessoas para pensar em eleição. Para Marinho, o eleitor se mostrou desinteressado no processo eleitoral porque a vida está cheia de preocupações e, para muitos, votar parece ser mais um problema.

Enquanto em 2018 presenciamos debates acalorados influenciados por pautas polêmicas abordadas durante a campanha presidencial, o pleito de 2020 aparentemente passou longe de conseguir a atração da sociedade. “Cada candidato tentou inflamar sua militância. Nem mesmo este trabalho foi fácil”, comenta o consultor. Na entrevista ao Jornal Opção, Marcos Marinho aponta as dificuldades e particularidades da disputa de 2020 em Goiânia para prefeito.

O eleitor em Goiânia se mostrou interessado pela campanha no primeiro turno?
Não percebi. Não consegui sentir que o eleitor tenha se interessado em participar do processo, nem mesmo para comentar ou brincar com amigos sobre o voto de conhecidos. Houve mais o movimento da militância. Cada candidato tentou inflamar sua militância. Nem mesmo este trabalho foi fácil. Até para inflamar a própria militância as campanhas tiveram dificuldade.

Há dois anos, os eleitores mostravam envolvimento emocional com a campanha presidencial. As pessoas defendiam com todas as forças seus candidatos, tanto no primeiro quanto no segundo turno. Em 2020, a população fala de vários outros assuntos, menos da eleição. É possível dizer o que ocorreu entre aquela paixão acalorada de 2018 e o distanciamento percebido neste ano?
A eleição de 2018 foi muito tensa. Foi uma eleição de polarização constante, de pautas muito agressivas que geravam um debate muito poderoso. A eleição presidencial trouxe muito mais disputa do que discussão sobre plano de governo. A condição verificada em 2018 estava muito ligada às pautas que foram debatidas. Não podemos desconsiderar os fatos daquela campanha: a facada sofrida pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e tudo que veio depois daquela tentativa de homicídio. O povo se envolveu porque foi uma eleição que mexeu com os nervos e sentimentos da população.

Tivemos vários problemas em 2020. Surgiu a pandemia da Covid-19, que tomou conta da nossa vida. O tema que está permanentemente na cabeça das pessoas é o medo da pandemia e os retrocessos na vida durante e após a pandemia. A renda cada vez pior, o medo do desemprego. O Natal se aproxima. Entra mês, sai mês, a vida não decola. A preocupação cotidiana dominou a vida das pessoas. O eleitor estava cansado de tanto problema e tensão que não sobrou espaço para se preocupar com política.

Para a maioria das pessoas, a política é um problema. As pessoas não gostam de falar sobre política e não se envolvem muito com o assunto. Aquela catarse do processo eleitoral, que são os eventos, comícios e a movimentação de rua que pode tirar a pessoa um pouco do comodismo, não ocorreu por conta das restrições exigidas pela pandemia. Tivemos um cenário perfeito para a apatia. Temas muito importantes que deveriam ser debatidos, mas que não fazem parte do cotidiano das pessoas, foram suplantados pela ausência de gatilhos que pudessem gerar proximidade com o eleitor.

A campanha foi muito ruim. Os candidatos não podiam fazer nada. Não havia espaço para despertar e mobilizar o eleitor. Chegamos ao ponto que verificamos nas ruas: campanhas que não decolaram, eleitores que não se envolveram e o segundo turno deve se dar em um debate de recall.

O sr. concorda que hoje podemos ter um aumento da abstenção nas urnas?
Compartilho desta opinião desde o começo. A tendência é a de que tenhamos, principalmente nos grandes centros, uma abstenção ainda maior do que o habitual. As cidades pequenas podem ter uma abstenção menor. Na cidade pequena teve mais campanha de rua. Na maioria dos municípios menores alguma atividade de rua na campanha movimentou a cidade. Nestas cidades, os candidatos tiveram condição de mobilizar o eleitor.

Entre os idosos das grandes cidades, o medo da pandemia está presente. E temos os mais jovens que não irão votar porque não se sentiram motivados o suficiente para sair de casa. Por isto, a abstenção tende a ser ainda maior em 2020. O que é bastante ruim.

Os dois candidatos que lideram as intenções de votos nas pesquisas em Goiânia tiveram Covid-19. O senador Vanderlan Cardoso (PSD) já se recuperou da doença, mas o ex-governador Maguito Vilela (MDB) segue internado em São Paulo. O candidato a vice-prefeito de Maguito, vereador Rogério Cruz (Republicanos), precisou se afastar da campanha por causa da Covid-19. Como ficam as campanhas em um cenário de restrições e protocolos de segurança?
Tenho sido mais cuidadoso ao falar do assunto porque precisamos ser mais pragmáticos para analisar o que ocorre em uma eleição. É óbvio que a pandemia transformou a forma de poder interagir com as pessoas. Mas a forma que as pessoas lidam com a política também precisa ser considerada. Uma campanha asséptica jamais iria ocorrer, porque falamos de paixão, envolvimento e engajamento. Sempre haveria algum nível de tumulto e de aglomeração. Inclusive como ocorreu.

Tenho uma leitura um pouco divergente, mas há certa hipocrisia de alguns setores de tentar culpabilizar a campanha eleitoral por números da pandemia. Proibiu-se a maioria dos eventos políticos. No entanto, festas são realizadas, as pessoas vão para os bares, os shoppings estão abertos. Parece que só é proibido porque é evento político. O resto continua a funcionar normalmente. O que acaba por tolher um processo político necessário. É preciso haver cuidado. Isto é óbvio. São necessárias restrições. Mas por que a mesma rigidez não é adotada também nos outros setores? Me incomoda usar dois pesos e duas medidas.

Os eventos de campanha são um risco, assim como é um risco pegar ônibus para ir trabalhar, como é arriscado ir ao shopping. Não consigo concordar que a demonização da campanha eleitoral tenha fundamento. Porque não há em Goiânia e em outras cidades a mesma rigidez com medidas de segurança e prevenção. Ao mesmo tempo, há aqueles candidatos que foram contaminados em todo o Brasil, o que gera impacto na campanha. No fim das contas, o contexto maluco de 2020 mostra que não houve envolvimento social na eleição.

Maguito, mesmo ausente, deve estar no segundo turno. A campanha foi virtualizada. Conseguiu-se dispor da proximidade e do contato com o eleitor no meio virtual. O que permitiu ao candidato do MDB fazer campanha a distância. Bolsonaro conseguiu fazer um pouco desta campanha virtual. Mas Bolsonaro contava com a militância muito aguerrida, que manteve o calor das ruas. Neste ano, como não havia gente na rua para aquecer o clima de campanha, Maguito foi beneficiado porque a pandemia restringiu a mobilização social das campanhas adversárias.

As pesquisas de intenção de votos apontam que a campanha em Goiânia ficou focada nos três nomes mais conhecidos: o senador Vanderlan Cardoso (PSD), o ex-governador Maguito e a deputada estadual Delegada Adriana Accorsi (PT). Ao mesmo tempo, tivemos o recorde de 16 candidaturas a prefeito. Esta quantidade de prefeitáveis foi uma estratégia acertada?
Cada partido teve de fazer a sua própria estratégia, não só para a eleição majoritária, para pensar na estrutura e na sobrevivência da sigla. Como não temos mais coligação proporcional e cada partido precisa garantir seu quociente eleitoral, seria muito difícil uma legenda lançar uma chapa de vereadores sem candidato à disputa majoritária. O partido perderia em potência na campanha, desmobiliza muito o grupo. A quantidade absurda de candidatos a prefeito em todo o Brasil se deu pela necessidade de ter um cabeça de chapa para mobilizar o grupo de partidos, que iriam lançar seus candidatos a vereador.

O partido que não conseguir atingir o quociente eleitoral irá perder sua capilaridade. Para a eleição de 2022, o partido que não tiver filiados eleitos e diretórios em funcionamento para fazer campanha perde poder de votação. Perde espaço. Por isto temos tantos candidatos a prefeito. Mas a quantidade de candidatos a prefeito resulta em pulverização de votos. Quando temos vários candidatos, o eleitor tem a possibilidade de votar naquele nome com o qual tem mais afinidade. Não necessariamente porque irá ganhar ou perder, mas por uma questão de proximidade, afinidade e apoio. Antes, este voto migrava para a composição de chapa que era montada.

Temos em 2020 uma disputa dos três candidatos com maior recall eleitoral contra os outros, na grande maioria, que se lançaram para aproveitar o momento e se fortalecer em 2022. São três situações: os três primeiros nas pesquisas têm recall forte, Adriana, Maguito e Vanderlan; candidatos intermediários que usam a visibilidade conquistada em 2020 com a cabeça já em 2022; e nomes que entraram para marcar bandeira e não deixa a sigla desaparecer.

“Campanhas não decolaram, eleitores não se envolveram e o segundo turno deve se dar em um debate de recall”

“A campanha foi muito ruim. Os candidatos não podiam fazer nada. Não havia espaço para despertar e mobilizar o eleitor” | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Os primeiros colocados somam mais de 60% das intenções de votos nas pesquisas estimuladas. Os demais candidatos não ficaram muito apagados, o que pode ter prejudicado as chapas de vereador de seus partidos?
Não faria muita diferença, porque vereador não tem mais tempo de rádio e TV. Só algumas pílulas. Não existe mais aquele bloco com o dia de TV para os candidatos a vereador. Se estes partidos não contassem com o candidato majoritário, a possibilidade de tentar arrastar um voto de legenda poderia ser zero. Não vejo como ruim porque, na pior das hipóteses, os outros candidatos puxam voto para a sigla. E isto irá contar na hora de fazer o quociente eleitoral dos eleitos na proporcional. É importante.

Não aparecer atrapalhou a todos, os grandes e os pequenos. Quem tem menos estrutura sofre mais. De toda forma, meia visibilidade é melhor do que não ter visibilidade. Aqueles que se sentiram apagados, mas que conseguiram aparecer na TV ou ocupar espaço em um debate e puderam disparar seu rosto e bandeiras nas redes sociais, os votos de 2020 ajudam no recall em 2022. Para quem não tinha qualquer chance de ser eleito, ao menos puderam surgir como possibilidade daqui a dois anos. São candidatos que sabiam desta condição.

A campanha em Goiânia começou com Maguito e Vanderlan na disputa pelo legado da gestão Iris Rezende (MDB). Em determinado momento, a impressão que ficou foi a de que o senador desistiu de tentar colar como o sucessor de Iris e deixou o ex-governador utilizar mais esta tática. Por que os dois focaram tanto no começo em ter para si a imagem de Iris Rezende?
Faltou personalidade no início da campanha. Com a polêmica gerada em torno do nome do Iris como candidato a reeleição ainda na pré-campanha e pela boa avaliação que a gestão do emedebista tem em Goiânia, Vanderlan e Maguito perceberam ali uma porta de entrada para o eleitorado goianiense. Queriam pegar carona na aprovação do Iris para chegar às casas dos eleitores com o aval de quem conta com uma boa receptividade. Compreendo a ação inicial do Vanderlan como estranha. Na pior das hipóteses, Iris é um emedebista histórico. É natural que o MDB carregue com o partido o legado irista.

A insistência de Vanderlan no legado do Iris ficou ruim para o candidato. Mostrou no início da campanha um candidato sem identidade. Um candidato que não conseguiu usar suas próprias credenciais e tinha de tentar tirar um pedado de Iris Rezende, que é do MDB. Começou com esta celeuma, mas que logo foi deixada de lado, porque era muito boba a briga Maguito e Vanderlan pelo Iris. Depois vem o governador Ronaldo Caiado (DEM) para dar suporte a Vanderlan, mas que não é a mesma coisa de se ter o apoio do prefeito bem avaliado.

Aquele início foi de uma briga desnecessária que não tinha sentido algum Vanderlan brigar pelo legado irista. O eleitor de Goiânia olha para o Iris e vê o MDB. É uma vinculação automática, a vida pública de Iris Rezende foi no MDB. Vanderlan ter insistido em pegar para ele o legado de Iris pareceu o que de fato ocorreu: uma tentativa de tirar uma casquinha.

Parte dos eleitores chegaram a comparar a situação de saúde de Maguito, que está em tratamento contra a Covid-19, com o período de internação de Bolsonaro após a facada. O que mudou na campanha do MDB positiva ou negativamente a partir do momento em que os aliados do candidato assumiram a campanha do MDB?
A estratégia foi modificada. Maguito é um player com recall muito forte no País inteiro. Já foi governador, senador e prefeito de Aparecida de Goiânia. Sem poder usar Maguito na campanha, o grupo demonstra que está fechado com o candidato quando a militância abraça a causa. Como todo grupo político carrega dissidências, pode gerar desmobilização de algumas bases.

Se Maguito fora do front conseguir manter o partido e seus aliados mobilizados e fiéis ao ex-governador, demonstra que sua base acredita que o candidato tem competência para fazer a transição. Caso Maguito seja eleito, poderíamos chamar a gestão de uma transição irista, com toda ala apoiadora de Iris no MDB, para uma composição entre iristas e maguitistas.

Outro ponto que facilitou a campanha de Maguito foi o fato de ser um candidato internado na UTI ter se tornado alguém impossível de ser atacado. Isto engessou a campanha de Vanderlan, que não tinha mais como bater em Maguito. Geraria um retorno muito negativo. Tanto que o candidato do PSD ficou preso em uma tentativa de criticar o PT, que não se mostrou efetiva. Foi quando Adriana aumentou as críticas sobre as fragilidades da campanha de Vanderlan.

A campanha de Vanderlan se perdeu na linha que tinha traçado de críticas a Maguito. Foi quando o candidato passou um período no primeiro turno na tentativa de realinhar a campanha enquanto Adriana aumentava as críticas ao senador, além das pílulas da campanha de Maguito, que tentaram derreter a imagem de Vanderlan.

Adriana começou a campanha em segundo lugar nas pesquisas de intenção de votos. Com o caminhar do primeiro turno, a candidata começou a cair, se cristalizou na terceira posição e apresentou dificuldade de crescimento. Foi quando apostou em intensificar as críticas a Vanderlan no rádio e na TV. Ainda há espaço para Adriana desbancar Maguito ou Vanderlan do segundo turno?
A campanha de Adriana usa uma estratégia coerente. O problema é o mesmo enfrentado pela campanha de Vanderlan: não dá para bater no Maguito internado. Bater no Vanderlan ficou fácil porque tem muita ponta solta do candidato. Vanderlan deu muita munição para os oponentes. A entrevista para o jornal O Popular em 2018 e o áudio no grupo dos senadores em defesa de Chico Rodrigues (DEM-RR) viraram material fácil de ser utilizado pelos opositores. O que faz com que a Adriana se torne mais combativa e traga alguma chance de crescimento. E obriga Vanderlan a pensar na Adriana ou empurrar para o lado do Maguito, o que faz parte do processo.

A grande dificuldade da campanha de Adriana é o PT. O partido ainda carrega uma rejeição muito forte e irá levar este peso por um tempo. O PT tem uma militância aguerrida e um grupo de simpatizantes que dá a Adriana o terceiro lugar, mas é difícil de romper a bolha pela rejeição muito grande à sigla, algo que foi construído por décadas.

O outro ponto é a estrutura. Campanha de Vanderlan é milionária. Tanto o candidato a prefeito quanto seu vice têm condição de colocar muito dinheiro, que gera um impacto eleitoral. Adriana tem uma campanha pequena com seu problema de romper a bolha contra uma candidatura que tem fragilidades, mas conta com uma estrutura muito grande e forte. É difícil imaginar que Adriana consiga superar os números de Vanderlan e vá para o segundo turno. Já que bater no MDB agora é difícil.

A candidata Adriana Accorsi seguiu a mesma tática adotada pelo PT em todo o Brasil de resgate do legado do partido. Em Goiânia, Adriana puxou as gestões do pai, Darci Accorsi, e do candidato a vice, Pedro Wilson. O legado das gestões petistas na capital é reconhecido pelo eleitor?
Alguns eleitores que têm algum nível de reconhecimento. Eu voltada do Pará na semana passada e peguei um Uber. Na conversa sobre eleição, o motorista disse que iria votar no PT por gostar da gestão do Pedro Wilson. Existe este recall para algumas pessoas. Mas, em linhas gerais, o eleitor está muito focado no presente. Não costuma ter o espírito de gratidão que os candidatos gostariam que o eleitor tivesse. A barriga dói todos os dias. “Hoje a barriga dói de novo, quem pode me ajudar?”

A eleição municipal carrega este pragmatismo. A pessoa quer saber do ônibus lotado de todo dia, se terá creche para o filho, se tem médico no posto de saúde. Para estes problemas serem resolvidos, o eleitor já entendeu que precisa ser alguém com capacidade de gestão e de atração de recursos. Por isto, uma campanha com boa estrutura, com bom relacionamento estadual e nacional, arrasta voto.

O eleitor olha e pensa: “Gosto do candidato A, mas não tem grupo político, não tem condição de fazer muita coisa do que promete. Já o outro candidato eu nem gosto tanto, mas tem condição de conseguir verba para o município”. Porque o município não gera dinheiro. A renda do município é muito restrita. O eleitor sabe que para aumentar a renda do município terá de pagar mais imposto. Mas o eleitor não quer pagar mais imposto e acaba por apostar no pragmatismo. “Vou votar neste candidato porque acho que dará conta de resolver nosso problema do bairro do asfalto, da creche e do posto de saúde.” O que foi ontem passou.

“Tivemos um cenário perfeito para a apatia”

“Temas muito importantes que deveriam ser debatidos, mas que não fazem parte do cotidiano das pessoas, foram suplantados pela ausência de gatilhos que pudessem gerar proximidade com o eleitor” | Foto: Reprodução/Facebook

Qual é o peso que o sr. acredita terem as gestões de Vanderlan em Senador Canedo e Maguito em Aparecida de Goiânia para a eleição da capital?
Os dois tentam traçar um referencial de gestão. Maguito tem uma chancela mais recente, foi prefeito de Aparecida de Goiânia há quatro anos e foi eleito em dois mandatos. Existe um padrão de comparação. O candidato mostra o que fez no município enquanto gestor. Aponta as realizações como prefeito que foram entregues à população. No caso do Vanderlan, é uma relação complicada. Foi gestor de um município muito pequeno. Maguito, além de ter sido governador e senador, administrou uma cidade com mais de 500 mil habitantes. Na hora que o eleitor avalia, dirigir um Fusca é uma coisa, bem diferente de dirigir uma Scania.

A partir das experiências de gestão, começa-se a ampliar os filtros para validar aquilo que a pessoa propõe. O eleitor olha para o candidato que faz muita promessa e pergunta: “A promessa é baseada em quê?”. Não é um ato de gratidão, é uma questão de comprovação do eleitor. Conseguir comprovar que foi capaz de gerenciar uma estrutura grande dá mais pontos ao candidato na pontuação que o eleitor faz do que para aquele concorrente que apresentou experiência na gestão de um quiosque.

Em 2016, Vanderlan focou bastante na criação dos polos de desenvolvimento. Na época, o eleitor preferiu eleger Iris Rezende, que era contra indústrias que poluíssem a cidade. Em 2020, quase todos os candidatos falam na criação de polos regionais, de desenvolvimento ou nos arranjos produtivos locais. Por que esta discussão ganhou tanto espaço no primeiro turno?
Como a pandemia tomou conta do nosso cotidiano, uma das preocupações geradas pela situação que vivemos é emprego. Quando o candidato fala em estimular possibilidades de implantação de empresas que irão gerar empregos mais perto da casa do eleitor, a atenção é atraída para a proposta. Ter uma pulverização dos polos de geração de emprego dá no eleitor a sensação de que aquilo pode chegar na região em que a pessoa mora. O eleitor imagina que não terá de pegar ônibus para chegar ao trabalho, o que pode aquecer o comércio local.

A maior preocupação da população é saber se vai ter dinheiro para comer amanhã. Quando se apresenta a possibilidade de instalar estruturas que vão gerar emprego e renda, aquele candidato passa a ser muito atraente. O momento agora é de dúvida no bolso. E amanhã? O eleitor quer saber se em janeiro vai ter auxílio emergencial. A pessoa quer saber se o dinheiro dela vai dar para comprar um litro de óleo por quase R$ 10. A pauta do emprego e da renda se tornou emergencial porque a situação econômica foi agravada pela pandemia.

Qual é o peso de ter o governador como cabo eleitoral na campanha em Goiânia? E o quanto é importante se declarar candidato bolsonarista em busca do voto para se tornar prefeito de Goiânia?
O apoio do governador é interessante porque tem alguma valia. Se quiser, o governador pode ajudar o município, o que agrega valor à campanha e dá peso ao discurso. Mas é preciso ponderar a importância do apoio do governador. Qual é a aceitação do governador em determinado município, para um segmento específico ou público?

É quando se faz a peneira do que vale a pena ou não usar na campanha. Coloco o governador em todo palanque ou em determinadas regiões? É preciso ponderar porque, no geral, o governador não consegue eleger prefeito em Goiânia. Mas é inegável que a participação do governador na campanha dá um peso. Se a situação do município está ruim, o prefeito conversa com o governador, que pode trazer mais recurso e ajudar a cidade.

O problema está no apoio do presidente. O eleitor já entendeu que o presidente não vai ajudar o município. O presidente não se liga aos municípios. Neste ano, o próprio Bolsonaro disse que não apoiaria qualquer candidato. O que Bolsonaro traz hoje para qualquer campanha que se diz bolsonarista é a pauta conservadora e moral, que pode ajudar em algumas franjas do eleitorado. Seria uma campanha de nicho. Não serviria para uma campanha majoritária.

Porque Bolsonaro se tornou uma figura completamente linchada. É um político que só tem capilaridade em um segmento específico do eleitorado. Mas nas outras searas, todos os eleitores repudiam a gestão do presidente. Até o mercado já começa a se arrepender e rever suas posturas em relação ao governo Bolsonaro. Não tem o que agregar.

Não esperamos ouvir Bolsonaro dizer que mandará dinheiro para Aloândia, por exemplo. Fica restrita à leitura de determinado candidato de usar a pauta moral para continuar a consolidar o grupo de apoiadores com a cabeça voltada para a eleição de 2022 em uma disputa proporcional, seja deputado estadual ou federal. Para disputar um cargo proporcional em 2022, o candidato pode se apegar a uma pauta moral que serve aos seus objetivos.

São candidaturas que ficaram prejudicadas porque o ex-líder do governo Bolsonaro na Câmara, deputado federal Vitor Hugo (PSL-GO), divulgou um vídeo no qual diz que adotou uma postura de neutralidade na eleição em Goiânia. Esta postura divide a base bolsonarista na capital?
Hoje é complicado enxergar uma base bolsonarista. Até porque Bolsonaro não tem nem partido. Seu grupo político foi muito desmembrado. Quando se tem alguém próximo ao presidente a dizer que não irá apoiar qualquer candidato, a declaração cria frustração naqueles candidatos que estavam o governo inteiro fiéis a Bolsonaro. A partir do momento que a pessoa que foi para a rua e militou em 2018 na campanha do Bolsonaro percebe que o presidente nem sequer irá mandar um vídeo com um “oi” para aquele candidato, a relação se desgasta.

É algo que pode prejudicar Bolsonaro em 2022. O afastamento do presidente e do grupo que o circula das bases irá cobrar uma fatura bem alta na busca pela reeleição. Quem militou em 2018 e não recebeu apoio do presidente em 2020 irá para a rua em 2022? Tenho dificuldade em acreditar que esta pessoa fará isto com o mesmo empenho.

O sr. acredita na viabilidade das frentes amplas contra Bolsonaro em 2022? É possível acreditar em uma aliança com um número grande de lideranças do que se tem chamado de centro com o ex-juiz Sergio Moro, o apresentador de TV Luciano Huck e o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS) juntos?
Não sei se podemos chamar de frente. Teríamos uma composição bastante alargada para consolidar esta composição. Mas creio que irão surgir muitas tentativas de formar grupos para realizar uma transição. A grande questão é que irão surgir muitos balões de ensaio. O que todo mundo já entendeu é que Bolsonaro pode fazer o que quiser porque tem um grupo extremamente fiel ao presidente. E é um grupo de 30% de eleitores, o que já o garante no segundo turno em 2022.

Agora é o momento de surgimento destas frentes para que os grupos possam entender o que tem chance de prosperar entre 2021 e o começo de 2022 para se consolidar uma nova composição. Confesso que não acharia estranho se algumas lideranças que hoje se dizem opção a Bolsonaro voltem a militar ao lado do presidente. Quem gosta do poder não abandona o poder.

Por enquanto, há possibilidade de crescerem algumas tentativas. Há de se ver como isto será trabalhado. A dificuldade que vejo é saber dissociar marketing eleitoral de marketing político. Falta estratégia de marketing político para que estas tentativas prosperem.

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